ATO 1: A CÓLERA DO INVISÍVEL
Maira desabou, e com ela, o eixo do mundo de Kael saiu do lugar.
O impacto não foi apenas físico; foi o som do silêncio sendo esfolado pelo horror.
O sangue dela, quente e insistente, tingia o uniforme dele, desenhando um mapa de culpa sobre o tecido.
— Maira… por favor… — O sussurro de Kael saiu quebrado, uma súplica direcionada a um Deus em quem ele mal acreditava.
— Abre os olhos…
Ela lutou por oxigênio.
Cada inspiração soava como se seus pulmões estivessem preenchidos por cacos de vidro.
— Kael… ele te quer… corre — a voz dela falhou, um rastro de vida se esvaindo.
Ela tentou erguer a mão, um último gesto de proteção, mas os dedos apenas cravaram na camisa dele antes de penderem inertes.
Ela apagou.
A dor no peito de Kael metastatizou.
O luto instantâneo deu lugar a uma raiva primordial.
O Vento não apenas soprou em resposta; ele urrou.
Primeiro, veio uma vibração ultrassônica que fez os dentes dos presentes latejarem.
como se o ar estivesse sendo rasgado por dentro.
O solo sob os pés de Kael cedeu em uma cratera perfeita, enquanto o ar ao redor resfriava em frações de segundo, tornando-se uma lâmina invisível.
Korran recuou.
O olho mecânico girou freneticamente, processando dados que a lógica não explicava.
— Então é isso…
Kael ergueu-se em transe.
Ele segurava Maira com a reverência de quem carrega uma relíquia sagrada.
O ar ao seu redor não girava em um fluxo ordenado; ele colidia.
Eram estilhaços de pressão que chicoteavam o gramado e geravam um ruído de estática insuportável, um grito atmosférico.
— Ele… despertou… — Lyra levou a mão à boca, o terror paralisando seus pulmões.
Nami sentiu a pressão nos ouvidos aumentar; o ar tentava se compactar em um ponto único onde o ar esmagava tudo ao redor.
Kael não via mais o campo de batalha, os rivais ou as torres da academia.
Ele via apenas a palidez cadavérica da irmã.
— Não vou deixar ninguém encostar nela — sua voz saiu de um abismo escuro, desprovida de humanidade.
O Vento rugiu.
Uma rajada brutal arrancou placas da blindagem do ombro de Korran como se fossem papel, enquanto outra fenda se abria no solo aos pés do invasor.
Korran desviou com precisão milimétrica, mas o cálculo de risco havia mudado.
— Bruto. Instável — murmurou ele, a voz sintética desprovida de medo, apenas avaliação técnica.
O vórtice cresceu, tragando o solo e a luz para dentro de seu eixo.
Mas a anomalia tinha um preço: a falta de controle.
O Vento puxou de novo, e não foi o inimigo o alvo.
Foi Maira.
O corpo dela deslizou dos braços de Kael, sugado pela própria tempestade que ele criara.
Kael travou, o pânico nublando o poder.
Ele a apertou forte demais.
Um gemido de dor escapou dos lábios dela.
O estômago de Kael revirou.
— Não… não… — a voz falhou.
O Vento hesitou, confuso, como uma fera que morde a mão do dono.
Korran aproveitou a brecha.
Ele avançou, testando o limite daquela anomalia.
Seu braço segmentado disparou uma lâmina curta, rápida demais para qualquer reflexo humano.
A barreira de Kael tentou se erguer, mas vacilou por um milésimo de segundo.
A lâmina cortou o ar e a carne, rasgando o ombro de Kael em um golpe limpo.
Ele gritou. E o campo ficou mudo.
Não era calma; era vácuo.
O ar não soprou. Ele explodiu.
Dois tornados furiosos atravessaram o espaço e atingiram Korran em cheio.
O corpo metálico deslizou pelo gramado, abrindo sulcos profundos na terra.
Uma placa do tórax do invasor cedeu, caindo pesada, expondo a cicatriz do combate no porto.
Korran ergueu o visor, limpando a poeira da lente.
— Ainda cru — concluiu, observando a marca no peito.
— Mas isso não deveria existir. Não hoje.
O invasor fragmentou-se em partículas metálicas, dissolvendo-se no ar como fuligem cortante.
A barreira colapsou.
Kael caiu de joelhos, o silêncio voltando a reinar sobre os destroços.
O Véu caiu sobre a escola, pesado e frio.
— AJUDA! — o grito de Kael rasgou a névoa.
— CHAMEM A AMBULÂNCIA!
As sirenes não demoraram.
Lyra estabilizava o fluxo espiritual de Maira com mãos trêmulas; Nami mantinha a umidade sobre a ferida para evitar a necrose; Lukas coordenava a evacuação com uma autoridade fria que escondia o pânico.
Dante ajoelhou-se ao lado de Kael.
— Respira, cara. Ela vai aguentar.
A ambulância partiu, deixando para trás um rastro de luzes estroboscópicas e um vazio ensurdecedor.
Sozinhos entre as crateras, os amigos encararam a verdade.
— Ele veio pelo Kael — Aiden sentenciou, as mãos fechadas em punho.
Kael olhou para as próprias mãos, onde o sangue de Maira já começava a secar.
O vento passou por ele, fraco, quase como um pedido de desculpas.
Ele fechou o punho com tanta força que as unhas perfuraram a palma.
— Eu… fiz isso com você… — ele sussurrou para o fantasma da irmã.
Ele levantou o rosto, e o que restava do brilho juvenil havia sumido.
— Nunca mais.
Não era uma promessa de herói.
Era uma sentença de guerra.
ATO 2: O VAZIO ENTRE AS FIBRAS
O banheiro do hospital era um mausoléu de cerâmica e luz fluorescente.
Kael fechou a porta com uma lentidão meticulosa.
Sua camisa estava rígida, o sangue de Maira havia transformado o tecido em uma armadura de horror seca.
Debaixo do jato de água fria, ele começou a esfregar.
Os polegares pressionavam a fibra com uma intensidade que beirava a autoflagelação.
O vermelho desbotou para um rosa doentio, mas o contorno permanecia lá, uma tatuagem no algodão que se recusava a partir.
Ele parou. As mãos tremiam.
Ele percebeu que estava apertando a camisa com a mesma força desesperada com que tentara segurar a vida de Maira no campo.
Kael soltou o pano. Ele caiu pesado na pia, encharcado e derrotado.
No espelho, o reflexo era de um estranho.
Os olhos estavam encovados, a expressão estilhaçada.
— Foi sem querer… — ele murmurou para o próprio rosto.
A voz não encontrou eco.
Um sopro de ar saiu da ventilação.
Um movimento ínfimo.
Imediatamente, a cerâmica da pia estalou.
Uma rachadura fina serpenteou pelo ralo.
— Para… — ele ordenou a si mesmo, forçando os pulmões a relaxarem.
O silêncio que se seguiu foi vasto demais.
Kael dobrou a camisa molhada com o cuidado de quem guarda uma prova de crime.
Antes de sair, olhou para a cicatriz na pia.
A marca de seu poder — e de sua falha — permaneceria ali.
ATO 3: O CHEIRO DE HOSPITAL
Maira parecia pequena sob as luzes da UTI.
O ombro estava soterrado por bandagens, mas o vermelho insistia em emergir, uma mancha que crescia como uma sombra.
O monitor cardíaco era o único som no quarto, um metrônomo de ansiedade.
Kael não se movia.
Ele contava cada respiração dela, temendo que a próxima fosse a última.
Nami e Lyra estavam ao lado dele, estátuas de choque.
— Ela tá…? — Nami não conseguiu terminar.
— O corpo dela está desistindo — Kael respondeu, a voz desprovida de filtro.
O monitor acelerou subitamente.
Um bipe agudo. Depois, a linha plana.
O som contínuo que assombra os corredores de hospital.
— EI! SOCORRO! — Nami disparou para o corredor, seus gritos ecoando pelas paredes brancas.
Kael tentou levantar, mas suas pernas eram feitas de chumbo.
— Maira… não faz isso…
A porta se abriu com um estrondo controlado.
Lukas entrou primeiro, o rosto endurecendo ao ver o monitor.
— Kael… você vai apagar. Você está tremendo.
— Eu não posso — Kael rebateu, os olhos injetados.
— Se eu apagar, ela vai embora sozinha.
Os passos firmes no corredor anunciaram uma presença diferente.
Elias entrou no quarto, vestindo uma luva de couro na mão direita.
Ele não olhou para os gráficos; olhou para a alma do ambiente.
— Quanto tempo? — Elias perguntou.
— Pouco — Lukas admitiu.
Kael enfrentou o homem.
— Ela vai morrer? Elias não ofereceu o conforto da mentira.
— Aqui? Eles não têm como segurá-la.
O desespero de Kael transbordou.
— Então faz alguma coisa! Elias aproximou-se do leito, a voz baixando para um tom que exigia obediência total.
— Ela vai ser transferida para um Centro de Tratamento mais moderno. Eu não faço milagres, Kael. Mas eu tenho os recursos.
Kael engoliu o choro, o gosto de ferro na boca.
— Eu vou com ela.
— Vai — assentiu Elias.
— Mas agora, vocês três vêm comigo para o Centro Estratégico.
Se quer mantê-la viva, pare de lutar sozinho. Me obedeça.
O monitor apitou novamente quando os médicos entraram no quarto. O tempo não era mais uma medida; era o inimigo.
ATO 4: O PESO DA HERANÇA
O corredor da enfermaria da Academia Solarion havia se transformado em um tribunal de lamentos.
Os pais haviam chegado.
A mãe de Kael avançou como uma leoa, mas parou abruptamente diante do filho.
Ela viu o sangue.
Viu o corte no ombro dele.
Mas, acima de tudo, viu o olhar dele.
Não era o olhar de um estudante; era o de um sobrevivente.
— Kael… — ela sussurrou, a mão tremendo ao tocar seu rosto. — Cadê sua irmã?
Atrás deles, o pai de Nami segurava o rosto da filha, os olhos transbordando uma culpa secular.
— Vocês são só crianças… — ele lamentou.
— Se isso acontecer de novo… não hesitem. Corram.
A mãe de Kael limpou uma mancha de sangue da bochecha do filho com o polegar.
O gesto era terno, mas seus olhos brilhavam com uma fúria fria.
— Eu vou ficar com ela. Não saiam daqui. Não tentem ser heróis.
Ela se afastou para falar com os outros pais, longe dos ouvidos dos jovens.
— Isso voltou — o pai de Lyra disse, a voz baixa.
— Não era para acontecer assim — o pai de Nami respondeu.
— Alguém mexeu onde não devia — a mãe de Kael sentenciou.
Ela olhou para a porta da enfermaria uma última vez.
— Eu não vou enterrar um filho por causa dessa escola. Se alguém tentar… eu derrubo esta academia pedra por pedra.
FECHO: Regra Nova
Elias surgiu no fim do corredor, sua silhueta cortando a luz.
Ele não trazia conforto; trazia a realidade.
— Vocês querem brigar? Então aprendam a sobreviver.
Ele mirou cada um deles, o olhar pesando sobre Kael por um segundo a mais.
— A partir de hoje, o status de vocês mudou. Vocês não são mais alunos. São Risco. E Risco não anda sozinho.
O silêncio que se seguiu foi o fim da infância deles.
O descanso havia acabado.
A partir dali, qualquer erro seria escrito com sangue.