Admito que ainda estou um pouco confuso.
Dois anos se passaram desde que cheguei a esse mundo. Tive medo de que viver esses primeiros anos seria uma tortura, mas, para minha sorte, acabaram por ser as férias que tanto sonhei em ter. Comer, dormir e ser mimado… fazia tempo que viver não era tão fácil desse jeito.
Além disso, minha rotina tem sido interessante, para variar. Já consigo falar algumas palavras soltas com a minha boca, embora ainda seja difícil dizer outras mais difíceis.
Meus pais deviam me agradecer: poupei-os dos choros habituais de um infante e me auto-desmameei o mais rápido que pude. Por falar nisso, Desculpe, Draven… um marmanjo estava se alimentando dos seios de sua esposa esse tempo todo. Você me perdoa?
Por falar em Draven, meu “novo pai”, ele não costuma ficar muito em casa. Ainda não sei bem o que ele faz, mas estou torcendo para que ele seja um prefeito ou duque. Por sorte, finalmente consegui descobrir qual é o meu nome completo — e, principalmente, meu sobrenome:
Ithyllo lanar Elo kal'yad'nar.
O “lanar” serve apenas para indicar que o primeiro nome pertence a uma casa de nobres. A maioria das pessoas nesse mundo só possui o primeiro nome.
“Elo kal’yad’nar”, traduzido fica “Sol do Domingo”. Este é meu sobrenome.
Eu esperava descobrir algo com isso, mas eu não inventei esse nome nem essa família na época em que estava na Terra. Esse mundo — aquele que inventei na adolescência — foi escrito no formato de uma bíblia, desde sua gênese até, aproximadamente, sua Segunda Era, onde os humanos passaram a dominar o continente. Depois explico essas coisas melhor…
Fato é: eu nunca escrevi nada muito além disso. Tenho quase certeza de que estou no continente de Etrun’ya, o principal desse mundo, e provavelmente também estou em Syl’na Isyl, o principal e maior reino do continente, fundado pelo primeiro herói após derrotar o Deus Demônio há séculos atrás — pelo menos é o que escrevi…
Ao menos, definitivamente vim parar em um período de paz, ainda bem…
De toda forma, me ajudaria muito saber exatamente em que parte do continente estou, especialmente a data atual.
Espere, isso eu posso descobrir facilmente...!
Guardando o pesado livro que peguei emprestado da sala de leitura, saio escondido e vou em direção à cozinha da casa.
Passei os últimos meses procurando por algum livro que pudesse me ser útil, mas só encontrei documentos e registros burocráticos irritantes. Imagine a cena: um bebê minúsculo engatinhando e puxando livros pesados de uma estante, arriscando ter sua pequena cabeça esmagada por um imenso livro cujo título é “Relatórios de Colheita de Trigo”. Patético.
Talvez os habitantes dessa casa não gostem de literatura, o que é uma pena. De todo jeito, tenho uma boa ideia para quem fazer minha pergunta. É engraçado pensar que esse corpo aprendeu a ler antes de poder falar.
Chegando até a cozinha, encontro Lyra, a cozinheira dessa casa — a comida dela é surpreendentemente boa. Valeu a pena esperar para poder começar a comer comida de verdade!
Lyra é uma mulher alta e forte de aproximadamente trinta anos. Ela sempre deixa o seu cabelo amarrado e utiliza um avental com estampas de bordado feitas pela minha mãe — apenas alguns padrões elegantes. Isolde tem cara de quem bordaria florzinhas e bonecos de pelúcia. Talvez eu ensine a ela algum dia.
Além disso, estou começando a me acostumar com meu novo corpo. Já tenho controle de quase tudo — e desejo nunca mais passar pela humilhação de me sujar repentinamente. Por enquanto, ainda sou muito pequeno. Meu cabelo possui a mesma cor do de Isolde: um castanho bem claro, o que é uma pena, já que eu adoraria que fosse prateado como o de Draven.
Enfim, chega de analisar aparências, temos uma missão aqui!
— Bom dia, Lyra! — digo, sentindo que errei uma palavra sem querer.
— Bom dia, mestre Ithy — ela responde, parando o que estava fazendo e se curvando diante de mim.
Mesmo tendo apenas dois anos de vida, eu até que sou, surpreendentemente, bem tratado por aqui. Provavelmente porque sou filho dos mestres dessa casa, mas admito não estar acostumado com esse tipo de tratamento — bem longe disso, na verdade.
Sem perder muito tempo, decido perguntar de uma vez para Lyra a data de hoje.
— Hum? Quer saber que dia é hoje, Ithyzinho? — Ela devolve a pergunta, utilizando uma voz irritante enquanto vira a cabeça.
Bem, acho que este é o limite para o meu bom tratamento. Eu acho que eu também riria se um pivete minúsculo como eu chegasse perguntando a data repentinamente. “Hum? Possui algum compromisso, guri?”, eu diria, sarcasticamente. Se bem que, talvez, eu realmente seja muito fofo.
— Bem, hoje é ‘dim'yad’, querido. — Ela, enfim, responde.
“Dim’yad”, bem, traduzindo, é quarta-feira. Os dias nesse mundo são diferentes dos da Terra.
Uma breve aula sobre como funciona o calendário desse mundo: um ano ainda é composto por 12 meses — onde cada mês representa um deus específico —, porém, cada mês possui apenas 28 dias.
Mas não é bem essa “data” que eu queria. Peço então que ela me diga o ano. Suspeito, eu sei, mas complementei dizendo que ouvi alguém usar essa palavra e que estava curioso. Pensando bem, eu deveria ter sido mais direto desde o início...
— Oh, entendo. Bem... — e assim, Lyra passa a explicar o que é um ano e o que são as eras.
Como eu não expliquei isso antes: esse mundo é dividido em duas eras. A Primeira Era foi o apogeu dos deuses e da primeira raça mortal, os Dastots. Pense neles como elfos, de certa forma...
Enfim, antes da Primeira Era acabar, houve uma Grande Guerra por causa daquele Rei Demônio de antes. Após surgir um herói e derrotá-lo, inicia-se a Segunda Era, onde os humanos passaram a tomar conta e os deuses decidiram passar a somente observá-los.
— ...Por exemplo, atualmente estamos no ano 656 da Segunda Era, no mês...
“656?!”, por um momento sinto ter ficado pálido.
Bem, evidentemente, esse meu pequeno mundinho evoluiu mais de 600 anos sem mim. Faz sentido que eu me sinta tão perdido...
— Ei, vamos brincar de pega-pega!
— E ele? Não vamos chamá-lo?
— Aquele nerd? Deixa ele pra lá...
Eu costumava passar a maior parte da minha infância no meu quarto. Eu não gostava de ficar perto das outras crianças, preferindo passar meu tempo na biblioteca da escola. Embora a minha vida fosse solitária, com os livros, eu vivia mil aventuras diferentes. Talvez seja por isso que comecei a escrever — eu queria ter as minhas próprias aventuras.
Eu definitivamente me esforcei ao escrever a história desse mundo na época — a História de Mundia, como eu chamava, já que nunca decidi um nome oficial —, mas, agora, finalmente percebo que aquele mundo, aquele que nunca me agradou e que nunca me senti em casa, realmente ficou para trás.
Eu nunca mais deitarei na minha cama após passar o dia escrevendo;
Nunca mais sairei para comer sozinho no meu restaurante favorito e nunca mais terei a chance de provar que estava certo para os meus falecidos pais.
Por fim, também percebi que minha última história, aquela cujo final talvez nem seja o meu, nunca foi uma que eu realmente quisesse contar. Sinto que desperdicei a última chance que me foi dada.
Talvez eu realmente esteja vivendo um inferno pessoal.
— Selene! Você ainda não limpou o quarto que eu mandei!
Uma voz feminina ecoa pelo corredor de repente.
— Já vou!
Outra voz responde. Essas são Virian e Selene, as empregadas dessa mansão. Ambas são irmãs e, quase comicamente, possuem personalidades totalmente opostas uma da outra.
Virian é a típica irmã mais velha: séria e esforçada. Com um óculos em seu rosto e um longo cabelo liso, admito que até me sinto atraído por ela. Não tenho culpa por ter uma quedinha por mulheres sérias.
Já Selene, a irmã mais nova, é uma idiota. Preguiçosa e desleixada, me pergunto como essa pirralha ainda trabalha aqui.
— Bom dia, mestre Ithy — diz Virian, passando por mim no corredor.
Eu a cumprimento de volta, encarando o chão para esconder meu rosto corado. Alguns passos à frente e me encontro com Selene, que parece estar apressada com algo.
— Ah, olá, mestre Ithy! O mestre Draven já está de volta e perguntou por você... — diz Selene, levando uma bronca logo em seguida de Virian por não ter dito “bom dia” e por dizer “você” em vez de “mestre”.
Ela volta a seguir por onde ia, rindo para si mesma.
Admito não me importar nem um pouco com títulos, mas eu realmente me pergunto como ela ainda trabalha aqui...
A verdade é, todo mundo aqui parece tão... falso.
Por fim, decido ir até o escritório de Draven. Nunca entrei lá dentro antes, pois a porta sempre está trancada. Mas agora, com ele lá dentro, finalmente terei uma chance — quem sabe livros mais interessantes me esperem por lá?
Ao passar pelo corredor, encontro a porta aberta com Draven sentado de frente para sua mesa, com suas mãos apoiando sua cabeça nela. Ele parece preocupado.
Chamo por ele, fazendo-o saltar levemente.
— Ithy! — ele exclama.
Ele se levanta de sua cadeira e anda até mim, me pegando no colo e retornando à sua mesa.
— Desculpe passar tanto tempo fora, filho.
— Não tem problema! — respondo, fingindo empolgação.
Olhando a expressão em seu rosto me faz lembrar a minha própria durante boa parte da minha vida — no caso, vida passada.
Observando o escritório com mais atenção, não vejo nada de especial. Alguns armários e móveis de madeira, estantes e livros grossos. Esperava por algo mais chique, entretanto, algo mais interessante se encontra em cima de sua mesa: papel e tinta!
Inocentemente, pergunto para Draven o que era aquilo.
— Oh? É papel e um pouco de tinta, tenho alguns documentos para assinar... — ele responde, cabisbaixo.
— Posso pegar um pouco emprestado? — pergunto imediatamente.
— Hum? Você ainda é muito novo para assinar documentos, Ithy — ele diz, rindo levemente para si.
Infelizmente, meu plano falhou.
— E o que são aquelas coisas? — pergunto, apontando para os livros.
— Ah, são os registros de nossa família... — ele responde, ainda com o tom misteriosamente cabisbaixo.
“Família, né...”, penso, acho que voltarei aqui depois. Entretanto, esse tom em Draven está começando a me irritar. Será que devo perguntar se aconteceu alguma coisa? Não é como se eu quisesse mesmo saber...
Enquanto observava a vista pela janela por detrás de Draven, escutei Isolde chamá-lo. Prontamente, ele me colocou de volta no chão e foi ver o que sua esposa queria. Esses dois devem ter quase a minha idade (na vida passada) e já são uma família...
Me pergunto o que poderia ter sido de mim caso eu tivesse feito outras escolhas. Felizmente, nada disso importa mais.
Observando a situação atual, encontro uma oportunidade muito conveniente de poder me divertir um pouco e, ainda por cima, alegrar um pouco Draven. Assim, decido pegar emprestado da mesa algumas folhas e uma pena.
Terei um presente para você quando retornar, “papai”...