A primeira coisa que Silas sentiu foi o peso.
Não dor. Não som. Peso.
Como se o próprio corpo tivesse sido preenchido com chumbo enquanto ele dormia.
Respirar parecia estranho. Lento demais. Cada puxar de ar vinha acompanhado de uma fadiga profunda, entranhada nos músculos, nos ossos, em lugares que ele nem sabia nomear. Até o peito parecia pesado, como se houvesse algo pressionando suas costelas por dentro.
Tentou mover os dedos. Demoraram a responder.
Então tentou abrir os olhos.
A luz o atingiu primeiro.
Fraca. Amarelada. Luz de fim de tarde atravessando cortinas gastas e poeira suspensa no ar.
O teto acima dele era de madeira antiga, marcado por rachaduras finas que se espalhavam como rios secos. Algumas manchas de umidade escureciam os cantos próximos às vigas, e o cheiro de poeira velha misturado a ervas medicinais pairava no quarto.
Por alguns segundos, Silas apenas ficou imóvel, encarando o teto, tentando entender onde estava.
Então ouviu a cadeira ranger.
— Finalmente.
A voz de Zach.
Silas virou o rosto devagar.
Zach estava sentado perto da janela, os braços cruzados e a cabeça parcialmente apoiada contra a parede. A barba por fazer deixava sua aparência mais cansada do que o normal, e as olheiras denunciavam noites mal dormidas.
Mesmo assim, havia alívio em seus olhos.
Pequeno, mas real.
Silas tentou falar. A garganta arranhou imediatamente.
— Quanto tempo?
A voz saiu rouca, falha, quase irreconhecível.
Zach soltou o ar pelo nariz antes de responder.
— Três dias.
Silas voltou a encarar o teto.
Três dias.
A informação demorou alguns segundos para fazer sentido.
Três dias apagado.
Três dias enquanto o mundo continuava andando sem ele.
Então tentou se levantar, o erro veio instantaneamente.
Uma tontura violenta atravessou sua cabeça, e o quarto inteiro pareceu girar ao redor da cama. Seu corpo cedeu antes mesmo que conseguisse sentar direito.
Zach segurou seu ombro e o empurrou de volta sem delicadeza nenhuma.
— Nem tenta.
Silas respirou fundo, irritado com a própria fraqueza.
— Eu tô…
— Se você falar “tô bem”, eu juro que te desacordo de novo.
Silas fechou os olhos por um instante.
Do lado de fora vinham vozes abafadas, passos na rua, o rangido distante de rodas passando sobre terra seca. Movimento, a cidade ainda estava viva. Isso sozinho já parecia estranho.
— Quantos…? — perguntou ele, mais baixo dessa vez.
Zach entendeu imediatamente.
Não precisava explicar.
— Bastante gente.
Uma pausa curta atravessou o quarto.
Então ele completou:
— Você salvou muita gente, Silas.
A frase não veio leve, veio pesada.
Porque os dois sabiam o preço daquilo.
Silas permaneceu em silêncio.
Seu olhar caiu lentamente para as próprias mãos. Ainda havia pequenos tremores nos dedos.
Então outra voz surgiu perto da porta.
— Finalmente acordou, desgraça.
Gaspar entrou no quarto segurando uma garrafa pela metade. O tom era o mesmo de sempre, carregado daquela ironia seca que parecia permanente nele.
Mas os olhos contavam outra história. Havia cansaço ali, preocupação também.
Atrás dele, Elara apareceu logo em seguida. Os cabelos estavam presos de qualquer jeito, e ela segurava algumas ervas enroladas em tecido.
Ela observou Silas por alguns segundos antes de falar.
— A doença começou a diminuir ontem.
Silas franziu levemente o cenho.
— Diminuir?
Elara assentiu.
— Menos casos. Menos febre. Menos gente tossindo sangue.
Gaspar apoiou o ombro na parede.
— Parece que você bateu na doença até ela pedir desculpa.
Silas quase sorriu. Quase.
Mas a exaustão ainda era forte demais até para isso.
Então percebeu outra coisa.
O silêncio vindo da rua era diferente, não havia hostilidade, nem medo. Era outra coisa.
Algo que o deixou desconfortável antes mesmo de entender.
— O que aconteceu enquanto eu tava apagado?
Zach e Elara trocaram um olhar rápido.
Gaspar tomou mais um gole antes de responder:
— Ah…
Ele inclinou a cabeça levemente, como se procurasse as palavras certas.
— Basicamente você virou problema religioso pra cidade inteira.
Silas fechou os olhos devagar.
— Que merda.
Gaspar riu baixo.
— Foi exatamente minha reação.
Silas permaneceu sentado na cama por mais alguns minutos antes de tentar levantar de novo.
Dessa vez conseguiu. Com dificuldade.
As pernas pareciam pesadas demais sob o próprio corpo, e a fraqueza fazia sua visão oscilar sempre que respirava fundo demais. Os músculos protestavam a cada movimento, como se ele tivesse atravessado uma guerra inteira sozinho.
Zach permaneceu próximo o tempo todo, atento, como alguém esperando o momento exato em que ele fosse desabar outra vez.
— Eu consigo andar sozinho.
— Isso ainda tá em discussão — respondeu Zach imediatamente.
Gaspar soltou um riso curto.
Elara apenas observava em silêncio.
Quando Silas finalmente atravessou a porta do quarto e chegou ao corredor, percebeu o cheiro da casa primeiro.
Menos sangue. Menos doença.
Ainda havia febre no ar, ainda havia remédios improvisados espalhados sobre mesas e panos fervendo em bacias de água quente, mas a sensação sufocante dos dias anteriores havia diminuído.
A casa parecia respirar novamente.
Então ele alcançou a varanda.
E o som da rua mudou imediatamente.
As conversas cessaram.
As pessoas olharam. Todas.
A rua parecia mais viva do que antes. Algumas casas estavam abertas agora, janelas escancaradas deixando o vento entrar pela primeira vez em dias. Baldes de água circulavam de um lado para outro. Crianças voltavam a correr entre as construções, ainda magras, ainda abatidas, mas vivas.
Vida. Mesmo cansada, era vida.
Mas no instante em que Silas surgiu na varanda… tudo parou.
Ele percebeu na hora. E odiou aquilo imediatamente.
Uma mulher abaixou a cabeça discretamente ao vê-lo.
Um homem tirou o chapéu em silêncio.
Outro murmurou, quase sem acreditar:
— É ele…
Silas desacelerou sem perceber.
Como se cada olhar lançado sobre ele se transformasse em mais peso sobre algo que já estava prestes a quebrar.
Então veio a primeira aproximação. A mãe do garoto curado.
Ela atravessou a rua rápido demais, segurando o filho pelos ombros. Os olhos inchados denunciavam noites inteiras sem dormir.
Quando chegou perto, hesitou.
Como se não soubesse se podia tocá-lo.
Então segurou a mão de Silas entre as duas dela.
— Obrigada.
A voz falhou no final.
O garoto observava Silas em silêncio absoluto, como alguém encarando algo impossível de explicar.
Silas puxou a mão devagar. Desconfortável.
— Eu só ajudei.
A mulher balançou a cabeça imediatamente.
— Não. Você salvou ele.
Outras pessoas começaram a se aproximar. Devagar no início, depois mais.
Uma senhora que agora conseguia caminhar sem apoio.
Um homem que voltara a respirar sem tossir sangue.
Uma criança segurando flores secas arrancadas de algum lugar da cidade.
Gaspar observava tudo encostado na parede da varanda, os braços cruzados.
— Ih… virou santo.
— Cala a boca — murmurou Silas.
Mas não havia irritação real na resposta.
Só cansaço. Muito cansaço.
Elara percebeu antes de todos.
O jeito como Silas evitava encarar as pessoas por muito tempo. Como sua postura parecia encolher um pouco mais a cada agradecimento. Como ele claramente não sabia o que fazer com aquilo.
Porque violência ele entendia. Ódio também.
Desprezo, ameaça, medo…, mas gratidão? Aquilo parecia pior.
Um homem mais velho aproximou-se devagar da varanda.
Silas reconheceu imediatamente.
Era um dos homens que estavam no bar na primeira noite, um dos que riram.
O homem demorou alguns segundos antes de conseguir falar.
— Eu… eu devo desculpas.
Silas permaneceu em silêncio.
O homem abaixou os olhos.
— A gente cresceu ouvindo certas coisas.
Gaspar soltou um riso curto pelo nariz.
— E escolheu acreditar em todas.
O homem não respondeu. Porque era verdade.
Silas observou o rosto cansado dele por alguns segundos antes de apenas assentir. Não como perdão. Nem absolvição. Só… exaustão demais para continuar carregando raiva.
A notícia da morte do xerife já havia se espalhado completamente pela cidade.
E junto dela vieram as histórias.
Alguns diziam que ele enlouqueceu, outros diziam que tentou impedir as curas, alguns juravam que a doença era castigo divino e que Silas havia sido enviado para salvá-los.
Outros falavam o nome de Gaspar em voz baixa, quase cautelosa, como se ainda não soubessem exatamente o que pensar sobre o homem que matou o xerife sem hesitar.
Ninguém parecia saber o que fazer agora.
Porque, pela primeira vez em muito tempo… a cidade estava sem alguém dizendo quem devia ser odiado.
Naquela noite, ninguém dormiu direito. A cidade inteira parecia inquieta demais para descansar.
Silas permaneceu sentado do lado de fora da casa por horas, observando o movimento sob a luz fraca das lamparinas espalhadas pelas ruas.
O vento da noite era frio. Carregava poeira, cheiro de lenha queimando e o som distante de pessoas conversando baixo dentro das casas.
Zach sentou-se ao lado dele sem dizer nada.
Por um tempo, os dois apenas observaram a cidade. As pessoas caminhando sem tanta urgência, as crianças acordadas até tarde, os doentes respirando melhor.
Então Zach perguntou:
— Valeu a pena?
Silas demorou para responder.
Seu olhar percorreu lentamente a rua diante deles. Os rostos menos desesperados, as janelas abertas, os sobreviventes.
Então ele olhou para as próprias mãos.
Ainda tremiam, mesmo paradas.
— Eu não sei.
A honestidade da resposta fez Zach desviar o olhar.
Porque aquela era provavelmente a coisa mais assustadora que Silas já tinha dito.
Partiram na manhã seguinte.
Sem despedidas grandes. Sem discursos.
Mesmo assim, metade da cidade apareceu para vê-los sair.
Thomas estava entre eles, segurando a filha nos braços. A menina acenou para Silas com um sorriso pequeno e tímido.
Silas hesitou antes de retribuir o gesto.
Gaspar montou no cavalo e observou a multidão reunida.
— Estranho — murmurou. — Quando a gente chegou aqui queriam expulsar nós quatro.
— Alguns ainda querem — respondeu Elara.
— É, mas agora eles têm educação pra esconder.
Zach soltou um riso baixo.
Então partiram.
A cidade ficou para trás aos poucos, desaparecendo entre poeira e distância. A estrada seguiu silenciosa.
O som das rodas da carroça rangendo contra a terra seca era constante, quase hipnótico. O céu começava a ganhar tons alaranjados no horizonte enquanto o vento frio da tarde atravessava as árvores mortas às margens do caminho.
Silas ainda estava pálido.
Sentado no fundo da carroça, apoiado contra sacos e cobertores improvisados, observava a estrada sem realmente enxergá-la.
Gaspar cavalgava ao lado da carroça, como sempre fazia quando estava inquieto demais para ficar parado.
Foi Zach quem quebrou o silêncio.
— Você exagerou.
Gaspar nem olhou para ele.
— Quando?
— Na casa.
Uma pausa curta.
— Com o xerife.
Gaspar soltou um riso curto, sem humor nenhum.
— Ele mereceu.
— Merecer é diferente daquilo — respondeu Elara.
Gaspar continuou cavalgando por alguns metros. Em silêncio.
Então, as mãos dele se fecharam devagar sobre as rédeas.
— Minha filha morreu tossindo sangue num quarto menor que aquele.
O silêncio mudou imediatamente. Até o vento pareceu diminuir.
Gaspar manteve os olhos presos na estrada.
— Faz muito tempo.
A voz dele havia perdido algo agora.
Peso... Ironia... Proteção.
— Ela tinha febre toda noite. Não conseguia respirar direito. E eu só ficava olhando…
Silas ergueu os olhos lentamente.
Gaspar riu baixo, fraco, quebrado.
— Engraçado, né? Eu quebrava homem no meio sem dificuldade nenhuma…, mas não consegui fazer porcaria nenhuma por ela.
Ninguém interrompeu. Porque não havia nada para dizer.
— Então eu vi aquele filho da puta apontando arma pra gente desesperada… depois de ver você salvando criança o dia inteiro…
Ele respirou fundo. Demorado... Pesado.
— E por um segundo… eu não tava mais naquela casa.
Silêncio.
Zach observou o amigo por alguns segundos antes de desviar o olhar.
Porque agora entendia.
Entendia a raiva... A violência... O excesso.
Gaspar voltou a olhar para os outros logo em seguida, como se tivesse percebido que falou mais do que deveria.
— Enfim… — murmurou. — Clima merda do cacete.
Elara quase sorriu.
Zach soltou o ar pelo nariz.
Mas Silas não sorriu. Porque, pela primeira vez desde que conheceu Gaspar… ele entendeu de onde vinha toda aquela raiva.
Continua…