Eram oito bilhões. Agora, restavam apenas algumas centenas.
O vento carregava cinzas. O cheiro de sangue e carne queimada impregnava o ar. Estruturas colossais jaziam em ruínas, como esqueletos de um mundo que já não existia.
Entre os destroços, um pequeno corpo permanecia imóvel, parcialmente coberto por poeira. Uma mão estendida… como se ainda tentasse alcançar alguém.
Diante do cenário desolador, a pergunta ecoava no silêncio das ruínas:
— Como chegou a isso?
Se alguém perguntasse ao velho mestre, o primeiro dos despertados, ele diria que tudo começou há sessenta anos.
Fendas escuras surgiram em diversos pontos do planeta — rasgos no próprio espaço, como feridas abertas no mundo. Delas, emergiram seres que inicialmente foram chamados de extraterrestres.
Mas estavam longe de ser apenas isso.
Infelizmente, as armas humanas eram fúteis. Tanques, mísseis, exércitos inteiros... nada funcionava. Por cinco anos, lutaram contra eles, utilizando até armas nucleares — mas o dano causado era insignificante. As cidades caíam uma após a outra.
No sexto ano, surgiram pessoas com habilidades incríveis, como as vistas em filmes. Humanos capazes de destruir prédios com um golpe, de atravessar o céu, de manipular energia.
Acreditaram que a esperança finalmente havia alcançado o planeta Azure.
No entanto, logo descobriram a verdade.
Aqueles indivíduos não eram heróis. Vinham de outro mundo — de uma região chamada Murim.
Eles olharam para a humanidade com desprezo.
No início, até combateram os monstros, como se estivessem limpando o terreno. Mas não demorou para que revelassem sua verdadeira natureza.
Os humanos se tornaram escravos dos chamados Artistas Marciais de Murim.
Mulheres eram vendidas como mercadoria. Crianças desapareciam sem deixar rastros. Famílias eram separadas. Cidades inteiras se tornaram campos de exploração.
Era um inferno onde milhões morriam todos os anos.
Após cinco anos de escravidão, o primeiro humano despertou um poder semelhante ao do mundo Murim.
Foi como uma fagulha em meio à escuridão.
Com o tempo, outros também despertaram, e um sistema passou a reger tudo. Um sistema frio, impiedoso — status, habilidades e ranking passaram a determinar a força de cada indivíduo.
Aproveitando o desprezo dos murinianos, os humanos se fortaleceram em segredo.
Treinaram escondidos. Evoluíram nas sombras. Sangraram sem serem vistos.
E então, contra-atacaram.
Foi necessária uma década de sangue para expulsar os invasores.
Uma guerra brutal, onde cada vitória custava milhares de vidas.
No fim... venceram.
Houve um ano de paz.
Um único ano.
Mas, logo, surgiram seres ainda mais poderosos.
O crescimento da força humana era lento, desesperadoramente lento. O sistema, de dificuldade absurda, fazia muitos estagnarem ainda no chamado “tutorial”, incapazes de avançar sequer o básico.
O progresso dependia da escalada de uma Torre.
Uma estrutura colossal, misteriosa e implacável.
A cada dez andares, um novo rank era liberado.
Poucos conseguiam ultrapassar o quinquagésimo andar.
O mestre, como o primeiro dos despertados, alcançou o septuagésimo.
Mas nem ele conseguiu ir além.
Eventualmente, desistiu de evoluir pelo sistema — assim como quase toda a humanidade.
A população diminuía como água fervendo em uma chaleira, evaporando dia após dia.
Para piorar, governantes corruptos conspiravam nas sombras, desviando recursos e traindo a própria raça em favor de Murim.
A ganância humana se mostrou tão destrutiva quanto qualquer inimigo externo.
Muitos talentos morreram nessas conspirações.
E então… quarenta e cinco anos após o início de tudo… surgiram seres insuperáveis.
O mais fraco deles era Rank A.
Não havia esperança.
Nem mesmo o mestre — o único Rank SS — era capaz de vencê-los.
Foi então que Vivian, a única Maga Negra de Rank S, elaborou um plano.
Uma magia proibida.
Uma travessia de tempo e espaço.
Uma última aposta desesperada.
Contudo, a técnica exigia uma quantidade absurda de Ki, Mana, força vital… e um corpo forte o suficiente para suportar a viagem.
Ninguém possuía poder individual para isso.
Ainda assim, Linia, a Santa, revelou uma arte maligna de absorção que havia roubado de Murim.
— Mestrinho, eu confesso! Estava planejando capturar aqueles lixos de Murim e sugá-los até os ossos... seria divertido vê-los sofrer, hehe... Ah! É uma pena que não pude experimentar neles! — argumentou Linia, com desamparo no olhar.
Além do mestre, havia dez guerreiros de Rank S.
Ele, já idoso, estava pronto para ceder seu poder aos mais jovens — mas ninguém possuía um corpo resistente o suficiente além dele.
Era necessária a energia de todos.
Todos...
Isso significava que, em até duas horas após a transferência, os corpos dos doadores secariam até virar cinzas.
O mestre olhou para cada um deles.
Não como guerreiros.
Mas como crianças.
As mesmas crianças que havia encontrado perdidas, famintas, chorando… e que, de alguma forma, cresceram o suficiente para escolher morrer por ele.
Seu peito apertou.
— Não há outra maneira! Mestre, você é o único capaz de completar esse plano — disse Vivian, com um olhar sério.
— Sim, o mestre foi quem libertou a humanidade e nos guiou até onde estamos — justificou Lucky, o Machado de Guerra.
— Mestre, você é o único que deve carregar nossas esperanças — afirmou Lucas, o Espadachim Fantasma.
— Mestre, não há outro que possa fazer isso além de você! — confirmou Sebastião, o guerreiro guardião.
— O mestrinho é a única esperança para nós desde o começo... aceite, mestre! — afirmava a Arqueira Flamejante, Lúcia, com firmeza.
O velho tentou resistir.
— Pirralhos... por que não deixam um pobre velho morrer em paz... vocês não têm pena de mim?
Mas não havia escolha.
— Haa... se me olharem assim, fica difícil... seus discípulos infiéis, sem misericórdia com o próprio mestre! Se esse é o único jeito...
Lúcia o abraçou.
— Mestrinho, hehe... lembre-se de cuidar da sua Lúcia novamente!
Diante da insistência de todos, o mestre cedeu.
Antes de partir, questionou:
— Vivi, se eu realmente atravessar o tempo para o passado, o que acontecerá?
— Isso... Mestre, eu não queria falar sobre...
— Se você não me falar, prefiro ter meu fim com vocês — disse ele, sério.
Após insistência:
— Haa... certo... o mestre venceu... falarei. Mesmo que volte ao passado, esse futuro ainda será o mesmo.
Ele já esperava. Haveria uma outra linha temporal.
— Me diz, Vivi, você pensa que sou um lixo que sugaria a vida da minha família para viver?
— N-Não, jamais! O mestre é tudo para nós — respondeu Vivian. — Esse mundo também está arruinado; mesmo que vasculhemos tudo, só encontraremos algumas centenas...
Eles queriam que, ao menos, um futuro fosse brilhante!
Sem saída, ele aceitou.
A barreira contra os dragões estava ruindo.
Seus discípulos formaram um círculo.
Um a um… seus corpos secavam como árvores velhas; a energia estava sendo arrancada.
O poder do mestre atingiu o auge, mas ele estava abalado.
— Mestrinho... eu devo estar feia, né? — murmurou Linia.
— Minha Lininha, você ainda é a minha linda menininha!
— Hehe... você ainda é um péssimo mentiroso, sabia?
Vivian abriu a fenda.
— Meu mestre... terminei. Consegui abrir uma fissura no espaço e tempo exatamente para décadas atrás... mestre, rápido!
Antes de partir:
— Eu voltarei e lançarei seus traseiros fedidos para fora deste mundo!
O dragão rosnou, furioso.
Vivian deu um passo à frente e colocou um pequeno orbe em sua mão. Seus olhos tremeram por um breve instante — ainda assim, ela não disse nada, apenas observou aquelas costas memoráveis se afastando a cada passo.
E então:
— Eu amo vocês, minhas crianças.
Sua voz ecoou.
°°°
À beira da morte, os discípulos sorriram…
Então, passos foram ouvidos. Eram dois jovens.
Eles os observavam.
— Irmão... eu queria ter falado um pouco com ele...
O rapaz, porém, afirmou que não podiam arriscar mudar a linha do tempo.
Em seguida, desapareceu e surgiu diante do dragão.
Com um único golpe… tudo acabou.
O espaço ao redor se rompeu com o impacto, e a cabeça do grande dragão explodiu em uma chuva de sangue.
A jovem, por sua vez, restaurou os discípulos com um orbe misterioso.
— Assim como vocês, nós somos duas crianças daquele que partiu — afirmou ela.
Alívio… e silêncio.
— Sabe... ele nunca deixou de pensar em vocês. Queria dizer que vocês estão bem... talvez o olhar dele não fosse tão triste.
— E por que não diz? — questionou Lúcia.
O silêncio respondeu.
— Mestrinho... no fim, você não mudou... sempre se sacrificando por todos! — murmurava Linia entre lágrimas.
A jovem então disse:
— Não fiquem assim... sabe, aquele rabugento até que viveu bem! Ele é uma lenda no nosso mundo, até casou-se e teve filhos.
Surpresa.
— Hehe... parece que aquele teimoso me escutou — disse Vivian, rindo entre lágrimas.
Lucky encarou Lucas, entendendo certas coisas que ouviu anteriormente.
— Você entendeu, mano Lucky? Haha, foi ideia minha! — disse Lucas, com uma risada sugestiva.
Lúcia, que conhecia a história, exclamou:
— Ei... essa professora pegou nosso mestrinho, que ficou mais novo e gostosão? Que piranha! Ela está fazendo arroz com o mestrinho, tem que levar uma surra~
Sebastião tapou a boca dela.
Mesmo diante disso, a dor em seus corações… ainda assim, sorriram.
Ele foi feliz.
“Lembrem-se! Vocês são minhas crianças. Se um dia o mundo se virar contra vocês, eu me virarei contra o mundo!”
Ninguém esqueceu.
Ele nunca foi obrigado a nada. Ele escolheu.
Viveu com a convicção de que poder traz responsabilidade.
E, mesmo sendo rabugento… foi amado.
Enquanto lembravam, Lúcia encarou o jovem.
— Eh... tem alguma coisa no meu rosto?
— Ele parece com o mestrinho — comentou Linia. — Você é filho do mestre?
— Não. O mestre é nosso tio! — respondeu o jovem.
Vivian sorriu em compreensão. Tudo se encaixou perfeitamente.
— Hehe... hahaha... parece que ainda tenho chance — murmurou Lúcia.
Vivian suspirou.
Todos entenderam: o mestre não apenas mudou o mundo.
Ele mudou o próprio destino.