ATO 1 — O ERRO À DISTÂNCIA
A rua exalava uma normalidade ofensiva.
O trânsito rastejava ao longe, um murmúrio metálico e constante que ignorava a síncope da realidade.
Kael sentiu o aviso antes de ouvi-lo: o vento estancou por um segundo longo demais, um roçar gélido e antigo em sua nuca.
Nada gritou. Nada avisou.
Kael caminhava com o grupo, mas sua consciência operava em uma frequência estrangeira.
A pancada que Korran desferira em seu flanco ainda pulsava sob a pele — um lembrete vívido de que o mundo havia mudado de eixo.
Logo atrás, Maira sustentava uma mancada discreta, o único sinal de que sua resistência absoluta fora testada até o limite.
Lyra e Nami flanqueavam o grupo, os olhos movendo-se com uma agilidade predatória que desmentia o tecido comum de seus uniformes escolares.
— Vocês estão estranhos — Sophia rompeu o ritmo, ajustando a mochila com uma desconfiança latente.
Nami abriu a boca, mas o som morreu em sua garganta antes de nascer.
— Dia longo, Soph — Maira interveio. A voz era uma lixa rouca, mas firme. — Só isso.
No peito de Kael, o Vento puxou novamente.
Um gosto metálico, de moeda gelada, invadiu sua língua.
Foi um espasmo curto, um soluço da natureza.
Enquanto isso, a quilômetros dali, a sede dos Defensores mergulhava em um silêncio técnico e sepulcral.
Nos painéis de Elias, os gráficos espiritualizados não oscilaram; eles despencaram.
O ponto de monitoramento, que antes pulsava como uma ferida aberta no mapa da cidade, simplesmente desapareceu.
— Leitura em zero — informou o operador, a voz tingida de uma incredulidade estéril.
— O foco... sumiu.
Elias inclinou-se sobre a mesa holográfica, a luz azul refletida em seus olhos severos.
— Confirme a falha de sensor. Agora.
— Confirmada. Três vezes, senhor. O mapa está limpo.
O silêncio na sala de comando tornou-se físico.
Não havia expansão, nem retração; era como se alguém tivesse apagado um fragmento da realidade.
— Isso não é recuo — murmurou Elias para as sombras da sala.
— É contenção perfeita.
Antes que o pensamento se consolidasse, um alerta vermelho-sangue rasgou o sistema: COLAPSO ESTRUTURAL — SETOR OESTE. RISCO CIVIL IMEDIATO.
— Temos pessoas presas — a operadora anunciou, a urgência agora sobrepondo-se ao protocolo.
— A fundação não resistirá por mais cinco minutos.
Elias não hesitou. O manual era o seu evangelho.
— Redirecione todas as equipes. Prioridade máxima no resgate civil.
— E o foco anterior? — alguém questionou ao fundo.
— Monitoramento passivo — sentenciou Elias.
— Se o inimigo recuou, não caçarei fantasmas enquanto vidas reais são esmagadas.
Foi a decisão correta. No papel.
De volta à rua, Kael sentiu o Vento se recolher de uma vez.
Não foi um alívio; foi como se o ar tivesse decidido esmagá-lo por dentro.
Seus pulmões tornaram-se pesados, gélidos.
Ele parou, o corpo oscilando em um equilíbrio precário.
— Kael? — Ryu parou, o cenho franzido. — Tudo bem, cara?
O puxão veio de novo, uma corda tesa tentando arrancá-lo da própria pele.
Se eu falar, eles vão perguntar.
Se perguntarem, vão tentar entender.
E ninguém aqui pode entender.
— Estou — mentiu Kael, a voz saindo seca como papel velho.
— Só uma tontura.
Maira o estudou por um tempo longo demais.
Lyra leu a tensão em seus ombros; Nami sentiu a umidade do ar estalar.
Sophia apenas resmungou: "Vocês mentem mal pra caramba."
Ninguém respondeu.
A cidade continuou respirando, indiferente ao peso do que estava por vir.
Um homem tropeçou na calçada oposta e riu, sem saber que a sorte acabara de abandoná-lo.
Um estalo seco cortou o quarteirão.
Não o som de um tiro, mas o de algo sólido sendo partido por uma força sem nome.
Ryu virou-se, o olhar varrendo as esquinas.
— Isso... não foi um carro — afirmou Ryu.
Kael fechou os olhos.
O atraso acumulado da realidade finalmente colidira com o presente.
A decisão tomada por Elias a quilômetros dali encontrara seu destino.
O Vento no peito de Kael deu um solavanco brutal, e a temperatura da rua despencou dez graus em um único segundo.
ATO 2 — A CHUVA DOS REFLEXOS
O estalo tornou-se estrépito.
As janelas dos prédios explodiram em uma chuva de guilhotinas vítreas.
Um homem gritou um nome que o vácuo engoliu.
Lukas, Ryu e Dante mergulharam para o caos com o instinto de quem nasceu para o resgate.
Lukas arrastou uma criança para sob uma marquise; Dante e Ryu tornaram-se escudos humanos, protegendo civis da chuva de cristal.
Klyrion atravessou a fenda azulada no ar.
Seus olhos eram focos de desprezo fixos em Kael.
— A Luz desperta com pressa. E tropeça — a voz do vilão soou como vidro moído sob botas de ferro.
Ele moveu apenas o indicador.
O impacto não lançou Kael; ele o dobrou.
A cabeça do herdeiro do vento atingiu o asfalto, e o som do mundo foi subitamente abafado por um zumbido agudo.
Maira rugiu.
Ela saltou sobre o capô de um veículo e golpeou o solo com a força de uma placa tectônica.
O asfalto ondulou como uma serpente de pedra.
Klyrion apenas flutuou, mas Maira já estava no ar, o punho carregado com a energia bruta da terra.
O vilão inclinou o pescoço com elegância e contra-atacou: um golpe de palma no plexo solar que arremessou Maira contra a alvenaria.
Ela atingiu o muro com um baque surdo, mas seus dedos cravaram-se nos tijolos, negando a gravidade.
Nami não deu trégua.
Manipulando a água de um hidrante estourado, ela moldou lâminas de alta pressão que cortavam o ar com um assobio letal.
Ela atacou em uma dança frenética, forçando Klyrion a recuar.
Contudo, o vilão atravessou a própria imagem, surgindo atrás dela e derrubando-a com um golpe seco na base do crânio.
Lyra aproveitou a brecha.
Fincando o cajado no solo, desferiu um golpe ascendente que conectou no queixo de Klyrion.
A cabeça dele pendeu.
No milésimo de segundo do impacto, Lyra viu a falha: o reflexo dele na vitrine ao lado travou, movendo-se apenas após o golpe conectar.
— O reflexo dele... chega atrasado! — Lyra gritou, antes de ser repelida por uma onda de choque que a lançou contra um poste.
Kael tentava se reerguer, mas Klyrion o alcançou.
Um chute brutal atingiu seu flanco ferido, projetando-o contra um carro tombado.
A lataria gemeu ao se amassar.
Aiden interveio em um desespero cego, saltando sobre os destroços, mas Klyrion apenas estendeu a mão.
Uma dobra espacial atingiu o peito de Aiden, lançando-o violentamente contra o asfalto.
Klyrion avançou para o xeque-mate, mas o caminho foi novamente obstruído.
Maira, com o rosto banhado em sangue, ergueu colunas de pedra para travá-lo.
Nami conjurou um turbilhão que cercou os flancos do inimigo, enquanto Lyra disparava chicotes de vinhas para prender seus pés.
Foi o limite absoluto das três.
Um ataque de sacrifício.
Klyrion girou o corpo e o espaço ao redor dele colapsou.
A pressão implodiu as colunas, evaporou a água e reduziu as vinhas a pó.
O impacto conjunto lançou as guerreiras em direções opostas.
Livre de obstáculos, Klyrion agarrou Kael pela gola e o enterrou no solo com dois golpes curtos, rápidos demais para a visão humana.
Kael caiu no piche, o fôlego rasgado.
Não sou rápido o bastante. Não sou nada.
O vilão ergueu a mão para o golpe final.
ATO 3 — O CORTE QUE FECHA O CAPÍTULO
Klyrion materializou uma lâmina de luz azulada.
Kael ergueu o braço por puro instinto, o Vento formando um escudo trêmulo, uma barreira de papel contra um incêndio.
— Poder bruto sem forma — Klyrion sentenciou.
— Um convite para a morte.
Kael fechou os olhos, mas o golpe não veio. A atmosfera mudou.
A temperatura da rua despencou trinta graus em um único batimento cardíaco.
O vapor da respiração de Kael congelou no ar.
O tempo tornou-se viscoso.
Aiden, caído no asfalto, sentiu um estalo no núcleo de sua alma.
Ele não pensou; ele simplesmente impôs sua vontade sobre o caos.
O frio respondeu antes da lógica.
Uma esfera de gelo puro materializou-se em suas mãos.
Ao atingir o asfalto, o orbe expandiu-se em um domo de energia circular.
O gelo parou a centímetros de Kael, mas engoliu Klyrion por inteiro.
Tudo dentro daquela redoma foi suspenso em um zero absoluto instantâneo.
A lâmina azul estancou a um palmo do peito de Kael.
— Eu te falei para descansar, Kael.
Aiden estava de pé. Ele não era mais o garoto jogado pelo vento; seus olhos brilhavam com o azul ártico de uma geleira milenar.
O frio obedecia ao seu sangue.
— O QB não pode perder o Wide Receiver antes do campeonato.
Aiden girou o corpo e golpeou o centro da esfera.
O impacto gerou uma explosão de cristais que lançou Klyrion para trás, deixando um rastro de destruição branca e congelada sobre o asfalto negro.
Kael respirou, o ar gélido queimando seus pulmões como fogo.
A sombra de Aiden sobre ele era uma fortaleza que o inimigo não ousaria transpor.
Mas, preso entre fragmentos de gelo, Klyrion sorriu.
Algo dentro daquela esfera, ou talvez além dela, respondeu ao seu escárnio.
A luta não terminara.
Algo fora despertado cedo demais.
O mundo respondeu da única forma que conhecia: fora de ritmo.
O gelo de Aiden era absoluto, mas o sorriso de Klyrion guardava um frio ainda mais profundo.