O sol já começava a mergulhar atrás das colinas quando avistaram Vale do Cobre. A cidade surgia ao longe como uma cicatriz espalhada entre a terra seca.
Minas abandonadas marcavam as encostas das montanhas, seus túneis escuros parecendo bocas abertas na pedra. Estruturas enferrujadas se erguiam contra o horizonte, esqueletos de uma prosperidade que havia morrido anos atrás. Chaminés lançavam colunas finas de fumaça acinzentada ao céu alaranjado, enquanto construções apertadas se amontoavam umas contra as outras, como se a cidade tivesse crescido rápido demais e sem qualquer planejamento.
O ar carregava um cheiro constante de metal aquecido, carvão queimado e álcool barato.
— Lugar simpático — murmurou Gaspar.
— Você fala isso de toda cidade perigosa — respondeu Elara.
— Porque normalmente são as melhores.
— Isso explica muita coisa sobre você.
Gaspar abriu um sorriso.
Silas permaneceu em silêncio sobre o cavalo, ainda estava se recuperando.
Os dias de descanso haviam ajudado, mas não o suficiente. Seu corpo parecia mais leve do que antes, porém a exaustão continuava escondida em cada movimento mais lento, em cada respiração profunda demais, em cada instante em que precisava disfarçar a fraqueza nas pernas.
Por fora, parecia melhor. Por dentro, ainda estava quebrado.
Zach percebeu, como sempre. Mas preferiu não comentar.
Atravessaram os primeiros quarteirões da cidade observando o movimento ao redor.
Mineradores cobertos de poeira caminhavam pelas ruas, homens armados conversavam diante de depósitos, mulheres carregavam baldes de água enquanto observavam os recém-chegados com curiosidade cautelosa.
Era uma cidade acostumada a problemas.
Então ouviram o barulho, vidro quebrando, um grito, o som pesado de uma mesa virando.
Zach ergueu os olhos imediatamente. O bar ficava logo adiante.
Uma construção larga de madeira escura, com janelas iluminadas por lamparinas amareladas. Música desafinada escapava pelas frestas, misturada ao som de uma confusão que claramente já estava acontecendo havia algum tempo.
— Ah... ótimo — murmurou Elara.
Gaspar sorriu.
— Agora sim a cidade ficou interessante.
Outro estrondo ecoou lá dentro, mais forte, mais próximo.
Os cavalos ficaram inquietos.
Então... a porta explodiu para fora. Literalmente.
Madeira estilhaçada voou pela rua enquanto um homem atravessava a entrada como um projétil humano.
O sujeito bateu contra a terra com violência absurda. Uma vez, duas, três.
Rolou vários metros até parar próximo ao bebedouro dos cavalos, imóvel.
Silêncio.
Silas recuou meio passo instintivamente.
— Que porra...?
Ninguém respondeu. Porque naquele momento ninguém tinha uma resposta melhor.
A rua inteira parecia ter congelado. Então vieram os passos. Lentos e pesados, sem qualquer pressa.
Uma figura surgiu na entrada destruída do bar. Alta. Muito alta.
O homem precisou se abaixar levemente para atravessar o que restava da porta.
O sobretudo de couro escuro balançava junto de seus movimentos tranquilos. Os cabelos ruivos caíam até os ombros, parcialmente escondendo o rosto marcado por uma barba curta e mal cuidada.
Havia sangue em uma das mangas, mas não parecia ser dele.
Em uma das mãos, girava lentamente um revólver descarregado, como alguém brincando com um objeto sem importância.
Mas não era aquilo que chamava atenção, eram os socos ingleses dourados presos ao cinto. O metal reluzia sob a luz do entardecer, pesado.
O desconhecido observou a rua por alguns segundos, como alguém procurando mais problemas, ou esperando que aparecessem.
Então outro homem surgiu correndo do interior do bar, desesperado, furioso.
Ele saltou nas costas do desconhecido sem pensar. Erro. Um erro gigantesco.
O homem mal teve tempo de tocar nele.
O desconhecido girou o corpo com uma naturalidade assustadora, agarrou o braço do agressor no meio do movimento e simplesmente o lançou pelo ar. Sem esforço, sem dificuldade.
O sujeito atravessou uma mesa do lado de fora antes de atingir o chão em meio a uma chuva de madeira quebrada, gemendo, incapaz de levantar.
Silêncio. Outra vez.
O desconhecido soltou o braço do homem como quem larga lixo.
Então retirou calmamente os socos ingleses do cinto, o metal dourado brilhou sob a luz alaranjada do pôr do sol, ele bateu um contra o outro.
CLANG.
O som ecoou pela rua inteira. Até quem estava longe virou para olhar.
— Quem mais tá afim de arrumar confusão comigo?
A voz era grave, controlada, perigosamente calma.
Três homens saíram do bar quase no mesmo instante.
Um carregava uma garrafa quebrada. Outro segurava uma cadeira. O terceiro vinha apenas movido pela raiva.
O desconhecido sorriu.
— Claro.
O primeiro avançou.
O soco veio tão rápido que quase ninguém viu. O homem simplesmente saiu do chão, por um instante pareceu flutuar. Então atravessou uma janela lateral antes de desaparecer dentro de outra construção.
O segundo tentou acertá-lo com a cadeira.
O desconhecido desviou para o lado, agarrou a madeira com uma mão, puxou. E bateu a testa do homem contra o próprio joelho, o som da pancada fez várias pessoas estremecerem. O sujeito caiu imediatamente.
O terceiro hesitou, tarde demais.
Um cruzado atingiu seu maxilar com violência absurda. O corpo girou no ar antes de despencar imóvel sobre a poeira.
Silêncio, outra vez.
Então alguém puxou um revólver.
— FILHO DA PUTA!
O disparo ecoou pela rua.
A bala atingiu o peito do desconhecido. E ricocheteou, nem arranhou o sobretudo.
A rua inteira congelou.
O homem armado arregalou os olhos, disparou novamente, depois outra vez. E outra. E mais uma.
As balas batiam contra o corpo dele como se estivessem acertando uma parede de aço.
Nenhum efeito, nenhuma reação, nenhuma gota de sangue.
O desconhecido apenas começou a caminhar na direção dele, tranquilo e sem pressa. Como alguém caminhando sob a chuva.
O homem armado começou a tremer.
— Que porra é você...?
Nenhuma resposta.
Mais disparos.
Nada.
Então o desconhecido finalmente chegou perto. Estendeu a mão, segurou o cano do revólver entre dois dedos.
E apertou, o metal começou a entortar lentamente, como barro, como cera quente.
Os olhos do atirador se arregalaram.
O soco veio logo depois. Seco. Direto. Devastador.
O impacto arrancou seus pés do chão antes que ele despencasse desacordado na lama.
Silêncio absoluto.
Até o vento parecia ter parado.
O desconhecido soltou a arma deformada na terra.
Então ergueu os olhos, pela primeira vez, na direção do grupo.
E parou.
Gaspar também.
Os dois se encararam, por um segundo. Depois dois. Tempo demais.
O sorriso de Gaspar desapareceu completamente.
Algo diferente surgiu em seu rosto.
Surpresa, incredulidade, talvez até emoção.
Então ele falou, baixo:
— Você...
O homem dos socos ingleses permaneceu imóvel.
E então, pela primeira vez desde que saiu do bar... ele sorriu de verdade. Não aquele sorriso de quem procura briga, mas de quem encontrou algo que julgava perdido.
— Não fode...
O sorriso aumentou.
— GASPAR!
— Vocês se conhecem? — perguntou Zach.
Gaspar abriu a boca.
— É... ele é meu...
Nem terminou.
Cesar avançou.
— AH, NEM FODENDO QUE É TU MESMO!
Gaspar arregalou os olhos.
— Cesar, espera...
Tarde demais.
O abraço veio como uma colisão.
Cesar agarrou o irmão pelos ombros e o levantou do chão como se ele não pesasse absolutamente nada.
— VOCÊ TÁ VIVO, DESGRAÇADO!
— ME LARGA, ANIMAL!
— CARALHO, VOCÊ NÃO MORRE NUNCA!
— E NEM VOCÊ!
Cesar ria tão alto que metade da rua voltou a olhar.
— Olha pra você! Tá mais velho do que eu lembrava!
— E você continua parecendo um cavalo vestido de gente!
— Isso foi um elogio?
— Não.
— Então obrigado!
Zach observava a cena em silêncio.
Depois olhou para Elara.
— Eu sinceramente não sei qual dos dois me preocupa mais.
— O maior.
Silas permaneceu ao lado dos cavalos. Cansado demais para reagir adequadamente.
— Tem dois gigantes malucos na mesma família...
— É pior do que parece — respondeu Elara.
Gaspar finalmente conseguiu escapar do abraço. Empurrou Cesar pelo peito.
— Faz quantos anos?
Cesar inclinou a cabeça.
— Uns oito?
— Foram doze.
O sorriso dele diminuiu ligeiramente. Pequeno detalhe, mas suficiente.
Havia peso naquela ausência. Coisas não ditas, coisas perdidas.
Então Cesar observou o restante do grupo pela primeira vez com atenção verdadeira.
Os olhos passaram por Zach.
Depois por Elara.
Então pararam em Silas.
E estreitaram.
— Tá...
Ele cruzou os braços.
— Quem são vocês?
Gaspar soltou o ar pelo nariz.
— Aí começa o problema.
Cesar ignorou completamente.
Passou um braço pelos ombros do irmão.
— Então esses são os malucos que andam contigo?
— Infelizmente — respondeu Zach.
Cesar apontou para ele imediatamente.
— Gostei desse.
— Não gostei de você.
— Melhor ainda.
Elara cruzou os braços.
— Você sempre resolve problemas destruindo metade da cidade?
Cesar olhou ao redor.
Porta arrancada, vidro espalhado, mesas quebradas, homens desacordados, um cavalo traumatizado.
Ele deu de ombros.
— Às vezes sobra parede.
Gaspar passou a mão pelo rosto.
— Meu Deus...
— Eu sei.
— Você piorou.
— E você envelheceu igual leite.
Silas finalmente se aproximou.
Cesar olhou para ele novamente.
Dessa vez mais sério. Mais atento.
— Você tá doente?
— Não.
— Tá com cara de quem morreu semana passada.
— Quase isso — respondeu Zach.
Gaspar apontou para Silas.
— Ele salvou uma cidade inteira antes da gente chegar aqui.
Cesar ergueu uma sobrancelha.
— Ah...
Os olhos dele voltaram para Silas.
Agora diferentes. Calculando. Reconhecendo.
— Então é você.
Silas percebeu imediatamente.
— "Você" o quê?
Cesar não respondeu de imediato.
O sorriso diminuiu.
— Nada.
Mas claramente não era nada.
Elara percebeu primeiro.
— Você ouviu alguma coisa sobre ele.
— Ouvi sobre um monte de coisa estranha acontecendo pelas estradas.
A leveza desapareceu.
— Cidade doente. Gente desaparecendo. Marcados morrendo.
O ambiente mudou imediatamente.
Zach descruzou os braços.
Gaspar perdeu o sorriso.
Silas ficou imóvel.
— Marcados? — perguntou Zach.
— Dois na última semana.
— Mortos por quem? — questionou Gaspar.
Cesar desviou o olhar para o revólver entortado no chão.
— Não faço ideia.
Mentira, uma mentira óbvia.
Gaspar percebeu na hora.
Os dois irmãos se encararam, longo demais. Silenciosos demais.
Até que Cesar voltou a sorrir, mas havia algo errado naquele sorriso agora.
Menos humor, mais tensão, mais preocupação.
— Vocês chegaram numa hora ruim, sabia?
O vento atravessou a rua carregando poeira vermelha entre as construções de Vale do Cobre.
Ao fundo, um sino começou a tocar.
Uma vez, depois outra, depois outra.
O som ecoou pela cidade inteira.
E, quase no mesmo instante... os gritos começaram na parte alta de Vale do Cobre.
Continua...