Capítulo 9 — O Traidor Desmascarado
Depois de algum tempo, finalmente o salão do baile se esvaziou por completo. Agora, restavam apenas as criadas, que limpavam as mesas, cadeiras, janelas e o piso que estava praticamente imundo.
Aquela outra criada, no entanto, havia desaparecido entre as cortinas, logo após da minha descoberta de que ela estava entregando algum tipo de envelope para alguém em segredo. Seria apenas um segredo inofensivo ou algo a mais? Era difícil dizer.
Lily foi a última a se dirigir até a saída. Apesar de ela não estar em modo de ataque hoje, sinto sua observação em minha postura. Talvez nosso pai havia a enviado para me vigiar, para verificar se eu estava me aproximando do Duque da forma que ele gostaria. O Casamento seria ema guns poucos meses, a menos que Isken resolvesse cancelar tudo.
Se isso acontecesse… provavelmente eu seria morta.
Não gosto nem de imaginar esse tipo de situação, fico até com calafrios. Mas também, não consigo imaginar um futuro com este homem. “Ele nem sequer me olha nos olhos!”. Ainda sim, estou tentando.
De forma inesperada, sinto um toque de Isken em meu ombro. Viro meu rosto para olhar em seus olhos.
— Olhe. — Diz, enquanto aponta com os olhos para a criada, que retornara ao salão.
Observo enquanto ela se senta em uma mesa, agora parecia estar analisando os envelopes. Isken estava atento, com os olhos cerrados, analisando cada movimento que ela fazia. Me sentia bem em saber que ele estava me dando ouvidos sobre este assunto, mesmo que de forma sutil.
— Montclair, me diga novamente o que observou. — disse ele, em voz baixa e firme, sem cordialidade. —Não aceito nada pela metade.
— Sinto que ela tem algo a esconder. — Aponto o dedo para os papéis em sua mão. — Veja, não parece que ela os está rasurando? Se houver quaiquer tipo de manipulação que seja, isso pode de alguma forma prejudicar o evento. Afinal, acredito que o objetivo seja fortelecer os vínculos...
— Então está na hora de começar a investigar.
Isken e eu nos aproximamos com cuidado daa criada, tentando não chamar a atenção dos demais no ambiente. Olho de relance para os documentos que ela manipulava e vejo... meu nome? Arregalo os olhos por um instante. Por que a criada estava tentando me prejudicar? Bem, não é novidade que ninguém gosta de mim mas, não esperava que fossem tão longe.
— Isken. Eu vejo ela escrevendo meu nome. Não faço ideia do que seja e o motivo pelo qual está fazendo isso, mas tenho um pressentimento de que não é algo bom...
“Se ele duvidar de mim a essa altura, seria meu fim!”
— Pode prosseguir, Arianna. — ele fala, em tom baixo para que apenas eu possa ouvi-lo.
Eu ando em passos lentos até a criada, a mesma que apertou propositalmente meu vestido desde que chegara aqui. A mesma que fez piadas e risos enquanto eu me arrumava. E agora, a mesma que estava tentando me sabotar na minha frente! Eu tremia de raiva, mas não era algo muito inteligente dar um tapa nela na frente de todos, por mais que eu quisesse. Além disso, humilhar uma criada assim, mesmo em que condições plausíveis, provavelmente atrairia a fúria de Isken.
— Posso saber o que você está fazendo, senhorita? — Pergunto, com um falso sorriso em meu rosto.
A empregada praticamente salta da cadeira em que estava alocada. Ela não me encara nos olhos, visilmente nervosa. “Pega no flagra, não é?”. Ela tenta ajeitar os papéis rapidamente para que eu não os veja, mas já é tarde de mais. Eu coloco minha mão sobre a pilha, forçando com que ela se dirija a mim.
— E-eu e-estava apenas organizando os envelopes s-senhorita. — Gagueja.
— Tem certeza? Tenho a leve impressão de que vi meu nome escrito no envelope que você estava rasurando... — Eu coloco minha mão sob o queixo dela, apertando levemente para forçá-la a me encarar. — Você sabe que isso pode lhe trazer grandes consequências, não é?
— S-senhorita... e-eu...
— Se não quiser perder sua cabeça, é melhor falar. — Isken fala enquanto surge atrás de mim. Seus olhos ardiam de raiva. — Eu não terei misericórdia de uma tentativa de traição.
A criada tampou a boca, assustada. Lágrimas começaram a escorrer de seu rosto, ela claramente estava em pânico. “Essa mulher tem mais medo de falar a verdade do que de morrer? Quem será que está a ameaçando?”
Olho para o lado quando ouço um barulho repentino. Isken estava sacando sua espada. Ele não brincava em serviço. Por um segundo eu senti um pouco de medo dele, pensando que em algum momento a pessoa para quem ele levanta essa lâmina poderia ser... eu. Quando ele estava prestes a cortar o pescoço da traidora, ele de repente para quando ela suplica.
— E-espere, p-por favor espere! Eu vou falar, prometo!
— É melhor ser rápida. Minha paciência não é duradoura — Isken disse, a encarando.
— E-eu recebi instruções de um homem... ele queria prejudicar a senhorita Montclair
— E como era este homem? Seu nome? — Perguntou
— E-eu n-não sei o seu nome. Ele estava encapuzado, tinha cabelos pretos e uma c-cicatriz na mão...
— E como você ousou obedecer as ordens de um desconhecido?
— Me p-perdoe V-vossa Graça, e-ele estava com uma f-faca em meu pescoço... d-disse que sabia onde minha família morava...
— Onde o encontrou? — Isken abaixou suavemente a espada, vendo que a criada parecia falar a verdade.
— Na cidade Vossa Graça... enquanto fazia as c-compras para o castelo...
— Você lembra em que parte da cidade encontrou o suspeito?
— Perto de um armazém... — Mumurou. Quase não se podia ouvir sua voz. — Era um lugar velho e sujo
— Certo, obrigado pelas informações
— Sem problemas! — Disse a criada, já emanando sua aura despreocupada novamente, até que Isken a interrompe.
— Além disso, está dispensada. —Seco.
— O-o que? Como assim? — Começou a soluçar novamente
— Eu não tolero traidores por aqui. Deveria ter pensado melhor antes de cometer tal ato. Pedirei para que um guarda encaminhe suas coisas. — Pausa. Encara a criada de forma profunda antes de prosseguir com a sua fala. — Agora, suma da minha vista.
Ela engoliu em seco, não parecia estar esperando por uma atitude assim do Duque, embora eu não havia me surpreendido tanto. Ele já era conhecido por ser impiedoso e cruel, mas, ele não estava de todo errado. Seria tolice manter um traidor dentro do castelo, imagina a que perigos poderíamos nos encontrar?
Então, rápida como um vento, ela desaparecera de nossas vistas. Talvez tenha percebido que o Duque ainda teve misericórdia e não quis brincar com a sorte. Pelo menos, agora era uma criada a menos a me desrespeitar. Suspiro aliviada que a tensão havia passado, olhando para o teto.
— Arianna... — Isken fala, e eu rapidamente viro para encará-lo. — Descanse bem, amanhã partiremos cedo para investigar a fundo o culpado.
— Você vai mesmo atrás disso? — Indago.
— E por qual motivo não iria?
— É apenas uma falsa acusação contra minha pessoa. Como ela já foi pega antes de fazer qualquer coisa... não acho que seja algo tão sério
— Não sei como funciona no lugar de onde veio, mas aqui, ninguém mexe com um dos meus
— Um dos seus...? — O fito por um momento.
— Você é minha prometida, afinal. Está em desacordo?
— N-não, j-jamais! Estarei pronta amanhã! — Me viro de costas para ele imediatamente, e começo a fugir dali o mais rápido possível, para evitar que ele veja meu rosto corando.
— Espere! — Grita
Olho para trás por um momento.
— Você fez bem hoje, Arianna.
Ele me lança um sorriso provocativo após me elogiar. Não consigo evitar de corar no mesmo instante. Começo a andar ainda mais rápido. “Como ele ousa dizer essas coisas do nada? Idiota. Deve ser o efeito da bebida!”
Eu corro para meus aposentos o mais rápido possível, fechando a porta imediatamente após entrar. “Mas que raios foi aquilo”, pensei. A sensação que tive quando ele me elogiou pela primeira vez, não conseguia explicar. Aquele homem com certeza sabe como provocar uma mulher. Mas eu, de forma alguma, deixarei com que isso me abale.
A noite caía enquanto eu me preparava para dormir. Minha mente ficava recapitulando em repetição tudo que havia acontecido hoje. Todos os risos, as piadas, a dança com Isken... De alguma forma, sentia que havíamos nos aproximado um pouco. Quase nada. Mas o suficiente para que eu pudesse ser vista por ele. E eu precisava ser vista. Porque sendo vista, ele poderia me ajudar a me libertar... das garras do Conde Edwin.
E isso era tudo o que eu queria, nada mais.
Na manhã seguinte...
Me espreguiço na cama ao ouvir batidas na porta. Quem era a essa hora? Por que tão cedo? A luz da manhã irradiava no quarto escuro e com tamanho exagerado, era quase como se estivesse me cegando. As batidas continuavam, mais fortes dessa vez.
— Mas quem diabos está batendo tão forte logo no início da manhã? Já falei que não preciso da ajuda de vocês para me... — Abro a porta e paraliso por um momento. — Arrumar...
Não era uma daquelas criadas que me olhavam de cima a baixo. Nem a tagarela que tinha a língua solta para fofocas. Era...
— D-DUQUE? — Exclamo. — O-o que está fazendo aqui?
— Já se esqueceu? Combinamos de ir até a cidade investigar quem está lhe difamando. — Ele me olha de cima abaixo, levantando sua sobrancelha e franzindo o cenho. — Mas vejo que... você não está muito apresentável. A menos que hoje não queira ser notada por onde passa. — Debochou.
Ouvindo sua provocação, faço algo que não havia feito por mim mesma nesta manhã: olhar meus trajes. Lentamente encaminho meu rosto para baixo e... “CAMISOLA????” Eu estava realmente usando uma camisola de dormir na frente de Isken? Ó ceus, como vou ganhar a confiança deste homem se nem me vestir direito sou capaz? Minhas bochechas ficam vermelhas iguais um tomate maduro.
Sem pensar em mais nada além da minha própria integridade que havia sido ferida, fecho imediatamente a porta na cara dele. “Ótimo, fechei a porta na cara do Duque, mais um motivo para que ele corte minha cabeça”, pensei.
— Arianna, você não precisa se preocupar com coisas tão triviais como essa. — Diz o Duque, atrás da porta.
— N-não entre, não se atreva a entrar! Não há nada mais desrespeitoso para uma dama do que ser vista assim!
Silêncio.
— ... irei esperar no salão principal
Após seu anúncio, ouço passos fora do quarto, o que deve significar que ele fora embora. “Será que fui hostil demais? Mal cheguei e já causo comoções!”. De qualquer forma, eu precisava me arrumar para visitarmos a cidade. Ainda não entendia direito por que Isken resolveu ir atrás do culpado, talvez estivesse preocupado comigo? Improvável. Provavelmente não quer ter sua própria reputação ferida por minha causa.
Suspiro por um momento. Ser a prometida do Duque era mais difícil do que eu imaginava, eu tinha que ter cuidado com absolutamente tudo! A forma que me porto, a forma que me visto, a forma que uso a etiqueta. Era tão cansativo. Será que minhas atitudes já estavam prejudicando Isken? Será que ele já estava farto de minha presença? Apesar de que mal faz uma semana desde que cheguei aqui. Me sinto tão deslocada.
Mas agora não dava mais tempo de voltar atrás. Tenho certeza de que a presença de Lily aqui ontem foi um aviso de meu pai. “Comece a agir, Arianna”, foi o que ele queria me avisar. Mas é difícil fazer algo quando todos nesse lugar vigiam cada um de meus passos. Com certeza a parte mais difícil seria convencer Isken. Claro que, nem de longe ele era um homem pacifista, mas, não acho que ele gostaria de um conflito com a família imperial agora.
“Droga, o que devo fazer?”
Uma batida na porta me tira de meus pensamentos.
— S-senhorita Arianna, o Duque solicitou que viéssemos ajudar a senhorita a se trocar para o passeio na cidade. — Disse a criada fora do quarto.
“Passeio? É assim que ele nomeia uma investigação?”
— Pode entrar. Não se esqueça de fechar a porta.
— Sim, senhorita.
A criada entra em silêncio, trazendo consigo algumas opções de vestimentas. Cores neutras, nada que chamasse muita atenção. Ergo uma sobrancelha enquanto a observo.
— O Duque solicitou que vestisse algo simples hoje, senhorita. Ele disse que não quer atrair olhos curiosos hoje.
— Certo. Espero que as escolhas de hoje sejam adaptadas ao clima do Norte... — Pauso — Afinal, na última vez, passei frio devido a incompetência das criadas.
— S-sim, senhorita. Tenho certeza de que os vestidos escolhidos são todos adequados.
— Pegue o vestido creme.
A criada de hoje parecia diferente das criadas dos outros dias. Parecia mais reclusa, tímida, com medo de fazer besteira e ser punida. Parece que a empregada de ontem serviu de exemplo no fim. Tenho certeza de que não é comum que o Duque ameace arrancar a cabeça de seus funcionários, ainda mais por causa de uma comoção envolvendo sua noiva que chegara a pouco. Com certeza isso deve ter surpreendido a todos.
— Qual é seu nome? — Pergunto.
A criada fica surpresa por uma fração de segundos.
— Mary, senhorita.
— Então, Mary. Você tem medo da morte?
Vejo seu rosto ficar pálido de repente.
— ... sim, senhorita.
— Então acho que você deve estar de acordo que não deve me tratar da mesma forma que as outras criadas, certo? — Fixo meu olhar eu seu rosto — Talvez o destino não seja tão bonzinho com elas, no fim.
— E-eu... e-eu entendi, senhorita. Não se preocupe.
— De agora em diante, você será minha criada particular. Não quero mais as outras aqui, então trate de avisar a governanta. Se ela tiver algo a declarar, diga a ela para falar com o Duque. — Sorrio.
Ninguém ousaria se dirigir ao Duque para algo tão trivial.
— Seu traje está pronto, senhorita Arianna. Veja no espelho se gostou.
Mary me ajudou com o vestido. A “ameaça” deve ter funcionado, dessa vez não houve nenhum aperto em meu busto, puxões de cabelo ou apertos desnecessários na hora da maquiagem. O vestido era simples, nada chamativo, mas ainda assim, era lindo. Realçava o verde dos meus olhos. Meu cabelo estava preso em um rabo de cavalo alto, com apenas as mechas da minha franja caídas, emoldurando meu rosto. “Ótimo”, pensei.
— Obrigada Mary, você pode ir agora.
A criada já estava com a mão na maçaneta quando eu intervi.
— E trate de se lembrar bem do que eu lhe disse. - Sorrio.
Ela sai do quarto de forma tão rápida que eu poderia dizer que ela está morrendo de medo. Não consigo segurar o riso. Quem diria que agora a prometida do Duque estava ameaçando criadas por aí. De qualquer forma, chegou a hora.
Me dirijo até o salão principal, onde Isken disse que me aguardaria. Ele estava lá, como esperado. Vestia roupas em tons de cinza, nada muito chamativo. Com um manto preto sobre suas costas e o brasão da família Blackmoor estampado em seu peito. Seus cabelos platinados bagunçado eram o seu charme, eu diria. E seus olhos... aquele tom de azul penetrante mexia comigo de alguma forma, não sei explicar.
— Vossa Graça. — Avanço em sua direção, fazendo uma referência.
Ele me fita por um momento, parecendo hesitante. Me olha de cima abaixo com seu típico olhar gélido, antes de falar.
— Sua vestimenta está... agradável.
“Agradável? Apenas isso? Era só isso que esse idiota tinha a dizer sobre mim? Todo esse esforço para nada!”
Bufo em silêncio. Estava realmente me esforçando. Isken se levanta de seu assento e me estende o braço, ainda sem olhar diretamente para mim.
— Vamos. — Exclamou.
— Sim, vamos.
Com a escolta do Duque, fomos conduzidos até a sua carruagem particular. Como o resto de todo o castelo, ela tinha cores escuras e sombrias. Sem vida. “Quem foi o incompetente que decorou todo esse castelo, hein? Eu teria feito melhor.”
Os guardas de Isken abrem gentilmente a porta para que possamos entrar na carruagem, e quando eu olho para o lado, vejo que o Duque está com sua mão estendida para me auxiliar a subir. Ele ainda não me olha diretamente. Dito isso, eu simplesmente resolvo ignorar sua presença, fingindo que não vi o seu gesto e subo sozinha na carruagem, sem qualquer auxílio vindo dele.
Ele para por um momento, finalmente fixando seu olhar em mim, parecendo surpreso. Porém, logo se recompõe e sobe também. Nós não sentamos lado a lado, como qualquer casal comum faria. Ficamos de frente um para o outro, assim, ambos podíamos nos observar mesmo em silêncio.
E assim a viagem até a cidade seguiu. Sem nenhum diálogo, nenhuma conversa, nenhuma piada. Apenas o silêncio. De certa forma isso combinava com o território, frio e silencioso.
Depois de um tempo andando, finalmente começamos a ouvir os primeiros barulhos. Crianças correndo para lá e para cá, comerciantes espalhados nos corredores, pessoas da nobreza também. Parecia até que era outro território!
— Para onde vamos? — Perguntei.
— Estamos indo para o leste da cidade. Ontem a noite... consegui mais informações daquela criada antes que ela partisse.
— Partisse? Você não a matou, não é? — Faço uma cara desnorteada.
— Não, apenas a expulsei do castelo. Ela me disse que encontrou aquele homem em um armazém velho ao leste. E sua característica familiar era uma cicatriz na mão direita.
— Bom, pode ter muitos armazéns suspeitos e pessoas com cicatriz no leste... — Suspiro.
— Não se preocupe, Liam lidou com isso. Ele fez uma lista de todos os possíveis suspeitos e locais onde devemos nos dirigir.
— Liam?
— Meu cavaleiro pessoal, Liam.
— Vossa Graça, chegamos! — Exclamou um cavaleiro a frente.
Desci da carruagem com cautela, Isken estava logo atrás. Observo o ambiente de forma cuidadosa, qualquer pista ou sinal suspeito poderia ser útil para nós.
— E se falarmos com alguns comerciantes? — Sugeri.
— Pode ser útil.
Enquanto andávamos na cidade, fomos conversando com os comerciantes que encontrávamos no caminho. Perguntamos sobre um homem de cabelos pretos e cicatriz na mão direita. A maioria disse que não tinha visto ninguém com essas características, outros disseram que muitas pessoas vagavam pela cidade, então era difícil dizer. Mas um senhor nos chamou a atenção.
— Você por acaso viu algum homem com cabelos escuros e uma cicatriz na mão direita nesses últimos dias?
— Não sei dizer senhorita. A idade não tem me ajudado muito.
— E talvez... alguém que parecesse suspeito? — Indaga Isken.
— Bem... um homem passa por aqui as vezes. Ele anda sempre encapuzado, e não conversa muito com as pessoas.
— Ele já comprou algo do senhor? — Pergunto.
— Recentemente ele comprou alguns papéis de carta, nada mais.
Eu e Isken nos entreolhamos por um momento.
— Tem algum lugar que você já viu este homem frequentando? — Diz o Duque.
— Tem um armazém aqui perto, já o vi entrando algumas vezes. Fica no fim da rua a direita.
— Muito obrigada pelas informações, senhor. — Digo, sorrindo.
Assim que terminamos nossa conversa com o comerciante, Isken e eu logo nos dirigimos ao armazém do qual ele havia comentado. Parecia um lugar abandonado, a iluminação era falha, e era silencioso demais para ser um lugar em uso contínuo. Seguimos adentrando o ambiente, até que escutamos um estrondo, como se fosse alguma coisa caindo. Olho para Isken. “Tem alguém aqui”, digo com os olhos.
— Arianna, fique atrás de mim. — Fala, baixinho.
Começamos a nos movimentar com mais cautela, Isken revira as coisas jogadas enquanto caminha, pois o suspeito poderia estar se escondendo. Quem quer que fosse, sabia que tinha alguém ali. Conforme nos aproximamos do fundo do ambiente, mais barulhos foram ouvidos. Como se a pessoa que estava se escondendo ficasse mudando de posição constantemente para não ser encontrada. Mas, uma hora, ficaria sem saída.
Um último barulho foi ouvido, como um estrondo, no canto esquerdo do fundo do armazém. Isken correu para lá, tirou a lona que cobria aquele canto e sacou imediatamente sua espada.
— ...!
Um mercenário. Cabelos pretos. Cicatriz na mão esquerda.
— Você! — Exclamou Isken — Soldados, peguem o suspeito!
Rápido como o vento, o mercenário correu para longe como se sua vida dependesse disso, e dependia. Ele pulou a janela aos fundos do armazém velho e correu.
— Rápido, não deixem que escape! — Grita Isken.
Todos corremos em busca do suspeito que parecia tentar ir o mais longe possível. Desviamos de comerciantes, nobres e crianças que impediam a passagem, até que finalmente o alcançamos. Ele havia entrado em um beco lateral, só que, tenho certeza de que ele não esperava que soldados o aguardassem de ambos os lados.
— Droga! — Gritou o mercenário.
— Ajoelhe-se imediatamente. Antes que eu ceife sua vida. — Disse Isken.
O mercenário caiu ao chão. Isken o agarrou pelo colarinho. Seu olhar frio e impiedoso voltara.
— Me diga agora, quem o enviou?
— Não posso dizer... — resmunga
Isken pressiona a espada contra a barriga do homem, fazendo com que ele arregale os olhos com medo. Eu me aproximo dele, com o envelope rasurado em minhas mãos.
— Aqui, foi você que ameaçou aquela criada, não foi? Uma pessoa inocente, que teve que pagar pelos seus pecados. O que você queria com isso, afinal?
— ...
— Responda a senhorita, seu verme.
Isken perfura com a espada em sua barriga, fazendo com que o mercenário grite de dor. Ele me olha nos olhos e então resolve prosseguir.
— Alguém... a-alguém queria denegrir a imagem da senhorita Montclair!
— Isso eu já sei. Quero saber QUEM!
Pressionou mais a ferida.
— Aaargh! — Exclama. — E-eu não sei caramba! Eu apenas recebo ordens...
— E quem lhe passa as ordens...?
— O líder dos mercenários! Nós recebemos demandas de todo o território, apenas estamos cumprindo um serviço que nos foi dado!
— Prejudicar a senhorita? Quem iria querer algo tão estúpido?
— E-eu não sei, eu juro! S-só me deixe ir, por favor...
Isken solta o mercenário, que cai ao chão. Ele suspira tentando recuperar seu fôlego, sangrando com seu machucado.
— O-obrigado pela misericórida, V-vossa Graça...
— Liam, cuide dele imediatamente.
— Sim, senhor.
O mercenário entra em pânico por um segundo, e é quando Isken coloca sua mão sobre meus olhos, os tampando. No mesmo instante, ouço o som da lâmina de Sir Liam saindo da bainha. Um corte. Seco. Sem alardes. O mercenário acabara de ser executado.
— Venha Arianna, vamos voltar para o castelo.
Isken me vira para o outro lado para que eu não pudesse ver a cabeça decepada do homem culpado pela tentativa de arruinar minha reputação. Ainda estou sem acreditar que ele fizera isso sem nem pensar duas vezes. Quando se tratava da honra dos seus, ele realmente era impiedoso.
Nós nos dirigimos de volta até a carruagem, em silêncio. Nenhum de nós ousou dizer alguma palavra. O ar era preenchido apenas pelo som das rodas andando e a respiração controlada de Isken. Eu mantinha meu olhar fixo nos pés. “Um homem acaba de morrer por minha causa.” Suspiro.
Vejo o Duque me observando. Desvio o olhar. Não consigo encará-lo. Sinto como se meu corpo fosse se partir ao meio se olhá-lo nos olhos. Sinto sua preocupação mesmo sem olhar para ele diretamente. Por fim, resolvo quebrar o silêncio.
— Apesar de tudo, acho que formamos uma boa dupla, não?
Silêncio. Ele apenas me encara sem dizer uma única palavra. Senti sua aprovação silenciosa, mesmo que nenhuma palavra saísse de sua boca. Sorrio para mim mesma. “Progresso.”
Chegamos ao castelo depois de cerca de uma hora de viagem. O clima estava mais frio do que quando partimos. Adentrando ao castelo, sinto que estou perdendo minhas forças.
“O que é essa sensação?”
Sentia meu corpo fraco, as pernas bambas. Era uma sensação estranha. Ansiedade, talvez? Afinal, essa era a primeira vez que via um homem ser morto em minha frente. E pior, sendo morto por minha causa. Apesar de ele ter feito as coisas de forma errada, não poderia deixar de me sentir culpada.
Olho para os lados, vejo o rosto de Isken. Ele me observa com a sobrancelha erguida, parecendo confuso. Vejo as paredes girando e girando por um momento. Tudo parecia confuso. “O que está acontecendo?”, pensei. E então, eu tropeço nos meus próprios pés e vou de encontro ao chão, perdendo a consciência.
— Arianna...!
Consigo ouvir uma voz ao longe chamando pelo meu nome. Não sei quem é. Não sei o que está acontecendo. Estou morrendo? Chegou minha hora? Este é meu fim?
Eu não saberia dizer.
Só sei que, agora, não há nada que eu possa fazer por mim mesma.