Um tempo se passou e não existia espaço para um sol deslumbrante nem uma brisa amena de um céu parcialmente repleto de nuvens, nem mesmo para uma noite refrescante com o brilho lunar.
A chuva continuou a cair junto aos trovões e raios e, no lado de fora, o que se formou era pior.
As rajadas de vento carregavam consigo tudo que era móvel, sons dos impactos de metal e pedras se estendiam por dentro da caverna.
Tremores se mostravam nas ondulações da água nas poças ali dentro, água essa que também gotejava e escorria por entre algumas rachaduras e estalactites em direção a um lago num canto escuro. Ali, pequenas pedras emitiam uma diminuta luz nas paredes e no chão, o barulho do rastejar de alguns répteis se fazia presente.
— O– O quê? — Novamente em um ambiente diferente, Miguel acordou. Mesmo que fosse de se admirar o espetáculo brilhante ao redor, não conseguiu deixar de se questionar o que havia acontecido. Sentindo a água tocando suas costas, virou-se para o lado e viu algumas pedras, tentou apoiar as mãos para se levantar, mas logo percebeu que estava pesado do peito para baixo e, quando averiguou, quase teve um infarto.
— Ahn!? Ma-mas que porra está acontecendo aqui!?
Uma garota seminua em cima de si, mas quem estava ali não lhe trazia boas lembranças. Devagar e com todo o cuidado, Miguel pegou na pele macia dela e a segurou, a sensação de tocar no corpo de uma mulher era uma experiência nova, algo que o fez ficar corado e tremendo de ponta a ponta do corpo. — O– O– O que eu faço!? — As reações foram das mais inesperadas, tanto das partes que ele controlava, quanto daquelas que tinham vontade própria.
Levantou-a e a colocou em seu colo, não soube como a descer sem tocar em outras partes ou acabar acontecendo o contrário. Incrédulo de várias maneiras, tantas que quase tropeçou quando tomou coragem de pô-la no chão. Teve que conter seus próprios desejos que começaram a florescer. Custou muito à sanidade negar os instintos mais primitivos que tentavam subjugar-lhe a mente. Deixando a garota num lugar longe de onde estavam, virou-se e foi até a entrada da caverna, apoiando-se na parede e olhando para cima, tentando respirar fundo.
— Se acalma! Se acalma! Vamos lá! Um! Do-dois... Três... — Inspirou e expirou, até que conseguiu diminuir a tensão dos músculos. Entre um olhar para a chuva e outro para o interior da caverna, logo o nervosismo voltou.
— Merda! Merda! Merda! Isso não é real! Nem fudendo! É loucura! O que foi que aconte– — Tentou lembrar, mas sentiu uma dor tão forte que colocou as mãos na cabeça. Logo veio uma contração no abdômen e suas pernas tremeram. — AaaAa! — Ele socou, cravou as unhas na parede, mas as veias se formando nos olhos dilatados eram só o começo.
— Por que isso está acontecendo comigo!? — Uma tensão inesperada nos músculos do corpo o fez cair de joelhos. — Por quê!!!? — gritou, socou o chão com todas as forças que tinha, lágrimas escorriam de seus olhos vermelhos e veias pulsavam no rosto rente ao chão.
— Isso é um pesa– M-me– Me diga que isso é só um pesadelo!!! — Uma agonia excruciante nos braços e pernas totalmente paralisadas, os dentes cerrados, trincando com a força que fazia; os olhos ficaram abertos pelo medo de fechá-los e não saber se os abriria mais.
Ele clamou, pediu, suplicou, mas a dor não passou, ela perdurou até uma risada tomar conta do ambiente, aumentando gradualmente ao passo que se contorcia, erguendo-se.
— Eu– eu não aguento mais! — Ele jogou-se na parede para se apoiar, sentiu as pernas pressionadas como se esmagadas por pedras fossem e os braços que travaram como se estivessem presos a correntes, os esticando, contorcendo. Quando finalmente ficou de pé, caiu novamente de joelhos no chão.
— Eu quero a Minha mãe! — O rosto tensionado com um sorriso psicótico de quem a sanidade havia perdido, em um instante se transformou no de uma criança chorona.
— Mãe– — A angústia de não poder ter um abraço de amparo era pior do que toda dor física. — Cadê– você? — As mazelas que tinha passado em um período tão curto de tempo não eram piores que o frio e a solidão que sentiu quando se encostou-se à parede e não tinha em quem se apoiar e pedir ajudar.
— Mamãe... — Os olhos vermelhos de raiva, dor e estresse deram espaço para olhos opacos de quem não via um futuro, não se importava para o presente e só queria ter mais um pouco de tempo. Só queria poder voltar aos braços de sua mãe.
Conhecer.
Bella a Eternum: O mundo além do portão.
Criado por Iako Sabat.
Revisão: Iako Sabat e LuizZzZ :D.
Horas se passaram e a tempestade do lado de fora não tinha mais o que jogar contra as paredes exteriores da caverna. Os ecos pararam gradualmente e o som do vento e da chuva se fazia mais presente. Um único som se destacava entre os barulhos da natureza, eram os soluços de Miguel que não tinha mais como chorar.
Quase tudo poderia se dizer estabilizado, naquele momento, mas a água que antes estava iluminada por aquelas fracas pedras brilhantes e só servia de deleite para quem gostasse de ambientes úmidos e frios, causou um desmoronamento de um pedaço pequeno da caverna. Assustado, Miguel guardou os lamentos para depois, quando ouviu o som alto.
Ele olhou mais para dentro e logo uma lembrança veio à mente. — A garota! — Correu do jeito que pôde, mas viu que a água havia tomado conta dos arredores. Ela estava sobre uma única pedra, mas longe o suficiente para que a escuridão daquele lago que a rodeava parecesse distante em seus olhos assustados.
— Eu... — Hesitante, engoliu seco o medo e pôs o pé naquela água fria e escura.
— Foco Miguel! Foco! — Um formigamento percorreu-lhe todo o corpo e logo em seguida, estava com a água na cintura.
— Não se deixe levar por isso agora! — sussurrou ao passo que a água ia chegando à altura do peito. Quando se aproximou da garota desacordada, mesmo que num ambiente onde a escuridão era relativa à quantidade de luz que saía daquelas pequenas pedras, teve um deslumbre de uma beleza estonteante.
— Ela– Ela é tão– — Logo levou a mão até os cabelos dourados dela. Uma repentina inquietação tomou conta de si. Encantado com a perfeição de suas curvas delicadas e sua aparência, logo se viu delirando. — Linda...
— Quer– quero dizer... Eu tenho que sair daqui! — Pegou-a nos braços e bastou um pouco de força para que desse meia volta e retornasse. Mas no caminho para lá uma gosma preta começou a escorrer de sua boca e novamente seu abdômen contraiu, seguida de uma cãibra na perna direita que o derrubou junto da garota na água. — D-De No– não! — Os olhos abertos foram um prato cheio para a acidez do barro, ele tentou gritar, porém Os sons de seus gritos não saíam, mas a água entrava e o sufocava. Sentindo aquela retração dentro de si, tocou o fundo daquele lago, onde apoiou os braços e ignorou todo o peso que o impedia de fixar as mãos no barro. Forçando-se para cima, tentou agarrar no desespero a garota afundando e, antes que perdesse as forças, saiu da água atirando-se em direção a uma parede e caiu de cabeça no chão junto a ela.
— AaAaaA! — Ele vomitou, cuspiu e soluçou, a água escorreu junto à saliva enquanto chorava, pressionando com força o abdômen, mas a preocupação que tinha era outra. Sem perder tempo, rastejou-se em direção à garota, e assim que a alcançou, checou sua respiração; nada pareceu importar.
Entre a própria dor e a segurança de alguém que nem conhecia, ele escolheu a segunda opção.
Não sabia medir pulso, não conseguiu escutar os batimentos cardíacos e, quando colocou o ouvido próximo ao nariz dela, não sentiu nenhum calor, nem vento.
— Ela não está respirando! — Apavorado, tentou fazer uma reanimação cardíaca. Mas quando suas mãos aproximaram-se do tórax dela, lembrou-se de ter sido avisado uma vez que, se não fizesse direito, poderia matar.
— O que eu faço!? O que eu fa– — Uma solução lhe veio à mente. Sem pestanejar, duvidando da própria capacidade enquanto segurava o braço dela, pôs a mão em seu queixo, tapou-lhe o nariz e cobriu a boca com a sua e soprou, mas não surtiu efeito.
Ele soltou a mão do nariz e depois tapou novamente e soprou, mas Mirabelle não reagiu, o desespero começou a tomar conta de si e quando foi novamente tapar o nariz dela e soprar, percebeu que ela estava com os olhos abertos e o observando.
— O que você pensa que está fazendo? — perguntou Mirabelle, com o nariz fechado pela mão de Miguel.
— Aaa! — O susto que teve foi tão grande que bateu a cabeça no teto e caiu de costas. — Tch! D-de-desculpa! — respondeu desengonçado.
Mirabelle se levantou. — Nada? — Virou o rosto e completou: — Você acha que eu não sei que estava tentando se aproveitar da situação? — Voltou à visão a ele e ficou em sua frente.
— Na-não é isso! — Miguel custou a levantar, agora com a cabeça dolorida. — Eu-Eu só estava querendo ajudar!
— Ajudar?
Os dois, um pouco distantes, ficaram de frente um para o outro.
— E-e... — Sem jeito, com as bochechas vermelhas e uma expressão tímida no rosto, só pôde desviar o olhar do corpo dela.
— Hm… — Ela o encarou em silêncio.
Não conseguindo ficar calado com tamanho constrangimento, Miguel fechou um dos olhos e coçou o cabelo. — Aaah! Desculpa por tudo aquilo que falei! — fechou os olhos. — Aquilo foi força de expressão! Quer dizer– E-eu... Eu não sou capaz de matar ninguém...
Ela balançou a cabeça. — Mirabelle. — Aproximou-se e estendeu-lhe a mão. — Me chamo Mirabelle.
— Eu-eu– — Perplexo, ou melhor, embasbacado, Miguel não conseguiu responder. Sua mente não focou em mais nada fora o que estava em sua frente, tudo aquilo era demais para um garoto que custava a amadurecer.
— O que foi? — Observando como estava sendo “analisada”, Mirabelle desviou os olhos para baixo. A visão que teve a fez virar o rosto e a constrangeu. Deu alguns passos para trás, cobrindo as partes íntimas.
Miguel, inocentemente, foi averiguar e se deparou com suas partes baixas. — E-Eu– — Seu coração acelerou. — Desculpa! — Gesticulou com as mãos.
Mirabelle se afastou ainda mais e logo ele parou e desviou o olhar. — Não é isso! É só que... Vo-você é mu-muito bonita!
Um silêncio se instaurou por um lado, mas os olhos dela iam e vinham.
— O seu nome também! Quer dizer... aaa! — Colocou as mãos na cabeça e respirou profundamente. — Quem eu quero enganar!? Eu me chamo Miguel e-e... Aaa! — O pobre coitado que se retraiu e ficou de costas, tentando “não ser visto”.
Mirabelle soltou um grande suspiro e foi até onde estavam os restos de seu vestido, rasgou uma tira grande dele, se aproximou do garoto e pôs as mãos em suas costas. — Primeiro, se cubra...
O mesmo engoliu seco o constrangimento e se virou, os dois ficaram um de frente para o outro novamente. Miguel pegou o pedaço de pano e tentou enrolá-lo na cintura, mas sentiu dificuldades, os movimentos dos braços travando a cada movimento, a coordenação dos dedos que estava uma porcaria. Ele se esforçou, mas o tecido caiu e o constrangimento aumentou ainda mais, porém Mirabelle desceu, pegou o do chão e tentou enrolar em sua cintura. — Aqui, deixa que eu faço is–
Prestes a enrolar o pano em sua cintura, aquelas mãos que via indo em sua direção desapareceram, outra coisa estava em sua frente, era grande, afiada, sufocante. — Na- não!
Um movimento involuntário seu, derrubou o pano da mão dela, ele tremeu como a criança que era.
— Você... — Ela olhou para aquilo, mas evitou conversar.
— Olha o que você fez... — Mirabelle pegou o tecido do chão e bateu para que saísse a terra que havia grudado nele. — Aqui... — Novamente foi em direção a sua cintura, ele tremia. Quando estava prestes a lhe cobrir com o pano, parou e olhou para o rosto dele. Os dois trocaram olhares em silencio, em determinado momento ele fechou os olhos e apertou os punhos. Mirabelle enrolou o tecido nele, cobrindo sua cintura, e mesmo tendo que ficar nas pontas do dedo e ele voluntariamente abaixando a cabeça, arrumou-lhe o cabelo.
Ele abriu os olhos, o medo ainda estava lá; cicatrizes que repudiava, fragmentos de memórias dos quais os traumas custavam a desaparecer. Foi tão confuso quanto à primeira vez em que se machucou, uma queda brusca, mas a culpa não foi sua, era para ser fatal, mas por pouco ele se salvou, mas permaneceu com aquele machucado pelo resto de sua vida.
— E-eu–
— Não diga mais nada... — Mirabelle o interrompeu, colocando o indicador em sua boca. — Isso não vai mudar muita coisa...
Ele abaixou a cabeça, os olhos trêmulos, calafrios que tomavam conta de todo seu corpo, soluços de um choro silencioso que conteve, olhando para o rosto indiferente dela.
— Bem, eu não posso demorar muito com as formalidades... — falou Mirabelle que segurou em sua mão.
— O– Oque?
— Não entenda isso errado... — Ela ajoelhou-se logo em seguida.
— Co- como assim!? — Não só desnorteado, agora com o rosto avermelhado, sua mente se encheu de duvidas.
— Eu, Mirabelle de Luxia... — parou por um segundo e suspirou, em seguida encostou a cabeça na mão dele. — Como Custódisa dos Antigos Guardiões de Lorium, entrego a ti minha alma por toda a eternidade e selo a minha existência à sua. — Ela encostou os lábios na mão de Miguel e uma luz dourada preencheu a caverna, as marcas vermelhas em seus corpos apareceram. — E o reconheço como meu mestre.
No momento em que ouviu, demorou a entender o que tinha escutado, mas seus olhos quase saltaram da órbita quando percebeu o que estava acontecendo. — M-me– M-me– Mestre!? — Os pensamentos se acumularam e a mente começou a entrar em parafuso, não soube distinguir se aquilo era real ou se estava em um pesadelo, não sabia se fugia ou se ficava.
— Sim, tu serás meu mestre a quem irei proteger e guardar, até que a morte nos separe, eu sou sua. — Sem medir palavras e com uma voz séria e firme, levantou o rosto com os mesmos olhos indiferentes que ele havia visto quando tiveram seu primeiro contato.
Foi muita coisa para processar. Quando a luz que tinha se expandido do selo retornou para ele, a dor que sentiu no abdômen voltou e seus olhos pesaram, o fazendo desmaiar. — Eu– Eu...