CAPÍTULO-EXTRA 21.5: DEVANEIO HELÍACO
Dormir perante o luto de si e dos outros, sempre foi uma questão a ser discutida e revirada ao avesso, se pensada de menos ou de mais, ainda seria um quesito de pesar. O peso das mãos dele sobre si, com um cuidado semântico velado sobre ele; Miguel, que diabos era tudo isso?
Tudo ficaria bem, tudo seria resolvido, tudo tinha seu tempo, mas aquele era o momento que precisava de resolução, ali estava o instante de mais dissabor. Tornava-se necessário, urgente, imperativo, uma ânsia, uma emergência, precisava de respostas, precisava de mais do que só credo, carne.
Se o sono não vinha, o vinhedo não caia sobre si e ele próprio não se deixava em paz, restava o martírio de sua alma, como podia ter feito aquilo? Como poderia gostar de alguém como ele, mal sabendo sobre ele? Como podia confiar naquele projeto intelectualizado?
Apesar das perguntas, as respostas eram simples, bem mais do que pestanejavam em sua mente. Confiava nele, porque até mesmo um padre havia permitido que fizesse função dentro de sua igreja, mesmo não sendo ortodoxo. Confiava nele, porque era um virtuoso que não praticava por obrigação; ele é livre.
Confiava nele, porque ele o guiou, acolheu e certificou-se de seu bem-estar nos árduos dias que esteve naquele país, ele podia ser tudo o que sua família repudiava, mas isso não era relevante, não mais. Tarde demais para isso ser levado em conta, gostava dele porque ele era fiel a si mesmo, em todas as adversidades.
Porque ele carregava consigo todos aqueles olhares e não se importava, o cuidado dele ocorria para Lucian, em voz alta, sem medo de pecar sua reputação. Podia até pouco saber, mas não temia gostar previamente do homem por trás da divina camada existencial.
E enfim, se ele fez aquela cena, revelando daquela forma, sabia que algo tinha de errado em toda aquela farsa, não podia ser tudo real. Talvez a ruína tivesse alcançado e por isso tudo aquilo tivesse chegado ao ponto que chegou, talvez eles não fossem para ser o que eram, nem sequer para prolongar.
Estava recebendo o vislumbre do fundo do poço, contemplando o abismo que se encontrava em seu fim, sendo observado de volta pelo reflexo da lua. Não tão literal, mas ali, em sua enorme janela, aquele reflexo era real, surdo e sórdido, por que estava sendo visto, revelado?
Seu devaneio precisava cessar, havia um ruído estrangeiro por perto, passos na grama do lado de fora, alguém sem fôlego. Naquele ponto, não tinha bem o que temer, saiu de sua cama e caminhou até a varanda, suspenso em dispersão, observava da barreira para baixo e ali estava ele.
“Miguel, que diabos era tudo isso?” Pensou, exasperado, seu motivo de insônia estava no alpendre, abaixo de sua vista. E quando pensou em dizer algo, assistiu-o escalar uma viga com precisão, alcançando breve e com firmeza a balaustrada de vidro.
Ficando menos de um segundo suspenso no ar por uma mão, puxando seu corpo para cima com uma força quase reativa. A pergunta pairava no ar, estagnada, não tinha ideia do que estava acontecendo, e nem se tudo aquilo ainda podia contar como real.
Apenas quando ele havia chegado, de fato, de forma segura do outro lado da barreira, mostrou sua presença naquela varanda, observando-o como quem pergunta indignado. Assistiu um sorriso crescer no rosto dele, como quem gosta de ser pego no próprio crime.
— Você fica bem de azul marinho, Lucian. Pijama de seda, certo? — sussurrou, se aproximando como quem vai pegar um gato arisco na rua.
De modo mútuo, se encolheu, tenso, recuando um passo, dois até. Em contrapartida a sua roupa leve, vulnerável, seu colega estava de jeans escuro, com todos os seus piercings bem à vista, mas sem os espinhos de sempre. Estavam desfeitos, cacheados, livres ao vento.
— Está tarde, Kael. O que você quer?
— Você. Conversar com você.
Riu cínico, devolvendo a ele a sua declaração de estar indignado com aquela situação, com a invasão. Ele era um pedaço de mal caminho com a aparência e comportamento de um anjo, se ele não era um daqueles que caiu, não sabia de mais nada. E não era como se isso fosse relevante, a muito tempo já não era.
— Atrapalhei o seu sono da beleza, querido? — perguntou, parando a um palmo, deixando Lucian revirar os olhos em descrença.
— Não, estive pensando — replicou seco, agarrando a gola da jaqueta de Miguel, bruscamente.
— Em quê, meu caro? — balbuciou, entre a expiração de ar, quando foi puxado para perto.
— Em quem — declarou, virando e o levando para dentro do quarto, sentindo o calor intenso de seu colega, como se ele tivesse acabado de emergir do inferno, se tivesse, faria um mínimo de sentido pelo menos.
Arrastou-o até a poltrona próxima aos livros e o empurrou contra ela, deixando-o expirar enquanto acendia o abajur. Ali estava a baderna inteira, o olho carregando um roxo em seu encalço e uma linha de sangue seco próxima ao lábio superior de seu colega.
Agarrou o rosto dele, delineando os traços com a outra mão, procurando por outras marcas, aproveitando para mapear cada aspecto de seu amigo. Sendo assistido por olhos que vagavam por si, principalmente para um foco que sabia não precisar acompanhar para saber onde levavam.
— Dois piercings na boca. Não doeram? — perguntou, inspecionando com um dedilhar minucioso, vagaroso naquele ponto de Miguel.
— Foi tranquilo, querido — respondeu, segurando leve o pulso de Lucian, que parou em seu toque, percebendo sua própria heresia, sua proximidade em sua inclinação.
— Sei, não incomoda? — desviou-se de seu pensamento lascivo, agora mutuamente observando o tal ponto implícito.
— Não incomoda pra quê, gatinho? Beijar? — devolveu, puxando-o suavemente, dando a Lucian a decisão de se deixar ser puxado.
— É — sussurrou, pensando em rezar e se deixar.
— Quer descobrir?
Quis, óbvio que queria, no entanto, não naquele momento, não depois de tudo o que aconteceu naquele dia, em um futuro próximo, quando tudo se encaixasse em seu devido lugar, claro. Querer não era poder e se deixasse sua vontade acima de seu caráter, que tipo de pessoa ele seria?
— Sim — sussurrou de volta, se afastando.
— Na próxima vez que eu vier, dessa forma aqui, você descobre, querido — replicou, ainda segurando o pulso de Lucian.
E claro, ele também estava ciente do que estava em jogo, o que confirmava a razão de sua confiança nele, Miguel entendia os limites de sua própria fala. E garantia, como consequência, uma resolução mais prática, menos anti-caráter.

Espero que tenham gostado do capítulo-extra de hoje — e da imagem, odeio desenhar cenário, então fiquem com as nuvens mesmo 🫶 — desejo-lhes uma ótima semana, até a próxima! ☀️
Obs: sei que tem quem curte fanservice, então apesar de não ter beijo na narrativa — canônica e não canônica — até o momento, pelo menos teve no desenho. Quem sabe em breve não tem algo. 🫣
Caso queira ver em melhor resolução o desenho, recomendo ver em: no portfólio do meu perfil, no Instagram @SiltWander ou no Patreon como o mesmo user.
Referente à publicação no Wattpad.
Obs: percebi que chegamos à marca de 2k de lidos nesse livro, coincidindo com esse desenho dos dois — cuja ação desenhada seja uma coisa que muitos vem me pedindo para acontecer.
Agradeço muito por estarem acompanhando essa obra e deixando seus comentários maravilhosos, alguns bem atrevidos 🤡, mas que contribuem com a inspiração para os especiais. Falando em especial — que é puro fanservice —, o que esperam ver no próximo? 😝☀️