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A porta dos fundos do Cassino Lunatic fechou-se atrás de Nice, abafando os gritos de alegria, desespero e euforia que vinham da enorme multidão lá dentro. Ele caminhava pelo corredor interno com passos firmes, o vento frio da madrugada passando pelo tecido negro de seu casaco elegante. Os olhos azuis brilhavam com aquele brilho perigoso que só aparecia quando algo ia muito bem — ou quando alguém estava prestes a ser destruído.
Shibungo veio flutuando logo atrás, carregando a cartola com as patinhas da frente.
— Oxê… eita noite lucrativa da gota, viu. Tu arrancou o couro deles tudinho. — O besouro ria seco. — Esses bestas tão achando que ganharam sorte, quando tu tá manipulando foi é tudo…
Nice sorriu.
Um sorriso lento.
Calculado.
Domado.
— “Sorte, Shibungo, é só mais um recurso. E recursos… pertencem a quem sabe como usá-los.”
Ele abriu a porta lateral que dava para o terraço do cassino. Lá fora, o céu estava roxo escuro, iluminado por três luas — duas brancas e uma vermelha, maior. Vidran, apesar de perigosa, era uma cidade linda vista do alto.
Mas Nice não olhava a paisagem.
O que o interessava era o que vinha depois.
— Tá pensando em quê agora, hein? — Shibungo pousou em seu ombro.
— “Em expansão.”
O besouro gelou.
— Aff… lascou…
Nice não deu atenção.
Ao invés disso, virou-se ligeiramente ao ouvir passos atrás dele.
Uma mulher elfa se aproximou — cabelos prateados, pele dourada, olhar orgulhoso. Uma daquelas figuras que nunca baixavam a cabeça para ninguém. Ou para quase ninguém.
Nice arqueou uma sobrancelha, apreciando a postura dela como quem avalia um item raro.
— “Posso ajudar?” — ele perguntou, com a voz que era metade charme, metade veneno adocicado.
A elfa cruzou os braços.
— “Quero respostas, Lunatic. Meus homens entraram aqui com cem peças de ouro e saíram sem nada. Isso não é azar comum.”
Nice sorriu.
Um sorriso irresistível, propositalmente ensaiado, que deixava a pessoa insegura sobre se ele estava sendo educado… ou debochando dela.
— “Minha querida… qual seu nome mesmo?”
— “Lytharis.”
— “Lytharis.” — Ele repetiu lentamente, como se degustasse o nome. — “Seus homens perderam porque jogam mal. Você, por outro lado… parece alguém que sabe jogar.”
A elfa corou levemente — apenas por um segundo — e Nice percebeu.
Ele sempre percebe.
— Eita que tu é safado… — Shibungo murmurou.
Nice continuou:
— “Se quiser recuperar seu ouro… posso te ensinar. Uma partida. Só nós dois. Sem truques. Sem manipulação.”
Lytharis hesitou. Era visível que ela estava desconfiada.
Mas Nice já sabia a resposta antes mesmo de perguntar.
— “E então? Confia em mim?” — ele provocou.
Ela respirou fundo.
— “Eu… confio o suficiente para uma partida.”
Shibungo bateu uma asa na testa.
— Pronto, caiu no teatro...
Nice inclinou a cabeça.
— “Ótimo. Amanhã, ao pôr do sol.”
Ela assentiu e se retirou, com passos tensos demais para alguém que fingia estar no controle.
Nice observou enquanto ela desaparecia no corredor, e então sorriu de canto:
— “Ela vai perder tudo.”
— Óbvio. — Shibungo respondeu. — E tu queria o quê? Fazer ela de besta igual fez com o resto do povo?
— “Não, Shibungo…” — Nice murmurou, olhando para a lua vermelha — “ela vai ser útil. Inteligente. Orgulhosa. E fácil de dobrar no momento certo.”
O besouro deu uma risadinha nervosa.
— Tu é perigoso demais, homi.
Nice ignorou a provocação e abriu as mãos, deixando o vento tocar seus dedos. Um pequeno círculo mágico se acendeu no ar, projetando luz azulada.
Era um símbolo de invocação.
Mas não qualquer um — era um contrato espiritual oculto.
Shibungo arregalou os olhos.
— Vai começar a usar invocação nos clientes também, é?
— “Não neles.” — Nice disse.
— “Nos reinos.”
Os olhos do besouro brilharam, meio assustados, meio impressionados.
— Oxê, então tu tá pensando grande…
Nice se virou para ele.
— “Eu sempre penso grande, Shibungo. Só que agora… chegou a hora de parar de brincar.”
A runa brilhante se expandiu, formando um mapa completo dos reinos ao redor de Vidran — territórios humanos, elfos, anões, demônios.
Todos iluminados.
Todos vulneráveis.
Todos ricos.
Nice passou o dedo sobre o mapa, como quem escolhe uma peça de um tabuleiro.
— “Vidran é apenas o palco inicial. Eu vou transformar o mundo inteiro no meu cassino.”
— Eita. — Shibungo murmurou. — E quem vai ser a banca, é?
Nice sorriu. Um sorriso frio, calculado, perigoso — o sorriso de quem nunca perde.
— “Eu, Shibungo. Sempre eu.”
Ele fechou a mão, e o mapa mágico se desfez em fagulhas.
— “O jogo começa agora.”
E assim, Nice Lunatic — o homem que fingia ser herói, mas se tornava vilão — dava mais um passo rumo ao domínio absoluto.
Com charme, lábia, magia…
Com teatro, performance e manipulação…
E acima de tudo:
Controle total.
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