Pela primeira vez desde que o Grande Pacto fora selado, um grupo seleto de divindades voltava a reunir-se.
Não era uma convocação oficial do Olimpo.
Tampouco uma assembleia organizada por Odin.
Nenhum mensageiro havia percorrido todos os panteões anunciando uma reunião universal.
Muito pelo contrário.
A convocação fora extremamente seletiva.
Amaterasu escolhera apenas aqueles que julgava capazes de compreender um fenômeno que ultrapassava até mesmo o conhecimento divino.
O local escolhido não poderia ser outro.
Takamagahara.
O Reino Celestial do panteão japonês.
No centro do Palácio Solar havia um salão circular, construído com madeira branca ancestral e pilares dourados ornamentados por símbolos do Sol e da Lua. Um enorme espelho sagrado ocupava a parede principal, refletindo não apenas a imagem de quem estava diante dele, mas também fragmentos da energia espiritual daqueles que ali entravam.
Ao redor de uma gigantesca mesa circular, vários assentos permaneciam vazios.
O primeiro a chegar foi Poseidon.
O deus dos mares caminhou lentamente pelo salão, observando atentamente a arquitetura do lugar.
— Faz tempo que não venho a Takamagahara...
Comentou em voz baixa.
Sua atenção logo voltou para os assentos vazios.
— Estranho...
Poucos segundos depois, passos suaves ecoaram pelo salão.
Kitsune surgiu caminhando calmamente.
As nove caudas balançavam lentamente atrás dela.
Ela fez uma breve reverência.
— Senhor Poseidon.
— Kitsune.
O deus respondeu com um aceno.
Ele olhou novamente ao redor.
— Esperava encontrar Zeus...
— Ou talvez Odin.
— Até mesmo Hades.
Kitsune sorriu discretamente.
— Minha senhora escolheu apenas alguns deuses.
Poseidon arqueou uma sobrancelha.
— Apenas alguns?
— Sim.
— Não buscamos força militar.
— Nem autoridade política.
— Apenas aqueles capazes de compreender o que está acontecendo.
Poseidon cruzou os braços.
— Isso me deixa ainda mais curioso.
Antes que pudesse perguntar mais alguma coisa...
Uma pequena explosão de luz dourada iluminou o salão.
Duas figuras surgiram simultaneamente.
Mari.
E Ísis.
A deusa basca observou o ambiente por alguns segundos.
— Então era aqui.
Ísis analisou cada rosto presente.
— Parece que realmente é uma reunião incomum.
Poseidon abriu um pequeno sorriso.
— Pelo visto não fui o único surpreendido.
Mari aproximou-se da mesa.
— Recebemos apenas uma convocação urgente.
— Nenhuma explicação.
Kitsune respondeu serenamente.
— Minha senhora preferiu explicar tudo pessoalmente.
Ísis olhou para as cadeiras vazias.
— Ainda falta muita gente.
Como se respondesse à observação...
Uma brisa atravessou o salão.
Hachiman surgiu logo atrás das duas deusas.
Seu semblante permanecia sério.
— Perdão pelo atraso.
Ele fez uma breve reverência.
— Também trago uma mensagem.
Todos voltaram sua atenção para ele.
— Hefesto não poderá comparecer.
Poseidon franziu a testa.
— O que houve?
— Está trabalhando em um projeto que não pode ser interrompido.
— Segundo ele...
— Adiar significaria colocar décadas de trabalho em risco.
Poseidon suspirou.
— Isso realmente parece algo que Hefesto diria.
Hachiman assentiu.
— Ele pediu desculpas e afirmou que enviará informações posteriormente, caso necessário.
O silêncio durou apenas alguns instantes.
Logo outra presença aproximou-se.
Desta vez...
A temperatura do ambiente mudou.
Um homem alto entrou caminhando tranquilamente.
Vestia roupas simples de couro, semelhantes às utilizadas por antigos caçadores da floresta.
Nas costas carregava um arco.
Seus olhos verdes pareciam refletir árvores infinitas.
Poseidon observou curioso.
— Você deve ser...
O homem sorriu.
— Boitatá.
Mari inclinou levemente a cabeça em cumprimento.
Embora sua aparência fosse completamente humana...
Todos ali sabiam quem ele realmente era.
O lendário guardião das florestas brasileiras.
A gigantesca serpente de fogo que protegia a natureza da Amazônia.
Boitatá apoiou o arco próximo à parede.
— Faz muito tempo desde minha última reunião entre panteões.
Logo atrás dele surgiu outra figura.
Vestes negras.
Cabeça de chacal.
Olhos dourados extremamente atentos.
Anúbis.
A deusa egípcia caminhou silenciosamente até seu assento.
Ísis sorriu discretamente.
— Achei que recusaria.
Anúbis respondeu calmamente.
— Depois da mensagem recebida...
Seria irresponsabilidade faltar.
Por fim...
A luz do luar invadiu o salão.
Tsukuyomi apareceu.
A aura fria do deus da Lua contrastava completamente com o brilho dourado daquele lugar.
Ele cumprimentou apenas a irmã com um leve aceno antes de permanecer em silêncio.
Todos já estavam presentes.
Ou quase.
Os grandes portões do salão abriram-se lentamente.
Amaterasu entrou.
Sua presença iluminou todo o ambiente.
Todos levantaram-se em respeito.
Ela caminhou calmamente até a cabeceira da mesa.
Observou cada um dos presentes.
Depois falou.
— Obrigada por aceitarem minha convocação.
Sua voz carregava serenidade.
Mas também preocupação.
— Sei que todos possuem responsabilidades em seus respectivos panteões.
— Por isso selecionei apenas aqueles que poderiam contribuir diretamente para compreender o que aconteceu ontem.
Poseidon cruzou os braços.
— Imagino que tenha relação com nossa conversa.
Amaterasu assentiu.
— Exatamente.
Ela respirou fundo.
Então começou a narrar detalhadamente tudo.
A fissura luminosa.
A voz desconhecida.
A energia divina semelhante à de Poseidon.
A conversa posterior com o verdadeiro deus dos mares.
E, por fim...
A análise realizada por Kitsune.
Quando terminou...
O salão permanecia completamente silencioso.
Todos pareciam processar as informações.
Amaterasu voltou-se para Kitsune.
— Explique a eles exatamente o que descobriu.
A yokai levantou-se.
Suas nove caudas moveram-se lentamente.
Ela ergueu uma das mãos.
Uma projeção mágica surgiu sobre a mesa.
Era a reprodução da fissura.
— Como expliquei anteriormente...
— Isso não era um portal.
Nem uma ruptura dimensional.
Ela apontou para a imagem.
— Trata-se de uma magia extremamente rara.
— Um contato interdimensional.
Mari inclinou-se para observar melhor.
— Comunicação...
— Entre universos diferentes?
— Sim.
Respondeu Kitsune.
Ela continuou.
— Durante minha análise encontrei traços muito específicos de mana divina.
Uma pequena centelha azul apareceu na projeção.
— Esta energia pertence originalmente ao domínio oceânico.
Todos olharam para Poseidon.
A yokai continuou.
— Porém...
Ela fez uma pequena pausa.
— Não pertence ao Poseidon presente nesta sala.
O silêncio tornou-se pesado.
Foi então que Poseidon levantou-se abruptamente.
BANG!
Sua mão atingiu a mesa com força.
— Isso é impossível!
Sua voz ecoou pelo salão.
— Universos distintos não deveriam sequer perceber a existência um do outro!
As ondas presentes em sua aura começaram a agitar o ambiente.
— Muito menos estabelecer comunicação!
Ninguém respondeu imediatamente.
Ísis levantou calmamente uma das mãos.
— Poseidon.
O deus virou-se para ela.
— Acalme-se.
Ela manteve o tom sereno.
— Estamos todos ouvindo isso pela primeira vez.
— Nenhum de nós possui respostas.
Mari assentiu.
— Se reagirmos apenas pela incredulidade...
Jamais descobriremos a verdade.
Poseidon permaneceu imóvel durante alguns segundos.
Depois voltou lentamente a sentar-se.
— Certo...
— Continuem.
Kitsune agradeceu com um leve aceno.
— Minha habilidade espiritual permite localizar a origem dessa frequência mágica.
Ela olhou para Amaterasu.
— E acredito ser capaz de responder ao chamado.
Gumiho, que até então permanecera completamente calada, finalmente falou.
Sua voz era suave.
— Sozinha...
Talvez não.
Todos voltaram a atenção para ela.
A raposa coreana sorriu.
Suas nove caudas apareceram lentamente.
— Mas juntas...
Ela olhou para Kitsune.
— Podemos estabilizar a conexão.
As duas trocaram um olhar.
Durante séculos existiram rumores de que suas espécies possuíam uma ancestralidade comum.
Jamais confirmados.
Jamais negados.
Mas suas energias espirituais eram extremamente compatíveis.
Amaterasu permaneceu alguns segundos refletindo.
Então olhou para todos.
— Quero ouvir a opinião de cada um.
Ela apoiou ambas as mãos sobre a mesa.
— Devemos estabelecer contato?
Mari foi a primeira.
— Sim.
Ísis concordou.
— Também voto a favor.
Boitatá sorriu.
— Se existe outro mundo...
Quero conhecê-lo.
Anúbis falou logo depois.
— Informação sempre vale mais que especulação.
Tsukuyomi manteve sua postura tranquila.
— Concordo.
Hachiman assentiu.
— Também.
Todos olharam para Poseidon.
Ele permaneceu alguns segundos em silêncio.
Depois respirou fundo.
— Não gosto da ideia.
— Mas...
Também concordo.
Amaterasu sorriu discretamente.
— Então...
Vamos descobrir a verdade.
Kitsune e Gumiho caminharam até o centro do salão.
As duas fecharam os olhos.
Nove caudas douradas.
Nove caudas prateadas.
Dezoito caudas começaram a girar lentamente ao redor das duas.
Símbolos espirituais surgiram pelo chão.
O enorme espelho localizado ao fundo do salão começou a vibrar.
A superfície prateada tornou-se líquida.
Runas desconhecidas apareciam constantemente.
Gumiho estendeu ambas as mãos.
— Estou localizando a frequência...
Kitsune respondeu.
— Eu estabilizo.
A energia aumentou.
Todo o salão começou a tremer.
Poseidon observava atentamente.
Jamais imaginara presenciar algo semelhante.
A superfície do espelho tornou-se completamente branca.
Depois...
Cinza.
Em seguida...
Uma imagem começou a surgir.
Mas estava completamente borrada.
Sombras.
Luzes.
Silhuetas.
Nada era identificável.
Kitsune concentrou ainda mais energia.
— Mais um pouco...
Gumiho assentiu.
— Consegui.
A imagem estabilizou-se.
Antes mesmo que alguém pudesse enxergar claramente...
Uma voz masculina ecoou do outro lado.
Descontraída.
Cheia de ironia.
— Ora, ora...
— Finalmente resolveram atender.
Diversos olhares se cruzaram.
A voz continuou.
— Confesso que achei que ignorariam minhas chamadas por mais umas duas semanas.
Alguns segundos depois...
A figura afastou-se da câmera.
Ou do equivalente mágico dela.
Todos conseguiram vê-lo.
Silêncio absoluto.
Era Poseidon.
Mas...
Não era.
Parecia muito mais jovem.
Os cabelos eram mais curtos.
A barba quase inexistente.
Vestia roupas completamente diferentes das tradicionais vestes gregas.
Seus olhos carregavam um brilho irreverente.
E havia um sorriso permanente em seu rosto.
Ele olhou diretamente para Amaterasu.
— Então você deve ser Amaterasu.
Depois para Mari.
— Você só pode ser Mari.
Em seguida para Ísis.
— Rainha da magia.
Anúbis.
Boitatá.
Tsukuyomi.
Hachiman.
Gumiho.
Kitsune.
Ele reconheceu todos.
Como se já soubesse exatamente quem eram.
Por último...
Seu olhar encontrou o outro Poseidon.
Os dois permaneceram alguns segundos encarando um ao outro.
Então...
O recém-chegado abriu um sorriso ainda maior.
— Nossa...
Ele levou a mão ao queixo.
— Eu realmente envelheci mal naquela realidade.
Alguns deuses prenderam o riso.
Poseidon apenas fechou lentamente os olhos.
— Perdão...
Continuou o desconhecido.
— Mas você está parecendo um velho acabado.
O silêncio durou apenas um segundo.
Boitatá foi o primeiro a virar discretamente o rosto para esconder o sorriso.
Mari mordeu os lábios.
Ísis levou a mão à boca.
Até mesmo Tsukuyomi desviou o olhar.
O Poseidon daquela realidade cruzou os braços, completamente satisfeito.
— Acho que essa conversa vai ser divertida.
Do outro lado da mesa...
O Poseidon original já começava a perder a paciência.
E aquela era apenas a primeira frase da conversa entre dois universos.