CAPÍTULO 10: PROLIXO CORTÊS
Havia um plano em mente naquela nebulosa manhã de quarta-feira, evaporar antes daquela cena ter que se repetir. Não revelaria que havia negado o passeio devido aos pais, à sua ausência de liberdade para sair, mesmo que fosse para um trabalho escolar.
Entretanto, antes de pôr o plano em ação, Miguel o encontrara logo na entrada da escola, gatuno, foi um breve susto premeditado de uma sensação estranha. Seu estômago afogava um quê sem definição, seu coração palpitava com uma urgência sem razão e sentia fisicamente seu rosto aquecer.
E nada de fato havia acontecido, manteve bem a postura apesar dos efeitos internos ocasionados por aquele olhar que desarma até mesmo quem o encara de volta no abismo. Um cumprimento baixo, quase íntimo, marcou a caminhada de ambos para o interior da escola.
— Os outros decidiram faltar hoje e focar no projeto em outro lugar. Se quiser, podemos ir à biblioteca municipal, e fazer o mesmo. O que acha?
Ele não tinha deixado brecha para fuga e nem desmaio, precisava reagir independente do nó, diferente, em sua garganta. Não era comum aquela sensação de nervosismo, era muito distinta da trêmula sociabilidade que tinha, era uma confidência de um convite não esperado.
— Ou, podemos ir depois da última DEO do dia, daí não precisamos faltar — ele usava um tom adjacente àquela entonação francesa, mas era tão doce e convidativa igual, tal qual o canto de uma sereia. — Pergunta para o seu responsável, se não sabe o que responder.
Essa última sentença lembrava o seu fim, a mesma sina apocalíptica de antes, quando estava encurralado na biblioteca, sem saída fácil. Se um de seus pais permitissem, eles teriam aceito o convite de Miguel, não Lucian. Então, de certa forma, eles seriam os responsáveis por entregar a alma dele nas mãos do anjo caído.
Assentiu leve e trêmulo, caçando seu celular, seguido do contato de ambos. Enviou uma mensagem duplicada, respectiva, visualização rápida. Ele tinha permissão para ir à biblioteca depois da escola, com Kael, detalhe não citado para eles. Era melhor assim, o diabo a sua frente precisava ser segredo.
— Depois da escola, eu posso sim — começou, discando em sua própria mente palavras em desordem. — Então, como foi? Ontem, lá, no parque.
Dizia tão pausado quanto sua dicção para o estrangeiro permitia, estava ainda nervoso. Todas as suas aulas de DBOs eram juntas, por serem da mesma turma, mas a DEO do dia, no Clube de Literatura novamente, era opcional de Lucian estar naquela DEO.
E sabia que Miguel estava ciente do quão proposital isso foi. Entretanto, era ainda pior, se ele sabia que Lucian propositalmente havia escolhido as próprias duas mínimas DEOs iguais as selecionadas por Kael, e portanto, por escolha própria, o convidava para passar mais qualidade de tempo fora da escola, algo tinha nisso tudo.
— Ah, perdão, esqueci de te enviar as resoluções — desculpou-se com um sorriso culpado — passei o resto da minha tarde e parte da noite, editando a edição do mês para o Jornal Literário da escola. Mas, bem, foi tranquilo, separamos o essencial.
Essa culpa no riso parecia ter mais raízes do que deveria, nem mesmo a desculpa parecia só educação, estava muito mais real do que precisava. Sentia o ar daquele passeio pairando na mente de Kael; estava sendo difamado e consequentemente, estava afetando seu guia.
Contudo, não caçou sarna para se coçar, nem lançou verde para catar maduro. Deixou-o com a culpa, continuar questionando a proteção de Kael em relação aos fatos na íntegra, poderia não acabar bem. As aulas decorreram depressa, automáticas, cheia de olhares lançados ao alto e captados entre os alunos.
Algo estava na penumbra sobre ele, e Placa parecia ignorar totalmente essa situação, ele estava propositalmente ignorando o que quer que fosse toda aquela balbúrdia sem som dos colegas. Não entendia se por respeito, por ser exemplar, ou por estar envolvido.
Qualquer que fosse, não poderia ser coisa boa. Mesmo no leste europeu, quando ainda estava em sua cidade natal, os boatos eram menos velados. Os olhares não atravessavam e liam seu alvo como se fosse uma exposição pública, com direito a um intérprete especialista.
Estavam livres do clube, já que o grupo faltou e a aula seria usada para pesquisa. O coração que só bombeava o sangue, agora continha um peso, Sísifo estava ali de novo. Kael, que assinara a chamada em seguida de Lucian, dirigiu-se a este, concluindo.
— Bem, podemos ir mais cedo agora.
Ambos saíram do ambiente sistematicamente, quase como se o ensaio coreografado de um prestigiado autor tomasse forma e caminhasse por conta própria. Miguel era um bom guia, o sinal dos semáforos que precisavam que estivesse, sempre estavam.
O caminho era memorável, as ruas largas carregam um aroma de cidade antiga, típico de uma ferroviária e de uma cafeicultura, não que fosse de fato. Não podia afirmar o que não sabia, soava como turista pela primeira vez, e não só um estrangeiro forçado a ser por conceito.
Atravessaram um parque extenso, com um bosque agradável, havia sabiás em cima de uma casa de João de Barro, acompanhado por uma placa pregada a uma árvore. Ainda não entendia bem o idioma, e estando a uma distância considerável, nem podia tentar adivinhar o que estava escrito.
De alguma forma, à direita, seguiram uma rota que passou direto pela igreja. Naquele momento sabia como era o outro lado do estabelecimento que começaria a frequentar. Era estranho saber as diferentes faces do que só tinha visto pela lente de passageiro em um carro, à caminho da escola.
O silêncio entre eles foi o mais confortável que sentiu em eras, mesmo a quietude entre Lucian e Mihai era uma tensão de segredo. Quando se entregou à verdade, que o cansaço estava se evidenciando em seu corpo, pensou em perguntar ao colega sobre o quão distante ainda estavam.
Mas a meia hora de caminhada cessava com um giro nos pés e um sorriso largo de Miguel a sua frente, com um leve pulinho de alegria, apontou para o outro lado da rua. Uma biblioteca com ar antigo, mas provavelmente reformada, se refinava em detalhes rústicos, e dentro era mais bela ainda.
Estava apaixonado por aquele ambiente, enquanto Kael falava sobre aquela biblioteca ter dois nomes diferentes quando pesquisava no Google. Lembrava vagamente de escutar Sinhá, Junqueira, Altino e algo mais, quem sabia? Olhava para tudo admirado, não eram apenas as pessoas belas, mas o registro de sua história também.
Tão belo quanto um museu e os vitrais, os vitrais. Balbuciava, observando tudo o que conseguia enquanto era levemente puxado por um sorridente Kael. Quando, enfim, chegaram a um ponto confortável e social, com livros e banquinhos acolchoados e coloridos, sentaram-se em paz.
Naquele horário, apenas estudantes e pessoas solitárias viriam àquele espaço, por estar nublado, ambas as possibilidades eram reduzidas ainda mais. E era proposital também, a busca por um espaço cultural, sem muitas pessoas, sem barulho, sem sentido.
— Certo, Lucian — começa, posicionando alguns papéis na mesa —, fizemos um diagrama e dividimos em eixos temáticos. Nós separamos nossos pontos de vista e decidimos levantar a bibliografia com base na afinidade do que observamos.
Mesmo sendo uma conversa acadêmica em uma ocasião que tendia a uma tensão, estar com Kael explicando-o vagarosamente e com vocação, era confortante. A voz dele era a personificação de um carinho verbal, e sua postura um convite para um abraço figurado.
— A Marina quis fazer o levantamento sozinha, ela escolheu O Indivíduo e o Interior, ela vai usar algumas poetisas como fundamento, como: Florbela Espanca e Cecília Meireles; mas ela balbuciou algo sobre o Samsa, então podemos esperar algo grande.
Ouvia com atenção os nomes e referências, se pesquisasse, talvez se conectasse mais com a cultura local, ou daquele grupo pelo menos. Mesmo que Kael se atirasse contra os espinhos de Lucian, isso não poderia continuar, precisava tentar se encaixar no mundo que ele o apresentava com aquele sorriso tão evidente.
— Fique tranquilo, eu a avisei de que poderia ser difícil mapear. Que se ela quisesse outra perspectiva, diferente, ela poderia te contatar — diz baixo, entregando uma piscadela sútil —, você pode não falar nada, mas sei que tem muita coisa literária na sua mente, acredito no seu potencial de expressão.
Não reagiu agressivamente como no início do dia, mas seu rosto ainda era marcado pelo violento calor de quem foi visto. Apesar de quieto, ouvindo-o contar as resoluções, continuava sendo observado e cuidado por seu colega.
— Continuando, Carlos e Eu escolhemos O Indivíduo e a Sociedade; vou focar no protesto através de Vidas Secas e Carlos, bem, vai trazer uma visão cínica de um realismo sujo a partir de O Apanhador no Campo Centeio, desejemos sorte pra ele!
Incomodava essa dupla que poderia bem ser a antítese do outro, contudo, soavam bem paradoxais. E aquele olhar de confusão do outro dia, era algo a se temer? Era em tese sua primeira impressão de outros amigos de Kael, o que eram muitos se pensasse melhor.
— Como fez amizade com Carlos?
Nem havia pensado muito antes de replicar em voz alta sua questão, recebida ainda com uma expressão contente. Como se tivesse partido o gelo por conta própria dessa vez, estava deixando de ser expectador. Bem balela.
— Olha, o gatinho fala — repetiu sua fala da última vez, na biblioteca —, é uma história cômica até. Ele estava com um casaco surrado, cheio de si com aquele cinismo de sempre, era minha primeira semana no clube, e ele estava devorando diversos romances policiais. — Sua entonação falhava durante a narração, causando uma risada singela de Lucian. — Não ria, foi assustador.
— E então, o que ele fez?
— Bem, Lucian — começou, colocando uma mão sobre a nuca —, ele me viu lendo Hegel e decidiu puxar uma briga comigo de um jeito bem excêntrico, Lucian, tipo, bem excêntrico — tornou a imitar a expressão caricata de Carlos e com as aspas entre os dedos. — “Aí, seu idealista, ser ingênuo é coisa de criança, vê se cresce e leia Engels, ou Epicuro, só pra começar, otário!”.
— Por que ele diria isso, assim, de repente — estava incrédulo desse início de diálogo, soava bem constrangedor —, como você respondeu?
— Ah, meu caro, Lucian, falei que ele deveria parar de se esconder no cinismo, pois fugir não ia evitar que ele se machuque. E bem, se a frase dele não fazia sentido, a minha também não devia fazer, certo?
— Certo?
— Não exatamente, ele veio pra cima, isso significa que a briga ia se tornar física. Se eu não tivesse começado a rir de nervoso, talvez tivesse apanhado, mas ele caiu na risada junto. Xinguei ele com palavras bem baixas, Lucian, baixas ao ponto de eu não te contar por respeito a sua pessoa, mas te garanto que ofendeu até quem não tinha o verbo direcionado pra si.
— Se ele queria te bater, por que você fez amizade com ele?
— Ah, respeito, eu acho. Ele curtiu que eu tive coragem de falar aquilo na cara dele e eu, bem, gosto de quem não se deixa iludir. Ele é bem perspicaz quando não está atacando o novato para ver o quanto aguenta. Mas fique tranquilo, não vou deixar ele te bater.
— Ele ia me bater?
— Talvez, Lucian. — Replicou seriamente, com o olhar de quem está brincando — Vou continuar com as resoluções, tudo bem?
— Sim, claro.
— O Pedro escolheu lidar com estruturas clássicas, seguindo O Trágico, O Épico, O Mitológico, sabe? Vejo seus olhos brilharem, Lucian, pode opinar e participar do que quiser, você é do meu grupo. Enfim, ele vai catalogar usando O Édipo Rei, Os Lusíadas, e talvez, se todo mundo concordar, Medeia. Ele curte o que é cânone.
Conhecia alguns dos nomes, só por nome, precisava ler e entender as obras que seus colegas iam trabalhar, pois como poderia participar sem saber do que eles estavam falando. Era uma intelectualidade rara naquela geração, em conjunto com uma liberdade característica desta.
— Silvia e Camila escolheram A Memória e O registro, não tenho certeza, mas acho que vão escolher Memorial do Convento como fundamento. Com isso, falta você, Lucian, pode escolher um eixo para si ou entrar em algum que temos, ou se quiser participar de tudo também, está tranquilo.
— Eu preciso pensar sobre isso, mas tragédia é interessante, remete à dor, mesmo que não explícita. Vou pensar sobre isso e te digo.
— Muito bem colocado, Lucian — afirmou com um sorriso sorrateiro — isso tudo, o projeto, me lembra aquela conversa nossa, lembra?
— E tem como esquecer?
Pela primeira vez, assistiu a feição provocadora falhar, por um mínimo instante, mas presenciou, tinha certeza do que havia visto. Até a respiração centrada e coerente dele havia falhado, e essa por sua vez, ainda estava falha, finalmente, deu o primeiro passo com o fósforo, acender faísca.
— Novamente, bem colocado, Lucian — riu fraco, olhando para o lado de fora, estava marcando o pôr do sol. — Recomendo chamar o teu motorista, querido, está escurecendo.
— Sei que ainda faltam duas horas para o fim do turno escolar, até lá, eu tenho tempo para você, Miguel.
— Miguel, hein — repetiu, caçoando levemente. — Por que não me chama de Kael?
— Ainda lembro do significado do seu apelido, não vou te chamar deliberadamente de Deus.
— Mas cumpro bem a função, não acha? — questionou, íntimo, recostando-se contra o vidro que simulava uma parede.
— Está pedindo para que eu acredite em você?
— Bem, eu já disse que acredito em você, seria interessante se fosse recíproco.
— O contexto era diferente.
— Ah, depende, se Lucian tem a ver com luz, e tudo só é observável porque a luz é refletida, significa então que você é o todo. E qual é mesmo outro conceito para Deus?
— Somos dois deuses agora, Kael?
— Como eu disse antes, Lucian — ajustou com um pigarro a entonação, seguindo aquela vocalização romântica dos filmes franceses. — “Só se você quiser, Lucian. Mas prefiro ser um mero mortal”.
Definitivamente, sua sina seria selada pelas mãos daquele garoto a sua frente, por sua blasfêmia cativante. Por todas as vezes que cedia ao incêndio que este acendia brasa, Miguel tinha suas virtudes, e só por causa delas, era mais perigoso que qualquer outro que pudesse enfrentar.
— Se prefere ser mortal porque age como um deus?
— Está flertando comigo, Lucian? — Os olhos de desafio evidente se mostravam no jogo. Abrupto, como a falha mútua nos corações, estava entrando em um jogo que não poderia vencer e nem deveria tentar.
— Cínico — replicou seco, com um riso de canto.
— Minha liberdade está te afetando agora, Lucian?
Após um breve suspiro confessional, entregou a ele uma calma, uma tranquilidade de quem não deveria responder a essa provocação óbvia, mas não era forte o suficiente para parar por ali.
— Honestamente, você abala a minha fé.
— Sou um terremoto para você?
Um completo sórdido e imoral, como ele sabia? Ele lia mentes? Era tão fácil ser lido assim, revirado como se fosse páginas, traduzido como se fosse um manuscrito antigo, de língua morta. Como, não havia como, e ele ainda assim sabia, ele era um leitor de almas ambulante.
— Relaxe, Lucian, ainda está de pé aquilo.
— O quê?
— Acredite em mim.
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Espero que tenha gostado do capítulo e lhe desejo uma boa semana e fim de mês ☀️
O próximo capítulo será um extra, uma pausa da narrativa canônica, quero dizer — se quiser levar como canônico, é permitido —, mas se vai condizer ou mudar muito é de uma relevância parcial. Esse extra será um respiro de leveza entre este e o próximo arco, então aproveitem 🩷💚