ATO 1 — DESESPERO ORGANIZADO
O golpe veio sem aviso.
Vor’Gath girou o tronco e desceu o braço.
Dante cruzou os antebraços no último instante, concentrando energia espiritual nos músculos e nos ossos. Ainda assim, o impacto o arrastou pelo concreto até atingir uma pilha de contêineres.
Ele caiu de joelhos.
— Dante! — gritou Maira.
Kael avançou pelo flanco esquerdo e lançou uma rajada contra o joelho de Vor’Gath.
O ataque atingiu a articulação, mas o gigante apenas ajustou o peso do corpo. A rajada desviou-se e destruiu parte das colunas do armazém.
— Ele está lendo nossos movimentos!
Maira bateu as palmas contra o chão.
Placas de concreto se ergueram dos escombros, bloqueando a visão de Vor’Gath. O colosso atravessou a barreira com um único passo.
Nami puxou a água dos canos rompidos e a concentrou ao redor do torso do inimigo. Lyra fez raízes romperem o piso e prenderem suas pernas.
Aiden correu até Dante e ergueu uma barreira.
— Fique atrás de mim!
O punho de Vor’Gath atingiu a defesa.
A barreira se partiu, e Aiden foi lançado contra uma viga de aço. Dante rolou para o lado antes que o golpe seguinte atingisse o chão.
Por alguns segundos, a formação funcionou.
Kael empurrava o ar contra as costas de Vor’Gath. Maira alterava o solo sob seus pés. Nami restringia seu torso, enquanto Lyra mantinha suas pernas presas.
Ryu observava da retaguarda.
— Não tentem quebrar a armadura — ordenou. — Tirem o equilíbrio dele.
Vor’Gath parou.
Sua energia espiritual oscilou.
As raízes de Lyra secaram. A água de Nami começou a ferver.
— Recuem!
O gigante girou o corpo.
A força do movimento atingiu o grupo inteiro.
Kael foi lançado contra caixas metálicas. Maira perdeu o apoio e caiu entre os escombros. Nami rolou pelo piso coberto de fuligem. Aiden tentou se levantar, mas seu braço direito não respondeu.
Dante voltou para a frente.
Não teve tempo de preparar uma defesa. Concentrou energia espiritual no abdômen e avançou.
O punho de Vor’Gath atingiu seu estômago.
Dante caiu de joelhos, sem conseguir respirar.
Se eu não estivesse aqui, eles estariam mais seguros?
A dúvida doeu mais do que o golpe.
Vor’Gath observou os combatentes espalhados pelo armazém.
— Incômodo.
Então voltou a avançar.
ATO 2 — QUASE DERROTA
Maira se levantou apoiando-se em uma pequena muralha de pedra. Sangue escorria de sua testa.
Ela alcançou Dante e ofereceu o ombro.
— Apoie-se em mim.
— Se eu recuar, ele atravessa vocês.
— Você mal consegue ficar de pé.
— Ainda consigo ficar na frente.
Antes que Maira respondesse, Kael surgiu pela lateral. Com o restante de sua energia espiritual, lançou uma lâmina de vento contra os joelhos de Vor’Gath.
O ataque abriu a blindagem e cortou a pele.
Vor’Gath diminuiu o passo.
As placas danificadas se rearranjaram.
— A armadura está se reparando — disse Kael.
— Ele está redistribuindo energia — corrigiu Ryu. — A articulação esquerda está mais lenta.
Vor’Gath avançou.
Aiden apareceu ao lado de Dante e cobriu o corpo dele com uma camada fina de proteção.
— Respire comigo.
O golpe seguinte destruiu a defesa e lançou Aiden contra a viga. Ele caiu, incapaz de usar o braço ferido.
Nami reuniu a umidade do ar e disparou um dardo líquido contra os olhos de Vor’Gath.
O ataque desviou o punho do gigante por alguns centímetros. Dante escapou por pouco.
Nami caiu de joelhos, sem energia para atacar novamente.
Lyra forçou as raízes queimadas a crescerem. Elas envolveram o braço direito de Vor’Gath e o puxaram para trás.
— Agora! — gritou ela.
Maira ergueu um bloco de granito e o lançou contra o cotovelo exposto.
A armadura rachou.
Vor’Gath recuou meio passo.
— Persistência.
Seu braço esquerdo varreu o espaço.
Kael foi atingido e caiu. Lyra bateu contra a parede. Nami perdeu o controle da água.
Dante ficou sozinho.
Ele avançou e golpeou o peito de Vor’Gath duas vezes. Os ataques não produziram efeito.
O gigante fechou a mão ao redor do punho de Dante.
Os ossos começaram a ceder.
Dante tentou se soltar, mas não conseguiu.
Maira tentou avançar. Suas pernas falharam.
Aiden ergueu o braço bom, mas sua proteção não se formou.
Mesmo feridos, os companheiros começaram a se arrastar na direção de Dante.
Não havia mais uma estratégia.
Apenas a decisão de não abandoná-lo.
Vor’Gath inclinou a cabeça, observando o grupo.
Foi quando Lukas deixou a passarela.
ATO 3 — LUKAS ENTRA
As ordens eram claras: Lukas deveria permanecer para trás.
Ryu havia repetido isso antes do combate.
Você não entra até receber o sinal.
Lukas sabia que não tinha força suficiente para mudar aquela luta. Também sabia que, se entrasse, provavelmente cairia junto com os outros.
Então Vor’Gath apertou a mão de Dante.
Lukas desceu a escada metálica.
Escorregou no caminho, bateu o joelho em um degrau e quase caiu. Mesmo assim, continuou.
— Ei!
A voz saiu mais fraca do que pretendia, mas chamou a atenção do gigante.
Vor’Gath parou de apertar a mão de Dante.
Dante olhou para a passarela.
— Lukas?!
Lukas atravessou o espaço entre os dois.
Seus joelhos tremiam.
— Solte ele.
— Saia daqui! — Dante gritou.
Lukas manteve os olhos em Vor’Gath.
— Solte-o.
A pressão da energia espiritual do colosso aumentou.
O piso se rompeu entre os dois, e uma fissura parou diante dos pés de Lukas. O peito do garoto se comprimiu. Seu corpo pediu que recuasse.
Lyra ergueu uma mão entre os escombros.
— Lukas... não...
Algo respondeu dentro dele.
Não houve luz nem explosão.
A energia espiritual ao redor de Lukas apenas se tornou mais densa. O concreto começou a rachar sob seus pés.
Vor’Gath firmou a postura.
— Você carrega algo que cobrará um preço alto demais.
O calor subiu pelas mãos de Lukas e alcançou seu peito.
Ele tremia.
Mas permaneceu no lugar.
ATO 4 — DESPERTAR
Vor’Gath avançou.
A pressão da investida atingiu Lukas antes do golpe. Ele cruzou os antebraços.
O impacto o arrastou pelo concreto, mas não o derrubou.
— Lukas! — gritou Dante.
Lukas puxou o ar pelos dentes.
Não sabia o que havia despertado dentro dele. Sabia apenas que, se cedesse, Vor’Gath alcançaria os outros.
Se eu fraquejar agora, ninguém mais se levanta.
Ele fechou o punho e atingiu o peito do colosso.
O golpe acertou a fenda criada por Maira.
O metal negro afundou.
Vor’Gath olhou para a marca enquanto sua energia espiritual tentava fechá-la.
— Você está forçando esse corpo além do limite.
Lukas avançou antes que o casco metálico se recuperasse.
Atingiu a articulação do braço direito. Desviou do golpe seguinte. Acertou a abertura abaixo do peito.
Ele não atacava com força indiscriminada. Mirava os pontos enfraquecidos.
Kael observou, apoiado contra um pilar.
— O fluxo dele mudou.
Lukas passou por baixo dos braços de Vor’Gath, travou sua perna de apoio e girou o corpo.
O gigante perdeu o equilíbrio por um instante.
— Agora! — gritou Maira.
Uma ponta de pedra surgiu sob o calcanhar de Vor’Gath. Aiden criou uma rampa de energia espiritual diante de seus pés, desviando o peso do corpo.
Nami congelou a água espalhada pelo chão.
Vor’Gath deslizou.
Foi apenas meio metro, mas precisou interromper o ataque para recuperar a postura.
— Não deixem que ele se estabilize! — ordenou Ryu. — Ataquem em tempos alternados!
Lyra fez raízes cristalizadas prenderem os tornozelos do gigante. Elas queimaram ao tocar as placas metálicas, mas seguraram Vor’Gath por tempo suficiente.
Lukas correu, pisou sobre uma caixa e atingiu o visor do colosso com o joelho.
O metal rachou.
Vor’Gath endireitou a cabeça.
— Você é o ponto de resolução deste cenário.
Lukas olhou para trás.
Dante tentava permanecer de pé. Maira segurava a muralha de pedra. Kael ainda canalizava o vento. Aiden mantinha o braço ferido junto ao corpo. Nami e Lyra usavam o restante de suas forças para sustentar a formação.
Ninguém havia recuado.
Vor’Gath ergueu o punho direito.
A energia espiritual acumulada em seu corpo fez as vigas do armazém estalarem.
— Ele vai concentrar tudo nesse golpe! — avisou Kael.
Lukas avançou.
Vor’Gath desceu o braço.
Lukas segurou o golpe com as duas mãos.
Seus joelhos dobraram. Os músculos dos braços começaram a rasgar sob a pressão. O punho continuou descendo. Lukas apenas conseguiu retardar sua trajetória.
— Mantenham a linha! — ordenou Ryu. — Ninguém avance!
Kael deu um passo, mas parou.
Se todos se movessem, a formação seria desfeita.
Lukas sentiu os braços queimarem.
Então compreendeu.
Não precisava vencer.
Precisava impedir que passasse.
As chamas de Vor’Gath atravessaram as fissuras da blindagem. O gigante aplicou mais força.
A resistência de Lukas começou a ceder.
As vigas do teto gemeram. Uma delas partiu ao meio. Ao longe, uma sirene começou a tocar.
Dante gritou o nome de Lukas.
Os joelhos do garoto tocaram o chão.
Ele ainda não soltou o braço.
O gosto de sangue preencheu sua boca. Sua respiração ficou irregular.
Eu seguro o impacto.
O punho continuou descendo.
Vocês vencem.
A viga mestra cedeu.
O teto começou a desabar.
Lukas perdeu a força nas pernas, mas manteve as mãos fechadas ao redor do braço do colosso.
A escuridão tomou sua visão.