Aquele que se mantinha na escuridão, tinha se manifestado diante de todos. A multidão observou por segundos o ser misterioso. Um homem de porte elegante e imponente. Careca, com uma cabeça bem arredondada, olhos da cor castanho claro, que pareciam brilhar enquanto observava os alunos. Ele mantinha uma barba branca bem cuidada, que era da mesma cor de suas sobrancelhas.
Vestia um terno preto, impecavelmente alinhado, sobre uma camisa branca social e uma gravata azul-clara, de um tom vibrante. Usava uma calça, do mesmo tecido do terno, que caía de forma bastante elegante sobre os sapatos sociais pretos.
Tal homem mantinha uma pose ereta, deixando os braços relaxados ao lado do corpo, com os punhos ligeiramente semicerrados.
— Bom dia, aspirantes a Sentinelas.
Ao término de sua frase, todos ali perceberam o quão grossa era sua voz, fazendo com que até alguns alunos arqueassem as sobrancelhas.
— Permitam-me apresentar-me. Meu nome é Amon. Sou um dos professores da escola “Legado” — disse o homem, de forma bastante lenta, enquanto colocava uma das mãos no próprio peito esquerdo. — O atraso é imperdoável, e por isso, apresento minhas mais sinceras e formais desculpas. A responsabilidade do tempo alheio é virtude primeiramente daqueles que juraram proteger; falhei hoje em demonstrá-la. Garanto que isso não se repetirá.
Quase todos os alunos arregalaram os olhos e trocaram olhares entre si.
O silêncio tomou conta do lugar por mais alguns segundos. Sendo possível ouvir até mesmo o som do vento calmo passando entre a grama e as folhas das árvores.
Luck, o único ali que mantinha uma expressão diferente; apenas uma de suas sobrancelhas estava arqueada, o canto de sua boca ligeiramente aberto e sua cabeça, altiva.
“Amon? Isso é nome do diabo!! Sai fora”, pensou Luck.
— Acalmem seus ânimos. Não há motivo algum para apreensão e temor diante de minha presença. Minha única função aqui é exclusivamente de lapidar o potencial bruto que vejo diante de mim. Estou aqui para instruir, guiar e preparar cada um de vocês para o fardo e a glória que seu futuro exige.
Amon então deu mais alguns passos para frente, de forma bem lenta, como se quisesse mostrar ainda mais sua autoridade diante de todos. Porém, essas passadas cessaram logo em seguida.
Ele levou sua mão direita, com a palma aberta para cima, na mesma altura de seu próprio peito, então a fechou, deixando esticado apenas o dedo indicador e o médio. Porém, logo em seguida, os dois dedos foram movidos para cima, fazendo com que um estrondo enorme fosse liberado, junto com um pequeno terremoto.
A multidão inteira deu alguns passos para trás.
— Mas que merda foi essa? — indagou Luck, olhando para a porta de onde Amon havia saído.
— Sei lá!! Mas eu tô achando que a aula já começou — respondeu André, segurando uma das mãos de Julia.
Até que de repente o tremor e o estrondo sumiram. Porém, a parede que ficava onde a porta estava, começou a se mexer, blocos e mais blocos de concreto se moviam de forma precisa, como se alguém estivesse montando um quebra-cabeças.
Quando enfim o espetáculo realmente acabou, o espaço aberto que a porta deixara, agora estava algumas vezes maior, ultrapassando os quatorze metros com facilidade.
A cena impressionante, fez com que todos ali começassem a bater palmas, principalmente Julia e Fernanda, que emanavam um brilho intenso nos olhos, e uma surpresa grande de mais nos lábios, o que as fazia sorrir.
— Há uma década dedico-me a ser professor na Legado. E é com imenso prazer que me uno a vocês nessa jornada. Ainda que minha tutoria não se estenda a todas as aulas. — A voz de Amon ecoou nos ouvidos dos alunos. — No entanto, quero que atentem às minhas palavras: Para que adentrem a minha sala de aula, devem passar pelo meu teste.
Os olhos dos alunos se cruzaram mais uma vez, enquanto suas sobrancelhas se franziam e questionamentos saíam de suas bocas, tornando por alguns segundos o som dominante no local.
— Se me permitem continuar. — Ao término de sua fala, todos voltaram a prestar atenção nele. — Aqueles que conseguirem adentrar o corredor atrás de mim, estarão aptos a entrar na sala de aula. Aqueles que falharem… estarão, consequentemente, reprovados.
— Ah, mas é só isso? — perguntou Luck, enquanto levantava a mão esquerda.
Todos os alunos voltaram seus olhares para Luck e murmuravam opiniões sobre a fala dele. O jovem, ao perceber a atenção de todos voltada para ele, ficou com o rosto todo vermelho.
— Você parece ter compreendido a natureza óbvia do teste — disse Amon, cortando o burburinho de vozes como se fosse um lâmina afiada. — No entanto, quero que entenda que a simplicidade do teste é apenas um véu para a profundidade. — Seus olhos repousaram sobre Luck, e logo depois sobre toda a multidão. — Como podem ver, a porta está aberta. O corredor, desimpedido. A barreira verdadeira não é feita de metal, mas de força interior. Uma barreira invisível, moldada pelos meus próprios poderes, bloqueia este limiar. Ela não permitirá a entrada daqueles cujo núcleo de poder não esteja em perfeito equilíbrio e saúde. Aprovados não serão os mais fortes, mas sim os que estão… inteiros.
Amon então deu alguns passos para o lado, movimentou sua mão aberta e abaixou sua cabeça de forma modesta.
— Já podem adentrar.
— Então vamos logo, ué. Eu sou o primeiro! — gritou o jovem rapaz de aparência pálida que foi o primeiro a ver Amon.
Ele rapidamente caminhou, passando ao lado de Amon, o olhou-o rapidamente e sorriu.
Quando ficou a um passo de entrar no castelo, ele suspirou de forma bastante profunda, para logo depois, de forma abrupta, tentar colocar sua mão direita para dentro do corredor, com a palma aberta. Porém, a barreira, agora pouco invisível, se manifestou, impedindo-o de prosseguir, além de emitir uma onda branca que se iniciou no contorno das mãos do jovem e terminou ao encostar nas paredes do local.
— O que?! Por que não está me deixando passar? Eu reprovei? — perguntou ele, elevando seu tom cada vez mais, enquanto levava a outra mão à barreira, tentando forçar sua entrada.
— Não!! Não pode ser!! Vocês têm que me deixar entrar!! Eu nunca fiz nada de errado para ninguém! Eu sempre quis ser um Sentinela e provar que eu não sou o inútil que todos pensam!! — Ele se queixou, enquanto todos o observavam, alguns em silêncio, outros rindo.
— Sai dai, bunda mole!! — De longe alguém gritou, seguido por risadas de outras pessoas.
O rapaz de aparência pálida começou a ranger os dentes, fazendo cada vez mais força para tentar entrar. Porém, como esperado por Amon, nenhum esforço do rapaz surtia efeito.
Mas algo na barreira fez Amon arquear uma de suas sobrancelhas.
— Saia!! Você já está reprovado! — afirmou Amon, cruzando os braços.
Porém o jovem rapaz não ouvia a fala dele, e continuava a se esforçar.
Em um dos cantos da barreira, onde Amon observava, algo estranho aconteceu; algo parecido com veias de cor vermelha-neon começou a surgir, dominando todos os cantos de forma lenta. As veias começaram a se expandir, indo na direção do menino. Todas as pessoas se assustaram com aquilo que estava se formando, então começaram a gritar para que o menino tirasse a mão dali, mas mesmo assim ele não as ouvia.
Por fim, as veias chegaram à mão do menino, que se assustou e tentou tirar sua mão da barreira, mas já era tarde demais. Como uma onda forte, as veias pulsam fortemente.
A onda, ao chegar nas mãos do menino, gerou uma enorme explosão que o fez ser lançado para trás, voando por cima da multidão e caindo quase junto ao portão de entrada.
O corpo do rapaz se esparramou por todo o chão, a cabeça rachou e os miolos saíram para fora, além de ter os braços, pernas, clavícula e bacia quebradas. Os olhos saltaram para fora, as mãos todas ensanguentadas, com dedos a alguns metros de distância do corpo dele.
Boa parte da turma, ao ver aquilo, gritou de forma bastante alta. Outras ficaram paralisadas e alguns sorriram.
Amon bateu palmas duas vezes, fazendo com que todos o olhassem, mas dessa vez com os olhos e bocas trêmulas, e deram alguns passos para trás.
— Quem vai ser o próximo?