Zach soltou um leve suspiro, quase imperceptível, como se aceitasse algo que já sabia, mas ainda assim preferia não confirmar.
— Entendi.
Virou-se com naturalidade, sem pressa, como se a decisão não carregasse peso algum.
— Vamos.
Silas hesitou por uma fração de segundo, breve demais para ser notada por olhos desatentos, mas suficiente para revelar o conflito interno. Ainda assim, seguiu. Não discutiu. Não insistiu. Não olhou para trás, do lado de fora, o ar parecia diferente, mais denso, mais pesado. Ou talvez fosse apenas mais difícil ignorar o que antes passava despercebido.
Gaspar foi o primeiro a romper o silêncio.
— Eu posso voltar lá e—
— Não — interrompeu Silas.
A resposta veio imediata. Seco. Sem margem para continuação.
Gaspar parou, virando levemente o rosto.
— Eles vão morrer — continuou Silas, agora olhando fixamente para a rua à frente.
A voz permanecia controlada, mas havia algo mais profundo nela. Mais baixo. Mais carregado.
— E vão preferir isso.
Zach observava em silêncio.
— Nem todos — respondeu, após um breve intervalo.
Silas não retrucou, mas, desta vez… ele não parecia acreditar.
Caminharam por mais alguns metros em silêncio, até que uma placa antiga, presa por uma corrente enferrujada, balançava lentamente com o vento. O rangido metálico se misturava ao som seco do ambiente. Um bar, a porta entreaberta deixava escapar uma luz fraca, amarelada, acompanhada por vozes abafadas vindas de dentro.
Gaspar lançou um olhar demorado.
— Eu preciso de uma bebida.
Zach deu de ombros, com indiferença calculada.
— Já entramos em cidades piores.
Elara desviou o olhar para Silas.
— Você vem?
Silas observou o bar por um instante. Depois, desviou o olhar para as pessoas na rua, rostos fechados, corpos retraídos, olhares que evitavam, mas nunca ignoravam completamente.
Então voltou.
— Vou.
E entrou.
Assim que cruzaram a porta, o ambiente mudou, o bar mergulhou em silêncio, não era curiosidade. Não era surpresa. Era outra coisa. Mais direta. Mais crua.
O dono do estabelecimento, atrás do balcão, ergueu o olhar lentamente. Demorou mais do que o necessário. Tempo suficiente para deixar claro que não era distração, era escolha.
E então disse:
— Aqui não.
Ninguém perguntou o quê. Nem quem. Mas todos entenderam.
Gaspar soltou um riso baixo, completamente desprovido de humor.
— Começou…
Zach permaneceu imóvel.
Elara apenas observava.
Silas ficou parado por um instante, um segundo, talvez dois. O suficiente para medir o ambiente.
Então deu um passo à frente, o rangido da madeira sob sua bota soou alto demais naquele silêncio comprimido. Ninguém voltou a falar.
O dono do bar manteve as mãos apoiadas no balcão, dedos abertos, firmes. Não havia tremor. Não havia dúvida. Apenas decisão.
— Eu falei que aqui não.
A voz saiu mais clara desta vez. Mais firme.
Silas parou. Não recuou. Mas também não avançou.
— A gente só quer beber — disse ele.
Calmo, sem desafio, sem submissão, apenas… direto.
O homem soltou um leve riso pelo nariz.
— Então bebe lá fora.
Uma risada curta surgiu ao fundo. Outra a acompanhou, mais contida, mas igualmente presente.
Gaspar inclinou levemente a cabeça, como se estivesse apreciando algo curioso.
— Engraçado… — murmurou.
Zach não reagiu. Seus olhos estavam fixos no dono do bar, analisando cada detalhe, postura, respiração, tensão nos ombros.
Elara, por sua vez, observava o restante, os que não riam, os que não falavam, os que apenas assistiam, e havia muitos. Um deles, um homem mais velho, sentado próximo à janela, desviou o olhar no instante em que percebeu que estava sendo observado. Rápido demais, como alguém pego em culpa.
Silas também notou, mas não comentou.
— A gente paga — disse ele.
Ainda calmo. Ainda firme.
O dono do bar balançou a cabeça lentamente.
— Não é sobre dinheiro.
As palavras pairaram no ar, pesadas, densas, dispensando qualquer explicação adicional.
Gaspar soltou o ar pelo nariz.
— Eu juro que tô tentando…
Zach ergueu levemente a mão, sem sequer olhar para ele. Um gesto pequeno, mas suficiente.
Gaspar se calou, por enquanto.
Silas desviou o olhar por um instante, percorreu o bar, as mesas, as cadeiras vazias, havia espaço, mas não havia convite, nenhuma abertura, nada.
Ele voltou a encarar o dono do bar.
— Entendi.
A resposta foi simples, mas diferente, menos tentativa, mais aceitação, não de concordância, mas de reconhecimento.
O homem assentiu, satisfeito.
— Então entende rápido.
O silêncio voltou a se instalar.
Do lado de fora, o vento bateu contra a estrutura do bar, fazendo a madeira vibrar levemente. O som atravessou o ambiente e permaneceu ali, preenchendo o espaço que ninguém queria ocupar com palavras.
Elara falou.
— Tem gente doente na rua.
A frase cortou o ambiente com precisão. Sem emoção. Sem acusação, apenas fato.
O dono do bar sequer olhou para ela.
— E?
— Ele pode ajudar — continuou Elara, indicando Silas com um leve movimento de cabeça.
Agora o homem olhou, lentamente, de cima a baixo, como se avaliasse algo que já havia decidido rejeitar.
— Não precisa.
Silas sustentou o olhar.
— Precisa.
A palavra saiu baixa, firme, sem elevação de tom, sem agressividade, mas carregada de convicção.
O bar inteiro pareceu se contrair, até os que antes riam ficaram em silêncio.
O dono do bar apoiou mais peso sobre o balcão.
— Você não ouviu direito.
Gaspar descruzou os braços, devagar.
— A gente ouviu.
Zach ainda não havia se movido, mas seu olhar mudou, agora percorria o ambiente com precisão: porta, janelas, distâncias, posições.
Elara percebeu.
Silas também.
— A gente não vai causar problema — disse Silas, antes que a situação escalasse.
Gaspar soltou uma risada curta.
— Ainda não.
— Gaspar — chamou Zach, em tom baixo.
Novamente, foi suficiente.
O dono do bar respirou fundo, como alguém já cansado daquela conversa.
— Última vez.
Ele apontou com o queixo para a porta.
— Sai.
Ninguém se moveu, nem imediatamente, nem por reflexo.
O tempo pareceu esticar por um instante, lento, pesado, desconfortável. Um dos homens ao fundo levantou-se, a cadeira arrastou no chão com um som seco, alto, ele não falou nada, só ficou de pé, observando.
Outro fez o mesmo, e outro, não era um ataque, ainda, mas também não era só um pedido pra sair, era pressão.
Silas percebeu.
Seus dedos se fecharam levemente, não em punho. Mas… perto disso.
Elara deu meio passo para o lado, ajustando posição.
Zach… finalmente se moveu, um passo à frente, lento, controlado, se colocou levemente à frente de Silas, sem fazer alarde, sem anunciar. Mas deixou claro. Seu olhar voltou ao dono do bar, e o leve sorriso que surgiu… era mínimo, quase inexistente.
— Você está cometendo um erro.
Não era uma ameaça. Era um aviso.
O dono do bar sustentou o olhar, por um segundo, dois, três.
Ninguém respirava direito. E então...
— Eu disse pra sair.
Agora não havia mais espaço, nenhuma camada, nenhum disfarce, só decisão, atrás deles, mais uma cadeira arrastou, o som ecoou pelo bar inteiro.
Gaspar inclinou levemente a cabeça, e sorriu, dessa vez… de verdade.
— Agora sim…
Ele deu um passo à frente, lento, os dedos estalaram, um por um.
— Agora a gente começou.
O silêncio que veio depois não foi vazio, foi curto, tenso, e prestes a quebrar.
O homem mais próximo avançou primeiro, sem aviso, sem fala, só movimento.
Gaspar nem pensou, o corpo dele reagiu antes da mente.
Um passo à frente, um soco, seco, direto.
O impacto ecoou pelo bar com um estalo surdo. O homem caiu antes mesmo de entender o que aconteceu, o corpo batendo no chão pesado, sem elegância, ninguém gritou.
Mas tudo mudou.
— Chega — disse Zach, baixo.
Mas já era tarde, outro veio.
Gaspar girou o corpo, desviando por pouco, e respondeu com o cotovelo. O golpe acertou o maxilar do homem, jogando-o contra uma mesa que virou com o impacto. Copos caíram, vidro se espalhou pelo chão.
— Eu avisei… — murmurou Gaspar, sem parar.
Um terceiro hesitou, esse segundo de dúvida custou caro.
Silas se moveu, não foi um ataque, foi contenção.
Ele segurou o braço do homem antes que ele pudesse avançar, girou o corpo e o empurrou contra a parede. Firme. Controlado. Sem violência desnecessária.
— Para — disse, olhando direto nos olhos dele.
O homem tentou resistir, mas não conseguiu, havia força ali. E algo mais. Convicção.
Elara já estava em movimento. Se alguém tentasse vir por trás… não conseguiria.
Zach permaneceu onde estava, parado. Mas atento a tudo.
O dono do bar ainda não tinha se movido, seus olhos percorriam a cena, avaliando, calculando.
Gaspar avançou mais um passo. Outro homem veio, esse com mais coragem, ou mais raiva. Não importava.
Gaspar desviou do golpe, agarrou a camisa dele e o puxou para frente, batendo sua cabeça contra o balcão com um som seco. O corpo cedeu na hora.
Três no chão. Um preso contra a parede, os outros… parados, pensando.
O bar parecia menor agora, mais apertado, mais quente.
Gaspar respirava fundo, não ofegante, mas… próximo disso, seus olhos passaram por cada um deles, esperando, alguém fazer alguma coisa. Ninguém fez.
Zach então deu mais um passo à frente, agora sim, presença.
— Acabou — disse ele.
Simples, sem elevar o tom, mas ninguém duvidou.
O dono do bar soltou o ar lentamente, seus olhos foram de Gaspar… para Silas, e ficaram ali, por alguns segundos, mais uma vez, tempo demais, mas agora havia algo diferente, não era respeito, mas também não era o mesmo desprezo de antes. Era… cálculo.
Silas soltou o homem que segurava, devagar, o sujeito não tentou mais nada, só se afastou.
Zach olhou ao redor.
— A gente vai sentar.
Ninguém respondeu.
— A gente vai beber.
Ainda silêncio. Uma pausa.
— E depois… a gente vai embora.
Gaspar deu um meio sorriso.
— Parece justo.
Continua...