Camila demorou três segundos a mais do que o normal para responder.
— Você arrumou… o quê?
Rafael segurou o telefone com a mão firme e a voz controlada, do jeito que usava quando precisava vender “normalidade” sem ter certeza se ela existia.
— Um novo emprego.
— Rafael… — o nome dele veio carregado de suspeita — você me liga do nada, some uns dias, aparece com “novo emprego” e acha que eu vou engolir isso assim?
Ele olhou para a porta da sala onde estava. Do lado de fora, o corredor branco seguia do mesmo jeito: silêncio e luz uniforme. Clarice tinha dito que ele teria privacidade, e estava cumprindo. Privacidade ali era um conceito estranho. Mas útil.
— Eu não tô sumindo — ele mentiu só o suficiente para não virar briga.
Camila riu com aquele som ácido de quem já aprendeu a reconhecer mentira por hábito.
— Aham. Tá. E esse “novo emprego” é o quê? Você virou CEO? Vendedor de curso? Influencer?
Rafael quase sorriu. Quase.
— Analista. Como sempre. Só… melhor.
Camila fez um som de “hum” que significava “duvido”.
— Melhor quanto?
Rafael foi direto, como quem resolve com números:
— O suficiente pra eu aumentar a pensão. E eu já ajustei. Cai mês que vem.
Do outro lado, o silêncio não foi hostil. Foi cálculo. Ela calculou contas, escola, mercado, remédio, futuro.
— E a escola? — Camila perguntou, mudando de assunto como quem puxa a corda certa. — Você falou que ia ver isso.
— Eu vi. Eu já consegui vaga. Uma escola melhor. Mais perto de você. E… segura.
Camila não respondeu de imediato. A palavra “segura” tinha um cheiro específico: promessa. E promessa, no mundo dela, era sempre uma armadilha potencial.
— Segura como? — ela perguntou, desconfiada. — Você tá pagando segurança agora?
Rafael escolheu o pedaço que era verdade sem revelar o resto.
— Tem monitoramento. A escola tem estrutura boa.
Camila soltou o ar, e a irritação baixou um degrau.
— Tá. Isso… isso é bom.
Um silêncio. Depois ela veio com o golpe que não era golpe, era instinto materno.
— Só espero que você não esteja mexendo com nada ilícito, Rafael.
Ele não respondeu rápido. O tempo entre a frase dela e a resposta dele ficou grande demais.
Camila percebeu.
— Rafael.
— Não é ilícito — ele disse, e a voz dele saiu firme demais.
— Você não respondeu. Você afirmou.
Rafael apertou os dedos no telefone.
— Camila, eu tô tentando construir alguma coisa que preste. Pra Lia.
Camila ficou em silêncio por alguns segundos. Quando voltou, a acidez tinha perdido parte do veneno.
— Ela ama muito você, tá? Não faz ela se decepcionar. — Ela respirou e completou, como quem dá aviso e abraço na mesma frase: — Não some.
Rafael engoliu seco.
— Eu não vou.
Desligou.
Guardou o celular no bolso e ficou parado um momento, olhando para a parede lisa do corredor. O lugar inteiro parecia feito para tirar ruído do mundo… e, mesmo assim, o ruído continuava existindo dentro dele.
Quando entrou na sala do Conselho, já havia gente esperando.
Domar estava sentado com a calma de quem acredita que o mundo é um tabuleiro. Kael tinha postura de guarda. Iara organizava dados num painel. Vexa parecia inquieta, como se cada minuto de “debate” fosse um minuto perdido de ação. Noah estava no fundo, como sempre, sem cadeira fixa, sem pertencimento declarado.
Clarice estava de pé perto da tela, braços cruzados, olhar atento em Rafael como se checasse se ele tinha voltado inteiro daquela ligação.
Domar foi direto:
— Onde começa o Plano A?
Rafael sentou e respondeu sem hesitar:
— No Brasil.
Vexa arqueou uma sobrancelha.
— Você quer testar o planeta inteiro num país com instabilidade crônica.
Rafael olhou para ela.
— Se der certo aqui, o resto do mundo vira questão de escala. Se não der certo aqui… também.
Noah soltou um som curto, quase riso.
— “Também”. Gostei.
Kael deu um meio passo à frente, como quem tenta antecipar o risco.
— O Brasil tem exposição alta. Redes frágeis. Muito barulho.
Rafael assentiu.
— Exatamente. É uma oficina. Barulho revela falhas. Falhas revelam sistemas.
Iara inclinou a cabeça.
— E o alvo?
Rafael não romantizou:
— Dinheiro público. Desvio. Evasão. Corrupção como método de governo.
Domar juntou as mãos.
— Isso exige tocar no coração do sistema.
— Não — Rafael corrigiu. — Exige tocar no fluxo.
Ele apontou para a tela.
— Atualização de softwares governamentais. Registro de transações. Rastreio de destino. Cruzamento automático com contratos, licitações, notas fiscais, patrimônios.
Iara se animou, um brilho técnico no olhar.
— Você quer criar um espelho.
— Eu quero criar trilha — Rafael respondeu. — Trilha que não depende de “boa vontade”.
Vexa olhou para Kael.
— Isso é operação.
Kael assentiu, ainda desconfiado.
— E a execução?
Rafael olhou para Clarice por um segundo e voltou para o grupo.
— A execução vai ter dois braços. Um invisível e um humano.
Domar estreitou os olhos.
— Explique.
Rafael falou como quem apresenta projeto em reunião de TI:
— Braço invisível: sistema de auditoria contínua, com logs imutáveis, redundância e alertas inteligentes. Braço humano: link com a Polícia Federal. A PF recebe pacotes de evidência prontos, rastros completos, vínculos, rotas de dinheiro. Nada de “achismo”.
Noah ergueu o queixo.
— Vocês vão dar munição pra polícia do planeta macaco.
Kael lançou um olhar duro.
— Não use esse termo.
Noah riu, curto.
— Mas ele usou.
Rafael ignorou a disputa.
— A PF vai fazer o que sabe fazer. A diferença é que, dessa vez, não vai correr atrás de fumaça. Vai correr atrás de mapa.
Clarice falou pela primeira vez, e a voz dela veio firme:
— E você acha que eles não vão perceber que alguém deu esse mapa?
Rafael assentiu.
— Vão. Por isso o Plano A é tempo curto. Quatro meses.
Domar inclinou a cabeça.
— Quatro meses não muda um país.
— Quatro meses mostram o que é possível — Rafael respondeu. — Eu não tô prometendo redenção. Eu tô prometendo teste.
Vexa pareceu gostar disso.
Kael não.
Noah só observou.
### Quatro meses depois
O Brasil descobriu, de um jeito que sempre descobria: pela televisão.
A primeira operação estourou numa manhã comum, com helicópteros sobrevoando prédios e repórteres gritando “AO VIVO” com a alegria indecente de quem transforma prisão em entretenimento.
Ministérios. Secretarias. Empresas de fachada. Laranjas com mansões. Planilhas. Pen drives. Pastas.
A diferença era que, dessa vez, tudo vinha com linha do tempo.
O dinheiro não “sumia”. Ele só mudava de nome, endereço e país. E agora alguém tinha desenhado o caminho completo.
A PF virou o jogo com rapidez que assustou os próprios agentes. Eles estavam acostumados a caçar por meses para encontrar uma porta. Agora a porta já vinha marcada.
Rafael assistia aos desdobramentos numa tela interna, do outro lado do corredor branco, com relatórios entrando e saindo como ondas.
Iara mostrava gráficos.
— A eficiência de detecção subiu trinta e oito por cento em duas semanas — ela disse, sem esconder o espanto. — E isso sem ativar metade dos módulos.
Kael observava os rostos na TV.
— Reação pública é volátil.
Domar sorria, mas o sorriso dele tinha nervos por trás.
— Volátil e útil.
Vexa não sorria. Vexa parecia satisfeita como soldado vendo linha inimiga ceder.
E Noah… Noah estava irritado.
— Vocês tão derrubando gente demais rápido demais — ele disse. — Vocês acham que o sistema vai aceitar isso sem inventar um monstro pra culpar?
Rafael não desviou os olhos da tela.
— Eu tô contando com a reação.
No meio daquele avanço, políticos caíram como peças mal encaixadas. Alguns por corrupção clássica, outros por associação, outros por simples impossibilidade de negar o rastro.
A palavra “esquema” virou plural nas manchetes. As fotos de dinheiro em malas voltaram como se o país fosse incapaz de ter imaginação própria para novos símbolos.
E então veio a pergunta que ninguém da PF queria fazer em voz alta.
"Por quê agora?"
Essa pergunta apareceu primeiro num café, depois numa redação, depois num estúdio.
O jornalista que farejou isso não era iniciante.
Tinha faro de cão velho e paciência de predador.
Júlio Brandão olhou para o quadro cheio de fotos e linhas na parede e achou a velocidade suspeita. Não a operação. A velocidade.
Ele sabia como o Brasil funcionava: qualquer investigação grande virava areia. Alguém chutava a duna e o rastro sumia. Agora o rastro parecia trilho de trem.
Júlio anotou, com a calma de quem faz perguntas perigosas:
*Alguém mudou a lógica do jogo.*
E começou a farejar o invisível.

### A contrapartida
O golpe veio onde sempre vinha: no topo.
Muitos dos presos começaram a ser soltos.
Não todos. O suficiente.
As decisões chegaram com termos bonitos, técnica jurídica, vírgulas que pareciam bisturis. Prisões anuladas por “vício processual”, provas questionadas, competência contestada, garantias invocadas como escudo e como arma.
O noticiário virou o mesmo ciclo que Rafael já conhecia: indignação, justificativa, esquecimento.
Rafael assistiu a uma dessas decisões e sentiu o velho nó apertar no peito, só que agora tinha mais coisa ali dentro. Não era só revolta. Era cálculo.
Domar apareceu ao lado dele, como se surgisse de uma sombra planejada.
— A operação foi um sucesso — Domar disse.
Rafael não tirou os olhos da tela.
— A parte operacional foi um sucesso.
Domar inclinou a cabeça.
— Isso é uma correção.
— Isso é um diagnóstico — Rafael respondeu.
Kael entrou na sala, postura rígida.
— O Supremo Tribunal está neutralizando o efeito.
Vexa apertou a mandíbula.
— Então neutralizamos o Supremo.
Clarice virou o rosto para Vexa, e o olhar verde dela cortou sem precisar gritar.
— Não.
Vexa encarou Clarice.
— Você quer brincar de moralidade enquanto eles soltam criminosos.
Clarice não recuou.
— Eu quero evitar que a gente vire o tipo de força que a gente diz que veio corrigir.
Noah soltou um som baixo, concordando com Clarice sem dizer “concordo”.
Domar ergueu a mão, interrompendo o atrito.
— Essa é a primeira parede real — Domar disse. — Um sistema que se protege com legitimidade.
Rafael desligou a tela.
A sala ficou mais silenciosa.
Ele olhou de um para outro, sem pressa.
— Eu falei que quatro meses iam mostrar o que é possível — ele disse. — Mostrou.
Kael assentiu, duro.
— E mostrou o que impede.
Rafael olhou para Clarice.
Ela parecia segurando uma preocupação que não queria virar frase pronta.
— A gente vai ter que discutir como lidar com o Supremo — Clarice disse, escolhendo cada palavra. — Sem… atravessar linhas que depois não têm volta.
Vexa soltou um ar pelo nariz, impaciente.
— Linhas já foram atravessadas por eles faz tempo.
Noah falou do fundo, quieto:
— E vocês vão atravessar também? Aí muda o quê?
Rafael apoiou as mãos na mesa e respondeu com a mesma calma que usou no Conselho:
— Muda o método.
Ele levantou os olhos.
— A parte operacional funcionou. O sistema reagiu. Agora a pergunta não é se dá para caçar dinheiro desviado.
Ele olhou para a tela apagada, como se enxergasse o país ali dentro.
— A pergunta é o que fazer quando o topo decide que a regra não vale pra ele.
O silêncio que veio em seguida não foi de derrota. Foi de necessidade.
Quatro meses tinham passado.
O Brasil tinha sido puxado pelo colarinho e mostrado o rosto verdadeiro.
E Rafael, que deveria estar assustado, estava com um mapa na cabeça.
O Plano A não tinha falhado.
Ele tinha encontrado a primeira muralha.