ATO 1: OS RIVAIS TAMBÉM SANGRAM
O vestiário exalava o odor metálico de sangue e o cheiro de ozônio queimado que ainda impregnava os tecidos.
Não havia o habitual rugido de música ou a fanfarronice de uma vitória protocolar.
O único som era o das gotas pesadas — água misturada a sangue — pingando dos bancos para os ralos.
Skam estava encurralado em um canto, as mãos tremendo tanto que o celular em seus dedos parecia um bloco de chumbo.
— Eu vi o gramado abrir — ele sussurrou, a voz oscilando entre o pânico e a incredulidade.
— Aquilo não foi normal. Não foi falha estrutural.
Skam baixou o olhar para o celular. A tela apagou.
Violet cuspiu no chão, o sangue seco em seu supercílio repuxando a pele em uma careta de ódio.
Ela era uma granada sem pino, pronta para detonar no primeiro contato.
— Não viaja, Skam. Não foi o chão. Foi um maníaco armado, um psicopata de metal.
Reno fechou a porta com um estalo seco, selando o grupo ali dentro.
O uniforme dele estava rasgado no tórax, revelando hematomas que já assumiam matizes arroxeados e profundos.
— Ninguém abre a boca sobre o que viu lá dentro — ordenou ele, sua voz cortou a sala.
Skam soltou uma risada nervosa.
— O quê? Que eu quase me mijei de medo? Reno nem piscou.
O controle dele era, por si só, uma anomalia.
— A versão oficial é: Tempestade. Explosão. Falha sistêmica no estádio. Nada além disso.
Violet apontou para o próprio rosto ferido.
— Vento não corta metal, Reno. O que a gente viu lá...
— Você viu o que eu mandei você ver — Reno a interrompeu, avançando um passo, a sombra dele engolindo a garota.
— Entendido?
Ninguém respondeu.
No banco adjacente, Nirse desatava a faixa do joelho com um puxão ríspido.
Ela apertou a faixa com força demais.
— Tinha um alvo — ela disse, a voz monótona e gélida. — O alvo era o Kael. E desta vez, não era parte do jogo.
— Isso morre aqui — repetiu Reno, mas o silêncio foi quebrado por um rosnado de agonia.
Craven estava curvado, a respiração curta e superficial, protegendo as costelas que pareciam fora do lugar.
— Morre aqui? — resmungou, a voz rouca de sofrimento.
— Eu vi o QB deles ser arremessado. Vi aquelas garotas se jogarem na frente como escudos humanos. Elas não recuaram.
Violet virou-se para ele, o veneno escorrendo:
— Não comece a elogiar os rivais agora, Craven. Tenha dignidade.
Skam baixou a cabeça, a voz soando pequena e infantil.
— Eles são malucos. E a gente… a gente recuou.
Violet explodiu. Chutou o balde de gelo, e os cubos se espalharam como estilhaços de cristal.
— Recuamos porque não somos suicidas! Ninguém assinou contrato para morrer por causa deles.
Aqueles caras atraem problema, Skam. Kael é um ímã de tragédia.
Nirse levantou o olhar, encarando Violet com um desdém afiado.
— Você recuou porque percebeu que não tinha chance contra aquilo. Admita.
O ar no vestiário ficou irrespirável.
Ilia, que até então permanecera em um silêncio catatônico, tentou fechar o punho.
O pulso estava roxo, inchado; os dedos travaram no meio do caminho, tremendo de frustração.
— Isso não foi um surto de pânico — ela disse, olhando para a própria mão inútil.
— E não acabou.
Reno caminhou até o centro da sala, a autoridade retornando aos seus ombros como uma armadura pesada.
— A partir de hoje, quero cada detalhe sobre eles. Cada passo do Kael, cada movimento do Aiden.
— Ele olhou para a porta fechada, como se pudesse ver o futuro através da madeira.
— Porque isso vai quebrar de novo. E, da próxima vez, eu quero estar do lado que sobrevive.
ATO 2: O CORREDOR VIRA ARENA
Ao cruzarem os portões da enfermaria, o contraste era brutal.
A escola já vestia sua máscara de normalidade; alunos cochichavam teorias estéreis sobre "atentados" e "instabilidade do solo".
Mas o grupo de Kael caminhava como uma ferida aberta no meio do corredor.
Dante mancava com o peito enfaixado; Ryu carregava o ombro em uma tipoia; Lukas e Aiden fechavam a retaguarda, dois sentinelas vigilantes.
Foi quando os viram. Na outra extremidade, saindo dos vestiários, os rivais.
O encontro foi um choque de massas de ar diferentes.
Skam, com uma bolsa de gelo no pescoço, não conseguiu segurar a língua.
— Olha só… a tempestade voltou para o corredor.
Kael parou. O ar ao seu redor deu uma volta curta e impaciente, como um cão de guarda rosnando.
— Cala a boca, Skam — Dante rosnou, o tom perigoso.
Violet riu, um som amargo e seco.
— Vocês sempre dão um jeito de estragar tudo. Atraem o caos para o campo como se fosse um troféu.
Lyra virou o rosto para ela com uma lentidão letal. — A gente ficou na frente. Vocês ficaram olhando.
— E você queria que a gente morresse junto? — rebateu Violet, a voz subindo um oitava.
— Covardes — sibilou Dante.
— Covarde é quem acha que coragem segura lâminas de alta frequência — Craven respondeu, a voz carregada de dor, vindo do fundo do grupo.
Nirse ignorou o barulho.
Seus olhos focaram em Kael.
Sem deboche. Sem arrogância. Apenas uma análise fria e cirúrgica.
— Ele veio por você — ela afirmou.
Kael sentiu o corredor oscilar.
A verdade de Nirse era um soco no estômago, desprovido de anestesia.
— Tá vendo? Até ela entendeu — Skam sorriu torto, mas o sorriso morreu quando Nirse o cortou com um olhar.
Daryl apontou para a camisa de Kael, ainda manchada.
— E Maira? Sobreviveu?
— Está viva — Kael respondeu, a voz saindo das profundezas da exaustão.
— Por pouco.
Violet deu um passo à frente, desafiadora.
— Por pouco por quê?
Kael levantou os olhos.
O que Violet encontrou não foi o brilho da raiva, mas o abismo de uma dívida impagável.
— Porque eu travei.
O silêncio que se seguiu foi absoluto.
Reno finalmente falou, sua voz exercendo um controle gélido sobre o ambiente.
— Vocês não perceberam ainda? Isso vai acontecer de novo. E quando acontecer, quem estiver perto de vocês vai pagar o preço. — Ele mediu Kael, avaliando o peso do adversário.
— Não ache que vocês são os únicos escolhidos para sobreviver.
Reno passou pelo grupo, um rastro de gelo em seu rastro.
Violet esbarrou em Lyra ao segui-lo.
Skam foi o último, olhando para Kael com um temor que ele não conseguia mais esconder.
— Sério… aquilo te marcou, cara.
ATO 3: QUANDO OS ADULTOS BAIXAM A VOZ
A casa dos padrinhos de Sophia ficava em uma rua silenciosa demais, onde até as sombras pareciam vigiadas.
Na sala, apenas a luz da cozinha denunciava vida.
Cortinas lacradas. Portas trancadas. O mundo exterior fora desligado.
Sophia estava sentada na ponta do sofá, a coluna ereta demais, os músculos em constante tensão.
Seu pé batia no tapete em um ritmo sincopado de ansiedade.
No chão, Jessica abraçava os próprios joelhos, incapaz de relaxar.
— Não foi normal — Jessica sentenciou, quebrando o silêncio.
— Não foi pânico. Não foi um erro de engenharia.
A madrinha de Sophia ajeitou as mangas da blusa, um gesto repetitivo e mecânico.
— Foi uma situação extrema. Vocês estavam em choque.
— Não — Sophia cortou, a voz cortante como vidro.
Ela respirou fundo, tentando recuperar o pragmatismo.
— Eu já fiquei assustada antes. Aquilo… aquilo parecia errado.
O padrinho fechou a geladeira com uma lentidão deliberada.
— A escola já está lidando com as consequências.
Jessica riu, um som seco e sem humor.
— Lidando como? Colocando fita de isolamento em cima de uma rachadura no campo?
— Jessica — o tio advertiu, o tom carregado.
— Não! — ela insistiu, levantando-se.
— Nosso amigo… Kael… parecia que tudo estava mirando nele.
O silêncio caiu.
A madrinha levou a mão ao copo de água, mas parou no meio do caminho.
Seus olhos buscaram os do marido.
Ele desviou o olhar.
— Não é a primeira vez que coisas inexplicáveis ocorrem em Solarion — ele admitiu, a voz casual demais para o peso da frase.
— Não agora — a madrinha corrigiu imediatamente. Rápido demais.
Sophia percebeu a hesitação. Jessica também.
O olhar que trocaram não era de susto, mas de uma confirmação sombria.
— Vocês sabem mais — Jessica disse em um tom baixo. Não era um ataque; era a constatação de um fato.
— Nós sabemos o suficiente para querer vocês seguras — respondeu o tio, forçando um sorriso que não alcançou os olhos.
Sophia inclinou a cabeça, a luz da cozinha delineando sua expressão severa.
— Seguras de quê?
Ninguém respondeu.
O relógio na parede era o único que ousava falar, marcando os segundos com estalos secos.
A madrinha suspirou, o peso de segredos antigos curvando seus ombros.
— Por alguns dias, vocês ficarão em casa. Aulas online. Sem treinos. Sem saídas desacompanhadas.
— Isso é um castigo? — Jessica questionou, a voz subindo.
— Não — o padrinho respondeu, a voz sombria.
— É precaução.
Sophia sentiu um calafrio que nada tinha a ver com a temperatura da sala.
Precaução contra algo que ainda não possuía nome.
— E se acontecer de novo? — a pergunta de Sophia pairou no ar.
A madrinha segurou o copo com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos.
— Então… saberemos onde vocês estão.
O silêncio voltou a reinar.
Jessica encostou o ombro no de Sophia, um pacto silencioso no meio daquela contenção.
Lá fora, a rua permanecia estática, como se o mundo estivesse prendendo a respiração.