ATO 1 — A PRISÃO ABRE
A montanha tremeu como se algo tivesse batido do lado de dentro.
Elias não confiava em paredes de aço.
Para Korran, ele havia encomendado uma tumba de granito e runas de contenção de Classe E.
O que estava preso ali não era mais um homem; era uma anomalia sistêmica que a montanha lutava para digerir.
Lá dentro, Korran permanecia imóvel.
O selo estava ativo. E estava falhando.
Ninguém falou nada.
Até o vento pareceu hesitar, como se o próprio ar aguardasse uma reação.
Uma das figuras encapuzadas ergueu a mão ao símbolo no peito, mas a conteve, sabendo demais para completar o gesto.
Uma luz violeta percorreu as marcas do selo ancestral.
O vento surgiu do nada dentro da câmara fechada, vindo em rajadas curtas e violentas.
Três figuras encapuzadas atravessaram a passagem estreita.
A primeira mancava, arrastando a sola como se o chão resistisse a ela.
A segunda respirava raso, com um chiado seco por trás do pano.
A terceira não fazia som nenhum — nem passos.
O líder avançou até o centro do círculo rúnico e ajoelhou-se, fazendo com que os símbolos reagissem com um brilho insuportável.
As marcas oscilaram, lutando para manter a prisão intacta, mas rachaduras finas começaram a serpentear pelo chão de pedra.
— O selo perdeu o compasso — murmurou o líder, os olhos fixos na falha rúnica.
O círculo rúnico afundou no chão com um estalo seco.
Então, o selo quebrou de vez.
Lá fora, uma fileira de rochas se soltou do penhasco como se tivesse sido cortada por dentro.
O estrondo veio atrasado, pesado demais para ser só eco.
Ele pressionou as mãos contra o granito e forçou o corpo a se erguer.
A pedra rachou sob seus dedos.
Korran levantou o rosto, revelando o contraste brutal de sua existência: um olho humano, injetado de sangue pelo esforço, e um olho mecânico, desprovido de qualquer emoção.
— Quem abriu? — a voz dele saiu como metal raspando em osso.
— Não faça perguntas. Vá — ordenou o líder, sem recuar um milímetro.
Korran tentou dar o primeiro passo.
O chão rachou sob o peso do primeiro passo dele.
Ao alcançar a saída, o vendaval das cordilheiras o atingiu com a força de um soco.
Ele parou, avaliando o mundo. Não foi o frio que o fez estacar, mas uma assinatura vibracional que vinha de muito longe.
— O erro voltou. — Korran sussurrou, fixando o olhar no horizonte sul.
— O vento já se moveu — avisou a segunda figura. — Se você não alcançar a origem, essa falha se tornará permanente.
Korran fechou o punho. O metal correu sobre os nós de seus dedos, moldando uma lâmina curta e letal em seu antebraço.
Ele começou a descer a montanha.
ATO 2 — O RITMO QUEBRADO EM SOLARION
Na Academia Solarion, o sol de fim de tarde parecia tingir o gramado de ouro, mas o calor não trazia conforto.
Ryu comandava o centro do campo com a confiança de um general, enquanto Dante gastava energia em saltos e corridas curtas.
Lukas observava a formação em silêncio; Aiden gritava ajustes do outro lado.
Os olhos de Kael não focavam na bola, mas na bandeira no topo do mastro principal.
O tecido tremulava violentamente para o leste. Mas as nuvens, densas e escuras, moviam-se pesadamente para o oeste.
— De novo… — Kael murmurou, abrindo e fechando a mão esquerda.
— Você está estranho desde o aquecimento — Dante surgiu ao seu lado, o tom de voz preocupado. — Está passando mal, cara?
— Não. Só cansado — mentiu Kael, sentindo o suor frio escorrer pelas têmporas.
Ryu ergueu a bola, encerrando qualquer conversa.
— Formação agora! Vamos rodar duas sequências sem parar!
Kael se posicionou como wide receiver, sentindo a grama sob suas chuteiras.
Ryu se alinhou para o lançamento e Lukas ficou atento na linha, pronto pra reagir se a jogada quebrasse.
O peito de Kael apertou antes mesmo do snap, como se o ar estivesse esperando ele falhar.
Na lateral do campo, a atmosfera era carregada de uma hostilidade puramente humana.
Skam girava uma bola nos dedos, exibindo um sorriso de canto que exalava tédio e malícia.
Ao seu lado, Reno ajustava as luvas de couro com uma calma metódica, mantendo a postura perfeita de quem já se considerava o dono daquele lugar.
Violet mexia no cabelo, fingindo olhar para o céu, mas seus olhos verdes não perdiam um único movimento de Kael.
Ela prendeu o cabelo num gesto calmo, como quem se prepara pra correr atrás de alguém.
Já Nirse permanecia imóvel, os braços cruzados sobre o peito, encarando o campo com uma intensidade que beirava a predação.
O pé dela avançou meio passo, marcando território sem pressa.
Skam deu alguns passos à frente, invadindo o espaço de treino de Kael.
— Está com medo de correr hoje, “prodígio”? — Skam sibilou, alto o suficiente para ser ouvido. — Ou será que o vento vai ter que carregar você nas costas?
Dante virou-se com os punhos cerrados.
— Fica na sua, Skam! Ninguém chamou reserva pra dar palpite.
Skam levantou as mãos em um gesto de falsa rendição, mas seus olhos brilharam.
— Só estou observando. Vai que ele cai sozinho e ninguém vê.
Reno interveio, sua voz calma cortando a discussão como uma lâmina.
— Deixe o treino andar, Skam. Se ele errar, o campo vai mostrar.
A provocação era clara: eles estavam ali para marcar território.
Kael ignorou o veneno, apertando os dedos e focando na linha de partida.
— Jogada valendo! — gritou Ryu.
O snap aconteceu e Kael arrancou.
primeiro o ar ficou pesado, depois a resistência desapareceu.
A bola saiu da mão de Ryu em uma espiral perfeita.
No meio do trajeto, o impossível aconteceu: A bola parou no ar.
Ela não desviou, ela simplesmente parou, desafiando a inércia, antes de despencar com uma força súbita, como se tivesse se transformado em chumbo.
Um redemoinho estreito e violento nasceu sob os pés de Kael.
Não era o chão que o prendia; era o próprio ar que o puxava para frente com uma sede invisível.
— KAEL! PARA! — o grito de Ryu ecoou pelo campo.
Kael tentou frear, mas seu corpo não respondia.
Ele estava sendo arrastado em uma direção que o vento decidira por ele.
Dante tentou intervir, mas um pico de pressão atmosférica o empurrou para o lado como se fosse um boneco de pano.
— Que porra foi essa?! — rosnou Dante, recuperando o equilíbrio no susto.
Lukas, mais rápido que os outros, disparou e agarrou Kael pela cintura.
O puxão foi tão forte que quase levou os dois ao chão, mas Lukas cravou os calcanhares na grama e travou o movimento com pura força bruta.
O redemoinho sumiu instantaneamente.
Não houve dissipação; ele simplesmente deixou de existir.
O placar eletrônico estalou e apagou por um segundo, antes de voltar sozinho.
A bola caiu no chão e rolou sozinha contra o vento, até parar encostada na chuteira de Kael.
Kael ficou parado, sem entender se tinha sido puxado… ou escolhido.
O campo mergulhou em um silêncio absoluto.
Skam parou de sorrir, mas logo recuperou o sarcasmo para esconder o desconforto.
— Tá apelando para efeitos especiais, Kael? — Skam gritou, embora sua mão estivesse tremendo no bolso.
— Se não aguenta o treino, pede pra sair, não precisa fingir que o vento te atacou.
Reno, porém, não disse nada.
Ele apenas ajustou a luva, os olhos fixos na bola que rolara sozinha contra o vento.
Ele era humano, mas não era burro. Sabia que algo na lógica daquele campo tinha acabado de quebrar.
Violet e Nirse deram um passo à frente, a fachada de indiferença estilhaçada.
— Você quase voou, mano! — Ryu chegou correndo, os olhos arregalados.
Lukas soltou Kael devagar, sentindo os próprios braços formigarem.
— Você estava sendo puxado. Você não sentiu isso?
Kael tentou responder, mas seus pulmões ainda não haviam se ajustado ao fluxo do ar.
O peito subia e descia em espasmos.
ATO 3 — SEGREDOS ENTRE AS SOMBRAS
O treino não terminou; ele simplesmente dispersou sob o peso do que acabara de acontecer.
Ela foi direto em Kael.
— Você sentiu? — ela perguntou, a voz baixa o suficiente para que apenas ele ouvisse.
— Não sei — Kael respondeu, tentando estabilizar o tremor nas mãos.
— Não foi normal, Kael. Pareceu… direcionado pra você.
Maira e Nami chegaram logo atrás.
Nami apertava a garrafa com força demais; a água tremia lá dentro, como se algo estivesse empurrando de baixo.
Dante se aproximou.
— Que conversa é essa? O que foi aquilo lá fora?
— Foi só uma rajada forte — Kael mentiu.
— Para de mentir — Lyra disse, firme. — Se você fingir que não aconteceu, vai acontecer de novo.
Kael não teve o que responder. O silêncio foi sua única confirmação.
ATO 4 — O AVISO
O ginásio de Solarion estava quase vazio quando Kael e Dante entraram no corredor lateral.
As luzes de LED falharam por um segundo, piscando antes de voltarem ao brilho normal.
Um frio súbito, seco e cortante, invadiu o corredor. Não era uma queda gradual; foi como se tivessem aberto a porta de um frigorífico gigante.
Kael travou. Dante percebeu a mudança e olhou ao redor, os sentidos em alerta.
— O que foi agora? — Dante sussurrou.
Um som de metal raspando no concreto ecoou pelo corredor. Baixo. Rápido. Cruel.
No fundo do corredor, Nami, Lyra e Maira vinham na direção deles.
Nami ainda segurava a garrafa, mas, de repente, a água saltou para fora do recipiente sem que ninguém a tocasse, derramando-se no chão em um padrão circular perfeito.
— Tá… isso eu vi — Dante deu um passo para trás, a voz trêmula.
O vento voltou. Mas não era um fenômeno físico.
Era uma vibração que se moldou em palavras dentro da mente de Kael, uma mensagem direta enviada pelo próprio ar que ele respirava.
A frase era curta, gélida e definitiva.
“Ele vem.”
Um risco fino apareceu no chão, terminando encostado na sola do tênis de Kael.
O estômago de Kael afundou.
Ele sentiu uma presença tão próxima que os pelos de sua nuca se arrepiaram, como se alguém estivesse medindo a distância entre suas costas e uma lâmina.
Ele piscou, e o corredor voltou à normalidade.
O calor retornou, o som do tráfego distante voltou a existir, mas o aviso permanecia gravado em seus ossos.
Aquilo não foi um aviso.
Foi alguém marcando distância.