ATO 1 — O QUE SEGURA QUANDO O MUNDO CEDE
A quadra estava em silêncio.
Não o vazio de um lugar abandonado, mas o tipo de silêncio que sobra quando algo grande demais já passou por ali.
As luzes, acesas só pela metade, criavam manchas mornas no piso de madeira, fazendo os passos ecoarem como se o espaço respirasse com cuidado.
Kael estava sentado na arquibancada baixa.
Os cotovelos apoiados nos joelhos.
O olhar preso nas marcas gastas do verniz, como se os riscos no chão pudessem explicar o que tinha acontecido no campo.
Aiden chegou sem chamar atenção.
Sentou ao lado dele.
Nada foi dito.
Eles ficaram ali por alguns segundos, dividindo o peso do dia, deixando o tempo escorrer entre perguntas que nenhum dos dois queria fazer em voz alta.
— Você também não conseguiu ir embora? — Aiden perguntou por fim.
Kael deu de ombros.
— Fui… mas voltei.
Aiden assentiu.
Ele entendia aquela inércia melhor do que gostaria.
O silêncio voltou, diferente agora. Não pesado. Familiar.
— Você travou — Aiden disse.
Não era cobrança.
Nem análise.
Só verdade.
Kael puxou o ar, sentindo o cheiro antigo de cera e suor impregnado no ginásio.
— Travei.
Ele esperou pelo resto da frase. Pelo “você precisava ter feito mais”. Pela responsabilidade que vinha junto com o número na camisa.
Nada veio.
— Eu também — Aiden continuou, olhando para o aro da cesta do outro lado da quadra. — Não ali. Mas depois.
Kael virou o rosto.
— Depois?
Aiden flexionou os dedos devagar, observando as próprias mãos.
— Quando começaram a gritar. Meu corpo queria reagir, fazer qualquer coisa. Mas eu fiquei parado. Só tentando entender se aquilo era real… ou se o mundo tinha quebrado de vez.
Kael soltou um riso curto.
— Eu achei que você fosse correr. Que já tivesse a solução.
— E eu achei a mesma coisa de você.
Eles trocaram um olhar rápido.
Não havia ironia ali.
Só o reconhecimento de que, por trás das jogadas ensaiadas e da postura firme, ainda eram dois garotos tentando entender o caos.
— Eu achei que você ia saber o que fazer — Kael disse, quase num sussurro. — Porque você sempre sabe.
Aiden riu baixo, sem humor.
— Dessa vez, Kael… eu não soube de nada.
Um sopro de vento atravessou a quadra, bagunçando as redes dos aros.
Kael sentiu.
Aiden também.
Nenhum dos dois comentou.
— Quando aquilo veio — Aiden retomou — eu vi você mudar. Você não ficou mais forte. Só… mais sozinho.
Kael fechou o punho.
— Eu não queria que ninguém chegasse perto. Não queria arrastar mais ninguém pro buraco.
— Eu sei.
Kael virou o rosto.
— Como?
Aiden deu de ombros, encostando as costas no degrau acima.
— Porque você sempre foi assim. Quando o problema parece grande demais, você fecha tudo e tenta segurar o teto sozinho.
O nó na garganta de Kael apertou.
— Hoje não deu — Aiden completou.
Kael respirou fundo.
— E eu quase fiz alguém morrer por isso.
Aiden virou o corpo, forçando Kael a encará-lo. Os olhos tinham a mesma firmeza dos jogos decisivos — mas sem cobrança.
— Não. Você quase morreu tentando impedir. Você não escolheu aquilo. Mas ficou. Você não correu.
O vento deu um solavanco mais forte.
Aiden sentiu.
Dessa vez, não fingiu que não.
Ele olhou para as próprias mãos.
— Teve um momento ali… — disse devagar — que eu pensei: se ele cair, eu vou junto. Não tem como ser diferente.
Kael sentiu o peito arder.
— Aiden…
— Não é promessa de livro — Aiden cortou. — É constatação. É como a gente funciona.
O som distante de uma porta ecoou pelo ginásio.
Ryu apareceu na entrada da quadra. Viu os dois sentados e entendeu. Não se aproximou. Não quebrou o momento. Ficou ali, encostado no portal, garantindo que alguém estava olhando a retaguarda.
Kael respirou fundo.
— Se isso acontecer de novo…
— Não tenta decidir sozinho — Aiden interrompeu.
— Certo.
— E não tenta me afastar.
Kael assentiu.
O vento passou outra vez.
Dessa vez, era só ar.
Aiden apoiou os cotovelos nos joelhos, espelhando Kael.
— No fim das contas — disse — a gente ainda é só dois caras tentando jogar bola.
Kael soltou um riso discreto.
— Péssima hora pra esse hobby.
— Sempre foi.
Eles ficaram ali por mais alguns minutos.
Não porque o perigo tivesse passado,
mas porque, pela primeira vez desde o apito inicial,
ninguém precisava segurar o mundo sozinho.
ATO 2 — DEPOIS DA AULA
Eles não estavam fugindo de nada.
Nem indo para lugar algum em especial.
Era só o caminho mais curto.
A rua lateral começava atrás do bloco de oficinas da Academia, onde os postes de luz demoravam mais para acender e o asfalto ainda carregava marcas antigas de manutenção mal feita. Não era proibida. Só esquecida.
— Se a gente cortar por aqui, dá pra pegar o ônibus antes do trânsito — Lukas disse, ajustando a mochila. — Se não, vou chegar em casa ouvindo sermão por chegar tarde de novo.
— Drama — Lyra respondeu. — Você chega tarde todo dia.
— Exato. Mas hoje eu tenho desculpa válida.
Eles seguiram.
O barulho da avenida principal ficou para trás rápido demais. O som da cidade parecia abafado ali, como se alguém tivesse colocado algodão nos ouvidos do bairro inteiro.
Kael sentiu primeiro.
Não foi dor.
Foi atraso.
O passo dele demorou meio segundo a mais para alcançar o chão.
O Vento puxou… e soltou.
Puxou de novo. Fraco. Confuso.
Kael diminuiu o ritmo sem perceber. Os outros também, como se o corpo soubesse antes da cabeça.
— Tá quente aqui — Dante comentou. — Estranho.
Nami olhou para a garrafa na mão. A água dentro ondulava em padrões irregulares, mesmo sem movimento.
— Não é calor — ela disse. — É pressão.
Lukas riu de leve.
— Pressão psicológica pós-prova, talvez.
Kael não respondeu.
O celular vibrou no bolso.
Ele parou.
ATO 3 — O MUNDO QUE NÃO SABE
A tela acendeu.
Pai.
“Você volta a pé hoje ou vai querer carona?”
Kael ficou olhando a mensagem mais tempo do que devia. A frase era simples. Normal. Vinha com a certeza de que haveria resposta.
Outra vibração. Agora uma chamada.
O toque ecoou alto demais naquele trecho silencioso da rua.
— Atende — Lukas disse, distraído. — Vai que ele tá perto.
Kael desligou a chamada.
Guardou o celular.
— Depois eu respondo.
O Vento puxou curto. Impaciente.
Antes que o grupo retomasse o passo, outro telefone tocou.
Aiden.
Ele franziu o cenho ao ver o nome do pai na tela e atendeu, afastando-se dois passos.
— Alô?
A voz do outro lado veio rápida demais.
— Onde você tá? — o pai perguntou. — Já era pra você ter chegado. Vocês estão andando sozinhos de novo?
— Tô voltando agora — Aiden respondeu. — A gente só cortou caminho.
— Que caminho? — a voz subiu um tom. — Eu já falei pra não ficar zanzando depois da aula. Essa cidade anda estranha demais.
Aiden fechou os olhos por um segundo.
— É só uma rua.
— Não existe “só uma rua” — o pai respondeu. — Volta pra avenida. Agora.
Aiden olhou para o grupo. Para a rua à frente. Para Kael parado, tenso demais para quem só caminha.
— Já tô indo — mentiu.
Desligou.
— Bronca? — Lukas perguntou.
— Padrão — Aiden respondeu. — Preocupação disfarçada de bronca.
Mais à frente, um casal atravessava a rua rindo de alguma piada interna. Um cachorro puxava a coleira, tentando alcançar um papel levado pelo vento.
Vida normal.
— Vocês estão sentindo isso? — Maira perguntou, finalmente, ajustando o ombro com cuidado. — Parece que… a rua tá errada.
Lyra tocou o muro com a palma da mão.
— Não tá caindo — disse. — Mas também não tá firme.
Um carro passou na avenida distante. O som chegou atrasado. Como eco ruim.
Um rádio ligado em alguma janela começou uma música antiga. Parou no meio do refrão, chiou, depois ficou mudo.
— Quebrou — Lukas comentou. — Que azar.
Kael sentiu o Vento puxar com mais força.
Agora não era indecisão.
Era direção.
ATO 4 — A ESCOLHA QUE NÃO É HEROICA
— A gente devia voltar — Dante disse, sem drama. — Dar a volta pelo outro quarteirão.
Eles pararam.
O trecho por onde tinham vindo parecia igual. Normal. Seguro.
O trecho à frente… não.
Não havia nada visivelmente errado. Nenhum monstro. Nenhuma rachadura.
Só a sensação clara de que seguir em frente custaria mais.
Kael respirou fundo.
— Eu não sei explicar — disse. — Mas se a gente virar agora… alguém vai passar por aqui depois.
Silêncio.
— E daí? — Lukas perguntou. — Não é problema nosso.
Kael assentiu.
— Eu sei.
O Vento puxou forte. Errado. Como um aviso mal calibrado.
Maira deu um passo à frente.
— Eu fico — disse. Simples. — Se for só uma rua estranha, a gente atravessa junto.
Nami suspirou devagar.
— Não parece escolha boa — disse. — Só parece… escolha que sobra.
Lyra já caminhava.
— Então anda — falou por cima do ombro. — Antes que a gente comece a inventar desculpa.
Eles seguiram.
Não como grupo em missão.
Como adolescentes que escolheram o caminho errado na hora errada.
No meio da quadra, um caminhão parado tentou dar partida.
O motor falhou. Tossiu. Morreu.
O motorista xingou, desceu, bateu no capô.
— Sério? Agora?!
Ninguém ajudou.
Ninguém sabia o que dizer.
Uma luz de poste apagou. Outra piscou.
O Vento puxou Kael com força total.
Não como comando.
Como atraso acumulado.
ATO 5 — A LIGAÇÃO QUE CHEGA TARDE
O celular de Lyra vibrou.
Ela parou imediatamente.
O nome na tela não era de casa.
Nem da escola.
Era um número codificado. Curto demais.
Ela atendeu sem falar.
Por um segundo, só chiado.
Depois, uma voz baixa, contida demais para ser normal.
— Onde você está?
Lyra demorou a responder.
— Indo pra casa.
Silêncio do outro lado.
— Não — a voz corrigiu. — Você está perto de uma leitura instável. Muito perto.
Lyra fechou os dedos em torno do telefone.
— A gente só tá andando.
— Então parem — a voz disse. — Agora.
Outro ruído entrou na linha. Um estalo seco. Algo sendo ajustado às pressas.
— Não é padrão — continuou a voz. — Não é seguro. Se afastem.
Lyra olhou para frente.
A rua descia levemente.
O ar parecia mais denso ali embaixo.
— Já estamos atrasados — ela respondeu.
A ligação caiu.
Não com desligamento.
Com ausência.
Ao fundo, algo estalou. Metal cedendo. Vidro quebrando longe demais para localizar.
— O que foi? — Lukas perguntou.
Lyra guardou o celular.
— Nada — mentiu.
Kael sentiu o Vento puxar uma última vez.
Com urgência.
A rua à frente engoliu o som da cidade.
E o mundo, lá fora, ainda achava que dava tempo.