CAPÍTULO 19: ALVA MANDATÓRIA
O tormento persistiu pelo fim de semana inteiro, com um leve alívio durante a divina liturgia e pelo evento que seguiu este descanso espiritual. Quando voltaram para casa, naquele domingo, Lucian se fechou em estudos: leitura, pesquisa e escrita; nada mais.
Pausando apenas para o almoço, disperso, sozinho. Mesmo com a família em casa, a mansão era grande demais para se verem de fato pelos corredores ou cômodos. Não tinha nada de especial em seu mecanismo de fuga, apenas consumindo conhecimento em prol do não pensar nele.
Poderia até ser se não tivesse esgotado a sua mente e os livros que tinha disponível para a sua seja lá o que for comparativa sob a lente existencialista. Precisava de mais livros, de preferência, físicos, mas, para isso, seria necessário encomendar mais destes e demoraria muito para chegar.
Ou, poderia ir à uma livraria, como uma pessoa funcional, sem nem mesmo conhecer a cidade direito, o que também não era relevante. Haviam aplicativos diversos que poderiam o guiar para a mais próxima ou só pedir ao motorista para levá-lo e deixar por conta que ele escolhesse.
Estava complicando demais algo que deveria ser simples, o que realmente deveria preocupar-se primeiro: com a permissão. Respirou fundo, largando suas anotações na escrivaninha, igualmente desorganizada, levantou-se e caminhou até o escritório de Alexandru, trêmulo.
Inspirou e expirou algumas vezes antes de bater à porta, três toques leves, acompanhando de um com licença, pai. Alguns segundos depois, o patriarca fechou uma gaveta e realizou passos grosseiros até aquele ponto, abrindo e recebendo Lucian com um olhar inquisidor.
— Bună ziua, tată — inicia, como um ensaio robótico. — Pot să cumpăr câteva cărți? Am nevoie de ele pentru analiza comparativă pe care o fac.¹⁵
O pai dele revira os olhos e assente, resmungando algo sobre conversar com o motorista a respeito do local e o horário que ele deveria buscá-lo. Pôde relaxar os ombros tensos e deixar o ar sair de seus pulmões, tinha a permissão, restava encontrar o local mais próximo.
Pensou por um instante em convidá-lo, talvez ele soubesse de algum outro lugar incrível, mas estava em uma fuga não dita desde aquele sussurro. Decidiu pesquisar por alguns lugares e encontrou uma livraria próxima ao condomínio, logo voltaria se assim fosse.
Após dar o local para o condutor e definir o horário que deveria ser buscado, seguiram o trajeto, que durou menos de dez minutos. Era uma livraria com uma fachada moderna, minimalista até demais, até mesmo o letreiro era básico, sem no mínimo ser em serifa.
Atravessou a porta que estava entreaberta e andou entre um corredor escuro comprido, assim que chegou ao final, já apreensivo, viu uma cortina de miçangas coloridas. O aroma de café, poeira e incenso de lavanda rendiam o ambiente de forma descomunal.
Continuou, hesitando, passando pelos cordões e viu uma sala enorme repleta de informação, do chão ao teto, canto à canto. No centro, havia estantes e mais do que podia contar, com prateleiras cheias de livros, revistas, CDs, gibis, quadrinhos, discos de vinil e algumas plantas penduradas ou só apoiadas.
Nas paredes, eram pôsteres, pichações, grafites, adesivos, quadros, colagens, pinturas improvisadas e muito mais, não tinha advérbio o suficiente em mais naquilo tudo. O teto contemplava um pouco do mesmo das paredes, porém carregavam um lustre sublime, mais do que belo, com suporte para vela, levando o lugar ao mais clássico êxtase.
Acabou enviando uma mensagem para o motorista, adicionando mais uma hora ao horário que haviam combinado. Estava boquiaberto, sua alma fora elevada aos céus, pensava que não tinha como melhorar, mas o universo trabalhava com o destino, e eles amam brincar.
— O gatinho está me seguindo? — Questionou aquela voz entre as estantes. Miguel estava apoiado em um balcão próximo à janela, algo que não havia notado.
De fato, sua própria alma sentiu aquele arrepio, pois havia se desestabilizado dos pés à cabeça com aquele abalo sísmico, seu terremoto particular. O lugar inteiro gritava Kael, a imersão daquele espaço poderia levar às profundezas da mente, extasiando qualquer um.
— Não, mas a coincidência foi boa.
— Sei — replicou Miguel, se aproximando. — Então, o que te traz à minha livraria?
— Sua livraria?
— Sim, minha — sorriu, parando em uma estante, quase um metro de distância. — Tenho ela há três anos, mas não chega perto dos pés do Beco Literário perto do Mirante da Estação Antiga.
Estava sem palavras, embasbacado, seu amigo era um baú de surpresas, e parecia que ele pressentia seu estado em silêncio, pois pegou um livro. Ergueu um pouco, mostrando a capa, estava um pouco longe para sua visão realmente assimilar o que estava escrito.
— Eu nu strivesc corola de minuni a lumii — iniciou Kael, recitando de cabeça, aproximando-se mais. — și nu ucid.¹⁶
— Blaga? — Parou, questionando.
— Sim, Lucian Blaga. Ele é bem controverso, não acha?
— Sim, acho, sua filiação política é desprezível.
— Mas, e as suas obras?
— Tiveram a sua importância, é claro. Onde quer chegar?
Miguel que estava a uma régua comum de distância, riu, guardando o livro. Estava em trajes diferentes de novo, mais despojado, sem o uniforme composto da escola ou o terno preto, mas com jeans largos e um moletom longo com desenhos tribais.
— Em canto algum, estou bem aqui já, querido. E você, onde quer ir?
— Procuro alguns livros, nada demais — replicou, ruborizando, sem saber o real motivo. Entregou alguns passos ansiosos, sem direção específica, entre as estantes. — Preciso de uma coletânea de poemas, algo existencialista, sabe?
Miguel, que ria baixo, seguia-o com um sorriso doce, perto o suficiente para garantir que seu amigo não tropeçasse e caísse, andando sem rumo. Por outro lado, Lucian sabia muito bem onde começaria a passar as suas tardes, aos domingos, agora, seriam os sete dias.
— Sei, Lucian, por aqui — disse, segurando ele pelo pulso, puxando-o suavemente pelos corredores de livros. — Aqui está a seção de poesia, aqui estão as melancólicas, ali está as românticas, acolá estão as — parou, rindo, enquanto assistia o rosto de Lucian mudar freneticamente. — Fique tranquilo, Lucian, aqui está um da Florbela, um do Baudelaire e outro, bem, esse não é poesia e nem existencialista, mas depende do seu ponto de vista.
— Como assim? — Questionou, finalmente parando de recuar.
— É O Estrangeiro de Camus, acredito que você vá gostar. Muitos consideram ele como absurdista.
— Vou levar.
— Parece com pressa, Lucian — comentou sob um riso de canto, levando os livros para o balcão.
— Só não esperava te ver hoje, Kael.
— Então, você espera me ver nos outros, querido?
— Cínico. — Se quiser, algum dia te levo no Beco Literário. O que acha? — Eu aceito, mas não tão em breve.
— Marcado então! E, se não me engano, amanhã temos prova — parou com um dedo no ar, como se tentasse fisgar algo na mente. — E no intervalo, vamos continuar com a discussão da Feira. Não fuja, se não te busco pelo pescoço.
Não sentiu necessidade de sumir ou replicar algo para desconversar, continuou com ele até o horário marcado, conversando sobre outras questões. Sentia-se cético quanto à possibilidade de conhecer qualquer coisa independente da mente, mas lá estava, a curiosidade crescente.
Um silêncio tão profundo me envolve,
que acho que ouço
raios de luar batendo nas janelas.
No meu peito,
uma voz estranha desperta
e uma canção toca dentro de mim
uma saudade que não é minha.
Dizem que os ancestrais,
mortos antes do tempo,
com sangue jovem ainda nas veias,
com grande paixão no sangue,
com o sol ainda queimando no sangue,
vêm,
vêm para continuar a viver dentro de nós
suas vidas inacabadas.
Um silêncio tão profundo me envolve,
que acho que ouço
raios de luar batendo nas janelas.
Ó, quem sabe, alma minha, em que
peito cantarás
também, depois de séculos,
em cordas suaves de silêncio,
em harpas de obscuridade — a saudade
afogada
e o prazer de viver dilacerado? Quem sabe?
Quem sabe?¹⁷
¹⁵ Em português, “— Boa tarde, pai […] Eu posso comprar alguns livros? Preciso para a análise comparativa que estou fazendo. ”
¹⁶ Primeiro verso do poema “Não esmagarei a grinalda das maravilhas do mundo”, sendo o nome o mesmo significado deste verso, seguido por “e não matarei”; Traduzido pela versão em inglês exposta em um artigo de Irina Livezeanu, “Generational Politics and the Philosophy of Culture: Lucian Blaga between Tradition and Modernism”.
¹⁷ Poema de Lucian Blaga “Silêncio”.