Capítulo 8 — Entre Sussurros e Suspeitas
O salão estava quase dourado pelo sol que baixava lentamente. O vento passava pelas janelas abertas, trazendo um frescor leve e espalhando o aroma das flores do jardim. Havia risadas, passos discretos sobre o piso polido e o tilintar das xícaras de porcelana em meio à conversa animada. Lily estava ali, impecável, como sempre — a galinha dos ovos de ouro do Conde Edwin. Olhei para ela e senti aquela pontada familiar: a mistura de irritação e admiração.
"Ela realmente não pode parar de ser perfeita, não é mesmo?" pensei, franzindo a testa.
Enquanto observava a movimentação, meu olhar caiu sobre a jovem criada que tinha notado pela manhã. Ela se movia com naturalidade, recolhendo xícaras e ajustando toalhas, mas algo na forma como seus olhos percorriam o salão me deu calafrios. Ela não parecia apenas organizada; parecia alerta demais. Cada vez que alguém passava próximo, suas mãos tremiam ligeiramente, e havia uma tensão sutil nos ombros.
"Interessante… ou medrosa demais para agir sozinha", pensei, inclinando a cabeça. "Ou talvez esteja cobrindo alguém."
Enquanto eu me aproximava discretamente, fingindo conversar com uma das damas ao fundo, percebi que ela trocava olhares rápidos com outra criada, mais velha, que permanecia perto da mesa do buffet. A forma como ambas se comunicavam sem falar parecia quase telepática.
— Ari, está tudo bem? — Lily se aproximou, sua voz doce mas carregada daquela habitual preocupação de irmã mais velha.
— Sim, estou bem — respondi, sorrindo de forma leve, mas mantendo meus olhos na criada. "Só fingindo", pensei.
Lily percebeu meu olhar, mas decidiu não comentar. Em vez disso, olhou para o salão e comentou com naturalidade:
— Parece que o chá atraiu mais famílias do que o esperado.
— Sim — murmurei. "Ou mais problemas", acrescentei mentalmente.
Isken estava próximo a mim, ainda após a dança, sua presença firme e silenciosa. Ele não tocou meu braço, não me interpelou, apenas ficou ao meu lado, olhando na mesma direção que eu.
— Encontra algo interessante? — perguntou, baixo, quase um sussurro.
— Talvez. — Respondi, mantendo a calma. "Não posso mostrar muito, mas ele já percebeu que algo não está certo."
Ele inclinou ligeiramente a cabeça, com aquele olhar intenso que me deixava sempre alerta.
— Essa criada… — comecei, baixinho, apontando discretamente com o olhar — parece mais interessada em… em vigiar o salão do que servir.
Ele observou atentamente, franzindo o cenho. — E você acha que há alguém por trás dela?
Sorri discretamente. — Mais de um. Parece que alguém está tentando… sabotar alguma coisa. Ou alguém.
Isken permaneceu em silêncio, apenas olhando. "Ele não fala, mas entende cada palavra", pensei.
Enquanto isso, a criada trocava rapidamente o envelope de mão, escondendo algo que parecia um documento ou uma lista. Ela olhou de sós, visivelmente nervosa. Eu segurei o riso — "quase me sinto em uma história de espionagem barata", pensei — e continuei a observá-la.
Lily passou por perto, cumprimentando algumas damas e sorrindo. Percebi que a jovem criada tentou se esquivar, evitando o olhar de Lily, mas houve um momento em que os olhos delas se cruzaram por um instante. Lily levantou ligeiramente as sobrancelhas, percebendo algo, mas continuou caminhando como se nada tivesse acontecido.
"Ela não sabe que estou percebendo tudo. Perfeito."
Fui anotando mentalmente cada detalhe:
1. A jovem criada troca envelopes em segredo.
2. Observa constantemente certas pessoas, evitando outras.
3. Existe uma conivência com uma criada mais velha.
4. Olhares fugazes para Lily indicam preocupação em ser descoberta.
Enquanto analisava tudo isso, Isken fez um comentário baixo, sem olhar diretamente para mim:
— Interessante como algumas pessoas acreditam que pequenos gestos passam despercebidos.
"Ou ele está testando minha percepção", pensei, tentando não rir.
— Sim — respondi baixinho, mantendo o tom neutro. "Ou ele está tentando me assustar. Idiota."
O sol estava se pondo lentamente, espalhando uma luz dourada pelo salão. O evento começava a chegar ao fim, mas ainda havia convidados e risadas. As damas continuavam comentando sobre noivados, pequenas intrigas e, de vez em quando, olhares curiosos eram lançados na direção da jovem criada suspeita.
Foi nesse momento que percebi a confirmação final do que suspeitava: a criada pegou um envelope e se dirigiu discretamente à porta lateral, como se fosse entregar algo sem que ninguém visse. Ela hesitou ao passar por uma mesa onde Lily estava sentada, e então rapidamente se escondeu atrás de uma cortina lateral, quase imperceptível.
"Ok, isso é definitivo. Não é apenas nervosismo. Ela está escondendo algo, e alguém está controlando isso", pensei, respirando fundo para não me delatar.
Isken percebeu meu olhar fixo na cortina. Ele inclinou ligeiramente a cabeça, indicando que tinha entendido minha conclusão sem que eu precisasse dizer nada. A tensão entre nós era quase palpável, mas sem palavras diretas. Apenas olhares, gestos sutis e comentários internos que ninguém mais perceberia.
Enquanto os últimos raios de sol se infiltravam pelas janelas, o salão começou a se esvaziar lentamente. Convidados se despediam, damas comentavam discretamente entre si, e Lily se aproximou, sorrindo gentilmente para mim.
— Espero que tenha aproveitado o chá, Ari — disse, e eu notei que havia leve preocupação em sua voz.
— Sim, foi… esclarecedor — respondi, mantendo a calma. "Ela não precisa saber de nada ainda."
Olhei para a cortina lateral, onde a criada suspeita desapareceu, e senti aquele frio na espinha: a primeira peça do quebra-cabeça estava diante de mim, e eu precisava descobrir o restante antes que fosse tarde demais.
Isken permaneceu ao meu lado, quieto, mas eu sabia que ele tinha percebido cada detalhe tanto quanto eu. Seu olhar era firme, avaliador, como se dissesse sem palavras: "Continue. Eu estou atento."
O evento terminou oficialmente. Alguns convidados já haviam partido, a luz do sol desaparecia no horizonte, e o salão começava a se esvaziar. Mas para mim, a verdadeira noite estava apenas começando.
"Hora de descobrir o que está acontecendo", pensei, sentindo a adrenalina subir.
E, enquanto Lily se despedia de algumas damas próximas, eu mantive meus olhos na cortina onde a criada desapareceu, começando a conectar mentalmente todos os fios que eu havia observado.
Era apenas o começo.