CAPÍTULO 3 — O RASTRO DA EXECUÇÃO
ATO 1 — O CAMPO SEGURA A RESPIRAÇÃO
Depois do aviso, o corredor perdeu peso e calor; o ar pressionava o peito como algo que não queria ser respirado.
O silêncio não era a ausência de som; era a presença tátil e opressiva do medo.
— Kael? — A voz de Dante era um sussurro rouco, os olhos fixos no piche úmido onde a luz das lâmpadas oscilava em espasmos de agonia.
— Que porra foi aquela?
— Não pergunta. Agora não — Kael respondeu.
Sua voz falhou, um instrumento quebrado pela tensão.
Eles dispararam de volta para o gramado.
Ryu, Lukas e Aiden já estavam lá, transformados em estátuas de carne e osso no epicentro do campo.
O ar estava eletrizado, saturado de ozônio e um gosto metálico que grudava na língua.
Kael sentiu o diafragma travar; o oxigênio parecia ter ganho a densidade do chumbo.
— Tá chegando — murmurou Nami.
Abaixo de seus pés, o esqueleto metálico da Academia Solarion gemeu.
Na lateral, Skam deixou o capacete cair.
O estalo do plástico contra o solo reverberou como um tiro de misericórdia no silêncio sepulcral. Ninguém ousou respirar.
O mundo havia parado para observar o que vinha do céu.
ATO 2 — A CHEGADA DO FERRO
O firmamento sobre o campo simplesmente rasgou.
Não houve fumaça, nem aviso; apenas uma ruptura espacial seguida pelo impacto brutal da matéria contra o mundo.
BOOM.
A onda de choque foi uma parede invisível.
Jogadores foram varridos como folhas secas, arremessados contra o gramado pela pressão atmosférica.
No centro da cratera que se abriu instantaneamente, a terra ainda fumegava quando Korran se ergueu.
Ele ignorou a multidão.
Seu olho cibernético, um ponto escarlate que perfurava a poeira, travou em Kael.
— Achei você — a voz de Korran era um sintetizador de puro gelo.
— Ei! — Ryu, movido por um instinto suicida de lealdade, deu um passo à frente.
Korran apenas moveu o pulso.
O deslocamento de energia foi tão bruto que Ryu foi chicoteado para trás, o ar expulso de seus pulmões antes mesmo de seu corpo atingir o chão.
Dante tentou correr, mas seus joelhos colapsaram; a gravidade ao redor do intruso era uma lei distorcida.
Lukas agarrou o ombro de Kael, tentando ancorá-lo à realidade.
— Kael, corre! Agora!
Aiden tentou gritar um comando, mas sua garganta era um deserto.
Ele, o pilar de defesa, entendeu em um segundo: eles não eram oponentes. Eram cenário.
Korran ergueu a mão esquerda.
O nanometal deslizou sobre sua pele, moldando-se em uma lâmina curta, fosca e letal.
— Você não deveria existir — sentenciou o Executor.
— Vim corrigir o erro.
Ele disparou.
Dante tentou intervir, mas o vácuo gerado pela velocidade de Korran o jogou contra o mastro do gol.
Um estalo seco de metal atingindo osso ecoou pelo estádio.
Lukas tentou um tackle desesperado, mas colidiu contra uma parede de aço absoluto.
— CHEGA! — O grito de Maira rasgou o caos.
Ela golpeou o solo com ambas as palmas.
A terra sob Korran rugiu.
Duas colunas massivas de rocha e raízes subiram como presas de um leviatã subterrâneo.
Korran sequer hesitou.
Com um giro de 360 graus e um golpe de dorso de mão, ele reduziu a defesa de Maira a pó fino.
— Fracos — ele murmurou.
— Tenta isso, então! — Nami surgiu pelo flanco, disparando um corte de água pressurizada contra o pescoço dele.
Korran ergueu a palma revestida de metal; o calor residual transformou o ataque em vapor instantâneo.
— Minha vez.
Korran avançou, mas Lyra interceptou o caminho.
Raízes espinhosas brotaram do gramado, enrolando-se nas pernas dele como grilhões vivos.
— Maira, agora! — Lyra gritou, o rosto pálido pelo esforço hercúleo.
Maira canalizou cada gota de sua essência.
O solo sob Korran tornou-se movediço, tentando tragá-lo para as profundezas.
Ele afundou até os joelhos.
— Tentativa inútil — sentenciou o vilão.
O contra-ataque foi um soco desferido contra o próprio vácuo.
A pressão do golpe atingiu Nami como uma bala de canhão, jogando-a metros à frente até colidir contra o banco de reservas.
— NAMI! — O grito de Kael finalmente rompeu sua paralisia.
O medo estava sendo consumido por uma raiva impotente, mas suas pernas ainda eram prisioneiras do choque.
ATO 3 — A FERIDA QUE MUDA TUDO
O som do mundo foi abafado pela morte iminente.
Maira ergueu uma última muralha de rocha, mas a lâmina violeta de Korran a atravessou como se a pedra fosse névoa.
— Kael, foge! — comandou Lyra.
Korran apenas pisou no chão.
O impacto correu pelo solo, estilhaçando as raízes e atingindo os tornozelos de Kael.
O som foi úmido, definitivo.
Nami, cambaleante, lançou novas lâminas de água, mas Korran apenas fechou as placas de seu braço como escamas de um predador.
O vapor gerado queimou a pele de Nami, que caiu sufocando no calor.
Lyra reagiu arrancando as traves do gol com raízes, usando o metal e o concreto como um aríete improvisado.
Ela lançou a estrutura massiva contra ele.
Korran parou o projétil com uma única mão.
O metal gemeu, dobrou-se em um ângulo impossível e caiu como sucata.
A onda de choque subsequente atingiu Lyra no peito, arremessando-a contra a linha lateral.
Ela não se moveu mais.
— LYRA! — Maira rugiu.
O chão começou a girar em torno de Korran, um vórtice de pedra tentando moê-lo.
O Executor socou o epicentro do turbilhão.
A pressão explodiu, varrendo o anel de pedra.
Detritos voaram para as arquibancadas, entortando o alambrado enquanto a sirene do colégio uivava ao fundo.
Maira cambaleou.
O sangue escorreu por seu queixo, mas ela se plantou novamente à frente de Kael.
— Fica... atrás de mim.
Korran parou a três metros.
As placas de seu braço travaram com um clique mecânico pesado.
Uma arma sendo engatilhada.
— Vocês estão atrasando o inevitável.
Maira puxou sua última reserva de vida.
Uma lança de rocha disparou contra o peito dele.
Korran desviou por milímetros.
A lança explodiu contra a arquibancada, fazendo os rivais recuarem.
Violet deu um passo atrás, em choque.
Nirse apertou os punhos; seu medo era o de estar diante de algo puramente inumano.
Nami se arrastou até Kael, cravando as unhas em seu braço.
— Kael… respira… por favor… — ela implorava, tentando trazê-lo de volta do abismo.
Korran avançou.
Maira sabia que não podia vencer, apenas comprar segundos com sangue.
Ela desferiu um soco com toda a sua alma.
O impacto fez o chão ceder.
Korran bloqueou com a mão metálica.
O braço de Maira tremeu violentamente; era como golpear o centro da Terra.
O contra-ataque de Korran foi um soco curto no plexo.
Maira quase desabou, mas travou o corpo no limite.
— Sai… daqui… — ela ordenou a Kael, a voz morrendo.
Korran passou por ela.
O olho mecânico travou no pescoço de Kael.
A lâmina subiu, um movimento limpo e desprovido de ódio.
Funcional. O fio violeta desceu.
Kael sentiu o calor do metal, o vento do corte... ele aceitou o fim.
— O erro será corrigido.
No último milésimo de segundo, Maira se jogou.
O metal atravessou o ombro dela e desceu em diagonal, rasgando carne e músculos; o braço perdeu força no mesmo instante, pendendo como algo que não lhe obedecia mais.
O som foi pesado. Real.
O sangue quente espirrou no rosto de Kael, manchando sua visão de vermelho escarlate.
— MAIRA! — O grito de Lyra foi um lamento quebrado.
Maira caiu de joelhos na frente de Kael.
Suas mãos tentaram tocar o chão, buscando a terra que sempre a protegera, mas seu corpo falhou.
Korran puxou a lâmina devagar.
O som do metal saindo da carne foi um chiado gélido.
Ele olhou para Kael, a lâmina pingando o sangue da irmã.
— Agora você entendeu — disse Korran. — Você existir é o problema.
Kael não respondeu.
Ele olhava para o sangue em suas próprias mãos, o mundo girando em um eixo de horror puro.
Korran ergueu a arma para o golpe final.
Kael olhou para Maira caída e uma verdade suja e cortante se instalou em seu peito: a culpa era dele.
E naquele instante, entre o hálito da morte e o cheiro de ferro, ele jurou.
Não com palavras, mas com a alma.
Da próxima vez, ele não seria o protegido.