Não havia nada, nem ninguém, somente uma única cor, branco, estava tudo branco enquanto sentia em seus cabelos um toque caloroso. Uma mão delicada acariciava seus cabelos, um sentimento confortável que envolveu todo o corpo.
O balançar de suas cobertas quentes, a sensação e o conforto de deitar em uma cama. A respiração serena de um ambiente acolhedor, o teto amadeirado para o qual olhava e uma pessoa que o acordava, chamando seu nome: — Miguel... Acorde, meu filho.
Deitado no chão duro, com a cabeça rente à parede e cobrindo o rosto com as mãos repletas de arranhões, Miguel abriu os olhos.
Refletir
Bella a Eternum: O mundo além do portão.
Criado por Iako Sabat.
Revisão: Iako Sabat e LuizZzZ :D.
— Ei, você está me ouvindo? Acorde... — A voz que acompanhou o seu despertar, diferia e muito da que tinha ouvido em sonho. Mirabelle, que tentava acordá-lo, cutucou seu rosto coberto de sujeira com um graveto: — Vamos, garoto, levante-se... — Coçou os ombros, olhando-o se erguer com dificuldade. — Eu terminei de preparar nossa comida, você ao menos tem que se alimentar...
Seus braços não estavam mais inchados, nem suas pernas, mas ainda era limitado à dor que acompanhava cada movimento dado. Estava pesado, sem apoio, não havia nada para segurar além da parede ao lado. Um sentimento estranho acompanhou o seu levantar, não era tristeza, nem frustração, mas em seus olhos faltava algo.
— Eu– — Assim que ficou em pé, palavras vieram à mente, sentimentos quais tentou expressar, mas antes mesmo de abrir a boca, foram caladas.
— Venha... — Mirabelle virou-se e foi em direção à fogueira, não lhe dando tempo nem de olhar para seu rosto.
Em silêncio, viu-a se afastar, um amargor desceu-lhe pela garganta. Antes mesmo de segui-la, parou e se sentou ali mesmo.
— O que está fazendo?
Não houve respostas, somente o abaixar de sua cabeça.
— Garoto, está tudo bem?
O silêncio persistiu junto ao estalar da madeira queimando e as sombras se movimentando nas paredes, indo e vindo com a intensidade das chamas. O cheiro da carne impregnando o ambiente era de abrir o apetite, mas não parecia que nenhum dos dois estava preparado para comer algo.
—O que foi dessa vez? — Preocupada, aproximou-se dele. — Se você não me falar o que está lhe incomodando, não vou poder lhe ajudar. — falou, pondo um pedaço de carne que havia enfiado em um espeto, em sua frente: — Aqui.
Miguel levantou o rosto e teve calafrios quando vislumbrou aqueles cristais azuis se destacando na escuridão.
— Ao menos coma algo. — Ela balançou o espeto e, reparando o quanto aqueles olhos indefesos a miravam, tímida, virou o rosto. — Vamos... Meus braços estão cansando…
— Obrigado... — Entre a hesitação de sua mão que se abria e fechava, pegou, sem jeito, o espeto. A carne exalava um delicioso aroma que preenchia-lhe as narinas, A gordura pingava no chão junto a um misto de cores amarronzadas que serviam de deleite aos seus olhos, mas ainda assim era difícil sentir fome. Até esse simples alimento trazia sentimentos que não podia descrever, lembranças que não conseguiu negar e que acompanhavam o cair de seu rosto. Os dedos não tinham forças para segurar aquele graveto tortuoso. A gordura escorreu por entre eles, o forçando a fechar o punho para segurá-lo, o pulso enrijeceu seguido por movimentos involuntários como se estivesse sendo puxado por cordas. Mirabelle, sem perceber, virou-se e retornou à fogueira.
Ele olhou para ela, se distanciando e se sentando, entre idas e vindas de seus pensamentos, hesitava levantar. A escuridão que o rodeava era acolhedora perante a presença daqueles olhos azuis e amedrontadores que iluminavam sua frente.
— Não fique no frio, venha até aqui e sente-se... — falou, cobrindo a boca com o antebraço, enquanto mastigava.
Mesmo tentando, não conseguiu negar a fala que viu como ordem, devagar se levantou e, no meio de tropeços dos movimentos travados de suas pernas, aproximou-se e sentou um pouco afastado.
Era pequena, as pedras amontoadas formavam uma pequena contenção para o fogo. As tortuosas forquilhas, feitas dos galhos de alguma árvore escura, seguravam um grande espeto, que não diferia de um tubo de aço, de tão reto que era – mas era madeira – e que assava a carne. A gordura que pingava fazia as chamas subirem, assim como as sombras que criavam. Aquela fogueira não servia como a melhor das fontes de calor, nem iluminava o suficiente para se ver mais que quatro palmos de distância, mas ainda assim era útil para os dois, pois os aqueceria o suficiente naquela caverna escura e úmida.
O calor aos poucos chegou perto de si, mesmo sendo pouco, aquecia-lhe o peito e iluminava-lhe o rosto, mas não fez com que o frio e umidade em suas costas desaparecessem, nem evitou o vento gelado de retrair os já tão doloridos músculos de seus braços. O único conforto que sentiu foi quando olhou para a carne, não demorando a salivar.
— Coma... Não irá lhe fazer mal. — Mirabelle pegou pequenos pedaços da carne e os cortou com a faca que havia formado tempos atrás. Ela mastigava em longos intervalos com os olhos fixos em Miguel.
— Eu... — Mesmo com o incentivo, houve acanho, seu rosto se retraía quando ficava de frente para ela e para a carne em mãos, era difícil forçar o punho para não abrir. — Eu... Eu posso? — Sentindo o aroma cada vez mais presente no ambiente, os pensamentos de abocanhar um grande pedaço e mastigá-lo como se aquela fosse sua última refeição começaram a brotar: — Só... Só um pedaço... — A boca foi se abrindo aos poucos, era difícil engolir a saliva que tinha se acumulado, devagar aproximou a carne, o espeto parecia que escorregaria de sua mão enquanto a saliva caía em seu corpo. Ele abocanhou o máximo que pôde e se perdeu no sabor. Leve, foi como morder um bife de alcatra ao ponto, uma textura macia que derretia na boca e detentora de um sabor tão único e delicioso que não o permitiu se conter, dando para aquela mente fraca e cansada o estímulo animalesco de uma fera em cativeiro, sendo agraciada com um pedaço de carne. Entre a saliva que preenchia sua boca e o mastigar desengonçado, a carne se desfazia junto a lágrimas. Quando se deu por conta, estava olhando para a própria mão com o galho partido ao meio e os restos de carne espalhados pelo chão.
— Aqui. — Mirabelle lhe deu outro pedaço que já havia separado. — Controle-se, pois a fome pode lhe enganar...
Ele passou as mãos nas pernas, tentando limpá-las, a dor ainda estava lá, mas já não o ocupava tanto a mente. — O-obrigado... — pegou com todo o cuidado, mas antes de chegar a morder mais um pedaço daquela carne suculenta, virou o rosto e chamou por seu nome: — Mi-Mirabelle...
— Sim?
— D-desculpa perguntar, m-mas... — Seus olhos inseguros tremiam, não conseguiam confrontá-la, sua voz falhava e os pensamentos se acumulavam, mas logo uma pergunta veio: — Po– Por que está fazendo isso comigo?
Mirabelle parou de mastigar e ficou perplexa. Entre o balançar do rosto e o passar das mãos sobre os olhos, limpando as vistas, piscou algumas vezes e quase deixou a carne que segurava cair. — O que foi que ele acabou de me perguntar? — pensou, colocando as mãos sobre os joelhos cruzados.
A reação dela não foi a esperada, devido ao silêncio, o garoto não soube o que falar, coçava a cabeça e olhava para o chão.
Mirabelle balançou o rosto e tossiu um pouco, piscou os olhos mais algumas vezes e, após limpá-los novamente, respirou fundo antes de respondê-lo: — Vo... Você não sabe? — perguntou, inclinando a cabeça repleta de dúvida e descrença.
Ele respondeu balançando a cabeça, negando, não havia nada na mente que conseguisse pensar naquela hora.
— Ele se esqueceu? — Os olhos atônitos não a permitiam esconder a surpresa, não demorou muito para que respondesse: — Eu sou sua serva.
Miguel se espantou com a resposta: — S-Serva? Co– Como assim!? — perguntou.
— Eu não lhe disse isso ontem? Você realmente não sabe o que fez?
— Eu?
Mirabelle parou por um minuto, olhou para o rosto inseguro dele e a surpresa foi tamanha que custou manter a compostura, em meio a uma resposta tão improvável quanto aquela.
— Garoto...
Buscando uma resposta para sua pergunta, Miguel tentou vencer a insegurança e levantou o rosto.
— Quando você me pediu para aquele portão, um laço se formou entre nós.
— La– Laço?
— Sim... Esse laço é como uma promessa que não pode ser desfeita, até a nossa morte.
Aquela informação que recebeu o assustou, o silêncio que acompanhou o apoiar de suas mãos sobres os joelhos cruzados, carregava uma responsabilidade que tentava amenizar com palavras: — Ma– Mas Eu... Eu não fiz aquilo– — Olhando para o chão, desnorteado, antes que pudesse completar a frase, foi interrompido.
— Eu não me importo muito com o que aconteceu, então não tente justificar e nem se desculpar por isso. — Mirabelle apontou o espeto que tinha na mão para ele: — Não se apegue muito ao passado, ou viverá preso em emoções e sentimentos que não poderá conter quando mais precisar...
Os dois ficaram em silêncio por um tempo, Miguel olhava para as chamas em sua frente, os tons de vermelho e amarelo se misturando, a pouca fumaça que subia desaparecendo na escuridão, a madeira se desfazendo em cinza.
— Eu... Eu... — Seu rosto abaixou junto a seus braços. — Eu quero voltar pra casa... — falou, fechando-se como um casulo.
— Esqueça sua casa. — proferiu entre um mastigar lento e o corta de um pouco mais de carne: — Ninguém entra ou sai da Terra.
Miguel levantou o rosto surpreso. — Co– Como assim?
— Você ainda não entendeu sua situação?
Ele negou com a cabeça.
— Você está no Supramundo, garoto. A terra é um dos poucos lugares que não se pode acessar daqui.
— Então... Quer dizer… Que eu não vou voltar?
— Sim...
A madeira estalou e as chamas subiram.
— É melhor esquecermos os acontecimentos ruins que nos acompanharam até aqui...
Após ouvir aquelas palavras, sentiu um calafrio tão intenso no corpo que dores revisitaram seus membros inferiores, fazendo-o se ajoelhar. Uma contração na perna o impulsionou à frente e o fez se desequilibrar e derrubar a carne que segurava: — Eu– Eu–
Observando a reação dele, não demorou muito para que olhasse para baixo e soltasse um longo suspiro: — Eu sei que não fomos unidos por nossa própria vontade... — Ela parou por um instante e olhou para o alto. — Mas temos que aceitar...
— Eu não queria nada disso! — Apoiou as mãos no joelho e tentou conter aqueles sentimentos que o preenchiam.
Mirabelle engoliu a carne com um amargor, arranhando sua garganta. Mesmo com a fraqueza tomando-lhe o corpo, aproximou-se de Miguel.
Entre os soluços e lágrimas dele, pôs a mão em seu ombro, mesmo custando para manter a compostura enquanto suportava o esvair de sua energia.
— Eu não vou lhe julgar, mas se Deus lhe permitiu chegar até aqui, é porque seu propósito nesse mundo ainda não foi cumprido.
Miguel levantou o rosto ao ouvir aquelas palavras. Diante daqueles olhos azuis, tão brilhantes quanto uma pedra de turmalina, aquela palavra fincou em sua mente: — Pro– Propósito?
— Sim, todos os seres da Criação têm um propósito...
Sua visão não se desviou e seus ouvidos escutaram atentamente.
— É aquilo que nos move, mesmo quando não temos forças, mesmo que sua energia se esgote…
— Eu... — Mesmo que tentasse entender, sua mente tornava difícil manter os olhos firmes.
— Olhe para mim. — Mirabelle apertou-lhe o ombro, foi instintivo, mas fez com que ele prestasse atenção em si e levantasse o rosto: — Não fique triste pela perda, agradeça por ainda estar vivo...
— Eu–
— Faça com que o seu propósito seja grande o suficiente para que não sinta as perdas que o acompanharão! — Ela o balançou tão intensamente que se desequilibrou, caindo em cima dele, já arfando, logo depois parou e sussurrou: — Para que isso não seja só uma grande perda de tempo... — Suas últimas palavras foram seguidas de um aperto no coração, seus braços tremiam, sua mão estava fraca e quase não o segurava mais, enquanto em seus olhos azuis o rosto medroso de Miguel era refletido.
— Eu... Eu... — Entre o sentir da respiração dela e o calor de seu corpo, preso em uma dor que percorria todo seu ser e um peso que não o permitia raciocinar, timidamente falou: — Eu vou tentar.
Mirabelle ficou com as bochechas avermelhadas de frente para seu rosto, os dois aproximaram-se mais, guiados por um impulso que não respondia à racionalidade, mas que ela teve que conter, afastando-se cambaleante: — Você– Você deve fazer isso… — desviou o olhar e voltou a seu lugar.
Miguel ficou preso naquela posição, novamente olhando para o mesmo local onde Mirabelle estava, fixo na mesma direção de seus olhos, estendeu a mão para o alto, abrindo-a e fechando. Entre a visão da escuridão em sua frente e a lembrança do rosto dela: — Pro... pósito...
Ele desceu a mão e apoiou-se no antebraço, levantou devagar e pegou o espeto em meio à terra, limpou o que conseguiu da carne e comeu do jeito que pôde. Fixo em Mirabelle que tinha fechado os olhos, sentada com as pernas cruzadas e respirando pausadamente.