No vácuo do espaço, o som não se propagava.
A vastidão cósmica era um lugar impossível de ser habitado por seres vivos. Sem oxigênio e com temperaturas atingindo -270°C, aquela era uma zona de morte inevitável.
Para um humano comum, ou mesmo para aqueles que alcançaram patamares elevados de poder, a sobrevivência ali seria impensável.
Contudo, Daniel vagava pela imensidão com a naturalidade de quem caminha pelo próprio quintal.
Após atingir a realização do Pico Supremo nas Artes Marciais da "Travessia do Vazio", ele se tornou um ser baseado em energia.
Essa era uma das maiores virtudes dessas Artes Marciais: a transição de um organismo natural para algo além.
No caminho marcial, havia degraus bem definidos — dos praticantes comuns até níveis superiores como o Reino Harmonioso, o Reino Irrestrito… e, por fim, o Pico Supremo.
Ainda assim, Daniel sabia que aquele não era o limite.
Acima disso, existia um domínio onde a própria existência sofria uma mudança qualitativa.
Os dragões adultos, por exemplo, ocupavam esse patamar.
Era por isso que ele nada podia fazer contra eles.
"Por sorte, restavam apenas dois." Refletiu em pensamentos.
Sem contar com os dois, Daniel outrora se considerava poderoso. Foi somente ao conhecer a terrível raça draconiana que percebeu quão limitada era sua visão.
Após o sacrifício de seus discípulos, seu poder foi elevado diretamente, e sua energia vital restaurada.
Com seu vigor atual, conhecimento e físico, ele acreditava que, empenhando-se ao máximo, teria boas chances caso os enfrentasse individualmente.
—
O Sistema que auxiliava a humanidade também apresentava problemas.
Seus limites eram claros.
Os mais talentosos ficavam presos.
Outros mal avançavam.
Devido a isso, resistir às constantes investidas das diversas raças era extremamente difícil.
Artes Marciais mostravam-se mais eficazes; ainda assim, exigiam preparo antes do despertar.
Daniel sabia disso melhor do que ninguém.
Outros mundos seguiam caminhos distintos.
No Mundo Murim, tudo girava em torno do cultivo de Qi e da evolução marcial.
No Mundo Rúnico, o poder vinha da gravação e ativação de runas capazes de alterar a realidade.
Já no Império Eragon, técnicas de alma, magia e combate eram fundidas em um único sistema, criando guerreiros versáteis.
A humanidade, por outro lado, recebeu algo diferente.
Uma interface.
Algo que parecia facilitar, mas o intuito era outro.
Ele desconfiava de um interferência externa — algo muito além dos Dragões.
E isso… o incomodava.
—
No centro de observação espacial da NASA, o clima era de efervescência.
Vozes se sobrepunham, discussões surgiam em todos os cantos, e o som frenético de teclados preenchia o ambiente.
Monitores de tubo exibiam imagens com leves interferências, linhas estáticas cruzando a tela ocasionalmente.
Teorias surgiam a cada segundo.
Alguns sugeriam ser o corpo de um astronauta desaparecido orbitando a Lua, mas outros refutavam imediatamente: a figura flutuava ereta, de braços cruzados e olhar imponente, sem qualquer sinal de rigidez cadavérica.
Além disso, sem a pressão atmosférica, o corpo deveria estar completamente deformado.
A transmissão apresentava pequenos atrasos e oscilações, como se o sinal lutasse para se manter estável.
— Isso é impossível... — murmurou alguém, com a voz trêmula.
— Amplie a imagem! Agora! — gritou outro, incapaz de conter o nervosismo.
Alisha observava em silêncio, mas seus olhos estavam fixos na tela, analisando cada detalhe, mesmo com a qualidade limitada da imagem.
O Marechal e o Almirante mantinham a mesma postura rígida, embora suas expressões revelassem uma tensão crescente.
O Presidente George exibia uma face neutra, mas seus dedos tamborilavam levemente sobre a mesa — um sinal claro de inquietação.
A preocupação do trio, contudo, recaía sobre Michel, o diretor da CIA, que efetuava ligações à distância com um sorriso sugestivo, completamente alheio ao caos ao redor, utilizando um telefone criptografado de linha fixa.
— Humpf! Não entendo como esse psicopata chegou a esse cargo! — murmurou Alisha, mordendo os lábios com desprezo.
Ela havia disputado a posição com Michel, mas a influência dele com os poderes ocultos dos EUA fora um obstáculo insuperável.
Em suas investigações, Alisha descobrira atrocidades: ele era um lunático que realizava dissecações humanas e experimentos de fusão com animais.
Crimes suficientes para centenas de penas de morte — e, ainda assim, lá estava ele, em uma das cadeiras mais poderosas da nação.
— Kyaa! Ele... ele sumiu!
O grito desesperado de uma funcionária cortou o ambiente como uma lâmina. Todos se viraram abruptamente para o telão principal.
A figura desaparecera.
Por um breve instante, ninguém respirou.
O silêncio que se seguiu foi sufocante.
Logo, a voz potente do Almirante Thomas ecoou pela sala ao notar algo insólito — mas, desta vez, havia um traço claro de tensão em seu tom:
— Olhem para a tela do módulo de observação... agora.
Os olhares se voltaram lentamente.
E então—
Um arrepio coletivo percorreu a sala.
Aquele homem, completamente despido, estava parado diante da cúpula de vidro do satélite.
A imagem apresentava breves distorções, como se o sistema tivesse dificuldade em processar aquela presença.
Não havia som.
Não havia movimento.
Apenas ele.
Dentro da estrutura, três astronautas americanos observavam, paralisados pelo choque.
Seus corpos tremiam levemente, incapazes de reagir diante daquela figura que flutuava no vácuo sem qualquer traje ou suprimento de oxigênio.
A comunicação interna sofria leves chiados, como se até os sistemas estivessem sendo afetados.
Um dos astronautas tentou dizer algo, mas sua voz falhou.
Outro recuou instintivamente, colidindo contra o painel atrás de si.
O terceiro apenas encarava, os olhos arregalados, como se estivesse diante de algo que sua mente se recusava a aceitar.
O homem acenou.
Um gesto simples.
Amigável.
Errado.
Completamente errado.
Ele sorriu.
E então fez um sinal, como se pedisse permissão para entrar.
Os astronautas recuaram ainda mais, o pânico agora evidente em seus rostos. O ar parecia pesado, sufocante, mesmo dentro da estação.
Aquela presença...
...desafiava todas as leis naturais.