ATO 1 — O CORPO NO GALPÃO
O corpo estava lá. A poeira ainda caía do teto quando eles entraram.
O galpão parecia ter sido mastigado e cuspido.
Vigas retorcidas. Máquinas dobradas. O chão marcado por crateras onde antes havia concreto liso.
O cheiro dominava tudo — ferro, fumaça fria e o resíduo químico do fogo de Dante.
Nami foi a primeira a se mover. Ela desviava de destroços com cuidado, os olhos varrendo cada sombra.
— Vou verificar se há sobreviventes.
Lyra vinha atrás, com uma mão pressionada contra as costelas. O impacto da explosão ainda latejava fundo nos músculos. Ela fechou os olhos por um segundo e tocou o solo com a ponta dos dedos. Recuou rápido, como se tivesse tocado algo morto.
— O solo está vazio — disse ela. — Não tem energia nenhuma aqui. Nada cresceria nesse chão por meses.
Aiden se agachou no centro do galpão, estudando uma rachadura que partia o concreto em ângulos que não obedeciam a nenhuma lei de impacto normal. Ele aproximou a palma. O ar não vibrou, não reagiu. Havia um silêncio elemental ali que era pior do que qualquer anomalia.
— Isso não foi só explosão — murmurou ele. — O campo espiritual aqui foi completamente raspado.
Maira ficou na entrada, de costas para todos, olhando para a rua. Seus braços estavam cruzados, mas os dedos se abriam e fechavam lentamente, num reflexo que ela nem percebia. Depois do que havia acontecido ali dentro, ela não confiava mais no silêncio de Solarion.
Então Nami parou.
— Gente.
Ela estava ajoelhada perto de uma pilha de concreto quebrado, a postura rígida. Havia um homem no chão, parcialmente coberto por poeira.
Nami virou o corpo com cuidado.
Na mão dele, um celular ainda piscava.
Ela olhou a tela. Não disse nada.
Só mostrou.
*Skam — chamada perdida.*
O silêncio pesou no ar. Kael apoiou o braço contra uma viga, pressionando o ferimento no abdômen com a outra mão. Maira desviou o olhar para a escuridão lá fora. Lyra fechou os olhos.
O som de pneus freando rasgou a noite.
Um carro parou bruscamente na entrada. Passos rápidos, muitos ao mesmo tempo. Skam entrou correndo, seguido por Reno, Daryl, Ilia, Nirse, Craven e Violet — uma parede inteira de rostos que o grupo conhecia bem demais.
Skam parou no meio do galpão. Seus olhos varreram a destruição, os heróis feridos, e então encontraram o corpo. Ele caminhou até lá devagar. Como quem ainda acredita que pode estar errado. Como quem precisa de mais alguns passos para ter certeza do que já sabe desde que entrou.
Quando reconheceu o rosto, o mundo inteiro parou.
— Pai…?
Uma palavra. Só isso. Mas o que havia dentro dela era uma vida inteira desabando.
Ele ficou ali ajoelhado por alguns segundos. Os ombros tremeram uma vez, só uma. Depois ele se levantou, pegou o celular do chão e olhou para a tela.
O próprio nome ali. Chamada perdida.
Não era chamada perdida.
Ele tinha atendido.
E não chegou a tempo.
Skam olhou para os heróis. O que havia nos olhos dele não era mais dor.
Era algo muito mais perigoso do que dor.
Ele empurrou Maira com força.
— O QUE VOCÊS FIZERAM?!
Maira quase perdeu o equilíbrio. Kael deu um passo à frente, mesmo com a dor rasgando o abdômen.
— Skam, escuta—
— NÃO FOI?! — A voz quebrava no meio, mas a raiva era mais forte que a quebra. Ele apontou para o corpo. — Vocês estavam aqui. Vocês SEMPRE estão onde as pessoas morrem!
— Você está tirando conclusões sem saber o que aconteceu — disse Aiden.
Reno deu um passo à frente, a voz tranquila como quem apresenta um relatório.
— O que sabemos é o que os olhos mostram. Vocês estavam aqui. Ele está morto. A conta é simples.
— Isso não foi um ataque nosso — Maira firmou a postura, mesmo com o braço latejando.
— Então explica — Skam rebateu, a voz falhando — explica por que ele morreu sozinho enquanto vocês estavam aqui.
— Nós chegamos depois que tudo já tinha começado — disse Lyra.
Ilia soltou um riso curto, sem humor.
— Claro. Vocês sempre chegam depois.
Violet observava Skam com uma expressão que beirava a pena — calculada demais para ser genuína.
— E o pior é que ninguém vai questionar. O mundo vai aplaudir enquanto a gente enterra os nossos.
Skam não escutava mais. Ele estava olhando para o celular do pai na própria mão. A última ligação ainda aberta. O nome dele na tela.
E a linha estava morta.
Reno colocou a mão no ombro de Skam.
— Vamos embora.
Skam olhou uma última vez para os heróis.
— Eu ouvi ele morrer.
— Isso não vai ficar assim.
O grupo saiu.
Os heróis ficaram parados entre os destroços até que Maira falou, mais baixo do que o normal.
— Temos que sair daqui.
Eles foram. E o peso daquele galpão foi com eles, tatuado em lugares que banho nenhum alcança.
ATO 2 — A ARITMÉTICA DO ÓDIO
Chovia.
Uma chuva fina e constante que não molhava rápido — só pesava, devagar, sobre tudo.
O velório era pequeno. O caixão no centro da sala, flores brancas ao redor, pessoas murmurando em voz baixa. Skam estava de pé diante da madeira polida como uma estátua que alguém tinha esquecido de terminar.
Reno ficou ao lado dele. Não tocou no ombro. Não disse nada por alguns segundos. Só ficou ali, deixando o silêncio fazer o trabalho.
— Você sabe quem estava lá — disse ele, por fim.
Skam não respondeu.
Craven veio pelo outro lado.
— O padrão não mente, Skam. Onde eles pisam, alguém paga. Sempre alguém que não é eles.
Violet estava um pouco mais afastada, mas a voz chegou clara.
— Não precisa provar nada. Só precisa que as pessoas comecem a perguntar. Dúvida é mais difícil de matar do que certeza.
Reno inclinou levemente o corpo na direção de Skam, sem que ninguém ao redor percebesse o gesto.
— Não podemos provar nada… ainda. Mas não precisamos disso para derrubá-los.
Skam finalmente virou a cabeça.
— Como?
— Investigando — disse Reno. — Expondo. Destruindo o que eles têm — a reputação, a confiança, o lugar que ocupam nessa escola. Fazendo com que ninguém mais queira estar perto deles.
— Antes que alguém mais morra por causa dessa proximidade — completou Craven.
Skam voltou o olhar para o caixão. A madeira era simples, sem ornamentos. O pai nunca gostou de ostentação. Trabalhava de noite para não perder o dia com o filho.
— Eu quero justiça — disse ele. A voz estava morta. Não era pedido. Era sentença.
Reno assentiu.
— Então começa agora.
ATO 3 — O QUE ELE VÊ
A tarde caía devagar sobre Solarion quando Lukas encontrou Lyra no corredor.
— Ei. Vem comigo um minuto.
Não era pergunta. Lyra reconheceu o tom — o tom de quem tomou uma decisão antes de começar a falar.
Eles subiram ao terraço.
Lyra se sentou. Lukas ficou de pé.
O silêncio entre eles era o tipo que não precisa ser preenchido. Até que precisou.
— Você também notou que o Dante está diferente? — ele perguntou.
Lyra sentiu o coração errar um batimento.
— Diferente como?
— Como se tivesse saltado anos de treinamento em dias. Eu conheço o Dante. Treinei ao lado dele desde o primeiro ano. Ele era bom. Agora ele está num lugar que eu não consigo nem enxergar direito. — Ele passou a mão pelo cabelo. — E não é só ele.
Pausa.
— Você também está diferente, Lyra.
— Lukas—
— Não estou te acusando. — Ele finalmente virou o rosto para ela. Os olhos eram sérios, mas não havia raiva ali. Só a clareza desconfortável de quem observa bem. — Você está brilhando por dentro. Não é metáfora. É como se alguma coisa em você estivesse querendo rasgar a superfície.
A verdade subiu pela garganta de Lyra quente e urgente. Ela queria falar. Sobre o despertar, sobre o perigo, sobre o peso de saber o que sabe e não poder dizer. Mas a voz de Nami ecoou na cabeça: *O segredo é o que nos mantém vivos. E o que mantém eles vivos também.*
— Não está acontecendo nada — disse ela. — É o estresse. Tudo que aconteceu.
A mentira saiu torta. Eles dois sabiam.
Algo quebrou dentro de Lukas — não com barulho, não com drama. Silenciosamente, como gelo que cede por baixo sem aviso nenhum.
— Eu confio em você — disse ele. — Sempre confiei. Mas não consigo ficar parado vendo todo mundo mudar enquanto fico no escuro, Lyra. Não assim.
Ele recuou um passo. O olhar de quem já tomou uma decisão antes de começar a conversa.
— Se você não pode me contar, eu vou descobrir sozinho.
— Lukas, por favor—
Ele sorriu de leve. Mas não com os olhos. O sorriso que ela conhecia de cor, o que aparecia quando uma decisão já estava tomada e não adiantava mais discutir.
— Porque eu te amo — disse ele.
Eles se abraçaram. Forte, por tempo demais, como abraços que tentam guardar algo.
Quando se separaram, Lyra ficou olhando para ele ir embora pelo corredor. E pela primeira vez desde que tudo começou, o medo que sentiu não era de Klyrion, não era de Korran, não era de nenhuma criatura do Vórtice.
Era do que Lukas ia encontrar quando descobrisse. E do que isso faria com ele.
ATO 4 — SINERGIA
No meio da noite, Dante acordou de repente.
O quarto estava quente. Muito quente. O termômetro na parede marcava temperatura normal, mas o ar pesava como fornalha. Ele se sentou na cama com o coração disparado, esperando o sonho se dissolver.
Não havia sonho.
Era presença. O fogo dentro dele reagia a algo externo, instintivo como o reflexo de recuar da chama — mas ao contrário. Como se algo do outro lado da cidade tivesse sentido a chama e puxado o fio. E o fogo dentro dele puxou de volta.
Do outro lado da cidade, numa região onde as luzes de Solarion morriam antes de chegar, Vor'Gath abriu os olhos.
Ele sentiu. A assinatura térmica era densa, primitiva, uma chama negra com borda de luz branca fria — o tipo que só aparece quando um poder ainda não conhece seus próprios limites, quando é puro instinto sem forma. Mais perigoso assim do que seria com controle.
Um sorriso lento formou-se no rosto do colosso.
— Então você finalmente despertou.
Ele deu um passo. O chão afundou levemente sob o peso. Mas três figuras surgiram das sombras bloqueando o caminho — os Arautos, imóveis como paredes.
— Ainda não é a hora — disse Vareth.
Vor'Gath parou. Seus olhos, como brasas que não se apagam, ficaram fixos na direção da Academia por um longo segundo.
— Ainda não — concordou. O sorriso não sumiu. — Mas logo.
De volta ao quarto, Dante olhava para as próprias mãos. Elas brilhavam levemente no escuro — um brilho laranja e negro que pulsava no ritmo do coração, como se o fogo tivesse aprendido a respirar com ele.
— Ele está vindo — sussurrou.
Em algum ponto da cidade, dois fogos se reconheceram.
Quando colidissem, Solarion não sobreviveria.