---
A noite estava pesada — o tipo de escuridão que parecia observar, respirar e esperar por algo. Vidran adormecia, mas dentro da mente de Nice, nada jamais descansava.
Shibungo flutuava ao lado dele, inquieto, enquanto o jovem invocador atravessava um dos corredores internos do Cassino Lunatic, carregando sob o braço o objeto que mudaria o rumo de tudo: o Livro Negro de Invocação, recuperado no segundo capítulo após a aventura na Biblioteca Arcana.
O couro escuro do tomo pulsava como se tivesse vida própria, exalando uma energia antiga, viva e profundamente perigosa.
— Homi... cê tá querendo bagunçar o destino de novo, né? — perguntou Shibungo, ajeitando a cartola.
Nice apenas sorriu.
— “Eu não bagunço o destino, Shibungo.”
Ele passou a mão pela capa do livro, e um brilho violeta se acendeu sob seus dedos.
— “Eu o escrevo.”
O besouro tremeu.
— Ave Maria… lá vem besteira grande…
Eles chegaram à sacada voltada para o centro de Vidran. O vento frio balançava os cabelos loiros de Nice, que abriu o tomo com cuidado.
As páginas se moveram sozinhas. Até pararem em um ritual incompleto.
— Oxê… esse tu ainda não tentou não! Esse é pesado…
— “Perfeito.” — Nice murmurou. — “Eu precisava de algo convincente.”
Shibungo piscou os quatro olhinhos.
— Convincente pra quê exatamente?
Nice levantou o olhar para o horizonte de Vidran. A rua principal estava deserta, exceto por algumas carruagens e sentinelas noturnos.
— “Lytharis precisa acreditar que estou vulnerável.”
O besouro ficou sem reação por alguns segundos.
— Vulnerável? Tu?
— Nice, cê tem noção que ela já acha que te tem na coleira?
Nice virou as páginas lentamente.
— “Sim, e eu quero que continue achando. Quanto mais ela acreditar que está no comando, mais fácil será puxar o chão quando eu quiser.”
Ele tocou um símbolo arcano no livro — uma runa que imediatamente brilhou com energia púrpura.
O ar ficou pesado. O chão tremeu. E as sombras ao redor começaram a se deformar.
— Oxê! Nice, cuidado!
— “Eu estou no controle.” — Ele disse, com a mesma serenidade de sempre.
A magia tomou forma no centro da praça abaixo:
uma criatura translúcida, espiritual, feita de sombras, subiu lentamente do solo — um espectro invocado artificialmente, sem consciência, sem propósito próprio. Nice moldou a energia como quem esculpe um pedaço de madeira.
— Eita lasqueira… essa magia tá feia de se ver…
— “Vai ficar mais feia ainda quando Lytharis chegar.”
O besouro travou no ar.
— Tu chamou ela aqui?
Nice deu um sorriso suave.
— “Eu apenas deixei que me seguisse. Isso não é chamar…”
E então, como se o universo seguisse seu roteiro, passos leves ecoaram atrás deles.
Lytharis.
A elfa estava ali — postura rígida, olhar afiado e presunçoso, como se tivesse acabado de flagrar Nice em algo proibido.
Ela realmente achava que tinha vantagem.
Exatamente como ele queria.
— “Nice Lunatic.” — ela disse, com um tom acusatório. — “Você está mexendo com energias que nem os magos élficos ousam tocar.”
Nice virou-se devagar, com a calma de quem já previra cada respiração dela.
— “Lytharis.” — respondeu com um sorriso teatral. — “Que surpresa… você sempre aparece quando eu mais preciso.”
A elfa se aproximou, confiante demais.
— “Você está brincando com poder demais. E poder perigoso.”
Nice deu um passo bem calculado em direção a ela.
— “Ah, minha cara Lytharis… perigo é relativo. Você não entende?”
Ele ergueu a mão, e o espectro lá embaixo rugiu — um rugido vazio, criado apenas para assustar, cuidadosamente controlado pelo Livro Negro.
Lytharis empalideceu por um instante.
Mas então assumiu a postura de superioridade novamente.
— “Você está sendo imprudente, Lunatic. E se continuar assim, eu terei de… intervir.”
Nice aproximou o rosto ao dela, quase tocando sua pele dourada.
— “Você acha que consegue me parar?”
Ela sorriu.
Um sorriso presunçoso, cheio de certeza.
— “Eu sei que posso.”
Exatamente a resposta que Nice queria.
Shibungo bateu uma asa na cara.
— Tu tá deixando ela achar que tá no comando mesmo, né?
— “Naturalmente.” — Nice murmurou sem mover os lábios.
Para Lytharis, ele apenas parecia calmo.
Para Shibungo, ele estava representando.
Para Nice… tudo era um palco.
A elfa apontou para o espectro.
— “Pare com isso. Agora. Antes que essa criatura se solte.”
Nice suspirou dramaticamente, fechando o livro como se estivesse realmente cedendo.
— “Você venceu, Lytharis.”
A elfa ergueu o queixo com arrogância satisfeita.
Era isso. Ela acreditava. Ela achava que tinha vencido Nice Lunatic.
Mas, enquanto fechava o livro, a runa invisível deixou no ar um selo quase imperceptível — uma marca de ligação, um encantamento que Nice criou apenas para observar, aprender e manipular a energia ao redor de Lytharis.
Ela não percebeu nada. Nem por um segundo.
Nice sorriu.
— “Você é realmente impressionante.” — ele disse, com charme venenoso. — “É difícil resistir a alguém com tanta… autoridade.”
Lytharis desviou o olhar por um instante, como se tentasse esconder o rubor.
Shibungo sussurrou:
— Oxê… aí é covardia, Nice. A bichinha não tem chance nenhuma…
Nice ignorou.
Ele abriu os braços como quem encerra um espetáculo teatral.
— “Vamos conversar dentro. Tenho vinho… e eu devo explicações, não é?”
Lytharis assentiu, plenamente convencida de que estava levando Nice pela coleira.
Nice caminhou à frente
dela com passos elegantes, precisos, impecáveis.
O espetáculo estava apenas começando.
E como sempre…
Nice Lunatic controlava cada segundo do show.
---