— Ah? Mas por que o André parou para falar com aquele cara? — Julia perguntou, enquanto ela e seus amigos observavam a conversa repentina de André com um cara estranho.
— E acho que ele está meio irritado — comentou Fernanda.
— Acho melhor a gente ir lá — disse Julia.
Quando ela começou a caminhar, Luck segurou um dos seus ombros.
— Fique tranquila e espere, ele sabe resolver as coisas.
— Mas…
— Acalme-se — falou Fernanda.
Enquanto isso, Thiago se assustara com a oferta de André, mas logo em seguida colocou as duas mãos nos bolsos da calça e deu um sorriso de canto de boca.
— Parece que você se anima fácil demais, André. Gostei de você!
— Bom, vai querer apostar ou não?
— Claro que vou! Mas você parecia ser uma pessoa tão calma…
— Mas eu sou. Só não gosto que fiquem me provocando.
Thiago apenas balançou a cabeça em confirmação.
— Bom, então vamos logo! Quer ir primeiro?
— Pode ser… — falou André.
André caminhou com passos apressados, desviou de todos e ficou à frente da multidão. Ele observou Amon, que o olhou e balançou a cabeça.
André então virou na direção de Thiago, que já estava bem atrás dele.
— Vai lá, André. Perde logo aí. — Thiago falou de forma sarcástica, enquanto cruzava os braços e dava um enorme sorriso.
André franziu a testa e rangeu os dentes. Logo depois, virou-se e caminhou a passos pesados para perto da barreira.
Luck e seus amigos viam de longe André chegar perto da barreira. Julia, com as duas sobrancelhas levantadas e roendo as unhas, observava em silêncio, enquanto se equilibrava nas pontas dos pés, tentando ver André por completo.
— Será que ele passa? — exclamou Fernanda.
— Sem dúvidas! — afirmou Luck.
— Espero que nada aconteça com ele — falou Julia.
— Fique tranquila. Está tudo bem, ele é o André! Você sabe muito bem que ele não é idiota igual o difunto ali… — disse Fernanda.
Parado a poucos centímetros da barreira, André respirava profundamente enquanto fechava as duas mãos.
Ele fechou os olhos por um segundo e depois voltou a abri-los. Nesse momento, deu um passo para a frente. Seu pé foi o primeiro a entrar em contato com a barreira invisível, que, por sua vez, não reagiu à tentativa dele, fazendo com que a ultrapassasse com facilidade.
Ao ver que sua perna inteira havia atravessado, André não pensou em nada além de ultrapassar a barreira por completo. Virou-se com um olhar sereno, punhos abertos e soltando um suspiro profundo.
— Parabéns!! Você foi um dos primeiros a conseguir passar pelo teste. É digno de dizer seu nome para mim. Depois, caminhe pelo corredor e encontrará a sala de aula. Adentre e me espere — proclamou Amon.
— Eu sou André. — Ele disse de forma alta e convicta, enquanto seus olhos miravam na direção de seus amigos.
Por fim, antes de se virar, balançou a cabeça para Luck e depois olhou para Thiago, soltando um sorriso fervoroso nos lábios.
Em seguida, adentrou o corredor, sumindo da vista de todos ali presentes.
Fernanda, que, como os outros, observava atentamente o feito de André, arqueou uma das sobrancelhas logo em seguida.
— Ele passou!
— Que bom! Eu estava aflita, sabia? — comentou Julia.
— Sério? Não sabia! — respondeu Luck, arqueando uma sobrancelha e abrindo um meio sorriso.
Fernanda então deu um murro fraco no braço de Luck. Ela o observou, franzindo as duas sobrancelhas.
— Agora acho que é a nossa vez, Luck.
— É… se é o único jeito de sair daqui.
Thiago, que estava mais à frente, acabara de colocar as duas mãos cerradas na cintura, enquanto sorria alegremente.
— Ha ha ha!! Eu acho que não deveria ter apostado com aquele cara! Bom… no mínimo eu acho que ele vai ser um bom rival para mim, caso eu passe.
Thiago então se movimentou, levantando uma de suas mãos o mais alto que podia.
— Eu quero ser o próximo a tentar!!
Amon balançou a cabeça em confirmação, fazendo com que ele caminhasse para perto da barreira, onde, de imediato, tentou atravessá-la, esbanjando um sorriso enorme e uma confiança que parecia transbordar até mesmo de seus poros.
Sem mais nem menos, ele passou pela barreira de forma bastante rápida, virou-se para todos e, antes que Amon pedisse ou falasse alguma coisa, ele mesmo proferiu:
— Meu nome é Thiago!
Sua voz ecoou por todo o local, fazendo com que todos ali ficassem impressionados com a energia que ele parecia demonstrar.
— Esse cara parece interessante. O que será que ele falou para deixar o André irritado? — comentou Fernanda, caminhando para a frente junto com Luck e Julia.
— Não importa se ele parece alguém interessante ou não. Se ele falou alguma merda para o André, o coro vai comer pro lado dele — proclamou Luck, estalando os dedos da mão enquanto rangia os dentes.
Thiago, por sua vez, adentrara na escuridão de forma diferente dos outros que haviam passado. Ele correu rapidamente, sorrindo e falando:
— André, me espere! Eu também consegui passar! Ninguém vai precisar pagar pela aposta! Me espere!
Ele corria e gritava, fazendo sua voz ecoar pelo corredor e chegar aos ouvidos de todos, principalmente aos de seus amigos, que emanaram de seus rostos olhos arregalados e bocas abertas.
— Então foi por isso que o André parecia estar com raiva? — falou Julia.
— Vamos fazer o teste logo! — disse Fernanda.
— Vamos lá, então — respondeu Luck.
Os três passaram pela multidão e chegaram perto de Amon.
— Quem vai primeiro? — exclamou Fernanda.
— Eu acho que é a minha vez. Eu quero ir logo ver o André — falou Julia, respirando profundamente, cerrando os punhos e caminhando na direção da barreira.
— Tem certeza? — Luck perguntou, segurando no ombro dela, enquanto emanava um olhar bem arregalado, sem conseguir piscar e franzindo a testa.
— Sim, Luck! Pode ficar tranquila que eu não vou morrer. Eu estou me sentindo um pouco apavorada por acabar de ver uma pessoa morrer, mas eu não quero ficar parada esperando alguém me tirar daqui. — Ela fala, virando-se e segurando a mão de Luck. — E sei que você também não vai ficar esperando.
— Tu só tá falando isso pra ir logo ver o André, né.
— Sim… — Julia responde, semicerrando os olhos e soltando um sorriso discreto, enquanto coçava a nuca.
— Então vai logo lá — falou Fernanda.
Julia olhou para Fernanda, balançou a cabeça e deu as costas para Luck. Ela então foi direto para a barreira, dando passos pesados e rápidos, enquanto seus olhos se enchiam de um brilho intenso.
Sem parar, ela deu um pulo para a frente, como se estivesse brincando de pular corda. A barreira invisível não reagiu, fazendo com que Julia conseguisse passar pelo teste.
— Eu acho que ela gosta dele…
— Sério?
— Sim. Mas não sei como provar…
Fernanda revirou os olhos ao escutar a frase de Luck.
— Agora acho que é minha vez.
— Vai lá, senhora.
— Vou mesmo. E é melhor você se adiantar logo.
Ao término de sua fala, Fernanda caminhou em direção à barreira, andando com passos longos e rápidos. Sem nem olhar para Amon, ela apenas foi — e foi dessa forma que passou por completo, chegando ao corredor do castelo. Ela não se virou, ficou apenas de costas e, sem ao menos esperar alguma fala vinda de Amon, disse:
— Meu nome é Fernanda Costa Henrique. Sou de uma das famílias de Sentinelas que lutaram na Terceira Guerra Mundial. E estou aqui para fazer a minha história.
Quando terminou de falar, Fernanda caminhou para dentro, sumindo da vista de todos.
Todos ali se encararam.
“Fala muito”, pensou Luck, cruzando os braços.
— Acho que é a minha vez. Não posso ser reprovado. Preciso passar. Mas será que vale a pena? Ah… Isso não importa mais. Eu sou meio que obrigado a fazer essa porra. Se eu me tornar um Sentinela, poderei ganhar uma boa grana. Isso vai ajudar muito meu velho e eu…
Luck falava para si mesmo, querendo recuperar a força de vontade para fazer aquele teste.
— Eu não vou morrer. Se a barreira ativar, eu retiro minhas mãos no mesmo instante. Não irei morrer. Eu devia ter lido a merda desse contrato. Não é apenas depois de ser um Sentinela que eu iria começar a ver mortes, puta que pariu. Eu não vou morrer. Deveria ter perguntado para meu pai como era fazer essas porra aqui.
Com os punhos cerrados, dentes rangendo e testa franzida, Luck caminhou para perto da barreira.
Em silêncio, ele observou o corredor escuro à sua frente. Poucos centímetros o separavam de poder ir até seus amigos.
— Vamos lá. Eu consigo.
Luck levou lentamente as pontas dos dedos das duas mãos para frente, bem no local onde a barreira invisível estava. Porém, diferente da forma como a barreira reagira aos seus amigos — deixando-os passar — com Luck fora diferente, já que a barreira fora ativada, impedindo que ele pudesse passar.
“Não passei no teste. Por um lado, estou até que feliz por não precisar ir nessa porra e ver mais gente morrer, mas, por outro, não poderei ir com meus amigos.”
Ao perceber que fora reprovado, Luck tentou retirar as pontas dos dedos da barreira, porém algo estranho havia acontecido.
Seus dedos pareciam estar colados na barreira. Ele tentou primeiramente de forma um pouco mais fraca e, a cada tentativa, sua força fora aumentando, numa tentativa falha de tirar os dedos da barreira.
Sua feição se tornou fechada. Virou sua atenção para Amon para proferir tais palavras:
— Ei, eu acho que estou preso aqui. Tem como me tirar daqui?
Luck falava gritando, esperando que Amon pudesse ajudá-lo. Mas este apenas observou suas ações, enquanto arqueava uma das sobrancelhas.
Em seguida, ele deu alguns passos para frente, chegando mais perto de Luck.
A multidão observava quase em silêncio, alguns conversavam entre si.
— Por que ele não sai logo dali? Não viu o que aconteceu com aquele outro cara?
— Acho que ele está é preso.
— Mas isso nem faz sentido. Se ele reprovou é só retirar a mão da barreira e sair daqui logo.
— Sim! Ele vai acabar morrendo assim!
— Sai logo daí, otário!!
— Vai morrer…
A multidão começou a se tornar eufórica, com cada um emitindo gritos que representavam suas interpretações do acontecimento que viam diante dos seus olhos.
— Alguém me ajuda aí, por favor.
Luck gritava, emanando uma face que se tornava mais amedrontada a cada segundo passado. Seus dedos ainda estavam presos, mas suas tentativas não paravam; a cada segundo ele aumentava a força para tirar seus membros. Porém, parecia que não importava a força que possuía — ele ainda continuava preso.
Veias começaram a aparecer na barreira, indo em direção à ponta dos dedos de Luck.
— Isso não era para acontecer! Isso nunca aconteceu antes — disse Amon.
Porém, algo ainda mais diferente havia começado ali.
Dos dedos de Luck começaram a sair algumas veias roxas que pareciam emanar luz da mesma cor. As veias dos dedos do rapaz começaram a ir na direção das próprias veias que a barreira havia criado.
— Mas o que está acontecendo? — indagou Amon.
Luck virou o olhar para os dedos e viu o que ele estava produzindo. Arqueou uma das sobrancelhas enquanto exprimia os lábios em uma linha fina, deixando em segundo plano o medo de pouco antes.
— Ah… O que é isso?
Luck se acalmou por um tempo, já que apenas observava o que ia acontecer.
— Tem como o senhor me tirar daqui, por favor?
— A barreira só se desfaz depois de um tempo, não posso simplesmente desligar e ligar ela.
“E agora, será que eu vou morrer mesmo? E eu nem passei nesse teste…”
As veias que saíram dos dedos de Luck, por fim, se encontraram com as veias da barreira.
E, por algum motivo, as veias roxas começaram a meio que devorar as outras, dominando por completo a barreira.
Luck apenas virou seu rosto para a multidão, e, nesse exato momento, não viu algo estranho acontecer na barreira.
Como se fosse em um estalar de dedos, a barreira emanou uma luz roxa — que parecia um buraco de minhoca ou alguém viajando a uma velocidade muito rápida — que logo depois sugou Luck com todas as forças para dentro, jogando-o na escuridão, desaparecendo da visão de Amon e de todos ali presentes.
— Ah… se ele não morreu, provavelmente acabou de passar pelo teste.
Amon falou, com um tom lento e cheio de pausas, deixando a boca semiaberta.
Dentro do corredor, Luck estava deitado no chão, já a uma distância considerável da barreira.
Seus olhos se abriram e, de sua boca, um gemido de dor se formou. Ele tentou lentamente se levantar enquanto rangia os dentes.
Já em pé, respirou calmamente e olhou para os dedos das mãos, que estavam inteiros.
— Mas que merda acabou de acontecer?