---
A runa brilhante se desfez no ar como poeira de estrelas. Nice permaneceu imóvel por alguns segundos, observando as fagulhas desaparecerem entre seus dedos como se estivesse calculando a posição final de cada partícula. Ele parecia um maestro encerrando a primeira parte de uma sinfonia…
Uma sinfonia que só ele podia reger.
O vento soprou, arrancando um sutil mexer de seu casaco escuro, e Shibungo pousou em seu ombro com um suspiro dramático.
— Oxê, homi… quando tu fala desse jeito, o Arcanjo da Sorte até se remexe no túmulo.
Nice não respondeu imediatamente. Ele caminhou até o corrimão de ferro trabalhado do terraço, inclinando-se ligeiramente, como se estivesse contemplando Vidran com carinho.
Era uma mentira visual. Ele não contemplava.
Ele avaliava.
Cada rua, cada distrito, cada pessoa — peças num tabuleiro que ele já tinha vencido antes mesmo de começar a jogar.
— “Shibungo…” — Nice disse por fim, com a voz baixa, suave, perigosa. — “Amanhã eu não estarei jogando uma simples partida com Lytharis.”
— Eu sei… — O besouro encolheu-se. — Tu vai é arrodear ela todinha.
Nice sorriu devagar.
— “Ela é a chave.”
Shibungo ergueu uma antena.
— Chave pra quê, cabra?
— “Conexões, riquezas, influência política… e um território elfo inteiro cheio de possibilidades.” — Nice respondeu. — “Ela tem acesso ao Conselho Prateado. Tem influência sobre clãs que nem os humanos conseguem negociar. E, mais importante…”
Ele ergueu o dedo, marcando as palavras como se fossem ordens divinas.
— “Ela tem a vaidade perfeita para ser usada.”
Shibungo piscou, como se estivesse tentando acompanhar o raciocínio.
— Então tu vai seduzir a coitada?
Nice soltou um riso curto, de canto de boca, o tipo de riso que parece um golpe dado sem levantar a mão.
— “Seduzir? Não. Eu vou deixar que ela pense que está me seduzindo.”
Shibungo abanou as asas.
— Eita que tu é frio mesmo…
A Cidade que Ele Olhava — Agora Olhava de Volta
Na manhã seguinte, Vidran despertou com o barulho de mercadores, carroças e arautos anunciando acontecimentos importantes. Entre eles, uma mensagem que se espalhou como fogo em papel:
> “A Partida da Lua Vermelha — Nice Lunatic desafia Lytharis da Casa Dourada em um duelo de habilidades.”
O nome de Lytharis carregava peso: filha de uma família influente, detentora de minas de prata élfica, conectada a mestres artesãos e diplomatas.
O tipo de pessoa que poderia começar uma guerra com uma frase errada.
E mesmo assim… ela aceitou jogar com Nice.
Entre olhares curiosos e murmúrios de nobres, ela chegou ao Cassino Lunatic vestindo prata e azul, com o queixo erguido como se pisasse em um palco. De fato, estava pisando.
E Nice já tinha escrito o roteiro daquele espetáculo.
Quando ela entrou, ele já estava esperando — sentado numa mesa de apostas personalizada, luz suave sobre os cabelos loiros, expressão charmosa e perigosa ao mesmo tempo.
— Lytharis. — Nice sorriu, levantando-se. — “Pronta para jogar?”
Ela cruzou os braços.
— “Estou aqui para entender o que aconteceu com o meu ouro. E provar que você não é tão habilidoso quanto dizem.”
Nice deu dois passos à frente — calculados, precisos, ensaiados — e segurou a mão dela, inclinando-se para beijar a ponta dos dedos.
Lytharis travou por um segundo.
Só um segundo.
Mas Nice viu. E isso já era uma vitória.
— “Eu nunca perco.” — Ele disse baixinho, apenas para ela.
A elfa retirou a mão com um leve rubor — e irritação — que ela tentou esconder, sem sucesso.
Shibungo, por outro lado, estava quase caindo da cartola de tanto revirar os olhos.
— Ave Maria… tu força, viu.
O Duelo que Era Uma Armadilha
Eles se sentaram. Cartas flutuaram até a mesa, manipuladas por magia neutra — verdadeira, certificada, sem truques. Nice permitia isso de vez em quando, apenas para dar credibilidade ao próprio jogo.
Lytharis encarou Nice com firmeza.
— “Desta vez não haverá manipulação.”
— “Claro que não,” — Nice respondeu — “se houver… você nem perceberá.”
Ela franziu o cenho.
Nice abriu um sorriso angelical.
O jogo começou.
E como sempre… Nice estava no controle.
Ele controlava:
o ritmo do jogo
a velocidade das respostas
o tom de voz
as pausas dramáticas
a postura dominante
o olhar hipnotizante
Parecia mais teatro do que apostas.
Cada jogada que Lytharis achava que dominava era, na verdade, um truque psicológico.
Nice deixava ela ganhar uma rodada. Depois perdia de propósito outra. Depois empatava. Depois elogiava.
— “Impressionante… você joga melhor do que seus homens.”
— “Eu sou superior a eles.” — Lytharis respondeu, inflando o ego.
— “Eu sei.” — Nice disse, com suavidade venenosa.
Shibungo murmurou:
— Aí pronto… tu ganhou ela, Nice.
O Resultado — Não Era Sobre Ouro
Ao fim de horas de jogo, Lytharis não tinha apenas perdido ouro.
Ela tinha perdido a coisa mais valiosa para Nice:
a autonomia emocional.
Ela saiu do cassino convencida de que:
Nice era brilhante
Nice era confiável
Nice era fascinante
Nice era indispensável
Nice era alguém que ela conseguia “domar”
E tudo isso era… falso.
Quando as portas fecharam atrás dela, Shibungo pousou sobre a mesa.
— Rapaz… tu não jogou cartas não. Tu jogou foi o coração dela pra cima e pegou antes de cair.
— “E vou usar bem.” — Nice respondeu, recolhendo as cartas com elegância.
— Oxê. Como?
Nice abriu a palma da mão. Uma runa prateada brilhou. O símbolo da Casa Dourada — a família de Lytharis — apareceu.
— “Ela vai me dar acesso aos clãs élficos.”
— “Vai abrir caminhos diplomáticos.”
— “Vai fortalecer meu nome.”
— “E quando perceber…”
Ele fechou a mão.
A runa s
e partiu e virou poeira.
— “Já será tarde.”
Shibungo tremeu as asas.
— Eita… e isso tudo só no capítulo 6?
Nice olhou para Vidran novamente.
— “Estamos só começando.”
---