Mesmo exausto, Silas deu um passo à frente.
— Próximo.
A voz não saiu alta. Não precisou.
Ainda assim, atravessou a sala inteira como uma lâmina silenciosa, firme o bastante para cortar o medo que dominava o ambiente.
E, dessa vez… ninguém hesitou.
Mesmo depois do tiro. Mesmo depois do sangue espalhado pelo chão da casa.
O homem morto permanecia caído perto da porta, o corpo torto sobre as tábuas antigas, uma das pernas presa sob a própria cintura em um ângulo errado. Os olhos continuavam abertos, fixos no teto escurecido pela fumaça das lamparinas, como se nem ele tivesse entendido o instante exato em que tudo terminou.
O cheiro de pólvora ainda impregnava o ar. Misturado ao suor. À febre. Ao odor ácido de doença que parecia entranhado nas paredes daquela cidade inteira.
Mas ninguém recuou.
As pessoas estavam assustadas. Chocadas. Algumas tremiam tanto que mal conseguiam permanecer em pé. Outras evitavam olhar diretamente para o cadáver próximo à entrada.
Mesmo assim… continuavam ali.
Porque o medo da morte ainda era menor do que o medo de perder a única chance de sobreviver.
Gaspar limpou lentamente os dedos manchados de sangue na própria camisa escura. Sem pressa. Sem expressão.
O corpo do xerife permanecia caído contra a parede do outro lado da sala, pesado, imóvel, reduzido agora a algo sem autoridade alguma. O distintivo ainda brilhava preso ao peito, inútil.
Ninguém se aproximava dele, ninguém queria ser o primeiro.
Zach observava a multidão pela janela, os braços cruzados, o maxilar rígido.
Do lado de fora, dezenas de pessoas continuavam aglomeradas diante da casa, espremidas sob a luz fraca do entardecer que morria lentamente.
— Eles deviam ir embora — murmurou.
— Mas não vão — respondeu Elara.
Ela permanecia ajoelhada ao lado do homem baleado pelo xerife. Dois dedos pressionados contra o pescoço dele por puro hábito, mesmo sabendo que já não havia nada ali.
Nenhum pulso, nenhum calor. Nada.
O silêncio pairou pesado por alguns segundos.
Então ela retirou a mão devagar e puxou um pano branco sobre o rosto do homem morto.
Ao fundo da sala, a esposa dele começou a chorar baixo. Não era um choro desesperado, era pior. Baixo. Quebrado. Cansado. Como alguém que já vinha perdendo tudo havia muito tempo.
Silas fechou os olhos por apenas um instante, só um.
Quando os abriu novamente, havia algo impossível de esconder ali agora, exaustão. Crua. Profunda. Visível.
As olheiras haviam escurecido, e sua pele estava mais pálida do que algumas horas antes. O suor descia pelo pescoço, encharcando a gola da camisa enquanto sua respiração saía lenta demais entre uma cura e outra.
Ainda assim, ele deu mais um passo à frente.
A próxima pessoa da fila era uma senhora extremamente magra, apoiada no braço da filha. O rosto afundado fazia seus olhos parecerem grandes demais para o crânio estreito. Ela hesitou quando Silas se aproximou.
Não por medo dele, mas porque agora ela tinha visto o preço daquilo.
— Eu… — começou, insegura. — Talvez seja melhor esperar…
Silas balançou a cabeça devagar.
— Senta.
A mulher obedeceu imediatamente.
Elara ergueu os olhos na direção dele.
— Silas…
— Eu consigo.
A resposta veio rápida demais. Automática demais.
Zach soltou o ar pelo nariz, incomodado, mas não insistiu. Porque já conhecia aquele tom.
Silas continuaria até cair.
Então apenas se aproximou um pouco mais, discreto, pronto para segurá-lo de novo se fosse necessário.
Do lado de fora, a cidade inteira parecia presa entre dois mundos.
Alguns olhavam para aquela casa como se ela tivesse se tornado um lugar sagrado.
Outros a encaravam como algo amaldiçoado.
Mas ninguém conseguia ir embora.
Gaspar saiu lentamente para a varanda.
As tábuas rangeram sob suas botas pesadas.
A multidão abriu espaço no mesmo instante.
Ele percebeu. E, pela primeira vez desde que haviam chegado naquela cidade… não sorriu.
Seu olhar percorreu as pessoas em silêncio antes de parar no corpo coberto do xerife, carregado para fora da casa por dois homens cansados.
Pesado. Patético.
A cabeça do morto balançava levemente a cada passo da carroça improvisada.
Gaspar observou tudo sem dizer nada.
Então uma criança pequena, escondida atrás da saia da mãe, perguntou baixinho:
— Ele morreu?
Ninguém respondeu de imediato, os adultos trocaram olhares desconfortáveis. Como se ainda não soubessem até onde a verdade podia ser dita naquela cidade.
Então Gaspar respondeu:
— Morreu.
A mãe do garoto pareceu pronta para repreendê-lo pela brutalidade.
Mas ele continuou antes que ela dissesse qualquer coisa.
— E devia ter morrido faz tempo.
O silêncio que veio depois foi estranho. Porque ninguém discordou.
Nem mesmo aqueles que desviaram o olhar.
A noite caiu devagar sobre a cidade.
As ruas, antes tomadas por murmúrios nervosos e passos apressados, agora carregavam um silêncio cansado, quebrado apenas por tosses distantes, madeira rangendo e o som ocasional de baldes sendo mergulhados nos poços.
A casa continuava cheia, mas diferente.
O desespero frenético das primeiras horas havia diminuído, em seu lugar restava algo mais pesado. Espera. Esperança cansada.
Velas haviam sido acesas pelos cômodos, espalhando uma luz fraca e dourada pelas paredes antigas. As sombras tremiam sobre a madeira envelhecida, alongadas pelas chamas instáveis.
O calor dentro da casa era sufocante.
Cheiro de remédios improvisados, roupas úmidas e corpos doentes se misturava no ar parado.
Silas mal conseguia permanecer de pé.
As mangas dobradas revelavam os braços tensos, marcados pelas cicatrizes antigas e agora também por tremores constantes. Seus dedos falhavam de vez em quando, como se o próprio corpo estivesse esquecendo como obedecer.
Mesmo assim… ele continuava.
Mais uma criança respirou fundo pela primeira vez em dias.
O som fez a mãe dela começar a agradecer imediatamente entre lágrimas.
Silas não ouviu metade das palavras.
O mundo ao redor parecia distante agora. Abafado.
Como se ele estivesse submerso em água profunda.
Os sons chegavam deformados. Lentos.
Quando tentou se levantar da cadeira, suas pernas falharam por um instante.
Zach segurou seu braço imediatamente.
— Chega.
Silas puxou o braço de volta.
Fraco demais para parecer agressivo.
— Ainda faltam.
— Eu sei quantos faltam — respondeu Zach, mais duro dessa vez. — E também sei quantos você ainda consegue salvar se continuar se matando desse jeito.
Silêncio.
Elara observava tudo de perto.
Ela já começava a perceber padrões. O intervalo entre as curas aumentava cada vez mais. A luz nos olhos de Silas enfraquecia a cada pessoa salva. Os tremores pioravam.
E havia também os pequenos detalhes que ninguém mais notava. Os sangramentos discretos no canto do nariz. A dificuldade crescente para respirar fundo. O modo como ele precisava apoiar as mãos em qualquer superfície antes de se levantar.
Mas agora estava ficando impossível esconder.
Gaspar permanecia sentado perto da janela, um copo de bebida apoiado entre os dedos, observando tudo em um silêncio incomum.
Do lado de fora, algumas pessoas haviam adormecido encostadas nas paredes da casa enquanto esperavam sua vez. Outras rezavam em voz baixa.
Outras apenas encaravam as janelas iluminadas, como se temessem que, a qualquer instante, aquela luz pudesse simplesmente apagar.
Silas apoiou as duas mãos sobre a mesa por alguns segundos, tentando estabilizar a própria visão.
O chão parecia respirar sob seus pés, as paredes oscilavam lentamente.
Elara se aproximou com cuidado.
— Você está chegando no limite.
Um pequeno sorriso cansado apareceu no canto da boca dele.
— Já passei dele faz tempo.
A resposta saiu baixa. Rouca.
Então uma tosse atravessou o silêncio da casa, outra pessoa esperando. Outro doente.
Silas fechou os olhos por um instante.
Parecia cansado demais até para pensar.
Mas ainda assim… deu mais um passo à frente.
O próximo era um homem jovem.
Talvez trinta anos, talvez menos.
A doença roubava idade das pessoas daquela cidade. O rosto afundado, os olhos febris e a respiração curta faziam todos parecerem mais velhos do que realmente eram.
Ele mal conseguiu sentar direito na cadeira diante de Silas.
As mãos tremiam enquanto tentava conter a tosse presa no peito.
Silas ajoelhou-se lentamente à frente dele.
Dessa vez, até o simples movimento pareceu exigir esforço demais, as articulações protestaram, sua respiração falhou por um segundo.
E as mãos… as mãos tremiam sem controle agora.
A esposa do homem percebeu imediatamente.
Os olhos dela se arregalaram.
— Ele não tá bem…
— Ele nunca tá — murmurou Gaspar ao fundo antes de tomar mais um gole.
Zach lançou um olhar rápido para Silas. Atento. Pronto.
Silas ignorou todos ao redor.
Molhou as mãos na bacia ao lado da mesa mais uma vez. A água já estava morna, quase turva, marcada por um dia inteiro de esforço.
Então pousou uma mão sobre o peito do homem.
E outra em sua testa.
Respirou fundo... nada aconteceu.
O silêncio se estendeu por um segundo longo demais, as pessoas prenderam a respiração.
Então a luz voltou. Fraca. Instável.
Pela primeira vez, não parecia algo grandioso.
Parecia... dor.
As velas da casa vacilaram junto, a sombra de Silas tremeu contra a parede.
Ele contraiu o maxilar imediatamente.
O homem na cadeira começou a tossir violentamente no mesmo instante, se dobrando para frente enquanto uma substância escura escorria de sua boca para o chão de madeira.
A esposa dele recuou assustada.
O cheiro metálico de sangue se espalhou pelo ar.
Elara observava tudo de perto, então percebeu.
Primeiro uma gota descendo pelo nariz de Silas. Depois outra. E mais uma.
— Silas…
Ele não respondeu.
A luz em seus olhos oscilou perigosamente.
O homem puxou o ar. Uma vez. Depois outra.
Profunda. Livre. Curado.
A esposa dele começou a chorar imediatamente, segurando o rosto do marido entre as mãos enquanto ria e soluçava ao mesmo tempo.
Mas Silas não viu.
Assim que retirou as mãos, o mundo simplesmente apagou, seu corpo cedeu sem qualquer reação, sem tentativa de se equilibrar, sem força restante.
Zach o segurou antes que atingisse o chão.
O impacto ainda fez o peso do corpo cair contra ele com força.
— Silas!
A casa inteira congelou.
Elara avançou no mesmo instante.
Gaspar já estava de pé.
Silas permanecia desacordado nos braços de Zach, completamente imóvel.
A respiração era fraca demais. O rosto, pálido sob o suor. Os cílios tremiam levemente, mas ele não acordava.
O silêncio que tomou o ambiente foi imediato.
Pesado. Assustado.
Porque, pela primeira vez naquele dia…
o homem que salvava todo mundo parecia alguém que precisava ser salvo.
Continua…