Clarice não gostava do consultório em dias de visita inesperada.
Não por medo. Por método.
Ali era o cenário perfeito para alguém parecer normal enquanto fazia perguntas anormais.
A recepcionista avisou com um toque leve na porta.
— Doutora… tem um homem aqui. Disse que precisa falar com a senhora. Não quis dizer o motivo.
Clarice manteve o rosto neutro.
— Nome?
— Júlio Brandão, jornalista.
O nome não veio com som. Veio com peso.
Clarice sentiu o estômago fechar num ponto exato, como quando a temperatura muda antes da chuva. Ela não demonstrou. Só assentiu.
— Manda entrar.
Quando Júlio entrou, Clarice entendeu rápido por que aquele nome tinha sobrevivido à própria profissão.
Ele não parecia um “jornalista de TV”. Não tinha o brilho artificial de quem quer ser reconhecido. Era discreto, roupa simples, olhar atento. O tipo que não olha para o rosto primeiro. Olha para o ambiente. Para as saídas. Para as incoerências.
Ele mediu a sala sem pressa, como se a arquitetura entregasse mais verdade do que as palavras.
— Dra. Clarice Azevedo? — ele perguntou.
— Sim. — Clarice apontou para a cadeira. — Pode sentar. Em que posso ajudar?
Júlio não sentou de imediato. Tirou do bolso um cartão simples, sem marca grande.
— Eu sou jornalista. Independente. — Ele escolheu a palavra “independente” com intenção. — Eu queria fazer algumas perguntas.
Clarice esperou. Sem pressa. Sem pressa era arma.
— Perguntas sobre medicina do trabalho? — ela testou.
Júlio sorriu de canto.
— Se eu tivesse vindo por isso, eu estaria desperdiçando a sua manhã e a minha vida.
Clarice assentiu, como quem aceita que o jogo começou.
— Certo. Então diga.
Júlio finalmente sentou. Não relaxado. Preparado.
— Eu acompanhei as operações dos últimos meses. A velocidade não bate com o padrão brasileiro. — Ele olhou direto. — Não é elogio. É evidência.
Clarice manteve o tom profissional.
— Isso não é uma pergunta.
— É um ponto de partida — Júlio corrigiu. — A pergunta é: por que eu recebi um envelope com documentos ligando empresas aparentemente desconexas… e o seu endereço?
Clarice sentiu o impulso de negar. Não por ética. Por reflexo.
Ela não negou.
— O senhor recebeu isso de quem?
— Não sei — Júlio respondeu. E Clarice acreditou, porque o olhar dele não tinha o brilho de quem blefa. — Veio sem remetente. Mas veio com intenção.
Clarice cruzou as mãos, como se estivesse prestes a explicar um exame.
— E o que o senhor quer de mim, exatamente?
Júlio inclinou a cabeça, paciente.
— Eu quero entender por que o seu nome aparece em registros diferentes. Medicina do trabalho num lugar, consultório em outro, conexões com empresas terceirizadas em contratos públicos… e um padrão que começa antes do “boom tecnológico” dos últimos quarenta anos.
Clarice sentiu o sangue gelar um pouco. Não por si. Pelo alcance.
Ele tinha faro, sim.
— O senhor está me acusando de algo? — Clarice perguntou.
Júlio respondeu sem subir o tom:
— Eu estou perguntando se a senhora existe só como “médica”.
Clarice sustentou o olhar dele.
Ela percebeu duas coisas em poucos segundos.
A primeira: Júlio era inteligente e treinado para ler desconforto.
A segunda: ele tinha mais do que deveria ter.
Clarice escolheu o caminho do meio, aquele que não entregava o núcleo, mas não insultava a inteligência dele.
— Eu trabalho com medicina do trabalho — ela disse. — E também presto consultorias. Isso é comum.
Júlio sorriu como quem ouve uma frase pronta e decide não desperdiçar tempo discutindo.
— Eu não vim aqui para discutir “comum”. Eu vim porque alguém quer que eu encoste em uma história que não cabe em “comum”.
Ele tirou do bolso uma folha dobrada e colocou na mesa, sem empurrar demais, sem fazer teatro.
Era uma foto de um documento antigo, com carimbo falho. Um nome repetido em variações.
Clarice leu e guardou a reação no rosto como quem guarda uma lâmina no coldre.
— Isso não prova nada — ela disse.
— Não prova — Júlio concordou. — Mas aponta. E eu sigo apontamentos.
Clarice respirou.
Ela avaliou rápido: se ela expulsasse Júlio, ele sairia com mais certeza, não menos. Se ela mentisse de forma grosseira, ele sentiria o cheiro. Se ela desse um pedaço verdadeiro, talvez ganhasse tempo.
Tempo era o que o Conselho sempre queria.
— Eu vou te fazer uma pergunta, Júlio — Clarice disse, e usou o nome dele de propósito. — O senhor é ligado a alguma emissora?
— Não.
— Partido?
— Não.
— Agência?
Júlio ergueu uma sobrancelha.
— Eu sou jornalista. O meu vício é fato.
Clarice assentiu.
— Então vou te dizer algo: você está perto de uma história grande, sim. Grande demais para o Brasil. — Ela manteve o olhar firme. — E se você continuar, vai atrair gente que não vai te tratar como eu estou tratando.
Júlio não pareceu assustado. Pareceu… confirmado.
— Eu já atraí — ele disse, baixo. — O envelope não apareceu sozinho. Alguém quer que eu chegue em algo. E alguém vai querer que eu pare.
Clarice não respondeu de imediato. Ela apenas concluiu:
Ele não era peça fácil.
O faro dele não era vaidade. Era função.
Ela encerrou com o que podia oferecer sem abrir o cofre:
— Eu não posso te confirmar o que você está pensando. Mas eu posso te dizer uma coisa: se você publicar sem entender, você vira instrumento. — Ela levantou a mão, impedindo que ele interrompesse. — Instrumento de alguém que está vazando pra você.
Júlio ficou alguns segundos em silêncio, absorvendo.
— Então a senhora admite que há vazamento.
Clarice não desviou.
— Eu admito que você tem informação que não deveria ter.
Júlio guardou a folha de novo, com calma.
— Eu vou continuar investigando, doutora.
Clarice assentiu como quem já sabia disso.
— Eu sei.
Ele levantou.
— Obrigado pelo seu tempo.
— Cuide do seu pescoço — Clarice respondeu, sem ameaça, sem teatralidade. Só aviso.
Júlio saiu com o mesmo passo com que entrou: controlado, mas mais pesado.
Quando a porta fechou, Clarice ficou parada por alguns segundos. A máscara de médica “normal” ficou pendurada no ar e então caiu dentro dela, sem barulho.
Ela pegou o celular e mandou uma mensagem curta, codificada, para o canal interno.
**Conselho. Urgente. Visita. Vazamento.**
### De volta ao branco
O Conselho reuniu rápido.
Domar já estava na mesa quando Clarice chegou. Kael de pé. Vexa impaciente. Iara com painéis abertos. Noah encostado no fundo, olhando para o chão como se o chão fosse mais confiável do que gente.
Rafael estava sentado, mas o olhar dele estava longe, como se ele estivesse assistindo a si mesmo por fora.
Clarice entrou e falou direto:
— Júlio Brandão, jornalista aparentemente independente, me procurou.
O ar mudou.
Domar ergueu a cabeça.
— Ele tocou em quê?
Clarice foi objetiva, como relatório, mas com um fio de inquietação.
— Ele é inteligente. Tem faro. E não é amarrado ao sistema. Parece ser mesmo não ter rabo preso.
Vexa soltou um som curto.
— Isso é bom.
Clarice balançou a cabeça.
— É bom porque ele não responde à emissora. É ruim porque ele publica quando quiser. Descobrir o que descobrir, ele solta.
Kael perguntou, direto:
— Quanto ele sabe?
— Mais do que deveria — Clarice respondeu. — Ele recebeu um envelope com documentos. Antigos e atuais. E… meu endereço.
Iara apertou o olhar.
— Endereço de consultório “formal”. Isso é provocação.
Clarice assentiu.
— E aqui está o pior: alguém vazou pra ele. E só pode ter vindo de dentro.
O silêncio que veio depois não foi surpresa. Foi desconfiança aparecendo na pele.
Domar ficou imóvel por um segundo a mais do que o normal.
— O vazamento não é coincidência — ele disse.
Noah soltou um riso curto.
— Nada aqui é coincidência.
Kael olhou para todos como quem procura rachadura em armadura.
— Quem tinha acesso a esses documentos?
Iara respondeu com frieza técnica:
— Poucos. Muito poucos.
Vexa cruzou os braços.
— Então temos um traidor.
Clarice olhou para Rafael. Ele estava quieto demais. Como se as palavras “traidor” e “vazamento” tivessem puxado um fio que ele já suspeitava existir.
Rafael falou baixo, sem olhar para ninguém em específico:
— Parece filme.
Domar virou a cabeça para ele.
— Não é filme. É convergência.
Domar então soltou a informação que fez a sala ficar ainda menor.
— E tem mais. Agências externas começaram a conduzir investigações no Brasil.
Iara levantou o olhar na hora.
— Quais?
Domar não exibiu prazer, apenas entregou:
— CIA. MI6. E outras estruturas que se movem sem pedir licença. E há sinais de interesse russo também… ainda que o nome “KGB” seja anacrônico. A máquina muda, mas o hábito não.
Rafael passou a mão no rosto devagar, como se tentasse alinhar o mundo com a própria pele.
— Ótimo — ele disse, sem ironia. — Agora temos o Brasil, o Supremo, a mídia… e espiões internacionais.
Noah falou do fundo, com voz baixa:
— Bem-vindo ao planeta. É assim que ele funciona quando o cheiro de poder aparece.
Clarice encarou Domar.
— Isso começou quando?
— Quando a emissora caiu — Domar respondeu. — Foi a primeira assinatura grande demais para passar batido.
Kael estreitou os olhos.
— E o vazamento para o jornalista pode ser uma isca.
Clarice assentiu.
— Uma isca para puxar ele até nós… ou para puxar outros até nós.
Vexa deu um passo à frente.
— Então fechamos o Conselho. Protocolos de isolamento. Interrogatório interno.
Domar olhou para Vexa.
— Se começarmos caça interna sem prova, a gente implode por dentro antes do inimigo chegar.
Noah soltou um comentário, quase sussurro:
— Vocês já começaram a desconfiar. Isso é metade da implosão.
Rafael levantou os olhos, e dessa vez o olhar dele prendeu a sala.
— Ninguém vai virar bode expiatório sem evidência — ele disse.
Vexa pareceu contrariada.
— E enquanto a gente busca evidência, alguém continua vazando.
Rafael assentiu.
— Sim. Por isso a próxima ação não é “caça”. É armadilha.
Domar inclinou a cabeça.
— Você tem um plano?
Rafael olhou para Clarice por um instante, e ela entendeu: ele estava preocupado com ela também. Não só com o tabuleiro.
— Tenho — Rafael disse. — Mas antes… eu quero uma lista completa.
Kael respondeu:
— Lista do quê?
Rafael apoiou as mãos na mesa.
— Quem teve acesso aos documentos que o Júlio recebeu. Quem teve acesso às permissões da Auriga. Quem teve acesso à rotina da Clarice.
Um silêncio tenso.
Iara assentiu, já abrindo painéis.
— Eu monto.
Domar respirou devagar.
— E quanto ao jornalista?
Clarice falou com firmeza, como quem assume responsabilidade sem pedir aplauso.
— Ele vai voltar. Ele não veio pra parar. Ele veio pra confirmar. — Ela olhou para Rafael. — E ele é perigoso não porque é mau… mas porque ele vai contar.
Rafael assentiu.
— Então a gente precisa decidir se guia… ou se corre atrás.
A sala ficou em silêncio por um segundo longo.
Não era acordo.
Era a constatação de que a guerra havia mudado de fase.
Agora tinha farejador.
E alguém, do lado de dentro, estava abrindo portas para ele.