
ROMULUS
CAPÍTULO VII - CINZAS, ESPÍRITO E LUZ
Após Felicia deixá-lo sozinho com seus pensamentos, Romulus passeou pelo Salão, o único cadete ali era ele, todos os outros convidados eram líderes militares, clérigos e burocratas do Império. Servia-se dos petiscos dispostos às mesas: carne de ganso, geleias de frutas importadas, pães recém-assados e néctares cítricos. Quando Tullia aproximou-se dele e perguntou:
— Mais vinho, senhor?
— S-Sim, branco, por favor… — respondeu com a voz trêmula.
— Ouvi dizer que és habilidoso… O prodígio da Primeira Legião. — Tullia o encarou com seus olhos cor de mel.
— Ah… Sério? — Romulus engoliu em seco.
Tullia sorriu para ele e virou-se, continuando a servir os outros convidados.
Romulus sentiu uma mão firme apertar-lhe o ombro.
— Então quer dizer que, basta passar alguns dias na Primeira Legião que meu pequeno Romulus se torna o maior galanteador do Império?
Romulus se virou e encontrou Claudius, já sem a bengala, usando uma elegante toga vermelha. Ao lado dele, Emilius, que ria baixo da piada do colega.
— Claudius! — Romulus sorriu para o antigo supervisor — Já estás curado?
— Quase completamente. Mas já não preciso mais andar com uma bengala.
— Do jeito que estás velho, logo precisarás dela novamente. — Emilius zombou, vestido tão elegantemente quanto Claudius
— Não sabia que eram amigos. — Romulus
— Fui subordinado de Claudius quando ele era o Decano da Primeira Legião, se ele não tivesse jogado tudo pro alto para ser monitor de acampamento, ainda seria. — disse Emilius
Romulus arregalou os olhos.
— O senhor foi Decano da Primeira?
Claudius acenou com a mão, como se desfizesse o assunto.
— Águas passadas. Prefiro ensinar jovens tolos a aturar velhos ranzinzas.
— Estás inventando pretexto para não admitir que não serve mais em um campo de batalha! — Emilius
— Eu sou mais condecorado que você, Emilius, ainda sou seu superior! — Claudius engrossou a voz ironicamente
— Tu já não aguentas nem mesmo cinco minutos num duelo, Claudius, deveria se aposentar logo. — Emilius riu
— Teus cabelos grisalhos e tua barba cinza já não enganam mais ninguém, Emilius, também estás idoso e morimbundo! — Claudius
Os três conversaram por mais tempo do que Romulus conseguia medir. As taças se esvaziavam e se enchiam novamente, os petiscos nas mesas diminuíam e eram substituídos, e o burburinho do salão ora crescia, ora diminuía, como o mar em dia de vento. Claudius contou histórias de campanhas antigas, Emilius reclamou da juventude de hoje, e Romulus ouviu, sorriu e, pela primeira vez naquela noite, sentiu-se entre amigos de verdade.
Quando o cansaço começou a pesar-lhe os ombros, ele se despediu dos veteranos com um aperto de mão e promessas de se verem nos treinos. Atravessou o Salão das Águias ainda cheio, passou por grupos de senadores que já cambaleavam sobre o vinho, e saiu para o pátio interno.
O ar da noite era frio e limpo, sem o cheiro de incenso e comida. Romulus inspirou fundo, sentindo os pulmões se expandirem. A lua estava alta, prateada, e suas sombras dançavam entre as colunas de mármore. A Cidadela da Primeira ficava a alguns minutos dali, e ele conhecia o caminho. Começou a andar.
Antes de chegar ao portão que levava aos aposentos dos serviçais, uma voz suave cortou o silêncio da noite.
— Não é aconselhável caminhar sozinho por estes corredores à noite, cadete. Há quem confunda solitude com vulnerabilidade.
Romulus virou-se, a mão indo instintivamente ao gládio que não carregava. A figura que emergia das sombras era familiar: o mesmo linho branco, o mesmo pingente da coruja lunar, os mesmos olhos azuis que pareciam ver através dele.
Faruk al-Murshid inclinou a cabeça, um sorriso tênue nos lábios.
— Conselheiro — disse Romulus, o coração ainda acelerado. — Não o esperava por aqui.
— Os velhos têm o hábito de aparecer onde não são esperados. — Faruk aproximou-se, seus passos leves como os de um gato. — Caminho contigo?
Não era propriamente uma pergunta, mas Romulus assentiu. Caminharam lado a lado, o silêncio entre eles preenchido pelo eco dos próprios passos.
— A marca — disse Faruk, sem preâmbulos. — Como está?
Romulus tocou o braço, onde as faixas roxas escondiam o sol gravado em sua pele.
— Pulsa. Às vezes mais, às vezes menos. Não dói.
— Não deveria doer. — Faruk falou como quem comenta o tempo. — Uma bênção genuína não é uma ferida. É uma extensão. Como um braço ou um olho. Você não sente dor ao enxergar, não é?
Romulus nunca pensara nisso.
— Em Hikmah — continuou Faruk —, acreditamos que o poder não se domina com força. Domina-se com compreensão. O guerreiro que luta contra o próprio escudo nunca vencerá uma batalha.
— O que me aconselha, então? — a pergunta escapou antes que Romulus pudesse contê-la.
Faruk parou. Virou-se para encarar o rapaz, e seus olhos, à luz da lua, pareciam mais velhos do que o resto do rosto.
— Aceite o que você é. Não lute contra a chama. Aprenda a sentir sua temperatura, seu ritmo, sua fome. E então... — ele ergueu a mão direita, e entre seus dedos, uma pequena fumaça azulada começou a dançar, formando uma figura indecisa — ...então, você a convidará para dançar, em vez de ser arrastado por ela.
A fumaça se dissipou antes que pudesse tomar forma. Faruk baixou a mão.
Romulus arregalou os olhos.
— O que foi isso?
— Uma demonstração. Nada mais. — Faruk começou a andar novamente. — Em Hikmah, aprendemos que até o fogo pode ser manso, se você souber como pedir.
— E o que isso tem a ver com minha marca?
— Tudo. — Faruk olhou para frente, para o portão que se aproximava. — O poder que você carrega não é diferente. Tem vontade própria, ainda que difusa. Se você tentar domá-lo com força, ele o queimará. Se tentar ignorá-lo, ele o consumirá por dentro. Mas se aprender a... conversar com ele...
— O que acontece?
Faruk sorriu. Um sorriso que não era irônico nem calculista. Era o sorriso de um avô que ensina um neto a pescar.
— Ele se tornará parte de você. Como um braço. Como um olho.
Chegaram ao portão que dava para os aposentos de Romulus. Faruk parou, e o rapaz fez o mesmo.
— Conselheiro... por que está me contando isso? Por que se importa?
Faruk olhou para o céu, para a lua, para a sombra das colunas.
— Porque já fui jovem e tive um poder que não entendia. Porque ninguém me ensinou o que estou lhe ensinando. E porque — seus olhos encontraram os de Romulus — acredito que o mundo precisa de mais pessoas que saibam conversar com o fogo, e menos que só sabem atear fogo nos outros.
Romulus não soube o que dizer.
Faruk estendeu a mão. Não para apertar, mas para oferecer algo invisível.
— Se quiser, posso ensiná-lo. Não a lutar. A compreender. Às noites, quando o treino da legião terminar. Uma hora aqui, outra ali. Ninguém precisa saber.
Romulus hesitou. O conselheiro era estrangeiro. Felicia desconfiava dele. E, no entanto... suas palavras tinham um eco que ressoava em algum lugar profundo.
— Por que faria isso? — perguntou novamente
Faruk baixou a mão.
— Porque o Império precisa de armas. Mas Hikmah... — ele fez uma pausa — ...Hikmah precisa de respostas. E você, cadete, é uma pergunta que merece ser respondida.
Virou-se e começou a se afastar.
— Pense no que lhe disse — sua voz veio das sombras. — Se aceitar, me procure no terraço do palácio ao pôr do sol. Virei sozinho.
E desapareceu.
Romulus ficou parado por um longo momento, olhando para o lugar onde Faruk estivera. A marca pulsava suavemente, como se também estivesse pensando.
Entrou em seus aposentos, fechou a porta e sentou-se na cama.
A oferta estava feita. Restava decidir.
FELICIA
No dia seguinte, Felicia acordou com os primeiros raios de sol filtrando-se pelas cortinas. Batidas na porta anunciaram o início de suas obrigações.
Ao abrir, encontrou Tullia, que fez uma reverência e entrou.
— Bom dia, vossa alteza. Vim prepará-la para a audiência.
Felicia coçou os olhos, ainda tonta.
— Audiência? Te referes a quê?
— Teu pai, o Imperator, solicitou ontem à noite tua presença e a de teu irmão. Marcou uma reunião para dentro de uma hora.
Felicia endireitou a postura, o sono dissipando-se num instante.
— E Félix? Já foi avisado?
— Creio que sim, alteza.
A princesa suspirou, baixinho. O dia começava mal.
Tullia trabalhou em silêncio nos cabelos da princesa. Desembaraçou os nós com paciência, alisou as mechas com os dedos e, em seguida, trançou-os em uma espiral firme que descia da nuca até os ombros — prática, guerreira, mas elegante. Quando terminou, Felicia vestiu a armadura de platina, peça por peça, o metal tilintando suave como uma canção de guerra. A capa púrpura completou o conjunto.
— Pronta, alteza — murmurou Tullia, recuando um passo.
Felicia olhou-se no espelho. Aprovou com um aceno e saiu de seus aposentos.
O Salão Central do Palácio era um retângulo de mármore branco, ladeado por altas colunas de capitéis esculpidos e estátuas de imperadores passados. A claraboia no teto derramava luz sobre o chão polido, onde os passos ecoavam como tambores distantes.
Félix já estava lá. Sua armadura de escamas de aço polido reluzia como se tivesse saído da forja naquela manhã — limpa, impecável, sem um arranhão que denunciasse a campanha. Ele ajustava as luvas quando viu a irmã.
— Chegaste cedo — disse Felicia, sem preâmbulos.
— Dormi mal. — Félix não olhou para ela. — O pai nunca nos convoca juntos sem motivo.
— Sabes do que se trata?
— Se soubesse, não estaria aqui esperando.
O silêncio se alongou. Os dois irmãos, tão parecidos e tão distantes, evitavam os olhos um do outro.
— Acho que é sobre a campanha — Félix finalmente disse, a voz mais baixa. — E sobre o teu... protegido.
— Então teremos muito o que ouvir — respondeu Felicia, impassível.
Félix riu, um som seco.
— Tu sempre tiveste sorte com as palavras, irmã. Eu tenho sorte com as adagas. Veremos qual dos dois o pai prefere hoje.
Não houve resposta. Apenas o eco dos passos quando ambos se dirigiram à Sala do Trono.
A Sala do Trono estava mais iluminada do que na noite anterior. O sol da manhã entrava pelas claraboias, banhando o mármore em tons de ouro e âmbar. No centro, sobre o estrado de ébano, Octavius II sentava-se em sua cadeira de marfim e ouro. Sua postura era ereta, mas não rígida. Seus cabelos loiros e cacheados caíam em ondas sobre a testa, e sua barba cheia, escovada com cuidado, descia pelo queixo até metade do pescoço, ocultando o pomo laríngeo. Aos cinquenta e poucos anos, ainda mantinha a jovialidade de um homem que se exercita todos os dias — os ombros largos, as mãos firmes, os olhos azuis que, ao contrário dos filhos, eram da cor do céu de inverno, não da esmeralda.
A seus pés, sobre a pele do urso negro, o leão branco Nix dormitava de olhos semi-cerrados. O Imperador acariciava sua juba com a ponta dos dedos, um gesto distraído. Duas servas, posicionadas atrás do trono, abanavam o ar com grandes leques de plumas de pavão, criando uma brisa que fazia as tochas tremular.
Quando Felicia e Félix entraram, o leão ergueu a cabeça. Seu olfato pareceu reconhecê-los antes da visão. Com um ronronar grave, Nix levantou-se, espreguiçou-se como um gato doméstico, e desceu do estrado. Caminhou até os gêmeos com passos lentos, pesados, a cauda balançando como a de um felino contente. Esfregou a cabeça na perna de Felicia primeiro, depois em Félix, ronronando mais alto.
Félix afagou a juba do animal com um sorriso forçado.
— Ainda manso, como sempre.
— Manso com quem conhece — corrigiu Octavius II, a voz grave mas não hostil. — Com estranhos, é uma fera. Sentai, temos muito o que discutir.
O Imperator não perdeu tempo.
— Félix. Fala-me da campanha.
O príncipe endireitou-se na cadeira. Havia orgulho em sua voz quando começou, mas também uma ponta de cautela.
— As legiões cumpriram seu dever, pai. Os rúteres foram expulsos das terras altas de Marcópolis, suas fortificações no entorno de Brancovadum foram arrasadas. Recuaram para além do rio, concentrando suas últimas forças em Nurvaburgo, a última cidade rúter que ainda resiste no oriente.
— Expulsos — repetiu Octavius, os dedos tamborilando no braço do trono. — E as terras que tu me dizes ter conquistado... como estão?
Félix hesitou. Apenas um segundo, mas foi o suficiente.
— Os rúteres adotaram uma tática covarde. Incendiaram os celeiros, envenenaram os poços, queimaram as casas antes de fugir. Mas a terra é nossa, pai. As águias imperiais tremulam sobre as ruínas.
O silêncio que se seguiu foi cortante. Octavius ergueu-se do trono. O leão Nix, sentindo a mudança de humor, recuou alguns passos.
— Ruínas — disse o Imperador, a voz baixa, cada sílaba pesada como um martelo. — Tu me ofereces ruínas, Félix. Celeiros vazios, poços que não servem. Casas que não abrigam ninguém. Dizes que conquistaste, mas o que me trouxeste foi um deserto.
Félix abriu a boca para retrucar, mas Octavius ergueu a mão.
— Cala-te. Sabes quanto custará restaurar cada poço? Cada celeiro? Cada casa queimada? — Ele desceu do estrado, aproximando-se do filho. — A guerra não se vence apenas com espadas, Félix. Vence-se com celeiros cheios e soldados descansados. O inimigo que foge queimando o que não pode levar não está derrotado. Está preparando o terreno para a sua volta.
Félix empalideceu. Sua mandíbula se contraiu, mas ele não disse nada.
— Tua mãe, quando me cedeu o reino de Nefélia, não o fez por covardia. Fê-lo porque viu que uma guerra de exaustão destruiria seu povo. Ela negociou a paz, poupou vidas e terras, e garantiu que suas cidades mantivessem seus costumes e sua fé. Ela sabia que um império se constrói com celeiros cheios, não com cinzas. Tu queimaste o que poderia ser nosso.
Felicia observava em silêncio. Seu rosto era uma máscara, mas seus olhos — verdes, tão verdes quanto os de Félix — estavam fixos no irmão.
O Imperator retornou ao trono. Sentou-se, acariciou a juba de Nix, que voltara a se aconchegar em seus pés.
— Terás um mês para apresentar um plano de reconstrução. Com estimativas. Com prazos. Com responsáveis. — Ele olhou para Félix com um cansaço que parecia pesar mais que qualquer reprimenda. — Se falhares novamente, enviarei alguém competente para cuidar do que tu estragaste.
Félix não respondeu. Apenas inclinou a cabeça, os dentes rangendo.
— Retira-te — ordenou Octavius. — Quero falar com tua irmã.
O príncipe ergueu-se. Sua reverência foi precisa, quase teatral. Quando seus olhos encontraram os de Felicia, houve ali algo que ela não vira antes: não apenas inveja, mas um ressentimento profundo, guardado, como uma ferida que nunca cicatrizara.
Ele saiu. A porta fechou-se.
O silêncio que ficou foi preenchido pelo ronronar do leão.
— E o rapaz? — Octavius mudou de assunto com a sutileza de quem já disse o que precisava. — O tocado pelo Sol. Faruk acredita que ele te vê como uma mãe. É verdade?
Felicia hesitou. A resposta exigia cuidado.
— Ele precisa de um norte, pai. Enquanto eu for esse norte, ele será leal.
— E quando deixar de ser?
A princesa não respondeu.
Octavius suspirou.
— Forja-o, Felicia. Mas não te esqueças: armas são feitas para serem usadas, não acariciadas.
— Sim, pai.
— Podes ir. E manda chamar o conselheiro estrangeiro. Quero saber o que mais ele viu na arena.
Felicia curvou-se e saiu. Ao atravessar a porta, encontrou o olhar de Félix, que esperava no corredor. Ele não disse nada. Apenas se afastou, e ela o deixou ir.
FÉLIX
Félix atravessou os corredores como um furacão contido. Seus passos ecoavam no mármore, mais rápidos que o normal, mais pesados. A mão direita, fechada em punho, batia contra a coxa a cada três passadas — um tique nervoso que ele nunca conseguira controlar
— Príncipe!
A voz veio de um nicho entre duas colunas. Cornelius Afranius emergiu das sombras, seus olhos verdes avaliando rapidamente o estado do jovem. Félix não parou.
— Afaste-se, emissário. Não estou de humor para conversas.
— Por isso mesmo vim — Cornelius acompanhou-o, mantendo o passo. — Vi vossa saída da Sala do Trono. O Imperator não estava satisfeito?
Félix riu, um som amargo.
— Satisfeito? Meu pai me chamou de incompetente na frente de minha irmã. Disse que queimei o que poderia ser nosso. Que a guerra não se vence com espadas, mas com celeiros cheios. — Ele finalmente parou, virando-se para encarar Cornelius.
Cornelius não respondeu de imediato. Apenas observou o príncipe, seus olhos percorrendo o rosto tenso, a mandíbula contraída.
— O Imperator é um homem pragmático, alteza. Ele vê números, não sangue. — O emissário baixou a voz. — Mas vossa irmã... ela esteve ao vosso lado? Defendeu-vos?
O silêncio de Félix foi a resposta.
— Eis o problema! — Cornelius suspirou. — Ela nunca perde a oportunidade de brilhar às vossas custas.
— Não se esqueça do estrangeiro — Félix cuspiu a palavra. — Aquele conselheiro vindo de Hikmah. Faruk. Chegou ontem e já enfeitiçou meu pai com suas palavras.
— Faruk al-Murshid é perigoso, concordo. Mas é apenas uma ferramenta. A verdadeira ameaça é outra.
— Qual?
Cornelius aproximou-se, a voz reduzida a um sussurro.
— O rapaz, alteza. O tal "tocado pelo Sol". Romulus. Ele está na Primeira Legião, sob os cuidados de vossa irmã. Se o Imperator decidir que ele é útil…
— Ele se tornará a nova arma do Império — completou Félix, os olhos se estreitando. — E Felicia será a mão que a empunha.
O silêncio se alongou. Cornelius observava o príncipe, esperando.
Félix sorriu. Um sorriso que não aqueceu nada, que fez os lábios se esticarem como uma cicatriz.
— Se não posso ganhar o favor do pai — disse, a voz baixa, perigosa —, vou tomar o que é meu de outra forma.
— Que pretendeis, alteza? — Cornelius
— O rapaz. Romulus.
ROMULUS
O treino daquela manhã não teve duelos diretos, apenas exercícios físicos de alto impacto. Corridas com armadura completa, flexões na lama, repetições de golpes até os braços queimarem. No apogeu solar, Emilius anunciou um intervalo. Romulus jogou-se em uma arquibancada, ofegante, o peitoral dourado subindo e descendo como um fole.
Servos traziam jarros de barro com água fresca para os cadetes. Romulus bebeu como se fosse o mais doce néctar do mundo, a água escorrendo pelo queixo, misturando-se ao suor.
Foi quando os portões da arena se abriram.
Félix entrou como se o sol girasse em torno de sua armadura. Escamas de aço polido reluziam, e suas duas adagas balançavam nos cintos como presas ansiosas. Atrás dele, uma meia dúzia de soldados da guarda pessoal — não pretorianos, mas homens leais apenas a ele.
— Cadetes da Primeira! — sua voz ecoou nas arquibancadas, carregada de teatralidade. — Saudai o herói do oriente!
Os cadetes hesitaram, mas a disciplina falou mais alto. Muitos se curvaram. Emilius apenas observou, os braços cruzados, sem se mover.
Félix subiu em um pequeno palanque improvisado — na verdade, uma das plataformas de treino — e discursou. Falou de batalhas, de glória, de como os rúteres foram expulsos de Marcópolis. Falou de si mesmo, claro, no centro de cada frase.
— E assim, as águias imperiais tremulam sobre Brancovadum. Os bárbaros recuaram, queimando suas próprias terras como covardes. — Ele fez uma pausa, os olhos percorrendo a plateia de jovens rostos suados. — Infelizmente, nem todos tiveram a honra de retornar.
Seu olhar encontrou Romulus.
— A XX Legião... — Félix suspirou, um suspiro tão falso quanto seu sorriso. — Digamos que os bárbaros não perdoam. Poucos restaram. Seus amigos, cadete... eram corajosos. Mas a coragem, como sabemos, nem sempre vence batalhas.
Romulus sentiu o mundo desabar. Adipos. Dominus. Os nomes ecoaram em sua mente como sinos fúnebres. Sua mão fechou-se no cabo do gládio, a marca pulsando sob as faixas roxas.
— Dizem que você é o prodígio da Primeira — Félix desceu do palanque, caminhando lentamente em direção a Romulus. — Que sua espada brilha como o Sol. Mostre-me.
Os outros cadetes afastaram-se, abrindo um círculo. Emilius não interveio. Seus olhos cinza estavam fixos em Félix, avaliando.
Romulus hesitou. A marca queimava. Mas se recusasse, seria covarde. E covardia, na Primeira Legião, era pior que a morte.
— Aceito — ouviu-se dizer, a voz mais firme do que se sentia
Posicionaram-se no centro da arena. Félix nem desembainhou as adagas; cruzou os braços, sorrindo.
— Vamos, prodígio. Mostre o que aprendeu.
Romulus avançou. O gládio cortou o ar em um golpe diagonal — o básico, o primeiro que aprendera no acampamento. Félix desviou com um passo lateral, quase preguiçoso.
— Lento.
Outro golpe. Outro desvio. Romulus tentou uma estocada, mas Félix girou, e a lâmina passou a centímetros de seu flanco.
— Onde está o fogo? — provocou o príncipe. — O tal poder que incinerou um espião? Ou foi só sorte?
A marca ardeu. Romulus sentiu o calor subir pelo braço, mas o fogo não veio. Apenas a frustração.
Félix desembainhou uma das adagas. Moveu-se como uma sombra — para a esquerda, para a direita, um golpe rápido que Romulus bloqueou com o gládio, mas a força do impacto o fez recuar.
Outro golpe. Outro. O metal cantava.
Romulus tentou contra-atacar, mas Félix já não estava lá. A adaga cortou sua coxa — um corte superficial, mas que ardeu. Romulus grunhiu, recuando.
— Você depende da força bruta — Félix rodeava-o, os passos leves. — Mas força sem velocidade é apenas um alvo lento.
Uma segunda cutucada. Desta vez no braço. Romulus sentiu o sangue escorrer sob a manga da túnica.
— Seus amigos da XX — Félix sussurrou, apenas para Romulus ouvir —, sabia que eles foram enviados como escudo humano? Eu mesmo assinei a ordem. Carne de cerco, chamamos. Úteis para cansar o inimigo.
A raiva turvou a visão de Romulus. Ele avançou cegamente, e Félix o esperava. A adaga bateu em seus joelhos — não com a lâmina, mas com o cabo, um golpe seco que fez suas pernas dobrarem.
Romulus caiu de joelhos na areia.
O gládio escapou de sua mão.
Félix ergueu a adaga, a ponta apontada para o pescoço de Romulus.
— Acabou, prodígio. — O sorriso era uma cicatriz. — Onde está sua bênção agora?
Romulus sentia o tórrido percorrer suas veias e se espalhar por sua extensão. Fechou os olhos por um momento e, ao abri-los, explodiu em flamas douradas, preenchendo todo seu corpo.
Félix saltou para trás, sorrindo.
— Aí está: o Triunfo do Sol!
Romulus avançou contra o príncipe, golpeando-o com violência, um vão esforço que foi defendido por Félix, que agora usava as duas adagas.
O príncipe lançou-se para as paredes da arenas e correu por elas em círculos, lançando fortes rajadas de vento na direção de Romulus, apagando o fogo e deixando-o sem fôlego. Félix então pulou em sua direção com as adagas em forma de presas para um último golpe.
O som do metal cortando o ar foi o único aviso.
O machado de Felicia bloqueou a adaga de Félix a centímetros do pescoço de Romulus. O impacto ecoou na arena como um trovão.
— Chega, irmão.
Félix recuou um passo, surpreso, mas rapidamente recuperou a pose.
— Felicia. Sempre a salvar os fracos.
— Ele está sob minha custódia — respondeu ela, o machado ainda erguido. — Você não tem autoridade aqui.
— Sou príncipe do Império. Tenho autoridade em qualquer lugar.
— Tem ordens do Imperator para duelar com meus protegidos?
O silêncio de Félix foi a resposta.
Felicia baixou o machado, mas não o embainhou. Seus olhos verdes faiscavam.
— Retira-te, Félix. Enquanto ainda posso chamar isso de recuo voluntário.
O príncipe olhou para a irmã, para Romulus ajoelhado na areia, para os cadetes que assistiam em silêncio. O sorriso voltou, mas não alcançava os olhos.
— Por ora. — Ele embainhou as adagas. — Mas o pai vai saber como você protege seu brinquedo.
Virou-se e saiu, seguido por sua guarda. Os portões da arena fecharam-se atrás dele.
Felicia ajoelhou-se ao lado de Romulus, puxando sua manga rasgada. O corte no braço, que minutos antes vertia sangue, agora tinha as bordas ressequidas e escuras — como se uma brasa invisível tivesse passado sobre a ferida, selando-a.
— Isto... não deveria estar fechado — disse ela, franzindo a testa. — Sangrou há minutos.
Romulus olhou para a própria pele. As bordas da ferida estavam escuras, unidas como se alguém as tivesse soldado com um ferro quente.
— A marca — murmurou. — Ela... fechou os machucados.
Felicia soltou seu braço, recuando meio passo. Seus olhos verdes estavam fixos na marca sob as faixas roxas.
— O fogo que queima também pode selar? — Ela balançou a cabeça, como se afastasse um pensamento incômodo. — Levante-se.
Romulus obedeceu. As pernas doíam, mas o corte na coxa também estava fechado. A marca pulsava — não com fúria, mas com uma calma estranha.
Enquanto caminhava para fora da arena, ele não conseguia parar de olhar para o próprio braço.
— Emilius! — Felicia chamou, sua voz ecoando na arena. — O cadete está apto a continuar?
O Decano aproximou-se, os olhos cinza percorrendo Romulus de alto a baixo.
— Os ferimentos são superficiais — avaliou, e havia algo em seu tom que não era desprezo, mas uma aprovação relutante. — Volte à formação, soldado. Ainda há luz solar para mais uma hora de exercício.
Romulus endireitou os ombros, sentindo o peso da armadura dourada. Enquanto caminhava de volta para a linha dos cadetes, sentiu o olhar de Felicia em suas costas. Ela não se moveu da arquibancada, o machado apoiado ao lado, vigiando.
Ela está aqui para proteger, percebeu Romulus. Ou para me vigiar?
Não teve tempo de responder. Emilius já berrava as próximas ordens.
O treino arrastou-se até o sol começar a descer atrás das muralhas de Aurora Cor. Os exercícios foram brutais — corridas com escudo, repetições de golpes até os braços queimarem, imobilizações na lama. Romulus sentia cada corte fechado como uma cicatriz nova, mas a marca não doía. Apenas existia, quente e presente, como um segundo coração.
Quando Emilius finalmente dispensou os cadetes, Romulus mal conseguia erguer os braços. Bebeu água de um jarro deixado por um servo, lavou o rosto sujo de areia e sangue seco, e começou a caminhar em direção aos seus aposentos.
Mas seus pés não o levaram até lá.
Em vez disso, encontrou-se subindo as escadas de mármore que levavam ao terraço do palácio — o mesmo lugar que Faruk mencionara na noite anterior. O pôr do sol tingia o céu em tons de laranja e púrpura, e a brisa que vinha do oriente trazia o cheiro de poeira e incenso.
Faruk al-Murshid já estava lá.
O conselheiro estrangeiro estava de costas para a entrada, apoiado no parapeito, observando o horizonte. Vestia sua túnica de linho branco, o pingente da coruja lunar balançando suavemente. Quando ouviu os passos de Romulus, não se virou de imediato.
— Você veio — disse, a voz calma, como se já soubesse.
— O senhor sabia que eu viria?
— Suspeitava. — Faruk finalmente se virou, e seus olhos azuis pareciam refletir o céu alaranjado. — A dor, quando bem utilizada, é uma excelente conselheira. Você sentiu o que o poder pode fazer hoje. E percebeu que não o controla.
Romulus tocou o braço, onde os cortes haviam se fechado.
— A marca... ela curou meus ferimentos.
Faruk ergueu uma sobrancelha.
— Curou? Ou cauterizou? — Ele aproximou-se. — O fogo, quando puro, pode selar feridas. Mas também pode queimar até os ossos. A diferença está na intenção. E na compreensão.
— O senhor disse que podia me ensinar.
— Disse. — Faruk fez um gesto com a mão, e Romulus notou então que havia algo desenhado no chão do terraço: um círculo de aproximadamente três passos de diâmetro, com runas e símbolos que brilhavam fracamente na penumbra. — Entre.
Romulus hesitou.
— O que é isso?
— Um círculo de contenção. Para que você não fuja. — Faruk falou como quem comenta o tempo. — O que vou invocar não é um brinquedo. Ele é antigo, selvagem e não gosta de ser chamado contra sua vontade. O círculo o manterá seguro. Dentro dele.
— Seguro do quê?
— De si mesmo.
Romulus engoliu em seco. A marca pulsou, quente, como se também estivesse curiosa.
Entrou no círculo.
Faruk ergueu as mãos. Os símbolos nas runas brilharam mais forte, e o ar ao redor de Romulus ficou pesado, denso, como antes de uma tempestade.
— Feche os olhos — ordenou Faruk. — E não os abra até que eu diga.
Romulus obedeceu.
O escuro atrás das pálpebras era pontilhado por manchas de luz residual. Ele ouviu Faruk murmurar palavras em uma língua que não reconhecia — guturais, sibilantes, carregadas de uma antiguidade que parecia vir de antes do tempo.
O calor aumentou.
Não o calor confortável da marca, mas um calor seco, abrasador, que parecia vir de fora e de dentro ao mesmo tempo. Romulus sentiu o chão tremer sob seus pés.
— Venha — sussurrou Faruk.
E então o céu se abriu.
Não literalmente, mas Romulus sentiu uma presença. Algo que não era humano, não era animal, não era nada que ele pudesse nomear. Abriu os olhos sem permissão — e arregalou-os.
Diante dele, dentro do círculo, uma figura começava a tomar forma.
Era alta, mais alta que qualquer homem que Romulus já vira. Sua pele era cinza-azulada, como cinza de vulcão, e seus olhos queimavam em brasa — não vermelha, mas dourada, como pequenos sóis incandescentes. Seu cabelo, se é que se podia chamar de cabelo, era uma juba de chamas negras que tremulavam sem vento. Seus braços eram longos e musculosos, e em suas mãos — quatro dedos apenas, cada um terminando em uma garra que parecia capaz de rasgar aço.
Mas o que mais impressionou Romulus foi o rosto.
Não era bestial, nem monstruoso no sentido grotesco. Era... severo. Um rosto esculpido em rocha viva, com mandíbula quadrada e uma expressão que misturava fúria contida e uma tristeza antiga. Na testa, uma terceira marca — não uma cicatriz, mas um símbolo queimado na carne, como um olho fechado.
O espírito não se moveu. Apenas flutuou a meio palmo do chão, seus olhos dourados fixos em Romulus.
E então falou.
Sua voz não saiu de uma boca, mas ecoou dentro da cabeça de Romulus, grave como o trovão e áspera como pedras sendo arrastadas:
— Quem ousa chamar o Fogo Antigo?
Romulus sentiu as pernas fraquejarem. O medo era um animal dentro de seu peito, rasgando suas entranhas. Mas ao mesmo tempo, havia algo ali — uma beleza aterrorizante, uma majestade que fazia o Sol de Viramax parecer uma lamparina de criança.
— Ele... — Romulus tentou falar, mas a voz saiu um sussurro. — Ele é...
— Um djinn de fogo — completou Faruk, do lado de fora do círculo. — Dos antigos. Dos que viram o mundo nascer. — O conselheiro uniu as mãos à frente. — Agora, ele vai entrar em você.
— O quê?!
— É a única maneira de aprender a controlar o poder que você carrega. O djinn vai tentar tomar seu corpo. Você vai resistir. — Faruk falava como quem descreve um exercício de rotina. — Se falhar, eu o trarei de volta. Se conseguir, sairá daqui mais forte.
— E se eu não conseguir?
Faruk não respondeu.
O djinn moveu-se.
Foi um movimento tão rápido que Romulus mal pôde acompanhar. A figura de cinza e chamas negras atravessou o espaço entre eles em um piscar de olhos — e então entrou.
Não foi como um soco ou uma facada. Foi como se o próprio ar se transformasse em brasa.
Romulus sentiu uma dor imensa — não localizada, mas difusa, como se cada célula de seu corpo estivesse pegando fogo ao mesmo tempo. Seus músculos se contraíram violentamente, suas costas arquearam, e ele caiu no chão de mármore, sacudindo em convulsões.
A marca em seu braço brilhou como um farol.
— Resista — a voz de Faruk vinha de longe, abafada, como se houvesse um vidro entre eles. — Resista, e o fogo se tornará seu aliado.
Romulus tentou gritar, mas o som que saiu de sua garganta foi um rugido rouco, um som que não era humano. Ele sentia o djinn dentro de si — uma presença massiva, furiosa, que se espalhava por seus membros como lava.
Fraco, pensou o djinn. Não com palavras, mas com uma certeza esmagadora. Carne fraca. Ossos fracos. Espírito fraco.
Não, respondeu Romulus, sem saber como. Não sou.
É.
NÃO SOU.
Ele agarrou a presença do djinn com algo que não eram mãos — algo mais profundo, mais primitivo. A marca queimou. O círculo brilhou. E Romulus, de olhos fechados, viu o fogo.
Não o fogo que destrói. O fogo que cria. O fogo que aquece. O fogo que ilumina.
O fogo que escolheu um garoto medíocre para ser sua morada.
O djinn hesitou.
A centelha... murmurou a voz antiga. A centelha do Criador. Como...
Romulus não respondeu. Apenas apertou o punho — dentro e fora do corpo — e empurrou.
A convulsão parou.
O calor diminuiu.
Quando Romulus abriu os olhos, estava deitado no centro do círculo, ofegante, o suor frio escorrendo pela testa. O djinn havia desaparecido. Apenas a marca brilhava fracamente, como uma brasa quase apagada.
Faruk estava ajoelhado ao lado dele, fora do círculo, os olhos azuis fixos em seu rosto.
— Você resistiu — disse o conselheiro, e havia algo em sua voz que Romulus não esperava: respeito. — Poucos conseguem na primeira vez.
Romulus tentou sentar-se, mas os músculos não obedeciam.
— O que... o que ele quis dizer? Com "centelha do Criador"?
Faruk não respondeu de imediato. Em vez disso, ergueu a mão e os símbolos no chão se apagaram, um por um.
— Descobrirá quando estiver pronto — disse, finalmente. — Por ora, contente-se em saber que o poder que você carrega é mais antigo que este império. Mais antigo que Hikmah. Mais antigo que os deuses que os homens cultuam.
Romulus não entendeu. Mas estava cansado demais para perguntar.
— O treino acabou?
— Por hoje. — Faruk estendeu a mão e ajudou-o a se levantar. — Amanhã, voltaremos. E no dia seguinte. Até que você aprenda a conversar com o fogo, em vez de ser arrastado por ele.
Romulus olhou para o céu noturno. As estrelas começavam a aparecer, e a lua já estava alta.
— Conselheiro... — começou.
— Faruk. Apenas Faruk.
— Faruk... por que está fazendo isso? Realmente? Não acredito na história de que "Hikmah precisa de respostas".
O velho sorriu. Um sorriso cansado, mas verdadeiro.
— Porque já vi o que acontece quando um poder desses cai nas mãos erradas. E porque — ele fez uma pausa — porque você me lembra de alguém que não pude salvar.
Virou-se e começou a se afastar.
— Descanse, cadete. O amanhã será pior.
Romulus ficou no terraço, sozinho, sentindo o vento noturno secar o suor em sua pele. A marca pulsava suavemente, como um coração que finalmente aprendera a bater em ritmo.
Ele não sabia se tinha feito a escolha certa.
Mas, pela primeira vez, sentiu que talvez — apenas talvez — pudesse aprender a controlar o fogo antes que o fogo o consumisse.
Continua…