ATO 1 — O RASTRO DO EXECUTOR
A Cúpula de Prata — 22:14
O silêncio no museu não foi quebrado; ele foi devorado.
O braço esquerdo de Korran tremeu por um instante — não como falha, mas como aviso.
Quando a porta blindada desintegrou-se, o aço transformou-se em poeira.
Ele atravessou os detritos com um passo que falhou por um milésimo de segundo, antes de retomar a cadência implacável.
O segurança ergueu a arma, mas o tempo operava contra ele.
Seu dedo escorregou no gatilho e o projétil encontrou apenas a parede, um erro irrelevante.
— Não… — a súplica morreu na garganta do homem.
O alarme, prisioneiro de sua própria latência, demorou dois segundos para reagir.
Dois segundos foram o hiato necessário para o fim.
O guarda não caiu de imediato; ficou de joelhos, tateando o vácuo, tentando processar o momento exato em que o chão ascendera para encontrá-lo.
Korran alcançou o artefato.
No instante em que sua mão entrou em contato com a obsidiana, um arco voltaico rasgou a penumbra.
A luva tática evaporou e a carne fundiu-se ao metal em um grito mudo de agonia sistêmica.
O braço tremeu — um espasmo involuntário que o Executor corrigiu ajustando a postura, camuflando a falha.
Ele não soltou.
Aquilo não era uma arma; era uma chave.
— INTRUSO!
O grito foi o último ato do próximo guarda.
Antes que a última sílaba ecoasse, uma rajada de pulso cortou o ar, silenciando-o.
Korran girou.
Houve um atraso mínimo, uma dissonância imperceptível que permitiu ao ambiente reagir um suspiro antes dele.
Placas metálicas deslizaram sobre seu braço, formando um escudo circular perfeito onde as balas ricochetearam, riscando o teto com cicatrizes de fogo.
Um dos soldados recuou em pânico, colidindo contra as vitrines.
O vidro temperado choveu sobre suas mãos abertas.
Ele gritou um nome, mas o vácuo não devolve respostas.
Korran avançou.
Um passo explosivo que fez o mármore gemer antes de ceder.
Seu punho atravessou o peito do soldado; o impacto estilhaçou o colete e lançou o corpo contra a parede oposta como um ponto final sangrento.
O Executor não esperou.
Lançou-se pela janela do segundo andar.
O luar fragmentou-se em mil facas brilhantes junto com o vidro.
O asfalto da rua rugiu sob o impacto de sua queda.
De um ponto cego no alto, uma lança de energia perfurou seu flanco direito.
O metal de sua armadura chiou, derretendo; a carne fumegou com o odor acre de ozônio.
Korran arrancou a haste incandescente com um movimento seco e a devolveu ao remetente.
Lá no alto, o grito do atirador foi interrompido pela chuva.
Quando o Executor virou-se na direção do Porto, o silêncio que retornou ao museu era diferente.
Em algum lugar, alguém começou a chorar. Ninguém mandou parar.
Em outro ponto da cidade, um sensor antigo despertou de seu repouso.
E, desta vez, ele sentia a pulsação de algo que não estava sozinho.
MINUTOS ANTES — PORTO DE SOLARION
— Você sentiu isso? — Lyra perguntou.
O cajado rúnico em seu ombro emitia um estalo verde, uma centelha de natureza reagindo ao artificial.
Maira não desviou os olhos da água suja do porto.
Ela não precisava de sensores; sentia através das botas.
A terra estava apavorada.
O couro de suas luvas rangeu quando ela cerrou os punhos, sentindo a vibração profunda do solo.
Nami respirou fundo, filtrando a umidade do ar por puro instinto.
— O sensor não deveria ter acordado assim — murmurou.
— É como se algo tivesse aberto um buraco no tecido do mundo. E está vindo para cá.
Maira flexionou os dedos, sentindo a resposta bruta do asfalto.
— Senti — disse ela, o olhar fixo no ponto onde a luz morria.
— E não gostei. Seja o que for... resolveremos rápido.
ATO 2 — UMA GUERRA NO PORTO
A chuva caiu pesada, transformando o Porto de Solarion em um necrotério de lama.
Korran mancava. A cadência de seus passos falhava, mas ele seguia.
Não era estratégia; era uma recusa absoluta em parar.
Cada movimento exigia mais do que o corpo podia dar.
Não era resistência; era teimosia pura.
O ferimento no flanco deixava um rastro escarlate que a enxurrada tentava, em vão, apagar.
O Artefato agora parecia fundido ao seu peito, pulsando em uníssono com algo que o esperava no horizonte.
De repente, o chão revoltou-se.
Uma muralha de terra bruta irrompeu do concreto — maciça, densa, um bloqueio projetado para deter colossos.
Korran colidiu contra ela como um aríete.
O impacto rachou o material reforçado, mas o obstáculo permaneceu.
— Solta isso. Agora.
Maira desceu de um guindaste.
Seu punho brilhava com uma luz marrom opaca, pesada como o centro de uma montanha.
Ela atingiu o solo com um estresse que fez os contêineres vizinhos vibrarem em protesto.
Korran não respondeu. Ele apenas investiu.
Maira desferiu um soco direto contra o rosto, mas o bloqueio dele veio com uma facilidade desconcertante.
O chute de contra-ataque a atingiu nas costelas, lançando-a contra uma empilhadeira.
O metal dobrou e o ar abandonou seus pulmões.
O porto silenciou por meio segundo.
O tempo necessário para Maira entender que aquela não seria uma luta, mas uma execução.
— MAIRA!
O grito veio do alto.
Raízes grossas saltaram das fendas do cais, serpenteando pelos braços de Korran com uma força vegetal descomunal.
Lyra pousou, o cajado cravado no solo, os olhos brilhando em um esmeralda febril.
— Segura ele! — Maira cuspiu sangue e avançou.
Korran rugiu — um som mecânico e gutural.
Seu braço transfigurou-se em lâminas rotativas, retalhando a flora rúnica, mas Lyra forçou a vida a persistir.
Maira viu a abertura.
Concentrou todo o peso de sua existência em um único ponto.
— IMPACTO DE GAIA!
O punho desceu.
A pedra encontrou o estômago de Korran e uma onda de choque dispersou a chuva em um raio de dez metros.
O Executor atravessou dois contêineres como se fossem feitos de papelão.
Quando parou, o porto pareceu exausto.
Korran tentou levantar.
A perna esquerda estava em um ângulo impossível.
O olho cibernético piscava em vermelho, falhando.
Ele forçou o metal a se regenerar — o som foi o de soldagem feita em carne viva.
— Já chega!
Uma massa de água pesada desabou do céu, esmagando-o contra o chão.
Nami deslizou pela névoa, tecendo círculos rápidos no ar.
— Ainda não — a voz de Korran ecoou sob a pressão.
Ele emergiu da água, o braço transmorfado em um canhão de pressão.
A barreira de Nami explodiu em névoa e ela foi projetada para trás pelo vácuo.
A onda de choque deslocou uma pilha de carga; um contêiner deslizou na lama, rápido demais, na direção de dois trabalhadores paralisados.
— GENTE! SAIAM!
Maira não pensou.
Girou o corpo e golpeou o chão.
Uma muralha de terra subiu como um dente arrancado do asfalto.
O contêiner colidiu com a barreira.
A terra gemeu, cedeu um palmo... mas sustentou.
O civil encarou o paredão, percebendo que alguém escolhera sofrer o impacto por ele.
Ele não agradeceu; as mãos tremiam demais.
— Levanta! Agora! — Maira rosnou, lançando o homem para a segurança.
Seu braço latejava, e o segundo civil foi resgatado pelas raízes de Lyra.
Mas o assobio do perigo não cessara.
Maira virou-se tarde demais. Korran já estava sobre ela.
O braço metálico desceu como um machado de carrasco.
Maira ergueu a defesa que pôde, mas a pancada atravessou tudo.
A terra explodiu em seu rosto e o mundo inclinou-se.
Por um segundo, a investida coordenada de Maira, Lyra e Nami pareceu suficiente.
Só por um segundo.
— VEREDITO VERDE!
Lyra atacou. Lanças de madeira rúnica perfuraram o ombro de Korran.
Ele agarrou a estaca, quebrou-a com força bruta e caiu de pé, cercado.
— Agora é minha vez — Korran sibilou.
Ele girou como um dervixe de aço.
As vinhas de Lyra tornaram-se serragem.
Um arco de calor cortou os chicotes de Nami.
Ele agarrou Lyra pelo pescoço, e o frio da morte a tocou.
— Ele é Rank E... — Maira arfou, tentando se levantar. — Isso mata equipe! Alguém mentiu nos relatórios.
— SOLTA ELA! — O grito de Nami foi o ponto de ruptura.
Ela não lançou um jato; ela convocou a tempestade.
Toda a água do porto reuniu-se acima de Korran em uma esfera negra de rotação frenética.
— LÁGRIMAS DO ABISMO!
O jato atingiu Korran como uma perfuratriz.
A água encontrou a fissura em seu peito — a ferida aberta no museu.
O metal estilhaçou e o Executor foi arremessado contra o abismo do cais.
Nami caiu de joelhos.
A chuva parecia pesada demais para ser suportada.
O silêncio retornou, pontuado apenas por respirações em frangalhos.
Maira caminhou trôpega até o corpo apagado.
A armadura era sucata; o braço, um ângulo morto.
Ela olhou para o peito dele... e o estômago afundou.
— Não... o artefato. Não está aqui.
— Ele serviu de distração — Maira concluiu, observando o porto devastado.
— Alguém o pegou enquanto estávamos ocupadas em não morrer.
Nami socou um contêiner.
A chuva continuou a cair, lavando o sangue, mas não a derrota.
FORTALEZA DOS DEFENSORES
A cela era um cubo de luz estéril.
Campos de força drenavam qualquer centelha de energia espiritual.
Korran estava acorrentado, um homem quebrado de um único olho humano.
Elias entrou.
Sua presença fazia a luz oscilar.
O selo em sua mão, o círculo aberto pulsando em azul, brilhava como uma cicatriz viva.
— Quem te enviou? — A voz de Elias era a calma que precede o desastre.
Korran levantou o olhar.
— Você está fazendo a pergunta errada, Capitão.
— Onde está o artefato?
Korran tossiu, uma risada seca.
— O artefato não é poder. É acesso. Eu fui contratado para ser o alvo. Para ver como os Defensores reagiam sob pressão.
Elias deu um passo à frente. O ar tornou-se chumbo.
— Um teste?
— Três defensoras. Só isso — Korran sorriu com dentes quebrados.
— Era o suficiente... até não ser.
Elias ergueu-o pelo colarinho como se fosse palha.
— Dê um nome.
— Ele não tem nome. Ele é o que vem depois que a luz apaga. E ele mandou um recado.
Elias apertou o aperto.
— Fala.
— "Cedo demais."
Elias soltou-o. Korran caiu como um saco de ossos.
O Capitão saiu sem olhar para trás, caminhando em direção à janela da Fortaleza.
Solarion brilhava abaixo, mas ele via as sombras.
O recado — "Cedo demais" — não era uma ameaça; era um cronômetro.
Se os Defensores não subissem de nível antes do próximo "acesso", o porto seria apenas um ensaio para o necrotério.
A primeira peça da Luz já tinha uma rachadura.