A noite se foi e voltou, mas a chuva continuou, o gotejo da água dentro da caverna começou a incomodar o ouvido de Mirabelle, que aos poucos abriu os olhos para Miguel com o rosto apoiado sobre uma pedra. Iluminados pelos clarões dos raios, a água os rodeava, alguns pontos mais baixos da caverna estavam inundados e ali onde estava era um desses.
— O– Oque? — A sensação de tocar em algo macio e pegajoso era estranha e o calor do corpo de Miguel, o qual estava sobre, também.
— O que houve? Eu– — Uma dor súbita a fez pôr a mão sobre o rosto. — Tch! Minha cabeça! — Nem bem tinha se erguido, caiu sobre o garoto novamente, mas apoiou-se em seus braços. — Garoto? Garoto! — Desceu rapidamente o ouvido até seu peito e conseguiu ouvir os batimentos cardíacos, respirando aliviada. — Ainda bem...
Ela checou o pulso e depois o corpo, não tinha bolhas, hematomas ou qualquer outra ferida ou machucado aparente, fora as cicatrizes. As preocupações que tinha lhe deixaram por um momento.
O frio repentino que se instaurou na caverna a fez tremer, ela olhou para as pedras que tinham sido quase engolidas pela água e ficou preocupada, logo se levantou, mas quando pôs os pés no chão, se deu conta da poça de água e barro na qual Miguel estava deitado.
— Tenho que tirá-lo daqui. — Mirabelle esticou a palma da mão direita para cima em direção a Miguel e, após pôr certa tensão na mesma, a levantou, mas não houve reação e isso a fez levantar a sobrancelha intrigada. — Ahn?
Estendeu a outra mão e sentiu, ao tensioná-la e levantá-la, um peso imenso, o que a cansou rapidamente e não chegou a erguer Miguel nem um centímetro do chão. — Mas o quê? — Por um tempo, ficou com a respiração instável, apoiando-se sobre as pernas, tentando recuperar as energias.
— Por que ela não está funcionando!? — Olhou para as mãos apoiadas — Eu– Eu vou ter que carregar ele? De novo?
Passado.
Bella a Eternum: O mundo além do portão.
Criado por Iako Sabat.
Revisão: Iako Sabat e LuizZzZ :D.
Expressões ruins logo voltaram a seu rosto e a primeira que deu as caras foi a de desgosto. Mirabelle se virou e buscou as roupas, ou melhor, os trapos que tinham sobrado, num canto do outro lado da caverna. Estavam úmidos, mas não encharcados. Os pegou e rasgou os que estavam em melhores condições em três tiras grandes.
— Isso vai me atrapalhar… — Pegou uma das tiras de tecido e amarrou o cabelo, deixando a ponta presa. Com um dos outros dois cobriu os seios, o último ela enrolou abaixo da cintura, esse maior, cobriu-lhe das coxas até os joelhos.
Voltou até Miguel e logo pegou-o pelas pernas e começou a puxar. — Urgh! Pesado! — gritou o arrastando, a água chegou a balançar algumas vezes, mas parecia que ele não sairia do lugar. O Miguel pesava cerca de setenta e cinco quilos, o que fazia Mirabelle arrastar os pés.
Ela o segurou firme, mas volta e meia deixava as pernas escorregarem, o que quase a fez cair enquanto cerrava os dentes para não começar a chutar alguém.
Demorou cerca de cinco minutos para conseguir cruzar a grande distância de um metro e, quando percebeu que não ia chegar a lugar algum, soltou-lhe as pernas, suspirou e bateu os pés, espumando de raiva: — Aaaaaaa! Eu não aguento mais!
— O que foi que fiz pra merecer isso? — Mirabelle gritou e gesticulou, puxou os cabelos e desfez o laço que os amarrava. — Minha Vistria não responde e minha Santria não serve pra na– — Após a última citação, ela parou subitamente. — Santria? — Devagar, ela virou para Miguel e mirou para os lábios dele.
— Santria! — Um sorriso transpareceu-lhe no rosto e rapidamente ela foi em direção ao dele. — Sim! Algo dentro dele deve estar bloqueando meu controle, as duas vezes que tivemos contato minha energia foi liberada! — A esperança é a última que morre e a provável possibilidade que ela teve foi motivadora o suficiente para que não questionasse nada e se aproximasse dos lábios do garoto. — Um simples beijo resolverá tudo~
Seus lábios se tocaram, nenhum brilho aconteceu, nem luz alguma apareceu, na verdade a visão dela escureceu.
Mirabelle se levantou em silêncio, não demonstrou estranheza às ocorrências e de repente, tudo ficou branco. — Eu estou...
Por um momento, estava sozinha, mas quando virou o rosto, se deparou com uma figura levitando no ar. Um espectro, coberto por três grandes esferas queimando intensas chamas verdes, vermelhas e amarelas. Forçando os olhos, tentou enxergar a figura distorcida. — Garoto?
Mirabelle caminhou em direção à esfera, repleta de questionamentos, mas não foi permitida se aproximar, pois logo abaixo da entidade havia uma imensa poça de um líquido negro.
— O que é isso? — Aproximou-se devagar e se agachou. Quando estava prestes a colocar a mão sobre aquela gosma negra estranha, uma névoa vermelha a rodeou, acompanhada de filetes de energia que, como uma mão, tocaram-lhe o ombro.
— Se eu fosse você, não encostaria nisso... — falou a voz a quem pertencia a mão que a segurava.
Mirabelle ficou parada por um instante, mas logo se levantou, virou e soltou a mão presa em seu ombro. — Quem é você? — perguntou, se afastando.
— Eu? Você sabe melhor do que ninguém quem eu sou.
Uma figura então apareceu da névoa e deu alguns passos para fora.
— Você– — Mirabelle não soube reagir a quem estava de frente, aquela era uma das últimas pessoas que queria ver. — Emílliare? O que está fazendo aqui?
— Eu? — Emília riu ao ponto de se apoiar nos joelhos. — Ai, ai... Como você é engraçada... — Vestindo um curto e, colado no corpo, vestido preto, ela cessou a risada e se endireitou. Logo em seguida encarou Mirabelle: — Essa pergunta é minha, não? Como você chegou aqui?
Mirabelle não respondeu, mas olhou para ela com um desgosto tão aparente que só de encará-la por muito tempo a sensação era igual ou até pior do que ter uma faca afiada rente ao pescoço.
— Ei! Ei! Não fique me encarando assim... — Desviou o olhar e tentou manter a postura.
Mirabelle suspirou, ignorou a pessoa a quem, em comparação ao zunido de um mosquito, era menos incômoda e voltou à curiar o líquido preto em sua frente.
— Ei! Eu disse que não era para tocar nisso! — Emília correu e segurou a mão dela.
Ela olhou para a mão que a segurava e para o rosto de quem pertencia. Emília assustada, logo recuou e afastou-se acanhada, tanto de Mirabelle como da poça.
— De-desculpa! Só-só não toque nisso!
Mirabelle se levantou e apontou para a poça. — O que é aquilo?
— Eu... Eu não sei... Na verdade, tanta coisa vem acontecendo que me preocupo com o Miguel.
— Miguel? Quem é esse?
— O quê? Você está dentro dele neste exato momento e não sabe quem é?
— Esse é o nome do garoto? — Pôs a mão no rosto e desviou o olhar por um instante, mas logo voltou à atenção aos fatos: — Nomes são desimportantes nesse momento, eu quero saber o que é aquilo ali?
— Não! não! Você ainda não me respondeu! Como conseguiu chegar aqui? E mais! Como o Miguel está!? O que aconteceu depois que desmaterializei!? — Exaltada, voltou a se aproximar de Mirabelle com a voz firme, mas carregada de preocupação.
— Se você quer tanto saber, ele está bem... Agora. — Mirabelle respondeu, porém, no último instante virou os olhos, até pareceu que falou normalmente, mas tinha um problema, foi que a resposta estava acompanhada de uma tímida expressão, pois ao se lembrar da condição dele e de como estava, também se lembrou dos beijos que lhe deu.
— Como assim agora? — A sagacidade acompanhada da ansiedade e preocupação, mostrou algo além da resposta e a fez questionar de tal forma que nem parecia a mesma garota medrosa de pouco instante: — O que houve!?
— Nã– não houve nada!
— Não houve nada? O que aconteceu!? — Emília se irritou com as possibilidades, afinal, respostas tímidas vindas de outra mulher não eram um bom sinal.
— Eu já disse que não houve nada! — Pressionada, quando respondeu, por um curto período de tempo os olhos de Mirabelle ficaram dourados e Emília recuou.
— Bo-bom! Se você diz, então não houve nada! Vou acreditar em você…
— Isso não é do seu feitio, de quê importa o método com o qual eu entrei aqui?
— É-é... Eu-eu... Deixa isso pra lá! Vamos ao que interessa! — Ela tossiu, virou os olhos, tentou desviar, mas de nada surtiu efeito.
— Não! Agora eu quero saber sua relação com esse garoto! — Movida por uma vontade estranha, uma curiosidade acompanhada de um sentimento desconhecido que a fez insistir em questionar, fez com que a pobre garota de chiquinhas ruivas ficasse encurralada.
— Eu-eu– Eu já disse que nenhuma! Só estávamos vinculados! Quero dizer... tive que me vincular a ele, porque... Ele tinha que sair de Razai–
— Espera! Você ia falar Razaisef? O que você estava fazendo lá? O que está acontecendo. Emílliare? Quem é esse garoto!? — Mirabelle se exaltou, alguns pontos estavam muito distantes e em sua mente as dúvidas tornavam a aumentar quanto mais Emília se embolava nas justificativas.
— Ele é da terra! É que estávamos em Razaisef e eu tinha que formar um Mali-jãn porque tinha uma Isakarj chamada Isabela e–
— Isabella? — Um suor escorreu pelo rosto de Mirabelle que ficou tensa, em instantes, seus olhos se abriram e uma pergunta se sucedeu. — Como sabe esse nome?
— Na-Não! Espe– — Emília parou subitamente e deu de cara com uma feição amedrontadora. — Vo– você a conhece?
Antes que se desse conta, ela esquivou de ser agarrada pelo que dava para se descrever como um furioso animal enjaulado.
— Isso não lhe interessa! Como sabe esse nome!?
Emília começou a dar vários passos para trás. — Calma! Calma! Por que você está fazendo isso?! De onde você conhece aquela garota de cabelos brancos?!
Aquela ínfima descrição foi o suficiente para uma rachadura aparecer naquele espaço e Emília sentir uma forte dor no abdômen. — Vamos com– ca–
— Emílliare!!! — Mirabelle gritou como se a razão tivesse perdido, enquanto caminhava lentamente em direção a Emília. — Eu vou lhe matar!
— Ei! Não é hora para iss-
— EMÍLLIAREEEE!!! — Mirabelle entrou em frenesi e partiu em direção a ela como se fosse esquartejá-la.
Emília olhou para os lados e procurou um lugar para se esconder, mas só pôde fazer correr. — Ei! Desse jeito não vamos chegar a lugar algum! — Desesperadamente, deu as costas para Mirabelle e tentou fugir de quem a perseguia como um predador, mas a corrida durou pouco e logo ela percebeu seu campo de visão se distorcendo e seus movimentos parando. — Na-Não!
— Sim! — Um sorriso apareceu no rosto de Mirabelle que agora segurava o pescoço de Emília novamente, mas dessa vez com as próprias mãos. — Eu esperei tanto tempo por isso!
— Nã– não me– me mate! Se me matar não vai ter chan– chances de salvar ela!
— Salvar? — Aquelas palavras foram decisivas para que a mão que a estirou para o alto a soltasse, derrubando-a no chão. — O que aconteceu com ela?
Tossindo, Emília massageou o pescoço enquanto recuperava o folego. — E– Ela está segura– Quero dizer... Agora…
— Agora?
— Sim! Eu sou sua única chance de que ela continue bem!
— Chance!? Você!? De tantas opções!? Isso só pode ser uma piada! Você interferiu no meu exílio! Perturbou minha paz e agora está me ameaçando!? Quanta audácia de sua parte… você sabe a culpa que carrega! Tudo isso é culpa sua!!! DIGA-ME ONDE ESTÁ ISABELLA!!!
— Ei! Eu não sou a única culpada niss– — Ela até tentou se defender, mas era difícil, a garganta travava, o ar se tornava pesado e o corpo tremia toda vez que encarava a fúria nos olhos de Mirabelle que gritava e não media palavras ao desferir tudo quanto era ofensa que lembra-se.
— Só– Só deixa eu explicar! — Emília partiu para cima dela e a empurrou, fazendo com que ambas caíssem juntas no chão e uma viesse a estapear a outra, enquanto se ofendiam, mas uma hora o cansaço as atingiu e se soltaram, arfando.
— O-Olha– Me-me escuta! — Emília mudou o tom, enquanto recuperava o fôlego. Longe de qualquer sarcasmo ou cinismo, falou seriamente com Mirabelle. — Eu não sei o que está havendo desde que sequestraram o Miguel da terra–
Mirabelle a interrompeu novamente, cuspindo no chão assim que a explicação começou. — De novo com isso!? — Levantou-se irritada. — Não tem como vocês terem vindo da Terra!! Nem você e nem aquele garoto! Ninguém entra e ninguém sai de lá!
— Eu estava lá! Eu fiz um acordo com os Anjos!
— Não é possível! A– Além de nos trair… Você se aliou a uma das forças?
— Eu– Eu–
— Você não só… não só… nos traiu… não… — Mirabelle virou-se, .
— Eu– — Emília ficou sem palavras, não soube o que justificar, só pôde engolir aquele sentimento e tentar voltar o rumo da conversa. — Você sabe que todos os homens da terra têm um anjo como guardião, né?
— Cale-se.
— O que? Mas–
O olhar que Mirabelle naquele momento fez Emília engolir as palavras que tinha na garganta e abaixar a cabeça enquanto a via se afastar em silêncio.