Zach olhou ao redor com calma, como se estivesse medindo cada respiração dentro daquele espaço abafado. O bar ainda carregava o cheiro recente de madeira quebrada, bebida derramada e sangue seco. Nada ali estava exatamente no lugar, cadeiras tortas, mesas deslocadas, corpos caídos, mas o verdadeiro desalinhamento não era físico. Era humano.
— A gente vai sentar.
A frase saiu simples, direta, quase casual. Como se não houvesse tensão suficiente no ar para justificar algo mais elaborado.
Ninguém respondeu.
Os homens ainda de pé trocaram olhares curtos, rápidos, evitando encarar diretamente o grupo. O silêncio não era mais de confronto. Era de cálculo.
— A gente vai beber.
Ainda silêncio.
Uma pausa mais longa agora. Não porque esperavam resposta, mas porque todos estavam tentando entender o que aquilo significava.
— E depois… a gente vai embora.
Gaspar soltou um meio sorriso, inclinado mais para ironia do que para humor.
— Parece justo.
Mas ninguém se mexeu. Nem para impedir, nem para concordar. O bar inteiro parecia suspenso em um instante estranho, onde qualquer decisão poderia inclinar tudo de novo para o caos.
O silêncio que se instalou era diferente do anterior. Antes havia hostilidade aberta. Agora… cautela. Como se todos ali estivessem recalculando suas certezas, ajustando suas convicções ao que tinham acabado de presenciar.
Zach caminhou até uma mesa próxima. Era uma das poucas que ainda estavam inteiras. Puxou a cadeira com um movimento lento, deliberado, deixando o som da madeira raspando no chão ecoar pelo ambiente. Sentou-se sem pressa, como se aquela cena toda fosse apenas um inconveniente menor em um dia comum.
Elara se sentou ao lado dele. A postura ereta, os ombros alinhados, os olhos atentos. Ela não relaxava. Não ali.
Silas demorou mais.
Seus olhos passaram pelos homens caídos no chão, alguns ainda conscientes, outros não. Depois pelos que permaneciam de pé, tensos, indecisos. Por fim, pararam no dono do bar.
Só então ele se sentou.
Gaspar foi o último. Mas não sem antes arrastar uma cadeira de propósito. O som agudo cortou o ar, alto demais, intencional demais. Um lembrete.
Ele se jogou na cadeira, apoiando os braços sobre a mesa com familiaridade excessiva.
— Então… — murmurou, olhando ao redor — alguém vai trabalhar aqui ou eu mesmo tenho que buscar a bebida?
O dono do bar não respondeu imediatamente.
Seus movimentos eram duros, contidos. Ele pegou um copo, depois outro. Cada gesto parecia controlado à força, como se qualquer descuido pudesse transformá-lo novamente em algo mais violento.
Serviu a bebida sem olhar diretamente para eles.
Quando colocou a garrafa sobre o balcão, o impacto foi mais forte do que o necessário.
O recado estava ali.
Zach observou, mas não comentou.
Gaspar pegou a garrafa antes que qualquer oferta fosse feita. Serviu o próprio copo, depois empurrou outro na direção de Silas.
Silas não tocou.
Ainda.
— Bebe — disse Gaspar, sem sequer virar o rosto.
Silas manteve os olhos fixos no copo por alguns segundos. O líquido tremia levemente. Não por causa da mesa. Por causa da mão dele.
Quase imperceptível.
Ele pegou o copo.
Deu um gole curto.
Sem expressão.
Ao fundo, um dos homens no chão gemeu baixo, um som arrastado, ignorado por todos. Ninguém se aproximou. Ninguém sequer olhou por muito tempo.
Zach notou.
Elara também.
Silas… desviou o olhar.
— Engraçado — disse Zach, apoiando o cotovelo na mesa — vocês preferem ver os seus apanharem… do que aceitar ajuda.
O dono do bar respondeu dessa vez.
— A gente não precisa de vocês.
A voz saiu mais baixa do que antes. Menos firme. Mas ainda sustentada por algo que parecia orgulho… ou teimosia.
Zach assentiu levemente.
— Não parece.
Gaspar soltou um riso curto.
— Cês vão morrer de orgulho.
Ninguém respondeu, mas ninguém discordou.
Elara se inclinou um pouco para frente, apoiando os antebraços na mesa.
— Quantos já morreram?
O dono do bar não respondeu.
Mas alguém ao fundo respondeu por ele.
— Sete.
A voz era seca. Cansada.
— Desde a semana passada.
Silas fechou os olhos por um instante. Um único instante. Mas diferente das outras vezes… não era controle.
Era peso.
— E quantos vão morrer hoje? — perguntou Elara.
O silêncio que se seguiu foi longo demais.
Pesado demais.
Porque todos ali sabiam a resposta.
Zach não estava ouvindo apenas as palavras. Ele observava reações. Quem evitava olhar. Quem apertava o maxilar. Quem já tinha aceitado.
Então voltou sua atenção ao dono do bar.
— Isso aqui não é sobre a gente.
Uma pausa.
— Nunca foi.
O homem não respondeu, mas dessa vez… ele ouviu.
Silas apoiou o copo na mesa com cuidado.
— Eu não vou pedir de novo.
A voz não era alta, mas mudou tudo.
Não havia mais negociação ali. Nem tentativa. Apenas decisão.
O dono do bar ergueu o olhar. E pela primeira vez desde que eles entraram… hesitou.
Foi pequeno, mas foi real.
Gaspar percebeu.
Sorriu.
— Agora sim…
Se inclinou para frente.
— Agora a gente tá conversando.
Mas antes que qualquer resposta viesse. A porta do bar se abriu com força.
O som cortou o ambiente como um disparo.
Todos olharam.
Um homem entrou.
A luz do lado de fora recortava sua silhueta, criando um contraste duro contra o interior escuro do bar. Ainda assim, era impossível não ver o estado em que ele estava.
Roupas sujas. Poeira colada ao suor. Respiração irregular. E sangue.
Não em grande quantidade, mas o suficiente.
— Xerife… — disse ele, a voz falhando antes mesmo de completar a palavra.
Seus olhos correram pelo ambiente rápido demais. Procurando. Desesperados.
Até encontrarem.
Silas.
Houve uma pausa, pequena, mas carregada.
— Ela… — continuou, com dificuldade — minha filha…
A voz quebrou.
Ele engoliu seco, forçando as palavras.
— Ela não tá respirando direito.
Ninguém se mexeu.
Ninguém falou.
O dono do bar virou o rosto lentamente, olhando para o homem… e então, quase contra a própria vontade, seus olhos foram até Silas.
E pararam ali.
Dessa vez… não havia desprezo.
Só conflito.
Silas não respondeu imediatamente.
Apenas se levantou, devagar e sem pressa.
Sem olhar diretamente para ninguém.
Mas o gesto foi suficiente.
O homem deu um passo à frente, instintivo.
— Eu pago — disse rápido demais. — Eu dou um jeito, eu—
— Não é sobre isso — cortou Silas.
A voz veio firme.
Mas diferente.
Mais baixa.
Mais cansada.
Ele passou pela mesa, ignorando completamente os olhares ao redor. Cada passo parecia pesado, não pelo esforço…, mas pelo que carregava.
Quando parou diante do homem, olhou diretamente em seus olhos.
E, por um segundo…
Tudo o que estava ali antes, raiva, orgulho, resistência, desapareceu.
Só restava medo.
Silas assentiu.
— Me leva até ela.
O homem não respondeu. Apenas virou e saiu, rápido. Como se tivesse medo de que aquilo fosse desaparecer se hesitasse.
Silas foi atrás.
Elara levantou logo depois, silenciosa.
Gaspar ficou mais um segundo sentado. Seus olhos percorreram o bar inteiro, como se estivesse gravando cada rosto na memória.
— Engraçado… — murmurou, levantando-se — no fim, sempre chega nesse ponto.
Zach já estava de pé.
Seu olhar encontrou o do dono do bar uma última vez.
— Ainda dá tempo — disse.
Não era julgamento.
Era constatação.
Então saiu.
A porta se fechou.
O bar permaneceu em silêncio.
Mas não era o mesmo silêncio de antes.
Era pior.
Porque, pela primeira vez… não havia mais certeza de nada.
Do lado de fora, o vento levantava poeira pela rua principal, carregando consigo o cheiro seco da terra e algo mais… algo que começava a se espalhar pela cidade inteira.
Silas caminhava à frente, ao lado do homem, que avançava rápido demais para alguém claramente exausto. Seus passos eram irregulares, quase tropeçando.
— Qual o nome dela? — perguntou Silas, sem diminuir o ritmo.
— Anne.
A resposta saiu quebrada.
— Quantos anos?
— Seis.
Silas assentiu uma vez.
Só isso.
Elara vinha logo atrás, os olhos atentos a cada detalhe. Portas entreabertas. Cortinas se movendo discretamente. Rostos escondidos.
Observando.
Esperando.
Gaspar percebeu também.
— Olha só… — murmurou — agora eles enxergam.
Zach não respondeu.
Seus olhos estavam na rua, nos becos, nas janelas.
Sempre procurando.
Sempre antecipando.
— E ninguém saiu da cidade? — perguntou ele, sem tirar a atenção do entorno.
— Alguns tentaram — respondeu o homem, ainda sem olhar para trás. — Dois morreram na estrada.
Gaspar franziu o cenho.
— Da doença?
O homem hesitou.
— Foi o que disseram.
Zach percebeu a pausa.
E guardou aquilo.
Pararam diante de uma casa pequena, de madeira envelhecida, quase no fim da rua. O tipo de lugar que parecia resistir mais por teimosia do que por estrutura.
O homem empurrou a porta com força e entrou sem esperar.
Silas o seguiu imediatamente.
E, atrás dele… os outros também.
Continua…