O som do aço cortando o ar ecoava pelas árvores do bosque, misturando-se ao perfume da primavera e ao suor empapado nos trajes. No centro da clareira, três figuras trajadas como cavaleiros medievais se moviam com precisão coordenada, espadas erguidas e corpos girando em uma dança ensaiada.
— Augustus, cobertura lateral! — gritou uma voz firme. — Máximo, flanco! Jasper, flecha em três, dois... vai!
Augustus avançava com segurança, sua espada longa descrevendo arcos precisos, como se traçasse códigos invisíveis no ar. Com 1,86 de altura e porte esguio, unia mente e corpo como um arquiteto da guerra. Programador e engenheiro de sistemas, sua obsessão por padrões se manifestava ali em combate. Cabelos negros presos em um coque e olhos castanho-escuros que observavam tudo com frieza calculada completavam a imagem de um comandante natural — metódico, centrado, perigoso.
Máximo, à sua esquerda, era o martelo do trio. Com 1,82 de altura e músculos esculpidos como aço bruto, era engenheiro químico e ferreiro nas horas vagas — e parecia carregar o peso do mundo sem esforço. Tinha cabelo e barba desgrenhados, olhos dourados intensos e uma espada larga que exigiria dois braços de um homem comum, mas que ele empunhava com uma só mão. Temperamental, explosivo e feroz, ele era o trovão da equipe.
Jasper fechava o triângulo com a leveza do vento. De 1,80 de altura, cabelos castanho-claros lisos, caindo até os ombros, e olhos azul acinzentados, exibia uma elegância silenciosa. Vestia couro escuro justo e carregava um arco de polias moderno, ajustado por ele mesmo. Engenheiro mecânico de profissão, amante de mistérios e romances investigativos, seus movimentos eram limpos, precisos — como os de um detetive que sempre observa antes de agir. De todos, era o mais introspectivo, mas também o mais preparado para lidar com o inesperado.
Três amigos. Três pilares. Três mundos reunidos sob a mesma paixão: a guerra como arte, mesmo que apenas no teatro de uma fantasia de fim de semana.
Então, o impossível aconteceu.
No instante em que seus corpos se alinharam em um triângulo defensivo — costas com costas —, o chão estremeceu. Por uma fração de segundo, tudo pareceu desacelerar. Um som surdo, como um trovão preso sob a terra, reverberou sob seus pés. Depois, veio a ruptura.
O chão cedeu sob eles.
Uma luz intensa, um vazio impossível, e o mundo desapareceu.
O bosque de Redrose era um sussurro de luz e sombra. Raios dourados filtravam-se pelas copas altas das árvores, tingindo o chão de tons verdes e âmbar. O ar carregava o perfume adocicado das flores silvestres e a umidade terrosa de musgo fresco. Em uma clareira isolada, três figuras femininas jaziam sobre a relva — seus corpos pequenos e frágeis, adormecidos como bonecas abandonadas.
Na clareira isolada, três jovens garotas jaziam inconscientes entre folhas e raízes. Seus corpos femininos estavam parcialmente cobertos por peças desalinhadas de trajes táticos e armaduras masculinas, agora desajustadas e desproporcionais — como se não pertencessem a elas.
As roupas estavam suadas, sujas e ligeiramente rasgadas, como se tivessem sido forçadas a se adaptar a um corpo diferente. A combinação de couro sintético, metal desconhecido e detalhes modernos destoava de tudo ao redor. Mas, mesmo assim, havia algo nelas que parecia pertencer àquele mundo.
Um grupo de bandidos, atraídos pelo brilho incomum das armaduras, aproximou-se com cautela. Eram quatro homens rústicos, com cicatrizes e olhares famintos, vestindo trapos sujos e carregando punhais enferrujados. O líder, um homem com uma cicatriz profunda no rosto, esfregava o queixo, tentando entender o que via.
— Mas o quê... São guerreiras? Isso aqui... é uma armadura? — murmurou ele, inclinando-se para examinar melhor.
— Vai ver são magas — comentou o mais jovem, um rapaz magro com olhos nervosos. — Usam armaduras estranhas, vindas de alguma escola esquisita.
— Ou são aventureiras do sul — completou outro, um homem corpulento com barba desgrenhada. — O que importa é que essas roupas parecem caras. E por baixo... — Ele puxou o couro do ombro de uma delas, revelando pele pálida. — Bem, mais ainda.
Eles começaram a despi-las, suas mãos grosseiras remexendo nas fivelas e tiras com ganância. A garota de cabelos ruivos se contorceu levemente, mas não despertou. A loira e a de cabelos roxos também permaneciam imóveis, pálidas, suadas e com respiração irregular. Pareciam em transe profundo, talvez causado pelo choque da transformação.
Foi então que o som de cascos quebrou o clima.
— Merda... Tem alguém vindo — murmurou o jovem bandido, recuando bruscamente.
Momentos antes, em uma trilha próxima, um comboio com seis cavaleiros escoltava duas carroagens pelo bosque. Um batedor que seguia à frente voltou a galope e informou que avistara um grupo de possíveis bandidos atacando garotas aparentemente inconscientes.
O comandante do comboio acelerou e seguiu em direção aos bandidos.
A floresta se abriu em relinchos e aço. Seis cavaleiros surgiram do leste, rompendo os arbustos em uma marcha precisa e agressiva. O brasão bordado em vermelho na armadura dos soldados denunciava sua identidade: a temida Ordem da Rosa Carmesim, elite do Reino de Redrose.
À frente de todos vinha um homem de presença imponente. Alto, com cabelos grisalhos bem cortados e olhos como aço polido, o Comandante Rayos parecia uma estátua viva entalhada em guerra. Sua armadura completa — prateada, reluzente, ornamentada com detalhes florais em ouro envelhecido — refletia a luz do sol como uma auréola de autoridade. A capa azul-escura se agitava atrás de si, e a mão descansava sobre a empunhadura da espada com naturalidade letal.
— Em nome da Coroa de Redrose — sua voz trovejou —, larguem as armas e afastem-se das moças!
Os bandidos congelaram.
Um deles tentou correr.
Rayos desceu do cavalo com a velocidade de um falcão em mergulho. Em dois passos, atravessou a clareira e sua espada cortou o ar — precisa, limpa —, enterrando-se a centímetros do pé do fugitivo.
— O próximo golpe será no peito.
Os bandidos reagiram em pânico. Kael e os outros dois jogaram de qualquer jeito os equipamentos roubados em sacos e dispararam para a floresta, as botas chutando terra e galhos, derrubando um cinto e um par de botas no processo. Urvo, porém, permaneceu, o punhal erguido em desafio.
— Vem buscar, cavaleiro! — gritou ele, avançando com um golpe desleixado.
Erro fatal.
Rayos desmontou com um movimento fluido, a armadura tilintando como um aviso. Sua espada girou em um arco perfeito, cortando o ar com precisão. Shunk. O bandido caiu, o punhal rolando na terra, a vida esvaindo-se de seus olhos antes que pudesse gritar.
Rayos não perdeu tempo. Ajoelhou-se ao lado das três jovens, cobrindo-as com mantas limpas tiradas de sua sela. Tocou o pescoço de uma delas — a de cabelos carmesins — e sentiu um pulso fraco, mas estável.
— Vivas — murmurou, os olhos cinzentos estreitando-se ao examinar uma fivela abandonada no chão, depois as botas. — Mas esses equipamentos... não são deste continente.
— Senhor! — chamou um soldado, apontando para as marcas de botas na terra. — Três fugiram, levando o resto.
Rayos se levantou, o rosto endurecido.
— Deixem-nos. As meninas são prioridades. — Ele olhou para o horizonte, onde o comboio do Duque Garazel Virellian aguardava. — Levem-nas para a carruagem. E informem o Duque que precisa saber disso.
A carruagem balançava suavemente pelas trilhas sinuosas do bosque. O som abafado dos cascos era filtrado pelas cortinas de linho que bloqueavam a luz do sol poente. O interior cheirava a couro envelhecido e a um leve perfume de flores silvestres, trazido pela brisa que escapava pelas frestas das janelas.
Três figuras femininas, cobertas por mantas pesadas, jaziam nos bancos acolchoados. Os corpos frágeis reagiam lentamente ao movimento da estrada.
A primeira a despertar foi a garota de cabelos ruivos. A cabeça latejava. O corpo parecia... estranho. Leve demais, pequeno demais. Os dedos trêmulos tocaram mechas longas e sedosas que caíam pelos ombros como fios de carmesim.
— Onde...? — murmurou, a voz aguda, quase melodiosa. Uma voz que definitivamente não era a sua.
Ela olhou para as mãos. Finas. Delicadas. E o coração acelerou como um tambor de guerra.
— Isso... não é meu corpo.
Ao lado, outra garota se mexeu. Os cabelos loiros e desgrenhados caíram sobre o rosto quando ela abriu os olhos. Sentou-se com um tranco, a manta escorregando até a cintura.
— Que diabos...? — A voz agora era leve, cristalina — e carregada de indignação. — Não. Não, não, não! Isso é um pesadelo!
No canto oposto da carruagem, a terceira garota despertou com uma calma quase antinatural. Seus olhos azul acinzentados varreram o ambiente antes de se voltarem para o próprio corpo. Os cabelos roxos, longos e lisos, brilhavam sob a luz tênue como um véu encantado. Ela ajustou a manta com precisão cirúrgica, como se já estivesse processando a situação.
— Fascinante — murmurou, com voz baixa, mas firme. — Uma transformação completa.
O silêncio que se seguiu era denso. As três se entreolharam. Não havia reconhecimento imediato. Apenas três estranhas, presas em corpos que não compreendiam... em um mundo que não fazia sentido.
A loira foi a primeira a romper o silêncio, apontando para a ruiva com um dedo trêmulo:
— Você! Quem é você? E por que eu tô... assim?! — Ela gesticulou para o próprio corpo, a manta quase caindo. — Eu sou Máximo! Não essa... garotinha loira!
A ruiva piscou. Fragmentos de lembrança — floresta, combate, luz, vazio — voltaram como flashes.
— Eu... eu sou Augustus — disse, ainda hesitante. — Mas você... esse jeito de reclamar... Máximo? É você?
A garota de cabelos roxos inclinou a cabeça, os olhos semicerrados.
— Essa indignação... me soa familiar. Máximo, você sempre foi teatral. — Ela tocou o próprio rosto, como quem analisa um artefato raro. — E eu sou Jasper. Ou... era.
Máximo arregalou os olhos, encarando Augustus — ou melhor, a ruiva — e depois a roxa.
— Jasper?! Você tá... roxa! E eu... — olhou para as mãos novamente, depois para o reflexo opaco na lateral de madeira envernizada. — Meu Deus, eu virei uma princesinha de conto de fadas!
Augustus não conseguiu conter uma risada curta, mesmo diante do absurdo.
— Você tá igualzinha à sua filha quando briga com você. E esse cabelo loiro bagunçado... combina com o seu temperamento.
Jasper ergueu uma sobrancelha, com um leve sorriso.
— E você, Augustus, com esse cabelo carmesim... parece pronta pra virar heroína de lenda.
O riso que seguiu foi nervoso, quase histérico — mas necessário. Naquele momento de confusão, o som familiar das risadas compartilhadas era o fio que os mantinha ancorados à própria identidade. Eles trocaram histórias rápidas, relembrando momentos do mundo antigo para confirmar que eram, de fato, os mesmos amigos, agora em formas irreconhecíveis.
Augustus respirou fundo, tentando ajustar os ombros sob a manta. Mesmo sendo outros, ainda eram eles.
— Se vamos sobreviver aqui, precisamos nos adaptar. Nossos nomes antigos... Augustus, Máximo, Jasper... vão chamar atenção. Precisamos de algo que combine com este lugar.
Máximo bufou, cruzando os braços — agora esguios.
— Então agora sou uma donzela? Isso é humilhante.
Jasper a olhou com serenidade.
— Não é humilhante. É estratégico. Eu escolho Joayne. É um nome que já usei em jogos. Misterioso, prático. Funciona.
Augustus assentiu, o olhar perdido por um instante.
— Eu sou Sayuri. Esse nome sempre esteve comigo... usei em RPGs, contos. É suave, mas firme. Como uma lâmina que corta o vento.
Os olhos se voltaram para Máximo, que hesitou. Depois, cedeu.
— Tá. Se é pra entrar na brincadeira... Clarice. É o nome da minha filha. — A voz falhou um pouco, mas ela prosseguiu. — Pelo menos assim... ela tá comigo.
— Sayuri, Clarice, Joayne — repetiu Joayne, como quem sela um pacto. — Três estranhas num mundo desconhecido. Mas ainda somos nós. E isso... é o que nos mantém vivas.
A carruagem estremeceu e parou.
O som de botas pesadas no solo veio logo depois. A porta se abriu com precisão marcial.
Diante delas surgiu um homem de armadura prateada polida, ornada com detalhes florais dourados. A capa azul-escura ondulava suavemente. Seus olhos cinzentos — frios, calculistas, mas não cruéis — avaliaram as três garotas com precisão de estrategista.
— Vejo que estão acordadas — disse, direto. — Podem me informar seus nomes?
Sayuri, ainda se ajustando à própria voz, respondeu com firmeza contida:
— Sayuri.
— Clarice — disse a loira, com um tom de desafio.
— Joayne — completou a de cabelo roxo, com serenidade quase nobre.
O homem não demonstrou surpresa, mas uma sobrancelha arqueou levemente.
— Fomos alertados sobre a presença de bandidos na floresta. Encontramos vocês desacordadas. Seus pertences foram levados. Estão sob a proteção do Reino de Redrose agora. Rumo ao Ducado de Violet, sob o comando do Duque Garazel Virellian.
Sayuri trocou olhares com Clarice e Joayne. Os nomes soavam estranhos... mas ecoavam como o início de algo maior. Um novo mundo se abria à frente. E nelas, uma certeza nascia junto ao medo: elas não estavam mais no mundo de onde vieram. Mas continuavam juntas. E isso teria que bastar — por enquanto.