ATO 1: O VEREDITO DE VIDRO
O gabinete da diretoria estava saturado com o odor metálico de café requentado.
Maira ocupava a cadeira de madeira, imóvel.
O curativo em seu ombro era uma mancha de um branco clínico contra sua pele bronzeada.
Seus olhos, contudo, não demonstravam dor; estavam fixos na diretora com uma intensidade contida.
— Foi uma falha catastrófica de segurança — declarou a diretora, as mãos entrelaçadas sobre a mesa, sem coragem de sustentar o olhar da garota.
— Medidas estão sendo tomadas. O perímetro será reforçado.
O treinador, encostado no batente da janela, soltou um bufo de impaciência.
— O que me interessa é o campo — ele sentenciou, apontando para Maira sem olhar para ela, como se avaliasse uma peça defeituosa.
— Preciso dela na linha de frente para o próximo jogo. Sem a Maira, nosso ataque vira um fracasso. Quanto tempo até o departamento médico liberar a peça?
— Eu posso jogar — a voz de Maira cortou o ar, seca e cortante.
— Foi um corte, nada mais. Eu aguento o tranco.
A enfermeira, postada ao canto, estalou a língua em um tom de reprovação que beirava o sarcasmo.
— Absurdo. O trauma não foi apenas físico, foi sistêmico. Ela fica fora de qualquer atividade por, no mínimo, duas semanas.
— Duas semanas? — O treinador se empertigou, a voz subindo uma oitava.
— Isso é metade da nossa preparação!
— É o protocolo, treinador — a diretora interveio, a voz gélida.
— Não vou arriscar a responder um processo porque você quer ganhar um amistoso.
Maira cerrou os dentes até a mandíbula doer.
Foi quando a voz de Dante ecoou, descontraída, quebrando a tensão.
— Relaxa, Coach — disse ele.
— Do jeito que ela está agora, não aguenta um tackle sem desmontar. Deixa a "Dama de Ferro" enferrujar um pouco em casa.
Maira lançou-lhe um olhar que teria incinerado um homem comum, mas o comentário surtiu efeito.
O treinador rosnou algo sobre uma "geração de cristal" e saiu da sala, batendo a porta.
ATO 2: O PORTO SEGURO
O corredor da escola parecia estranhamente vasto e silencioso.
Dante caminhava ao lado de Maira, mantendo uma distância milimétrica, o suficiente para não esbarrar no ombro ferido, mas perto o bastante para que ela sentisse o seu calor.
— Você não precisava ter feito aquele papel de palhaço lá dentro — murmurou Maira, o tom áspero, mas sem o veneno habitual.
— Eu precisava — Dante respondeu, a leveza dando lugar a uma gravidade rara.
— Se eu não dissesse, você convenceria aquele velho a te deixar treinar sob chuva hoje mesmo.
Eles pararam sob a sombra de um carvalho centenário no pátio.
Dante se aproximou com cautela, repousando a mão na cintura dela.
Maira, contra todas as suas defesas instintivas, relaxou.
Por um breve segundo, a armadura caiu e ela encostou a cabeça no ombro dele.
— Eu sei me virar, Dante. Mesmo com um braço a menos, ainda sou mais perigosa que metade desse time.
— Eu sei que sabe. Você é a criatura mais letal que eu já vi — ele sorriu, depositando um beijo casto e demorado em sua testa.
— Mas agora, minha função é ser o escudo do escudo. Deixa eu fingir que sou o protetor por um dia?
Maira soltou um riso curto.
ATO 3: O CÍRCULO SE FECHA
No pátio central, a luz alaranjada do crepúsculo alongava as sombras do grupo.
Lukas e Lyra estavam sentados em um banco de pedra, o silêncio entre eles carregado de eletricidade estática.
— Eu deveria ter feito algo — Lukas quebrou o silêncio, estudando as próprias mãos.
Mãos feitas para o impacto, para ser o pilar da defesa, mas que pareceram de chumbo quando o caos explodiu.
— Eu sou o MLB. Eu sou o muro. Nada deveria ter passado por mim.
Lyra cobriu a mão dele com a sua, apertando com uma firmeza que dizia mais do que palavras.
— Lukas, ninguém treina para o impossível. Você ficou lá. Você não recuou.
Ao lado deles, Nami era a imagem da vigilância.
Braços cruzados, olhos varrendo o horizonte como se pudesse prever a próxima tempestade.
Ela não buscava conforto; buscava padrões.
Sophia e Jessica mantinham uma conversa sussurrada a poucos metros dali.
— Eu não consegui dar um passo sozinha o dia todo — confessou Sophia, a voz trêmula.
Jessica assentiu, o maxilar rígido de quem já havia aceitado a nova realidade.
— E nem vai. A partir de hoje, ninguém anda só. É sistema de duplas. O tempo todo.
Lukas ergueu a cabeça, a falta de um integrante pesando no ambiente.
— Onde está o Ryu?
Jessica soltou um suspiro, uma mistura de irritação e um cansaço profundo.
— Onde você acha? Deve estar orbitando o Aiden e o Kael. Aquele idiota agora passa mais tempo com o "trio de ouro" do que comigo. Às vezes sinto que sou apenas uma nota de rodapé na agenda dele.
Lukas soltou uma risada melancólica.
— O Aiden tem esse efeito magnético. Se o Ryu sumir, basta procurar o olho do furacão.
— É... — Jessica esboçou um meio sorriso amargo.
— Vou ligar para aquele imbecil e lembrá-lo que ele ainda tem uma casa para voltar.
Nami se levantou, batendo a poeira da calça com um gesto finalista.
— Está escurecendo. Vamos sair daqui em bloco. O campus deixou de ser um refúgio há muito tempo.
Lukas sacou o celular, a tela brilhando contra a penumbra.
— Vou avisar o Dante. Ele e a Maira devem estar terminando na enfermaria.
— Eu cuido do Aiden — disse Nami, já discando.
ATO 4: O QUE SEGURA QUANDO O MUNDO CEDE
A quadra poliesportiva era uma catedral de ecos.
Não era o vazio da ausência, mas o silêncio denso que precede o colapso.
Kael estava sentado no degrau mais baixo da arquibancada, os cotovelos apoiados nos joelhos, a imagem da exaustão existencial.
Aiden surgiu das sombras, seus passos silenciosos mal perturbando o ar.
Ele se sentou ao lado de Kael sem pedir permissão.
Por longos minutos, nenhum deles disse uma palavra.
— Você também não conseguiu ir embora? — Aiden perguntou, sua voz soando estranhamente pequena naquele espaço vasto.
Kael deu de ombros, sem levantar o olhar.
— Eu tentei... mas meus pés me trouxeram de volta.
Aiden assentiu.
Ele conhecia aquela gravidade.
— Você travou — Aiden disse, não como uma acusação, mas como uma constatação de fato.
Kael puxou o ar, o cheiro de borracha e suor frio impregnando seus pulmões.
— Travei.
— Eu também — confessou Aiden, os olhos fixos no aro da cesta.
— Não na hora do impacto. Mas depois. Quando a ficha caiu.
Kael finalmente virou o rosto para ele, a surpresa vincando sua testa.
— Depois?
Aiden estendeu as mãos, observando os dedos que tremiam levemente antes de ele fechá-los em punhos.
— No início... eu não reagi. Tudo ficou em câmera lenta.
Kael soltou um riso sem alma.
— Eu achei que você tivesse a solução. Que você fosse correr e resolver o quebra-cabeça como sempre faz.
Aiden riu, um som seco e desprovido de humor.
— Desta vez, Kael... eu não sabia de nada. Eu estava tão cego quanto você.
Uma lufada de vento gelado cruzou a quadra, fazendo as redes dos aros balançarem como fantasmas.
Ambos sentiram o arrepio, mas nenhum desviou o olhar.
— Quando aquela coisa apareceu — Aiden retomou — eu vi algo mudar em você. Você não ficou mais forte, Kael. Você só ficou... mais sozinho. Vi você se fechando em um lugar onde ninguém mais podia entrar.
Kael apertou os punhos até os nós dos dedos ficarem brancos.
— Se eu fosse cair, não queria arrastar mais ninguém para o abismo comigo.
Aiden encostou as costas no degrau superior, olhando para o teto escuro do ginásio.
— Eu sei. É o seu instinto. Mas hoje... hoje não deu.
Kael sentiu o nó na garganta apertar, uma pressão física quase insuportável.
— E eu quase fiz alguém morrer por causa dessa arrogância.
Aiden inclinou o corpo, forçando Kael a sustentar seu olhar.
Seus olhos tinham a intensidade de um quarterback no último quarto, mas a compaixão de um irmão.
— Não. Você quase morreu tentando ser o escudo de todos. Você não escolheu o que aconteceu, mas escolheu ficar. Você não fugiu, Kael. Isso é o que define quem somos.
O vento soprou novamente, mais forte, uivando entre as frestas. Aiden não fingiu que não ouviu dessa vez.
— Teve um segundo ali... — Aiden disse devagar — que eu tive uma certeza absoluta. Se você caísse, eu cairia logo em seguida. Não era uma escolha. Era física.
Kael sentiu o peito arder.
— Aiden...
— Não é uma promessa vazia — Aiden o interrompeu. — É como a gente funciona.
O som metálico de uma porta se abrindo ecoou.
Ryu estava parado na entrada, a silhueta recortada pela luz do corredor.
Ele viu os dois e parou.
Não se aproximou, não disse uma piada, não quebrou a santidade do momento.
Ele apenas encostou no portal e cruzou os braços, assumindo seu posto de vigia.
Kael respirou fundo, sentindo o peso finalmente se distribuir.
— Se isso acontecer de novo...
— Não tente decidir o destino sozinho — Aiden finalizou por ele.
— E, por favor, não tente me afastar.
Kael assentiu silenciosamente.
Aiden apoiou os cotovelos nos joelhos, espelhando a postura do amigo.
— No fim das contas — disse Aiden com um rastro de ironia — ainda somos apenas dois caras tentando jogar futebol americano.
Kael soltou um riso discreto, o primeiro em horas.
— Escolhemos um hobby péssimo para os tempos atuais.
Eles permaneceram ali, envoltos pelo silêncio e pela presença silenciosa de Ryu na retaguarda.
O vento soprou uma terceira vez, mas desta vez, ninguém tentou lutar contra ele. Eles apenas deixaram que passasse.