— Nunca mais faça isso! — gritou Mirabelle, que acabara de desferir um tapa em Miguel. Em seu rosto havia preocupação, já em seus olhos, medo.
Miguel ficou perplexo, não por ter apanhado, mas por ver tal face no rosto de quem para ele não diferia de uma carrasca amigável e, que estava somente o ajudando por obrigação, não por sentimentos. — Ma- Mas-
— Sem mais! Entendeu!? — Novamente gritou e o interrompeu, indo de encontro ao pescoço dele e o derrubando no chão, segurando em seu ombro e o balançando: — Estava tudo sob controle! Eu estava somente tentando achar a melhor forma de matá-lo! Você não deveria interferir!
— Ma-
Ela novamente deu-lhe um tapa no rosto. — Eu já disse que não quero suas justificativas!
Não o deixando falar, mesmo que momentaneamente, o garoto não aguentou aquele desaforo e a empurrou. — Che- Chega! — Levantou-se perante ela, que caiu arfando no chão. — Eu estava tentando ajudar! — gritou, aflito com tudo aquilo.
— Ajudar!? Você!? — Irritada. Mesmo não sentindo as mãos, com a pouca força que restava no corpo, ela se jogou em cima dele e o agarrou pelos braços. — Você sabe o que aconteceria comigo se você morresse!? Seu inútil! Você chama isso de me ajudar!?
— Você acha que eu ia te ver em perigo e ia deixar por isso!? — esbravejou, soltando as mãos dela de seus braços, fazendo-a cair no chão novamente. — Eu não fui ensinado a ser as-
Enquanto gritavam, as emoções e sentimentos à flor da pele não permitiram a ele perceber o estado em que se encontrava quem a vida pensou ter tentado salvar. — Mi-Mirabelle!? — Rapidamente desceu de encontro a ela e segurou-a em seus braços. — Ei! O que houve!? — Não houve respostas, a respiração dela estava instável, seu corpo trêmulo ficava cada vez mais frio. — O que está acontecendo!? Ei! — Balançou-a e tentou erguer seu rosto, mas ela não tinha forças para falar, mover os lábios já exigia um esforço descomunal. Preocupado, em meio à aflição, uma questão lhe veio à mente: — Energia!? — Sem nem pensar duas vezes, foi de encontro a seus lábios.
Tentar.
Bella a Eternum: O mundo além do portão.
Criado por Iako Sabat
Revisão: Iako Sabat e LuizZzZ :D.
Não demorou muito para que seu beijo fosse retribuído e as mãos dela segurassem seu rosto. Seus corpos estavam cada vez mais próximos um do outro, suas línguas entrelaçadas em meio a uma energia que se instaurava neles. Uma força descomunal, o saciar da fome. Uma energia que transbordava por seus corpos de maneira que os fazia perder o senso do tempo enquanto eram preenchidos quanto mais próximos ficavam.
— Che-Chega... — Miguel, afastou-lhe os lábios, ofegante, com os olhos fixos no rosto avermelhado de Mirabelle. Não demorou muito para que, entre o olhar dela fixo nele e o toque de seu corpo, ele a retirasse de cima de si e levantasse. — Me desculpa... Eu só... Só queria ajudar...
Olhando para si mesma enquanto o garoto cabisbaixo se afastava, ela se levantou. Em silêncio, abaixou o rosto e tentou se desfazer da vermelhidão de suas bochechas.
Não demorou muito para que fosse em direção ao garoto agachado, mas, prestes a tocar-lhe, parou antes que seus dedos chegassem em suas costas.
Novamente a fraqueza estava lá, um tremor em sua mão e braços e uma instabilidade na visão que fez com que mordesse os lábios e se afastasse devagar.
Ela sabia o porquê de precisar beijá-lo, não era um desejo carnal inconsciente, era a mais simples e pura necessidade de repor a energia que se desestabilizava quanto mais próxima dele ficava. Toda vez que se afastava dele, sua Vistria se tornava fraca, mas sua Santria se estabilizava e seu controle de Tena se tornava mais claro. Porém, quando se aproximava, sua Santria parecia se exaurir e a Tena que a rodeava se dispersava, porém sua Vistria tornava-se mais forte.
Suas forças, seu corpo, todos estavam instáveis perante aquele que tinha que guardar. Longe dele, ela era uma pessoa fraca, mesmo tendo um ótimo controle de si; já perto, era imensamente poderosa, mas frágil, suas pernas tremiam, sua respiração falhava, seus olhos não enxergavam e até mesmo falar se tornava uma tarefa árdua. Somente sentia-se revigorada quando seus lábios se tocavam e saliva trocava, pois a energia que residia em Miguel era forte, uma alma jovem rodeada por uma força tão poderosa que nem ela mensurava. Uma energia que a preenchia, a completava. A necessidade falava mais alto, mas mesmo assim era vergonhoso, era humilhante ver-se tendo que implorar por algo que era tão natural para si quanto o ar que a rodeava. Então quieta estava e assim continuou até o momento em que se virou e foi em direção à criatura morta: — Se você quiser ser útil... — Desfazendo-se das expressões e ficando próxima à criatura. — Me ajude a levar isso de volta à caverna.
Miguel virou o rosto, confuso com os pensamentos se amontoando em sua cabeça.
— O que está esperando? — perguntou, observando o rosto do garoto.
Ainda parado, olhou para ela, depois para aquele verde amarelado que o trazia uma grande insegurança, permeando-o e impedindo-o de seguir em frente.
— Se você não me ajudar, não teremos o que comer hoje. — Apontou para a criatura.
Ele olhou novamente para ela, abaixou a cabeça, apoiou os braços nas pernas e, se impulsionando para cima, levantou. Não demorou a chegar, mas quando estava próximo, percebeu Mirabelle dar alguns passos para trás, o evitando, e ficou cabisbaixo.
— Na-não me leve a mau... — Olhou para a expressão de tristeza no rosto do garoto. — É só que... Devemos evitar nos tocarmos...
Com uma inconsistência no olhar, a feição dela era difícil de ver, com o chão dando mais conforto à vista, mas não se deixou levar pela situação confusa que sua mente não entendia. Logo seus olhos se viraram para a criatura e uma dúvida veio, perguntando em seguida a Mirabelle: — Como eu vou carregar isso?
Ela ficou em silêncio por um tempo, antes de inclinar a cabeça e o responder com uma feição de dúvida: — Oras... Carregando?
— Co-como assim!? Isso deve pesar pra caramba!
— Você tem força o suficiente para o carregar até a caverna... de que importa o peso?
— Fo-força? Eu!? — Perplexo, a indiferença com que ela o respondia, sem hesitação, o deixava sem reação perante o ser maior que um caminhão.
Ele duvidava se a força que tinha era suficiente para puxar aquilo até a caverna que ficava a uns dez minutos de onde estavam. Isso se o caminho que tomassem fosse o mesmo pelo qual veio, o que seria impossível, pois o mesmo não diferia de um buraco na parede, malmente cabia um homem adulto dentro.
Mirabelle observou a preocupação do garoto, devaneando sobre sua força desconhecida, e caminhou até a cauda da criatura onde Miguel havia se segurado entre as escamas grossas e esverdeadas. — Olhe para isso aqui. — Apontou para alguns buracos que seguiam uma linha tortuosa e disforme até chegar à cintura, onde se misturavam entre as penas.
— O- Oque é isso!? — perguntou assustado.
— Não reconheces a marca de teus próprios dedos? Foi você que fez isso.
— E-Eu!? — Assustado, deu alguns passos para trás, olhando para a própria mão.
— Sim... Você.
— Não! I-isso é impossível!
Mirabelle vendo aquilo, parou por um tempo e observou Miguel falar. Uma visão estranha se formou, pois o mesmo Homem decidido de poucos minutos atrás que lhe havia desafiado, agora estava parecendo um garoto inseguro, procurando maneiras de explicar que o que acabara de constatar era um equívoco. Aquele foi o momento em que ela pensou que algo deveria ser feito.
— Olha... — Ela soltou um longo suspiro e o mirou com indiferença e, em seguida, falou: — Eu já lhe expliquei que sua situação não é normal...
Ele se calou quando a ouviu e ficou em silêncio enquanto a via se afastar da criatura.
— Seu corpo neste exato momento é uma bomba relógio que nem eu sei explicar... — Caminhou em direção a uma passagem mais ampla do que aquela pela qual chegaram.
— Eu sei as obrigações que tenho com você por estarmos nessa situação, mas... — Ela parou bem ao lado da parede da passagem, virou o rosto para ele novamente e completou: — Não posso me dar ao luxo de lhe explicar toda e qualquer dúvida que tenha... — Ela começou a caminhar e deixou o local. — Nossa relação não deve abranger nada além de nossa sobrevivência.
— Mirabelle! Espere! — Miguel correu, mas logo seus passos foram parados ao ser repreendido.
— É melhor você não me seguir. Se não conseguir mover essa simples criatura, não merece me ter como serva. — respondeu Mirabelle, enquanto o som dos passos desapareceu com o passar do tempo.
— Eu- — Um olhar inseguro tomou conta do garoto que não sabia o que fazer. A força que lhe foi mostrado ter, não era algo que se lembrasse, nem que sentisse.
Ele olhou para a própria mão e, segundos depois, mirou a criatura. Seus olhos tremiam e uma sensação de incerteza pairava no ar, engolindo preocupação e ansiedade. Não demorou muito para que o simples ato de ficar em pé se tornasse difícil.
Encarando aquele ser morto, a sensação de insegurança era forte, mas o sentimento de que algo estava errado também. Ele não se sentia impotente, muito menos fraco, mas sim tinha dúvida de sua capacidade. Quando se aproximou novamente da criatura, aquela dúvida se fez mais presente ainda: — Como eu vou carregar isso? — perguntou-se, mas não houve respostas de seus pensamentos intrusivos.
Primeiramente, tentou puxá-la, mas não demorou muito para perceber que não haveria esforço que pusesse na carne morta, tempo ou jeito para segurar por entre as escamas, que tinham a dimensão de sua mão, que faria aquele bicho se mover.
Ele então decidiu empurrá-la, mas não tinha apoio onde a cabeça da criatura estava. Tentou a parte traseira do animal, mas o fedor e os gases acumulados na criatura o fizeram evitar aquele local. No final, optou pela barriga, apoiou a mão por entre uma parte do couro exposto e empurrou, era pesado, seus braços tremiam, suas mãos escorregavam, as pernas fraquejavam, a respiração farfalhava, o suor escorreu por entre o rosto e uma dor intensa tomou conta de seu corpo. — M-Merda! — Impotente, frustrado, gritou ao passo que seus pés escorregavam no chão e sentia que não estava saindo do lugar. Ele trincou os dentes, desceu as mãos pressionando o corpo da criatura, tensionou os braços e pernas, flexionou os joelhos e pôs todas as forças que tinha no ato de se levantar, empurrando a criatura junto a si mesmo para frente. — AaAAA!
O corpo do ser morto começou a se mexer, seus braços pareciam que iam se dilacerar, os pés sendo esmagados impulsionavam as pernas que vacilavam, quanto mais avançava. Seus olhos, firmes, tinham a visão presa naquela parede de carne em sua frente, enquanto respirava pausadamente a cada movimento.
— Urgh! — Uma contração no abdômen veio, entre o suor e os olhos fechando enquanto apoiava a criatura com o antebraço e punha a mão na barriga, escorregou. — Meeeerda! — Gritou com um peso infinitamente maior do que tudo que já carregou na vida, esmagando-o. Aquela era uma situação desesperadora, sentindo a pressão em seus membros, não só as veias sobressaltadas estourando por todo o corpo o enlouqueciam, como os ossos e os músculos estralando e torcendo o fizeram confirmar que aquele seria o seu fútil fim.
Mas um sentimento lhe veio à mente, uma lembrança carregada de emoções ao lembrar do rosto da pessoa que mais amava, que agora não poderia mais ver. A mesma mulher de cabelos castanhos que lhe deu amor e carinho, que lhe protegia e que ficava cada vez mais distante. — E-Eu– EU! EU NÃO VOU MORRER! — gritou o garoto. — Mamãe! — Um sentimento forte e poderoso acompanhou a força que vinha junto à dor. — Eu vou voltar! Eu tenho que voltar! — Os músculos que antes estavam sendo forçados como se tivessem que segurar o mundo, ficaram leves, as pernas que custavam dar forças para os pés se moverem, agora estavam firmes, e os pés acompanharam os olhos dele se abrindo e impulsionaram seu corpo à frente, rolando a criatura em direção à passagem pela qual Mirabelle tinha ido. — AaaAaaaAAA! — Um grito de dor, mas acompanhando um sorriso de dentes fechados e olhos determinados, junto ao suor que escorria de seu rosto, em empurrar aquele ser enorme para frente, adentrando a passagem mais aberta.
— Por aqui. — Falou Mirabelle, que estava mais à frente, em uma parte elevada, uma encruzilhada, esperando-o.
Miguel olhou surpreso e ao mesmo tempo assustado, mas não deu tempo para emoções, pois qualquer descuido a criatura parecia que escorregaria e cairia em cima de si. Ele a empurrou e esforçou-se o máximo que pôde, seus pés voltaram a escorregar, a Criatura não só era maior, estava sobre si e como agora estava a empurrá-la na diagonal, as pernas voltaram a vacilar, porém não estava tão fraco quanto antes, mesmo tendo que dobrar o esforço, avançou contra os braços que volta e meia tremiam e as mãos que escorregavam, parecendo que o fariam rolar de volta ao ponto inicial.
Ele subiu, entre o suor de seu rosto e o respirar tenso. Uma sensação que não era cansaço aparecia, o esforço, cada passo que dava, com seus pés deixando um buraco por onde pisavam, era carregado de um prazer indomável de avançar ainda mais. Um sentimento forte que durou até a última rolada que a criatura deu antes de cair na parte plana daquela encruzilhada.
— AaA– AaAaaAa! — Sentindo como se cada molécula de seu corpo estivesse prestes a explodir, gritou, gritou e apoiou-se sobre as pernas, arfando e tentando manter-se em pé.
Mirabelle, que estava ali ao lado, mas longe, esperou-o recompor-se.
— Ainda não terminou. — falou quando percebeu sua respiração estabilizar. — Siga-me, o caminho por aqui não parece ser tão grande quanto o pelo qual viemos. — Não dando tempo nem de Miguel levantar o rosto para ver por onde seguir, ela se afastou.
— E-Espe– — Ele tentou, mas antes que pudesse sequer levantar a mão, teve que deixar seu cansaço de lado e voltar a empurrar a criatura antes que perdesse Mirabelle de vista.
O caminho por onde seguiram era mais amplo, cabia muito bem duas ou três criaturas iguais àquela uma do lado da outra, mas ainda assim não diferia das outras passagens. As paredes altas, o brilho do sol quase imperceptível, a vegetação rasteira e a areia, um ambiente escuro e árido que o acompanhou até que chegasse à frente da caverna pelo lado oposto ao que saiu.
— Me espere aqui. — Falou Mirabelle, que entrou por uma das várias passagens menores que havia por ali.
Miguel só fez soltar a criatura e cair no chão, tentando acalmar os músculos gritando de dor e segurar o ar no pulmão que não o permitia respirar.
Levou um tempo até que tudo se estabilizasse, ele sentia a cãibra nas pernas e nos braços, era como se não lhe pertencessem mais, pois a cada movimento que davam eles travavam e não obedeciam à ordem de sua mente cansada.
— O- Oque foi que eu fiz? — perguntou-se, apoiado naquela criatura enorme, descrente que havia a empurrado até ali.
Ele se levantou apoiando-se nos joelhos, uma tontura repentina veio, mas logo se foi quando pôs a mão na cabeça. Olhou para as próprias mãos e depois para o corpo daquele animal morto e tentou entender o que havia acontecido, mas não conseguia sequer pensar o porquê de ter toda aquela força.
— O que está fazendo? — Mirabelle retornou com uma das pedras brilhantes na mão.
— E-eu? Eu... — Miguel não soube responder, seus olhos ficavam indo e vindo na direção de sua mão.
— Não importa, afaste-se.
— A-a Certo... — Cabisbaixo, olhou-a se aproximar do corpo do animal assim que ele afastou-se dele, mas reparou a pedra na mão dela e uma pergunta se sucedeu: — Es-espera! Essa é uma das pedras que eu guardei?
— Sim.
— O-oque vai fazer com ela!?
O olhar indiferente se fez presente com aquela pergunta que para ela era impossível de ser feita. — Eu não deveria ter que lhe explicar algo tão simples... Mas pelo visto, sua capacidade mental ou é limitada, ou lhe falta o básico de compreensão do que energia é.
Miguel pensou em gritar, mas estava muito cansado para se sentir ofendido.
— Que bom que não se ofendeu com sua própria incapacidade cognitiva, seria irônico e vergonhoso ao mesmo tempo.
Ele ficou calado com aquilo, justamente porque não havia compreendido.
— Essa pequena pedra aqui tem uma alta condução de energia. — Mirabelle falou ao ponto que a pedra começou a emanar um brilho incandescente. — Se bem manipulada e com a aplicação da densidade de Vistria correta, é possível moldá-la... — A luz ficou maior ao ponto de Miguel tapar os olhos para não se cegar e, no final, quando ela diminuiu, uma faca estava na mão de Mirabelle — Assim.
Perplexo, não havia forças para reagir.
— Agora me deixe fazer a minha parte. — Virou-se, mas antes de começar, apontou para uma das três passagens menores do outro lado da entrada da caverna: — Atrás daquela passagem está uma pilha de galhos e madeira que podem ser utilizados para acender a fogueira.
— O- Oque é para eu fazer?
— Você está mesmo me fazendo esta pergunta? — Pôs a mão na cabeça e o olhou com impaciência.
— N-não! Q-quer dizer! Eu estou indo! — Miguel correu na direção a qual apontou, mesmo com o corpo volta e meia travando, foi em busca de madeira.
Mirabelle então começou um delicado e árduo trabalho. A faca que empunhava era muito afiada, começando pela cabeça da criatura, ela retirou o bico, qual viu utilidade, e descartou o resto. Foi pelo pescoço que desceu em direção à barriga e, em seguida, à cauda, rasgou-a de ponta a ponta, jogando para fora as vísceras daquele animal. O sangue já coagulando rumou ao chão, junto do intestino e entranhas quais separou, assim como o pulmão e o coração do mesmo. As patas, as asas, as garras, as escamas afiadas e duras, as penas, um trabalho demorado que acompanhou o elevar e se pôr do sol, e Miguel ali, sentado um pouco distante, perto de uma pilha de madeira das mais variadas quais havia recolhido, observava o trabalho dela em silêncio.
Não demorou muito para que terminasse, limpando o suor de seu rosto com o antebraço e separando as partes que determinou serem comestíveis em cortes menores. — O quê? — Mirabelle se virou e deu de cara com Miguel, sentado num canto, ao lado da pilha de madeira e com o rosto sonolento.
Ela pegou um pouco de madeira e entrou, deixando-o do lado de fora, dormindo. Indo em direção à fogueira, separou as cinzas do que ainda restava de madeira queimada, refez a lateral, usou as pedras maiores que Miguel havia escavado na noite anterior e pôs a madeira ali dentro.
Um tempo depois, voltou e pegou um pouco mais, antes de parar novamente em frente à fogueira. Entre os galhos, achou dois o mais parecidos possíveis, e que ainda não estavam secos e quebradiços, para usá-los como forquilhas. Quando estava pronta, pôs a mão sobre uma das pedras que começou a brilhar e, em instantes, a claridade dela junto a estalos fez com que fogo surgisse.
Não demorou muito após escurecer, junto ao frio, para que Miguel acordasse tremendo e com os braços e pernas atrofiados. Olhando para os lados, acabou por se assustar quando viu a carcaça da criatura à sua frente, com os ossos quebrados, o couro pendurado em uma parede e sustentado por algumas de suas costelas, as entranhas e outras partes empilhadas e os ossos organizados no canto. Mas isso não foi o que o chamou a atenção, a garota não estava mais lá: — Mi-Mirabelle?
Não demorou muito para que o cheiro que vinha de dentro da caverna, de onde uma pequena chama iluminava a entrada, o fizesse levantar e entrar. A fome de dias se fez presente e seus olhos chegaram a brilhar, enxergando de longe aquela carne vermelha, em um espeto, preso nas duas forquilhas, sendo girada enquanto pingava gordura na brasa.
— Mi-Mirabelle... Eu- — Sem o que falar, aproximou-se, mas logo foi interrompido.
— Fique onde está, quando eu terminar, lhe darei sua parte. — falou Mirabelle, que o mirou antes de voltar a assar a carne.
Miguel então se sentou um pouco afastado, mas não muito longe do calor que a fogueira proporcionava. A caverna que na noite anterior estava iluminada e repleta de luz, agora estava apagada e escura, o silêncio acompanhou o som do estalar da madeira, se desfazendo no calor das chamas, cujo brilho chegava até as paredes junto às sombras distorcidas. Aquele único foco de luz à sua frente, onde enxergava Mirabelle, quieta, vestindo os mesmos trapos e ainda coberta de sangue, suspirando e preparando sua comida.