Capítulo 7 — Entre Risos e Olhares
Acordei com dor nos ombros. Não era uma dor dramática, nem incapacitante — apenas a lembrança concreta de que eu havia passado horas sobre um cavalo no dia anterior tentando parecer perfeitamente confortável enquanto minhas pernas imploravam por descanso.
Demorei alguns segundos antes de abrir os olhos. O quarto ainda estava silencioso. A lareira havia morrido durante a madrugada e o ar estava fresco o suficiente para me fazer puxar o cobertor até o queixo.
Não havia pressa.
O dia anterior fora intenso, longo, cheio de observações, conversas implícitas e silêncios pesados. Hoje, ao menos segundo a criada que me informou na noite anterior, haveria um encontro social no castelo.
Não um baile formal. Não um banquete diplomático.
Mas um chá vespertino oferecido às famílias nobres da região — algo tradicional, sempre realizado após o período mais rigoroso do inverno. Uma forma de aproximar casas aliadas, anunciar futuros noivados, fortalecer vínculos familiares e, acima de tudo, permitir que as damas conversassem livremente.
“Livremente.” Quase sorri com a ironia da palavra.
Levantei devagar, sentindo a rigidez nas pernas. Caminhei até a janela e afastei discretamente a cortina. O pátio estava mais movimentado que o habitual. Carruagens começavam a chegar.
Então era real. Eu pisaria naquele salão não como a estrangeira recém-chegada, mas como a futura duquesa apresentada às famílias locais. E, gostassem ou não, eu seria observada.
Quando as criadas bateram à porta, eu já estava desperta. Desta vez vieram duas.
A mesma da primeira noite — rígida, postura perfeita, expressão contida — e outra mais jovem, com olhos curiosos demais para conseguir esconder completamente o que sentia. Observei ambas em silêncio. Era cedo demais para decidir qualquer coisa, mas eu precisava começar a prestar atenção. Não apenas a quem me vigiava — mas a quem poderia, eventualmente, estar ao meu lado.
Enquanto me ajudavam a escolher o vestido, perguntei:
— Que tipo de traje é esperado hoje?
A mais velha respondeu imediatamente:
— Tons claros. Tecidos leves. Algo que demonstre suavidade.
Quase pude sentir o subtexto. A jovem criada hesitou antes de acrescentar:
— As damas costumam usar azul, verde claro ou creme. Para… transmitir serenidade.
Transmite serenidade quem pode se dar ao luxo de parecer serena.
Caminhei até o guarda-roupa. Passei os dedos pelos tecidos. Ignorei o vermelho. Escolhi um azul pálido. Simples. Elegante. Sem exageros.
Enquanto me vestiam, comecei a conversar. Não sobre política. Não sobre hierarquia. Sobre trivialidades.
— É verdade que Lady Harrington está prometida desde os doze anos?
A jovem criada arregalou os olhos antes de olhar discretamente para a outra.
— Sim, senhorita — respondeu ela, baixinho. — Mas dizem que o noivo prefere cavalos à noiva.
Não consegui evitar o sorriso.
— Um começo promissor para qualquer casamento.
A mais velha manteve o rosto impassível, mas percebi um leve tensionar nos lábios. Informação útil. A jovem tinha língua solta quando relaxava.
Quando terminaram meu cabelo — metade preso, metade solto em ondas suaves — agradeci olhando diretamente para ambas. A mais velha apenas curvou-se. A jovem sustentou meu olhar por meio segundo a mais. Guardei isso.
Desci para o salão pouco antes do horário marcado.
O ambiente estava diferente do baile. Mais iluminado. As janelas abertas deixavam entrar o ar frio, mas a luz suavizava as paredes de pedra. Mesas menores estavam distribuídas pelo salão, com porcelanas delicadas e arranjos florais discretos. Não era um campo de batalha. Era… quase agradável.
As primeiras damas chegaram em pequenos grupos. Vestidos claros. Risadas baixas. Olhares curiosos.
Eu inspirei fundo. Eu podia ser observadora, mas hoje precisava ser mais do que isso.
A primeira aproximação veio de duas irmãs — Lady Miriam e Lady Estelle, se me recordava corretamente.
— Senhorita Montclair — disse a mais velha, com um sorriso ensaiado. — Esperávamos conhecê-la.
— Espero não decepcioná-las — respondi, leve.
Elas riram. E, para minha surpresa, a conversa não começou com perguntas sobre alianças. Começou com tecido.
— Seu vestido é de Montclair? — perguntou Estelle.
— Sim. Minha costureira tem mãos mágicas. Ela chora toda vez que aperta demais o espartilho.
Elas riram mais alto.
— Então a senhorita também sofre com isso?
— Ontem achei que perderia a respiração antes de perder a compostura.
Miriam levou a mão à boca. Mais damas se aproximaram. Assuntos começaram a surgir:
Quem estava prometida a quem. Qual família atrasara um dote. Um visconde que supostamente escrevera poemas terríveis para três mulheres diferentes. Uma prima distante que fugira com um músico
— Ele tocava alaúde — explicou Estelle, quase indignada. — Alaúde!
— Talvez fosse talentoso — sugeri.
— Ele desafinava.
— Então foi amor verdadeiro.
Mais risos. Eu me vi sorrindo de verdade. Não calculado. Não medido. Simples.
Em determinado momento, uma bandeja quase escorregou das mãos de um criado. Por reflexo, segurei a xícara antes que caísse. O salão inteiro pareceu prender a respiração por meio segundo. Eu apenas entreguei de volta ao rapaz.
— Hoje não teremos tragédias envolvendo chá.
Algumas damas riram. Outras pareceram confusas por eu ter me movido tão rápido.
Foi quando senti. O olhar dele.
Ergui discretamente os olhos. Isken estava próximo à lareira, conversando com dois homens mais velhos. Não interferia. Não se aproximava. Mas observava. Não com desconfiança. Com atenção.
Quando nossas atenções se cruzaram, mantive o sorriso. Ele não sorriu de volta. Mas seus ombros estavam menos rígidos do que no baile anterior.
Pouco depois, Aldric se aproximou.
— Senhorita Montclair.
A voz era suave. Bem modulada.
— Lorde Aldric — cumprimentei.
— Posso roubar-lhe uma dança? Prometo não permitir que o chão a ataque novamente.
Ri.
— Nesse caso, aceito a proteção.
Ele dançava com leveza, mas com passos medidos. Movimentos precisos, mas sem qualquer tensão, fácil de conversar. Falamos sobre música, livros, e até sobre a peça teatral desastrosa que ele dissera ter assistido.
Quando a música terminou, Aldric se afastou, e eu senti novamente o olhar de Isken. Desta vez, percebi que ele se aproximava, a postura rígida, mas firme, indagando com os olhos.
— Aceitaria dançar comigo? — perguntei, tentando soar casual, mas o coração batendo forte.
Ele ergueu uma sobrancelha, demorando o suficiente para que eu sentisse a provocação.
— Por que eu aceitaria? — disse ele, a voz baixa e firme.
— Para me poupar de passar vergonha sozinha — respondi, tentando sorrir.
Ele ficou em silêncio, avaliando cada gesto meu antes de estender a mão. A dança começou, e, como sempre, não era imediata leveza. Cada passo era contido, cada movimento cuidadosamente medido.
Enquanto girávamos, ele finalmente falou:
— E quanto a Lorde Aldric…? — a voz baixa, quase provocativa.
Sorri por dentro, percebendo a pequena tensão.
— Ele é cordial, mas sério demais para ser perigoso — respondi, zombando discretamente.
Ele franziu o cenho, e por um instante, achei que estava com ciúmes. Ri baixinho, e ele inclinou ligeiramente a cabeça, como quem avalia se minha resposta foi ousada demais.
— Perigoso? — perguntou, baixo, provocador.
— Só quando se importa — murmurei, mantendo o ritmo da dança.
O restante da dança seguiu assim: provocação, observação, risadas discretas minhas, passos firmes dele. As damas ao fundo sussurravam: algumas torciam por mim, outras de cara fechada, e algumas apenas observavam curiosas.
Ele não sorria, mas havia algo diferente: atenção genuína, interesse velado, percepção de cada gesto meu. Eu percebia, brincava e me descobria aos poucos — humana, frágil, mas capaz de rir e provocar.
Quando a música diminuía, ele disse baixo:
— Você consegue atrair atenção sem esforço.
— E você não me observa apenas — respondi, provocando levemente. — Parece preocupado.
Ele permaneceu em silêncio, mas a postura se suavizou sutilmente, e pela primeira vez, senti que a dança havia criado algo entre nós além da observação.
A noite ainda continuava. O salão permanecia cheio de risos, conversas baixas, piadas e pequenas intrigas. Eu não precisava encerrar nada. Eu podia continuar observando, dançando e me divertindo.
E, enquanto girava discretamente com ele, percebi que, mesmo sem sorriso, Isken começava a mostrar pequenas brechas de humanidade — e eu podia, aos poucos, ver e brincar com isso.