Como um rato fugindo de um predador inevitável... sim, assim segui por aquela fenda no espaço-tempo, aberta pelo sacrifício dos meus pequenos.
— Um herói? O mais forte? O salvador? Besteira!
Esses títulos sempre foram um peso que me esforcei para carregar, mas nunca tive forças o bastante para tal.
“Desta vez, vou fazer diferente; por mais que não seja o meu mundo, só por uma vez quero ver um final feliz para todos.”
Estes eram os pensamentos de Daniel, o mais forte dos caçadores da raça humana.
Seu coração estava turbulento enquanto caminhava na escuridão distorcida daquela fenda no espaço e no tempo.
Ele sequer ligava para o fato de sua pele estar sendo rasgada e seus músculos dilacerados enquanto se movia milhares de vezes à velocidade da luz, em direção a setenta anos no passado.
Daniel decidiu deixar de lado o sentimento amargo e focar na missão que precisava concluir.
Desta vez, teria a certeza de tornar a humanidade forte o suficiente; a certeza de dominar o mundo Murim e a certeza de limpar a sujeira corrupta dos governantes de Azure.
Piores que os do mundo Murim eram os nossos próprios líderes, com suas corrupções, fazendo muitos caçadores morrerem em vão por conta de uma ganância desenfreada.
Ele sabia que precisava colocar esses lobos na coleira — uma coleira que jamais seriam capazes de retirar enquanto vivessem.
°°°
Ano 2000, região da floresta Amazônica.
Um estalo, como o som de vidro se partindo, ecoou, e o espaço rachou, revelando uma fenda negra e profunda.
Quando o portal surgiu, uma força de sucção foi criada, puxando tudo ao redor.
As árvores próximas foram arrancadas no mesmo instante.
O vácuo era tão intenso que, em um raio de dez quilômetros, tudo desapareceu, restando apenas uma região desértica.
Durou apenas dez segundos, e a fenda se fechou como se nunca tivesse existido.
Agora, restava apenas um homem moribundo de pé naquele lugar.
Não havia pele em seu corpo; ele estava coberto de sangue, e um de seus braços havia sido levado.
Naquele momento, o orbe de Vivian surgiu, flutuando diante dele.
Com um brilho verdejante, um raio emergiu do artefato, atingindo Daniel, e seu corpo começou a se regenerar rapidamente.
Seus músculos destruídos se reestruturaram; era possível ver fibra por fibra cobrindo os vasos sanguíneos e moldando a forma de seus músculos.
Logo, uma camada branca de pele começou a crescer, cobrindo todo o corpo; em seguida, os cabelos surgiram e, finalmente, os ossos se formaram onde ele havia perdido o braço esquerdo.
Vasos sanguíneos, fibras musculares e pele se uniram e, sem demora, o membro estava lá, como se nunca tivesse sido decepado.
Em segundos, ele estava totalmente restaurado; ninguém seria capaz de ligar sua aparência atual àquele pedaço de carne ensanguentado de momentos atrás.
Mas algo estava diferente, e Daniel sabia disso.
Conjurando uma magia de Rank F chamada Reflexo, o local à sua frente se distorceu, e um pequeno espelho circular de mana refletiu seu rosto.
Não era mais o rosto de um homem velho; a face que via agora estava distante em suas memórias.
Era de quando tinha vinte anos — porém, muito diferente de seu verdadeiro rosto original.
Daniel cerrou os punhos com força.
Aquela juventude era fruto da força vital de seus discípulos.
Ele sentia-se amargo por dentro; não conseguia se perdoar por ser fraco ao ponto de ter que sacrificar sua família daquela forma.
— Um dia... um dia voltarei, minhas crianças, e com certeza vingarei todos vocês! Todos os meus mil e cem discípulos!
Jurou em um tom frio e afiado, como uma espada pronta para derramar sangue.
Daniel decidiu transformar a dor em combustível para realizar o que não pôde em sua linha do tempo original.
°°°
No momento em que ainda se perdia na dor de sua alma, o orbe que antes o curara brilhou em um tom azul, e uma grande imagem holográfica surgiu.
Era uma gravação — e lá estava ela: Vivian.
— Cof... cof... se o mestre está vendo essa gravação, significa que tudo ocorreu bem no final...
Ela ficou em silêncio por um tempo.
Daniel estendeu a mão, aproximando-a do rosto do holograma.
Ela tinha cabelos negros e uma pele morena deslumbrante.
Vivian era tão bonita que, se o mundo não tivesse ruído, teria sido uma celebridade famosa apenas por sua beleza e feições perfeitas.
Ele cuidou dela desde que ela tinha três anos, quando a encontrou escondida sob milhares de corpos em decomposição em uma Dungeon.
Apesar de pequena, Vivian não chorava; na verdade, não demonstrava emoção alguma.
Os traumas a deixaram assim, mas, com o tempo, ela foi se abrindo e aceitando-o como família.
Mais tarde, encontraram um garotinho loiro de quatro anos; na época, ela já tinha seis anos.
Assim como ela, ele estava traumatizado, mas, ignorando a própria dor, aquela garotinha o abraçou e disse:
— Você... não tenha medo... sei como se sente, mas você não está mais sozinho... a partir de hoje, você é meu irmãozinho!
Aquele garotinho chorou e nunca mais desgrudou dela; aquele era Lucas.
Observando bem o holograma, Daniel percebeu que havia vinte pessoas atrás dela, dormindo amontoadas.
Uma lágrima escorreu de seus olhos.
Eram todos discípulos que morreram anos antes de os dragões surgirem.
Isso provava que sua discípula já planejava aquilo há muito tempo.
“Essa garota... sempre foi talentosa em agir sem meu consentimento, mas tudo visando o nosso bem... por isso confiei nela”, pensou Daniel, com melancolia.
Após uma pausa de trinta segundos, o holograma continuou:
— O mestre que eu conheço provavelmente está se culpando, dizendo algo como: “sou tão fraco ao ponto de sacrificar minha família”, e deve estar planejando viver pela vingança...
Daniel olhou, surpreso com o quão bem aquela pirralha o conhecia.
— Chega, mestre! — disse ela em tom alto, com lágrimas nos olhos. — Já deu! Por favor, já chega de tudo isso.
Ele tremeu levemente, mas ouviu em silêncio.
— Você não sabe como dói ver você assim? Sabe o quanto isso nos machuca? Então, por favor... sei o que você tem que fazer e sei que vai conseguir, mas olhe um pouco para si mesmo, cuide de você... meu querido mestre e pai, só seja feliz desta vez! É o que peço em nome de todos nós.
As lágrimas dela escorriam livremente.
O coração de Daniel apertava.
— Mestre... você deu a vida pelo mundo, por todos nós. Nos educou, brincou conosco, estava lá quando tínhamos pesadelos, nos abraçando e nos amando... se doando sempre.
Os olhos dele estavam vermelhos.
Sua garganta se movia num gotejar seco.
— Meu amado Mestre, você dedicou sua vida a nós, e nós apenas estamos retribuindo. Se você está vendo isso, é porque decidimos juntos que daríamos nossas vidas — vidas que você amou — para dar a você o direito de ser feliz.
Lucas se levantou e parou atrás de Vivian.
— Mestre... minha irmã tem razão. Sabe, você vai ter uma surpresa quando olhar a data em que se encontra, então faça o seu melhor. Estamos torcendo por você!
Terminando de falar, ele olhou para Vivian com um sorriso brincalhão:
— Não sabia que era uma bebê chorona~
No mesmo instante, a imagem mostrou Lucas caindo de joelhos, segurando o estômago após um golpe de Vivian.
A gravação se encerrou, e o silêncio retornou.
°°°
O coração de Daniel doía como se uma faca o perfurasse, mas, ao mesmo tempo, um calor o envolvia.
Ele era órfão e tinha vagas lembranças dos pais; lembrava-se apenas de uma irmã mais velha deixando-o na porta de um orfanato aos quatro anos. Nunca a reencontrou. Mas o mundo ganhou cores quando encontrou aqueles que amou.
Ele se via naquelas crianças e, por isso, nunca rejeitou acolhê-las como discípulos, mesmo as que não tinham talento. Daniel investiu tudo o que tinha para nutri-las.
Logo, o holograma mudou.
Agora apareceram os dez discípulos principais.
Linia estava à frente, gravando, enquanto os outros descansavam ao fundo.
— Mestrinho... sua Lininha quer que você seja feliz, case e tenha filhos.
Ele respirou fundo ao ouvir isso. Um sorriso não deixou de surgir em seu rosto.
— Sei que somos como filhos para você, mas experimente ter sua própria família... é um segredo que ninguém sabe, hehe, vou contar... — ela baixou o tom de voz, certificando-se de que ninguém ouvia — Sabe, Mestrinho, meu sonho era ser mãe... queria dar a alguém o cuidado que você nos deu. Seu coração é enorme; se soubesse o quanto te admiro! Então seja feliz... e chame uma de suas filhas de Linia, hehe! Assim nunca se esquecerá da sua Lininha. Tchau, beijos!
— Garota boba! Como se eu pudesse esquecer de você, sua pirralha amostrada! — Daniel respondeu ao vento, sorrindo para o rosto da ruiva atrevida.
Linia agia assim, mas era a mais inflexível com os inimigos.
Ele entendia: aquela garota tivera uma vida lamentável.
Sequestrada com a mãe por cinco anos, passou por horrores que ele nem gostava de imaginar.
Quando a encontrou, seus olhos eram de uma fera.
Demorou anos para que ela o visse como família.
Houve noites em que ele acordou com uma faca contra o pescoço, encarado pelo olhar de morte dela.
Nesses momentos, ele apenas a abraçava.
— Linia... você é a menina dos meus olhos... não deixarei ninguém te fazer mal, não tenha medo, estou aqui! — ele sussurrava. Ela chorava, mas não dizia nada.
°°°
Levou dez anos para ela se abrir totalmente com todos, mas quem não fosse parte da família sempre corria perigo.
Com o passar de mais alguns anos, ela melhorou, mas, ainda assim, causou um banho de sangue no mundo Murim; toda a facção demoníaca caiu pelas suas mãos.
“Ela despertou como uma santa, mas eu a ensinei tudo o que pude. Então a deixei fazer o que quisesse até que estivesse satisfeita.”
Daniel ainda se lembrava vividamente daquele dia.
Ao recordar a cena, via a capital da Facção Demoníaca em chamas, com milhares de corpos amontoados por todos os lados, formando macabras montanhas de carne.
O sangue jorrava como um rio carmesim, serpenteando pelo solo, enquanto o som de gritos e lamentos era constante no ar.
A palavra “monstro” era o único grito que escapava da garganta daqueles que tentavam fugir desesperadamente.
No epicentro de todo aquele caos, ele observava sua pequena garota.
Na época, ela acabara de completar dezoito anos, e ele a deixara livre para seguir sua própria escolha.
Sozinha, ela exterminara a Facção Demoníaca com as próprias mãos; arrancara o coração do Demônio Celestial — o líder supremo — e executara os sete filhos que disputavam a sucessão do culto.
Ela simplesmente surgira diante deles como um espectro da morte.
Apesar da juventude, possuía uma força que transcendia a dos Dez Supremos do Murim.
Contudo, após cumprir seu objetivo, a jovem agora estava de joelhos, fitando o céu com o olhar vazio.
O vermelho carmesim do sangue a cobria por inteiro, e as lágrimas que escorriam de seus olhos deixavam sulcos limpos em seu rosto pequeno e manchado.
Daniel caminhou lentamente em sua direção.
Vários sobreviventes passavam por ele, fugindo aterrorizados, mas ele não desviava o olhar da discípula.
Ela estava de joelhos, coberta de carmesim e chorando.
Ao alcançá-la, ajoelhou-se à sua frente e a envolveu em um abraço protetor e apertado.
— Mestre... sou um monstro! — ela dissera com voz trêmula.
— Não... você é minha menina, sempre será! Mesmo que o mundo diga o contrário, para mim você sempre será a minha pequena Lininha!
Ela o abraçou com tanta força que suas mãos tremiam em suas costas.
— Mestre... eu fiz isso... pensei que me sentiria bem... mas é tão amargo... minha mãe não vai voltar!
— Sim, ela não vai... mas eu estou aqui e não vou te deixar!
Depois daquele dia, ela se entregou cem por cento à família.
Todos que Daniel salvou eram, de alguma forma, feridos pelo destino, e ele não pôde deixá-los sós.
°°°
O holograma mudou uma última vez.
Todos os dez discípulos apareceram juntos.
— Obrigado, mestre, por nunca desistir de nós! Obrigado por nos amar até o fim! Nós te amamos, Pai! — falaram em uníssono.
A gravação terminou, e o orbe se desintegrou em partículas que circularam Daniel, fundindo-se à sua alma. Ele não as impediu; sabia que era o último presente de Vivian.
As palavras “Nós te amamos, Pai” ecoavam em sua mente, fazendo-o sorrir em desamparo.
Daniel ficou em silêncio por um longo tempo, olhando para o vazio onde a imagem estivera.
— Eu criei um bando de crianças travessas, que só sabem acabar com o pobre coração de um velhinho, haa... bando de pirralhos... vocês sempre foram a minha alegria... será que nunca notaram isso?
Ele alçou voo e, como um meteoro, disparou em direção ao céu estrelado, rompendo a barreira do som enquanto deixava o deserto para trás.