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O Reino de Vidran despertava com seu habitual frenesi matinal — mercadores gritando preços, carroças cruzando pontes de pedra, elfos viajantes negociando pergaminhos raros, anões transportando barris de minério e até um grupo de demônios diplomatas circulando sob escolta. Vidran era o reino humano mais movimentado, e, como muitos diziam, “se algo existe no mundo, existe em Vidran”.
Mas nada disso importava para Nice Lunatic. Do topo de seu terraço particular, ele observava tudo com a calma de quem não tem medo do mundo — mas sim de quem acredita que o mundo pertence a ele.
Cabelos loiros moviam-se levemente com a brisa, olhos azuis analisavam cada detalhe como lâminas afiadas. Nada escapava. Nada fugia do plano.
Sobre seu ombro, o pequeno besouro etéreo de cartola brilhava com seu tom azul luminoso.
— Acordou virado no poder hoje, foi? — Shibungo comentou, pousando na gola da camisa de Nice.
— “Eu acordo virado no que eu quiser.” — Nice respondeu sem olhar para ele. — “E hoje quero conhecimento.”
— Aí eu fico apreensivo… — o besouro murmurou, ajeitando a cartolina na cabeça. — Toda vez que tu resolve aprender alguma coisa, o mundo treme.
Nice sorriu de canto.
— “O mundo treme porque é fraco. Eu apenas observo.”
Shibungo bateu as asinhas, desconcertado.
— Oxê… já começou cedo com essas frases que dá até calafrio.
Nice ignorou. Deu o primeiro passo para fora da mansão.
Servos se enfileiravam automaticamente. Ninguém ousava falar. Alguns seguravam bandejas de frutas, outros roupas, outros livros. Nice não tocava nada. Não precisava. Tudo vinha até ele.
Apenas fez um pequeno gesto com a mão, e os servos se afastaram como se obedecessem ordens silenciosas.
— Tu devia pegar leve, homi… — Shibungo comentou. — O povo vive num medo danado de tu.
— “Medo mantém o mundo organizado.”
O besouro suspirou.
— Eita gota…
Descendo a escadaria principal, Nice seguiu pela rua até o limite do distrito nobre. Atravessou uma ponte de mármore sobre o rio Vidreth, onde alguns elfos pescavam com lanças finas e elegantes. Um deles — de cabelos prateados e olhos dourados — o observou com expressão curiosa.
Nice notou o olhar, virou o rosto e respondeu com um aceno mínimo e calculado. O elfo devolveu o cumprimento com grande respeito.
— Rapaz… até os elfos lhe reconhecem de longe. — Shibungo disse. — Isso é raro.
— “Eu construí impérios, Shibungo. Claro que reconhecem.”
— É, mas tu construiu do jeito… digamos… questionável.
— “Questionável para fracos. Visionário para inteligentes.”
O besouro se calou. Sempre que Nice respondia assim, era como falar com uma muralha.
Conforme avançavam pela cidade, criaturas de diversas raças surgiam no caminho: um grupo de anões carregando um baú de minério; uma draconiana de escamas azuladas negociando com um mercador humano; um demônio bibliotecário correndo atrasado, carregando livros em chamas que não queimavam suas mãos.
Vidran era vivo, caótico, diverso.
E Nice caminhava no meio de tudo isso como se fosse o único que importava.
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Ao se aproximar da Biblioteca Arcana de Vidran, dois guardas pararam imediatamente. Armaduras polidas, lanças encantadas, postura rígida. Um deles tinha traços élficos; o outro, pele avermelhada típica de meio-demônios.
— “Abram o caminho.” — Nice ordenou sem elevar a voz.
O meio-demônio engoliu seco.
— Senhor Nice… a biblioteca hoje está restrita aos membros da Ordem Arcan—
— “Eu não perguntei.” — Nice interrompeu.
O guarda élfico pigarreou, tentando manter a compostura.
— A entrada exige autorização formal…
Nice inclinou a cabeça de forma sutil.
— “Você acha que eu viria aqui sem autorização?”
O guarda arregalou os olhos.
— Eu… não, senhor! Claro que não!
— Tu não tem autorização nenhuma, né? — Shibungo sussurrou, quase rindo.
— “Silêncio.” — Nice murmurou ao besouro. — “Eles não precisam saber disso.”
Um terceiro guarda surgiu do interior: uma mulher alta, de cabelo curto e olhos âmbar. Sua presença era marcante, postura impecável. Aproximou-se com passos firmes.
— Senhor Nice Lunatic? — Ela manteve a voz neutra. — Meu nome é Capitã Elora Caven, encarregada da segurança de acesso arcano. Recebi um relatório sobre sua suposta visita, mas não constava aprovação real. Peço desculpas pelo inconveniente, mas…
Nice simplesmente a encarou.
E naquele momento, Elora hesitou. O olhar dele cortava, frio, analítico… mas não vazio. Havia cálculo ali. Peso. Propósito.
— “A biblioteca precisa de mim mais do que eu preciso dela.” — Nice disse calmamente. — “Se eu entrar ou não… decidirá o futuro deste reino.”
Silêncio.
Os guardas se entreolharam. Elora franziu o cenho.
— Você está sugerindo que… algo perigoso está por vir?
— “Estou afirmando que já veio.” — Nice respondeu, como se comentasse sobre o clima.
Shibungo arregalou seus pequenos olhos.
— Vish, lá vem manipulação…
Elora respirou fundo.
— Senhor Lunatic… permita-me consultar o Arcanista-Mor. Se houver alguma ameaça real, é dever da Ordem—
— “Não há necessidade.” — Nice cortou. — “Eu já conversei com ele.”
— Mas ele não mencionou nada.
— “Então significa que o problema é maior do que pensei.” — Nice concluiu. — “Vocês não estão preparados.”
A capitã hesitou. Avaliou o jovem loiro por mais alguns segundos. Newforneceu um gesto rápido aos guardas.
— Abram o portão.
Nice apenas passou entre eles, como se fosse o mais natural do mundo.
Shibungo vibrou no ar.
— Ô miséria… tu domina esses cabras tudo sem fazer esforço nenhum.
— “Não preciso fazer esforço.” — Nice respondeu. — “É só dizer o que eles precisam ouvir.”
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A Biblioteca Arcana era gigantesca. Corredores se estendiam em espirais, livros flutuavam, pergaminhos se reorganizavam sozinhos. Criaturas etéreas guardavam setores proibidos. Um dragão ancião adormecido em forma reduzida ocupava o telhado, agindo como sentinela.
Nice caminhava como se já conhecesse o local.
— Tu veio aqui antes? — Shibungo perguntou.
— “Nunca.” — Nice respondeu. — “Mas isso não muda nada.”
Uma bibliotecária — uma dríade de pele esverdeada — aproximou-se.
— Bem-vindo, visitante. Posso ajudar a encontrar alguma categoria específica?
— “Livros de invocação avançada.” — Nice disse. — “Classificação negra.”
A dríade estremeceu.
— Essa seção é restrita até mesmo para membros graduados…
Nice colocou a mão no bolso do casaco e retirou… nada.
Mas moveu os dedos de forma que a dríade viu algo.
Ela empalideceu.
— Ah… sim… compreendo. Por favor, por aqui.
Shibungo olhou de um lado para o outro.
— Tu nem mostrou nada. Ela viu o quê?
— “O que ela precisava ver.” — Nice respondeu.
O besouro tremeu.
— Tá ficando assustador até pra mim, visse?
A dríade conduziu Nice até uma sala circular. Portas de ferro se abriram sozinhas. Rúnas antigas brilharam. O ar ficou pesado.
Nice entrou sem hesitar.
Ali dentro, estavam livros que podiam corroer a mente de um mago comum.
E ele se sentia confortável.
Como se aquele fosse seu verdadeiro lugar.
— Nice… isso é perigoso. — Shibungo murmurou.
— “Eu gosto do perigoso.”
— Eu sei… é isso que me preocupa.
Nice passou os dedos por uma estante e retirou um tomo negro.
Abriu a primeira página.
Um símbolo antigo pulsou.
E, pela primeira vez naquela manhã, Nice sorriu de verdade.
— “Perfeito.”
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Do lado de fora, a capitã Elora observava a porta fechada.
Uma elfa arqueira se aproximou.
— Senhora, por que permitir a entrada dele?
— Porque… — Elora respondeu, olhando para o horizonte. — algo me diz que esse jovem está envolvido em algo que ainda não compreendemos.
— Ele é perigoso?
Elora suspirou.
— Ele não age como alguém perigoso.
Pausa.
— Ele age como alguém que sabe que é perigoso.
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Dentro da sala arcana, Nice continuava virando páginas com precisão.
— “Esse mundo…” — ele comentou. — “Está cheio de peças interessantes.”
— Peças? — Shibungo repetiu. — Tu fala como se fosse um jogo.
— “Não é?” — Nice ergueu o olhar, seguro. — “Todos se movem… eu apenas escolho como.”
Shibungo ficou em silêncio por longos segundos.
— Tu acha que controla tudo isso, né?
— “Não.” — Nice respondeu, voltando ao livro. — “Eu tenho certeza.”
A runa brilhou mais forte.
E Vidran inteira pareceu estremecer.
Era apenas o começo.
Nice tinha planos.
E todos eles começavam ali.
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