Sentimentos.
Bella a Eternum: O mundo além do portão.
Criado por Iako Sabat
Revisão Iako Sabat e LuizZzZ :D.
Verde, seu arredor estava verde e vermelho como as folhas de uma amendoeira, aquela enorme e imponente árvore que estava em sua frente.
— Mas o quê? — perguntou atônito o garoto de cabelos castanhos, olhando para cima e vendo as púrpuras folhas caírem em meio àquele ambiente familiar.
— Onde... — Olhou ao redor e mirou no chão onde seus pés tocavam a terra escura repleta de folhagem. Ele se virou para uma bola de futebol surrada pelo tempo e os dois tijolos em paralelo, ao lado da parede verde caqui de uma velha casa com o telhado laranja. — Vo... Vô? — falou o jovem ao ver a silhueta de um senhor de cabelos grisalhos e bigode avantajado. O velho caminhava pesarosamente, arrastando a sandália de couro no chão, enquanto consertava a gola de sua velha e amarela camisa três quartos, tirando a boina marrom do bolso de sua calça jeans e pondo no rosto onde não havia felicidade.
— Vô! Espere! — gritou o garoto que correu em sua direção, mas que não conseguiu alcançá-lo antes que virasse a esquina da casa. — Espera vovô! Eu quero falar com o se– — Apressado para ver o avô, quando virou a esquina, o senhor estava parado, de frente para outro velho de cabelos grisalhos. Ele era mais alto, mais forte, seu bigode não era tão grande quanto, mas sua barba quase lhe cobria o pescoço.
— Vovô? Hoje é dia de missa? — sussurrou, escondendo-se atrás da parede para que não o vissem.
— Eu não sei mais o que fazer, Miguel... — falou o senhor de barba longa. — Se já não bastasse meu filho... Agora meu neto também... Eu... Eu não sei o que Deus quer de mim meu amigo... — As palavras pausadas carregavam um ar pesado, os olhos do senhor de barba não estavam firmes, seu corpo era como uma rocha ancestral fixa, mas seus olhos carregavam uma tristeza sem igual.
— Não se culpe pelo Erivaldo, Aldo... — respondeu o velho chamado Miguel, pondo o braço no ombro do amigo: — O Miguelzinho com toda certeza está bem... Deus é por nós... — Nenhum dos dois estava na melhor das condições, mas tinham que se segurar, aqueles dois Homens não podiam se dar ao luxo de desabar.
— Eles estão falando de mim? — sussurrou o garoto atrás da parede.
— Mesmo assim Miguel! Aquele desgraçado do meu filho não podia ter feito aquilo! Se já não bastasse o vício! Ele ainda abandonou a família! — gritou Aldo desferindo um soco na parede ao lado deles. — E agora o Pequeno sumiu... Como eu vou olhar para os olhos da minha nora? ...Como?
— Acalme-se... Ele vai aparecer... Deus cuidará dele, meu amigo... Seja lá onde nosso netinho estiver, Jesus o protegerá... — Retirando a mão do ombro do amigo e olhando para o depósito de taipa, coberto por folhas de coqueiro secas, as paredes não eram pintadas e as janelas eram tapadas com cerca aramada. — Você ainda tem aquele Bisco que eu te emprestei? — perguntou.
— O que?
— Estou perguntando se nesses dias você está limpando o seu terreno? Seu meia colher preguiçoso... Aquele matagal na frente da porteira não me deixou entrar...
— Miguel! Como pode pensar em capinar numa hora dessas!? Seu neto está desaparecido!
— O seu também...
Aldo deu um passo para trás.
— Nosso netinho sumiu... Mas isso não é motivo para deixar o mundo passar por cima de você como uma carroça de boi meu velho amigo... — Miguel pôs a mão na coluna e a empurrou, logo depois esticou os braços: — Vamos tirar um pouco a poeira desses ossos... Eu estou velho demais pra morrer de preocupação...
— Ma– Mas e sua filha? — perguntou Aldo vendo o velho Miguel indo até o armazém e pegando do facão a enxada.
— Ela já não está com a sogra? Melhor eu não me envolver... — Saiu do armazém com o bisco na bainha. — Eu não sou o melhor em confortar mulheres... — Um olhar vago acompanhou o suspiro pesaroso que soltou enquanto punha a enxada no ombro e virava-se para seu amigo: — Vamos fazer o que sabemos de melhor... Trabalhar.
Aldo coçou a cabeça e respirou fundo: — Você não tem salvação mesmo... — suspirou, indo em direção ao depósito, pegar suas ferramentas.
— Isso não está certo! Eu estou aqui... Eu estou aqui! — Um formigamento tomou conta de suas costas rente àquela parede fria, entre a incerteza e a insegurança, seus pés se moveram, seus braços se afastaram da quina à qual se escondia e jogaram-no em direção aos avôs — Vovôs, esperem! Eu estou aqui! — Gritou o garoto que se deparou com eles em sua frente, quase se chocando com os dois. Pondo a mão frente ao rosto, tentou se esquivar do impacto.
— Você vai arrancar aquele pé de amêndoa?
— Eu já disse a você que foi um presente do Miguelzinho, eu nunca vou cortar aquilo, mesmo que minha casa caia.
Um desespero percorreu todo o seu corpo: — I-isso– — Os braços e olhos ficaram trêmulos, as pernas cederam ao ver seus avôs passarem por si como se não houvesse alguém na frente deles. Os dois se afastaram, conversando em direção à porteira, enquanto caía de joelhos no chão. — Na– Não! — Uma dor diferente tomou conta de si, aquela terra tocando seus joelhos, o vento que balançava as folhas da amendoeira, as folhas que caíam sobre seu corpo: — Isso não pode estar acontecendo! Eu estou aqui! Eu estou aqui! — Olhando para as costas de seus avôs, ele estendeu a mão e tentou os agarrar, mas não havia forças em suas pernas que o fariam levantar, nem coragem para que gritasse, somente pôde morder os lábios e segurar aquele misto de emoções que tomavam conta de seu rosto.
O ambiente caloroso e familiar da roça não o trazia mais conforto, porém uma voz longínqua o fez ignorar seu próprio sofrimento.
— Ma– Mãe? — O garoto se levantou cambaleante, entre um passo e outro adentrou a simples casa de seu avô. Não havia ninguém na sala, o terço de madeira pendurado no crucifixo se destacava na parede amarronzada. Uma pequena Imagem de Maria Santíssima em cima da rústica cômoda de jacarandá, rodeada de fotos da família, só não se destacava mais do que aquela grande e prateada televisão de tubo, desligada. Os dois sofás, forrados com lençóis velhos, e as almofadas de pano, tinham em cima algumas malas que ele logo reconheceu e sua visão se voltou da sala completamente vazia para a cozinha de onde um soluço ecoava.
Seus pés se arrastavam ao passo que o corpo não respondia a seus comandos. O ar ficou escasso quanto mais se aproximou daqueles azulejos azuis iluminados pela pouca luz fraca das venezianas. Havia um peso que carregava no corpo, tão grande e difícil de expressar, ao olhar para aquela mulher de cabelos castanhos e olhos dourados em prantos. A mesma que acariciava os cabelos dele antes de dormir e o apoiava quando tinha problemas. A mesma Mulher que o Deu à Luz e que o criou como pôde enquanto sofria o amargor de ter sua família destruída e suportou todas aquelas dificuldades com um sorriso no rosto.
Ele tentou tocá-la, seus braços se moveram instintivamente em direção ao ombro dela. — Ma– Ma– Mãe! — Era doloroso, tão doloroso quanto manter a mão estendida em sua direção. — Não chore! — Seus passos se tornaram cada vez mais arrastados, sua respiração instável. — Por favor! Não chore... — Um calafrio percorreu todo seu corpo, um aperto no coração que o fez desabar ao lado dela quando sua mão atravessou-lhe o ombro: — Eu estou aqui! Não chore minha Mãe! — Ele caiu de joelhos perante a Mãe que não podia confortar.
— Mãe! — Olhando para o escuro da caverna em que estava. — Mãe... — Lágrimas escorreram de seus olhos iluminados pela pouca luz que penetrava as finas arestas no teto. Ele ergueu a mão para o alto, desafiou o braço rígido e tentou de todas as formas agarrar a lembrança da mulher com quem tanto se importava: — Por favor! Por favor! Deus! — Os olhos foram pressionados pelos músculos enrijecidos do rosto, em meio à dor e agonia, somente uma coisa lhe vinha à mente: — Ela não merece isso! Ela não merece isso! Por favor! Não deixe minha Mãe sofrer! — suplicou o pobre garoto estirado no chão duro, o braço rígido era só um detalhe dentre os membros que não lhe obedeciam. As costas estavam presas ao chão como se em cima de si houvesse uma montanha o pressionando o tórax, suas pernas, pés, não havia nada, nem mesmo a mão que estendia para o alto. — Por– Por fav– !
Um choque percorreu-lhe todo o corpo, um revés acompanhado de cãibras: — AaaaAAaaaA! — Estava escuro, as luzes se apagaram, suor escorreu e uma vermelhidão tomou conta de seu corpo, os movimentos involuntários, os olhos trêmulos, seus dentes trincaram olhando para o alto enquanto gritava: — Po– Por– FaAaaA– OooOo! El-a NaaAaã– OOo– oO– Me– IsSoOo–
Mirabelle que estava do lado de fora, organizando os ossos da criatura que dissecara no dia anterior, correu para o interior da caverna assim que ouviu os gritos: — Garoto!? — O corpo gelou quando o viu se contorcendo no chão, mas sem hesitar foi em sua direção e pegou-o nos braços. Tentou ao máximo conter sua convulsão, mas falhava em segurar seus membros que a golpeavam: — O- O que está acontecendo!? — Jogou-se em cima dele: — Pa– pare de se contorcer!
O corpo de Miguel era maior que o seu, e ele tinha mais força, o que a derrubou logo em seguida. — Droga! — Ela se levantou e tentou pará-lo, mas algo estava diferente e um questionamento surgiu: — Espera! Mi-minha energia! — Em um vislumbre da firmeza no aperto das mãos, reparou que não havia fraqueza ao respirar e a mente estava tão limpa como há alguns minutos atrás.
Frente ao rosto em agonia de Miguel, não teve tempo para pensar em limpar seus lábios cobertos por saliva. Entre o desespero e a angústia, beijou-o e um brilho intenso a permeou, tão forte foi que encandeou toda a caverna. A energia que fluiu por seus lábios como um rio indomável, uma correnteza, não se conteve em atravessar-lhe as veias como uma espada afiada, preenchendo-a e jorrando de suas escápulas como um jato de água sendo expelido de uma rachadura em um tanque pressurizado. Filetes de energia apareceram como asas, três pares, imensas e de brilho tão intenso quanto à luz do sol.
Foi difícil controlar, aquela quantidade nauseante a deixava com a respiração instável, tornava difícil até mesmo manter os olhos abertos.
Não demorou a luz diminuir e aquelas asas que brilhavam como se não houvesse limites, desaparecessem como poeira no ar junto a seus lábios se separando: — E– Ei! Você está bem? — perguntou Mirabelle, olhando para o rosto em prantos de Miguel.
— De– Deus! — Sua mente não raciocinava, não havia o que responder, olhando para frente como se ela não estivesse ali, ergueu o braço novamente. As lembranças não se apagaram, a saudade permanecia, penetrava sua carne, fazia sua boca abrir, suas escleras cobertas de veias arderem e os dedos de sua mão travarem abertos para o alto. — Por favor! Não a deixe– Não– a– dei– sofrer... — Seus olhos fecharam assim como se abriram. Ele desmaiou nos braços de Mirabelle que o olhava com espanto.
— Ma– Mas que merda está acontecendo!? — Perguntou-se, com as mãos tremendo, segurando-o, adormecido.
Atônita, a espontaneidade daquela situação acompanhou os questionamentos que fazia: — Ele acabou de se sobrecarregar? Não! Não é possível ele produzir essa quantidade de Vistria! — A respiração ficou oscilante, uma inquietação percorreu todo seu corpo em agonia, ela negou com aquele brilho cristalino direcionado para o alto: — Ei! O que você quer desse garoto? Isso já não é demais!? Ele vai morrer desse jeito! Você está me ouvindo!? — Seus questionamentos não encontraram respostas no silêncio ensurdecedor que permeava seus arredores. Vendo que não adiantaria gritar para os céus, virou-se para Miguel e para seu abdômen, imóvel, e pôs a mão em seu peito e não o sentiu mover, abruptamente colocou o ouvido frente ao seu nariz e não sentiu o vento soprar: — Ele não está respirando! — gritou e foi com o ouvido em seu peito e ficou em silêncio. Aquilo não era possível de se medir, o som que ouvia era tão brusco quanto o trovejar de uma tempestade, seus batimentos tão intensos quanto uma correnteza incontrolável: — Impossível! Se isso continuar assim, ele vai morrer!
Mirabelle correu impulsivamente para fora da caverna, mantendo os olhos na direção em que ele estava. Suor escorreu de seu rosto a cada passo curto que deu, entre tropeços e pressa, esbarrou na pilha de ossos que acabara de organizar, pegou um pedaço do mais pontiagudo que encontrou e voltou correndo para dentro. Ela se pôs em cima dele, sentou-se entre o abdômen e a cintura, e sem dar tempo para a tragédia, enfiou-lhe o osso da criatura no meio do tórax.
A ponta atravessou-lhe a pele, os músculos e a costela, enfincando-se em seu coração e fazendo jorrar dali um líquido dourado e prata que lhe escorria do meio do peito ao abdômen.
— Impossível! E– Ela condensou!? — questionou aturdida, logo em seguida dando-lhe um tapa no rosto, o chacoalhou, mas não houve reação. — Vamos! Acorde Miguel! — Ela o beijou, soprou ar em sua boca enquanto suas mãos, trêmulas, seguravam em seus ombros, mas o corpo dele estava gélido. Soprar e tentar se conectar não foi eficaz. Ela separou-lhe os lábios: — E-Ei! A– Acorde! — Os olhos não davam espaço para esperança, aquele rosto inexpressivo não emanava uma única chama de vida. Sua visão se voltou para baixo, para o líquido que não parava de escorrer e grudar por todo aquele corpo gélido, escorrendo até o chão e formando uma poça de ouro e prata.
— Ei... Não– Não brinque comigo... — Sua mão foi em direção aos ombros dele, seu rosto encostado no peitoral perfurado do garoto era um esconderijo para suas lágrimas. — Não faça isso comigo... Eu não aguento mais isso... Eu não aguento mais...
Entre o temor e o desespero, um vento soprou naquela caverna desolada e movimentou aqueles cabelos castanhos junto ao peito sobre o qual apoiava seu rosto.
— O-O– AaaA! — tossiu Miguel, que abriu os olhos, um grito saiu acompanhado de soluços e do erguer de seu braço para o alto.
Estirado naquela parede áspera, sentindo sobre si um peso enorme no corpo, principalmente na altura da cintura, junto a um calor desconfortável envolvendo seu abdômen e pernas, era pegajoso, molhado e deu a seus olhos a curiosidade de se voltarem para baixo. — O– Oque?
A visão embaçada não o deixou perceber em um primeiro momento, mas o osso enfincado em seu peitoral era assustador. O líquido que escorria dele era ainda mais perturbador aos seus olhos turvos, porém não havia dor, só uma leve dificuldade no respirar e começou lentamente a enxergar melhor um loiro cabelo, opaco, ao seu lado: — Mi– Mirabelle?
Não houve resposta além dos pequenos soluços que escutou. Mirabelle não conseguiu levantar o rosto, seus olhos estavam vermelhos, suas mãos, trêmulas, seguravam os ombros de Miguel, ela não conseguia reunir forças para recolhê-las, e muito menos para esconder as emoções que tinha à flor da pele.
— A– aconteceu alguma coisa? — perguntou, tossindo desconcertado. Dava para ouvir aqueles soluços, o tremor do corpo dela apoiado no seu e aquelas mãos que o agarravam com força como se tentassem segurar algo importante. Mas algo em meio àquela situação inusitada o fez mover a mão até os cabelos daquela garota em seu colo.
Tal mão coberta de calos não seria confortável para ninguém, mas algo diferente acompanhou o cafuné que recebeu e um sentimento a fez levantar seus olhos azuis em direção àqueles dois sóis brilhando em sua frente.
— E-Eu– Estou bem... Eu acho. — falou Miguel com um tímido sorriso no rosto, aquilo foi um pivô para que a pobre garota desabasse em lágrimas, ela chorou pela primeira vez e Miguel, sem entender nada e com o corpo perfurado, só pôde observá-la em prantos, enquanto tentava se lembrar do que havia acontecido.