ATO 1: O QUE NÃO VOLTA AO NORMAL
A rua assemelhava-se a uma memória que o mundo tentava, desesperadamente, esquecer.
O asfalto exalava um vapor acre, e a água serpenteava em filetes tortuosos pelas rachaduras, carregando consigo poeira, fuligem e um odor metálico que insistia em queimar as narinas.
Não era a fumaça comum de um incêndio; era o resíduo bruto de um impacto que desafiava a lógica.
Kael caminhava entre os destroços, o corpo operando em um estado de prontidão instintiva.
Cada passo seu levantava pequenas espirais de poeira — movimentos precisos demais para serem obra do acaso, discretos demais para serem notados por olhos destreinados.
Aiden estava sentado sobre um bloco de alvenaria caído, os cotovelos apoiados nos joelhos e o olhar fixo no nada.
Fisicamente, parecia ileso, mas seus olhos carregavam o peso de quem ainda não havia retornado totalmente para a realidade.
— Você segurou tudo — disse Kael, parando a uma distância respeitosa.
— Se não fosse por você, a rua teria cedido inteira.
Aiden passou a mão pela testa, como se tentasse organizar os fragmentos da própria mente.
— Não fui eu sozinho — a voz dele saiu rouca, quase um sussurro.
— Foi como se algo puxasse meu corpo antes de eu decidir. Antes de pensar, o movimento já estava pronto. Rápido demais para ser apenas reflexo.
Kael permaneceu em silêncio.
Ele sabia exatamente do que o amigo falava.
O ar ao seu redor agira da mesma forma errática e protetora durante o confronto.
Sirenes distantes começaram a cortar o ar, mas ainda soavam hesitantes, como se o mundo comum testasse se era seguro existir ali outra vez.
O silêncio entre os dois era denso — não por falta de palavras, mas pelo excesso delas.
Então, o som de passos desajeitados quebrou o transe.
ATO 2: QUEM VIU DEMAIS
Lukas surgiu de trás de uma parede desabada, apoiando-se no reboco para não cair.
Estava pálido, o rosto marcado pelo brilho vítreo do choque puro.
— Kael… Aiden… — a voz dele tremia, instável.
— Eu vi.
Dante apareceu logo atrás, quase tropeçando nos próprios pés para alcançar o amigo.
— Cara, calma. Você está em choque. A mente prega peças quando a adrenalina explode.
Lukas girou abruptamente, os olhos injetados.
— EU NÃO INVENTEI! — o grito falhou na metade, tornando-se um sussurro desesperado.
— A água subiu contra o vento. O ar parou. Por um segundo, tudo ficou mudo. O mundo apagou!
O frio veio sem aviso.
Não houve clarão, nem estalo; apenas uma queda brusca de temperatura que atravessou o grupo como um arrepio seco.
Kael e Aiden reagiram em uníssono, as cabeças virando para a mesma direção no mesmo milésimo de segundo.
Instinto e energia elemental entraram em um confronto silencioso sobre quem definiria o próximo movimento.
Jessica se aproximou com cautela, os olhos atentos a cada sombra.
— Ninguém está normal hoje. Todo mundo viu algo que não consegue explicar.
Ryu tentou aliviar o peso, forçando um sorriso de canto.
— O importante é que estamos vivos.
Mas Lukas não desviava o olhar.
Ele via a inquietude de Dante, a calma gélida de Kael e a rigidez de Aiden.
— Não falem comigo como se eu fosse criança — ele disse, a voz agora firme.
— Eu vi. Algo não está certo.
Maira cruzou os braços, a postura sólida como uma muralha.
— Se tivéssemos respostas, Lukas, você seria o primeiro a saber.
Nami chegou por último, controlada.
Seu olhar não fugia de ninguém, analisando a cena com uma serenidade que beirava o perturbador.
— Seja o que for... não agora — sentenciou ela.
— Lidaremos com isso depois.
ATO 3: ALGO FICOU AQUI
Um zumbido grave atravessou o solo.
Curto. Profundo. Errado.
Lukas virou-se rápido, mas o som cessou no instante em que ele procurou a origem.
Kael deu um passo à frente.
A poeira aos seus pés levantou-se sozinha, girando por um segundo antes de cair de volta ao asfalto.
Aiden fechou a mão e o ar ao redor dele tornou-se subitamente denso, como se a gravidade estivesse sendo sugada para dentro de seu próprio punho.
Apenas os despertos sentiram a distorção.
Lukas engoliu em seco, sentindo o suor frio escorrer pela nuca.
— Se isso voltar a acontecer… — disse baixo.
— Não me deixem no escuro.
Dante pousou a mão no ombro dele, um gesto de âncora.
— Você é parte disso agora.
— Mesmo quando nada faz sentido — completou Jessica, o olhar fixo no horizonte.
Kael aproximou-se por último.
Um pensamento involuntário atravessou sua mente: Ele percebeu mais do que devia.
As sirenes agora dobravam a esquina.
— Vamos sair antes que perguntem demais — ordenou Maira.
Eles se dispersaram pelas ruas laterais.
De longe, pareciam apenas jovens exaustos após um dia ruim.
Mas entre os destroços, onde o asfalto ainda tremia levemente, era possível sentir: a batalha não tinha acabado.
Ela só tinha mudado de lugar.
ATO 4: NORMALIDADE RACHADA
Na manhã seguinte, a escola ostentava uma normalidade quase ofensiva.
Corredores apinhados, vozes altas e o burburinho rítmico de armários batendo.
Kael sentiu a mudança primeiro.
Foi uma pressão súbita.
O ar no corredor se esticou por um instante — como se o teto e o chão tivessem sido puxados em direções opostas.
As lâmpadas piscaram uma única vez, carregadas de algo que não era falha elétrica.
Aiden parou no mesmo instante, o corpo pronto antes do pensamento.
Nami fechou a mão discretamente; microgotas de umidade se reuniram e se dispersaram.
Lyra sentiu a própria sombra atrasar meio passo na parede; pisou sobre ela e o atraso sumiu.
Para os outros alunos, nada aconteceu.
Para os despertos, o mundo tinha acabado de engasgar.
— Eu preciso de um fim de semana normal — decretou Dante perto da quadra, jogando a mochila no banco.
— Eu até estudo se isso garantir que nada exploda.
Ryu riu, um som seco e sem humor.
— Você não estuda nem sob ameaça de morte, Dante.
Antes que pudessem prosseguir, duas presenças cortaram o fluxo do pátio.
Reno chegou primeiro, com seu sorriso impecável e a postura de quem sempre precisa provar algo.
Logo atrás, Craven, silencioso e com um olhar afiado demais para um simples treino matinal.
Reno encostou no muro, cruzando os braços.
— Olha só… os salvadores do turno da manhã. — O olhar dele travou em Kael.
— Dormiu bem, WR1? Ou cansou de correr sozinho contra o vento?
— O que você quer, Reno? — Kael soltou o ar devagar.
— Ver se você ainda presta. — O sorriso entortou.
— Andam dizendo que você ficou… instável.
Aiden deu meio passo lateral.
Não era uma ameaça explícita, mas uma prontidão que Craven não ignorou.
— O campo não mente — disse Craven, a voz baixa, os olhos fixos em Aiden.
— E você está diferente. Mudanças bruscas costumam vir antes de acidentes feios.
Dante se meteu entre eles.
— Vocês vieram provocar ou esqueceram onde fica a sala?
Reno ignorou Dante, focando novamente em Kael.
— Só achei curioso como certas pessoas ficam rápidas da noite para o dia. Literalmente. Isso nunca dura.
— Se quer testar — Kael respondeu, a voz soando como um aviso — aparece no treino.
Reno pareceu satisfeito.
Craven tocou o ombro do colega e os dois se afastaram, dissolvendo-se na multidão de alunos.
Kael e Aiden não disseram nada; havia ali o reconhecimento silencioso de predadores de outro tipo.
Lukas surgiu logo depois, o olhar inquieto.
— Precisamos conversar. Agora.
Eles se afastaram para um canto isolado.
Lukas respirou fundo.
— Vocês mudaram. Não tentem negar. Aiden, você pegou um celular no ar a metros de distância sem olhar. Kael, você desviou de uma bola antes mesmo de ser lançada. Vocês estão escondendo algo.
— Você não está sozinho, Lukas — Aiden respondeu primeiro, a sinceridade pesando na voz.
— Mas a verdade é que nós também não entendemos tudo o que está acontecendo.
Kael assentiu.
— Estamos tateando no escuro, tentando descobrir as regras.
Lukas observou os dois.
Ele viu que não havia mentira ali, apenas a mesma incerteza que o consumia.
— Então eu confio. Mas se algo piorar… me contem.
O sinal tocou, alto e estridente.
Eles seguiram para as salas, mas ninguém percebeu que o corredor aceitou a presença deles com um leve atraso.
Como se a realidade estivesse aprendendo a rastrear seus passos.
ATO 5: O SELO QUE RESPIRA
A parte velha da cidade respirava mofo e abandono.
Vareth atravessava o beco estreito seguido por duas figuras encapuzadas em silêncio absoluto.
O portão enferrujado do museu abandonado cedeu com um rangido profundo.
Aquele prédio guardava relíquias de guerras que a história oficial preferira esquecer.
No subsolo, sob lâmpadas fracas que oscilavam, uma barreira translúcida pulsava.
Dentro dela, suspenso no vácuo, estava o Pergaminho do Eclipse.
O rolo parecia queimado por chamas invisíveis, com linhas negras percorrendo a superfície como rachaduras vivas, rearranjando-se em padrões que não pertenciam a idioma algum.
— Enquanto eles tentavam salvar o que podiam ver… — murmurou Vareth
— o primeiro selo ficou vulnerável.
O ar atrás dele vibrou violentamente.
Uma silhueta instável surgiu por um instante: Klyrion.
O rosto quase se formou quando o espaço ao redor foi rasgado por um ruído grave, como uma corda de aço sendo puxada ao limite.
A figura perdeu consistência e explodiu em fragmentos de energia escura que atingiram o chão como chuva seca.
Um dos fragmentos marcou o piso: um círculo incompleto cortado por uma linha vertical.
Ao redor da marca, o chão envelheceu décadas em segundos.
— Vareth… o chão… — uma das sombras engasgou no silêncio.
— Resquício do golpe final — disse ele, analisando o símbolo sem tocá-lo.
— A essência dele ainda está presa ao tridente. Mas está se soltando. Rápido demais.
A marca pulsou como um olho tentando abrir.
Vareth tocou a barreira, que se desfez como vapor frio.
Ele segurou o pergaminho com uma reverência que vinha do domínio, não da devoção.
As linhas negras no papel contraíram-se em sua direção.
— Todo sistema tem um ponto cego — disse ele, girando o rolo lentamente.
— O da Luz sempre foi acreditar demais na própria força.
A marca no chão trincou novamente, um som de osso quebrando, como se algo empurrasse de baixo para cima.
Eles deixaram o subsolo, abandonando a câmara vazia e a marca permanente no concreto.
Quente. Viva. Respirando fora do ritmo do mundo.
Acima do museu, a cidade seguia sua vida normal.
Mas o Véu, silenciosamente, já havia escolhido o próximo alvo.
Algo, em um ponto além da percepção humana, havia aprendido exatamente como caçar.