O sol erguia-se preguiçoso sobre os telhados de pedra branca do recém-rebatizado Ducado de Greanleaf. A luz dourada do amanhecer tingia os muros com reflexos de âmbar e mel, como se o próprio céu tentasse lavar as máculas que ainda persistiam no ar. As trepadeiras de rosas, antes sufocadas sob a opulência sufocante de Garazel, agora cresciam com mais liberdade — seus galhos serpenteavam pelas colunas, suas flores pulsando suavemente à noite, como se guardassem sonhos silenciosos.
No interior da mansão, o mundo também se reorganizava. Ainda havia ecos — memórias veladas nos cantos escuros, manchas que nem a luz nem o tempo sabiam apagar por completo. Mas havia também algo novo: um cheiro leve de pão recém-assado, o ranger vivo do piso sendo restaurado, vozes em tom mais calmo. O silêncio deixava de ser opressivo e começava a parecer... descanso.
No quarto modesto, as três dividiam um espaço simples, mas sóbrio. As camas de madeira alinhadas sob a janela traziam o frescor da manhã e o perfume das rosas do jardim. As colchas de linho cru estavam sempre bem estendidas — não por etiqueta, mas por necessidade. O lugar era pequeno, mas seguro. E para elas, segurança era o bem mais precioso.
Sayuri foi a primeira a despertar naquela manhã. Sentou-se devagar, os longos cabelos carmesins escorrendo pelos ombros como seda viva. O reflexo no espelho ainda a surpreendia. Os olhos verdes — nítidos, vibrantes, quase luminosos — pertenciam a um rosto jovem, delicado. Mas por trás daquele olhar repousava a mente metódica de Augustus, o estrategista. A dissonância entre mente e corpo era constante, mas não mais paralisante. Ela se vestia devagar, ajustando a túnica cinzenta, sentindo os músculos ainda doloridos das feridas recentes.
— Acho que estou começando a me acostumar... — murmurou para si mesma, ajustando o cinto de couro que segurava a túnica cinzenta.
Clarice resmungou em meio aos lençóis, jogando um braço por cima dos olhos.
— “Acostumar”? — disse, a voz ainda arranhada pelo sono. — Você diz isso como se fosse simples. Tente levantar uma cadeira sem sentir que vai deslocar o pulso... ou sentar sem esmagar seu próprio vestido.
Ela se sentou, os cabelos loiros curtos desalinhados como uma juba rebelde. Tentava, com esforço frustrado, prender as mechas com um cordão de couro improvisado.
— Eu me sinto uma boneca de porcelana tentando fingir que sou uma bigorna.
Joayne, sentada à beira da cama com a habitual compostura, penteava seus cabelos roxos com movimentos calmos. Seu olhar azul acinzentado passeava pela cena como se calculasse algo invisível. Havia uma serenidade quase sobrenatural nela — uma aceitação que não vinha da resignação, mas da análise constante.
— Não é o corpo que é o problema — disse, com voz baixa. — É a programação. Vocês estão tentando rodar o sistema antigo em hardware novo.
Clarice soltou uma gargalhada, cruzando os braços.
— Você falando faz parecer que somos máquinas.
Joayne ergueu os olhos, um leve sorriso nos lábios.
— Não somos? Com variáveis novas, funções diferentes... e muitos bugs a corrigir.
Clarice bufou.
— O único bug aqui é essa porcaria de altura. Eu me sinto do tamanho de uma adolescente que briga por glitter na escola.
Sayuri se aproximou, e juntas ajustaram o cordão que prendia o cabelo de Clarice. O gesto foi rápido, quase casual, mas carregado de companheirismo.
— Não somos quem éramos — disse Sayuri, em tom mais sério. — Mas talvez possamos ser algo... novo. Algo melhor.
O silêncio que se instalou não era desconfortável. Era um pacto implícito. Três almas deslocadas, tentando entender seus novos contornos num mundo que não lhes pertencia. Ainda não. Elas conversaram mais um pouco sobre planos para o dia, reforçando sua unidade.
Mas ali, entre cortinas desbotadas, lençóis ásperos e o perfume doce das rosas ao amanhecer, algo crescia. Não era exatamente esperança — era mais como a raiz de uma flor selvagem: silenciosa, teimosa e impossível de ignorar.
Naquela mesma noite, enquanto o vento noturno soprava pelas janelas do corredor, Sayuri percebeu a ausência de Clarice. A cama dela estava vazia, os lençóis bagunçados, a porta entreaberta. Um pressentimento silencioso tomou forma em seu peito.
Seguindo os passos silenciosos pela ala menos usada da mansão, ela encontrou Clarice sentada no chão frio de uma sala de estocagem abandonada, entre caixotes e mantas empoeiradas. O vestido amarelo estava amassado, as pernas recolhidas contra o peito, e os ombros tremiam em silêncio.
Clarice chorava.
Não como uma criança assustada, nem como uma mulher assustada — mas como alguém que aguentou demais, por tempo demais. As lágrimas escorriam pelo rosto com violência contida, como se cada uma arrancasse um pedaço de um muro invisível que havia sido mantido erguido à força.
Sayuri não disse nada. Apenas se aproximou devagar e se sentou ao lado dela.
Clarice levou alguns segundos para perceber. Quando notou, tentou virar o rosto, envergonhada.
— Me... me deixa sozinha — murmurou, entre soluços.
— Não — respondeu Sayuri, suave. — Máximo nunca deixaria você sozinha.
Clarice tremeu, e então quebrou de vez. Cobriu o rosto com as mãos pequenas, agora frágeis, agora indefesas. A fortaleza desabava.
— Eu... — a voz dela falhava. — Eu era o escudo de vocês... Sempre fui. Eu segurava tudo. O medo. A dor. A dúvida. Mas agora... olha pra mim! — Ela se encolheu mais. — Eu nem consigo abrir um pote sem chorar de raiva. Eu odeio isso. Odeio me sentir... pequena. E sinto falta da minha filha. Do cheiro dela. Da risada...
Sayuri a envolveu em um abraço lento, firme, deixando que as lágrimas molhassem seu ombro.
Joayne chegou logo depois, silenciosa como sempre, mas com os olhos marejados. Sentou-se ao lado oposto, passando a mão devagar pelos cabelos revoltos de Clarice, sem dizer nada.
E ali, entre pó, caixas e uma dor que não cabia em palavras, as três se reconectaram. Não como guerreiras, não como sobreviventes — mas como amigas. Como uma família que se recusa a deixar qualquer uma cair sem ser amparada. Elas ficaram assim por horas, compartilhando memórias do mundo antigo para aliviar a dor.
Sayuri falou por fim, com voz firme, mas cheia de ternura:
— Máximo era uma fortaleza. Mas Clarice... você é o coração. E não existe fortaleza que fique de pé sem ele.
Clarice chorou mais um pouco. Depois sorriu. Um sorriso pequeno, machucado. Mas verdadeiro.
E assim, entre lágrimas e laços, nasceu algo mais forte que qualquer aço: pertencimento.
Seis Meses Depois: Encontrando Lugar
Seis meses se passaram desde aquela noite em que Clarice chorou pela primeira vez e Sayuri e Joayne a seguraram em silêncio. Desde então, muita coisa havia mudado — no Ducado, e dentro delas.
O Ducado de Greanleaf florescia sob o comando firme e justo de Lorde Rayos. Os impostos, antes desviados por Garazel, agora voltavam em forma de pontes restauradas, mercados vivos e moinhos reativados. As ruas, antes silenciosas e tensas, eram tomadas pelo burburinho dos mercadores, risos de crianças e o ranger constante das carroças. A terra que um dia servira a um tirano agora dava os primeiros sinais de se tornar um lar verdadeiro, com vilarejos prosperando e festas comunitárias.
E no centro dessa mudança estavam três jovens que o mundo ainda tentava entender — mas que Greanleaf começava a reconhecer como indispensáveis.
Sayuri encontrara seu lugar entre pergaminhos e livros esquecidos. A biblioteca da mansão, antes tratada como peça decorativa por Garazel, agora era um santuário vivo de conhecimento. A mente lógica de Augustus — metódica, obsessiva por ordem — adaptou-se perfeitamente àquela torre de saber negligenciada. Mapas antigos, tratados de alquimia, crônicas empoeiradas de reinos extintos... tudo era cuidadosamente estudado, catalogado, restaurado.
Era ali, entre páginas e silêncio, que Sayuri se reconstruía. Ela passava horas traçando conexões entre textos, imaginando como a magia de Garden poderia se entrelaçar com a ciência do mundo antigo.
Certa tarde, ao reorganizar um tomo sobre magia rúnica, ela parou diante de um diagrama estranho — linhas entrelaçadas, símbolos que lembravam comandos em uma linguagem de programação primitiva. Franziu o cenho, os dedos traçando os símbolos lentamente.
— Isso... parece lógica binária. Mas é escrita mágica? — sussurrou, fascinada.
A magia de Garden não era aleatória, ela começava a perceber. Era estrutura. Era fluxo. Era código. Só que de uma linguagem que ela ainda não conhecia. Ela anotava ideias furiosamente, sonhando com experimentos futuros.
Lorde Rayos a encontrou ali, dias depois, com olhos famintos de curiosidade e as mãos sujas de tinta e pó.
— Você lê como quem tenta decifrar o destino — comentou ele, encostado no batente.
Sayuri sorriu, tímida.
— Talvez esteja. Ou talvez eu só queira entender como esse mundo funciona.
Rayos entrou, cruzando os braços.
— Você e suas amigas têm algo... diferente. Vocês enxergam padrões que nós ignoramos. Não é só inteligência. É perspectiva.
Sayuri guardou esse comentário como quem arquiva um segredo importante. Rayos era leal — mas também um estrategista. E estrategistas sempre jogam o jogo de longo prazo.
Clarice dominava a forja com o mesmo ímpeto com que um dia dominara o campo de batalha — mas agora, com mãos menores, nervos expostos, e a frustração como martelo.
Os ferreiros do ducado a olhavam primeiro com desconfiança, depois com respeito. Ela apontava falhas nos fornos, otimizava fluxos de calor, sugeria técnicas de resfriamento com base em princípios químicos que ninguém ali sabia nomear — mas que funcionavam. Ela explicava pacientemente, desenhando diagramas na poeira.
— Vocês estão perdendo temperatura com excesso de ar — disse certa vez, agachada diante do braseiro. — Cinzas de carvalho. Elas seguram o calor e reduzem a perda.
Dren, o mestre ferreiro, arqueou as sobrancelhas. Um homem com barba espessa e mãos como blocos de pedra, ele não era dado a elogios. Mas naquele dia, limpou o suor e murmurou:
— Você tem olhos de quem já queimou os dedos muitas vezes.
Clarice sorriu de canto.
— Digamos que... aprendi do jeito difícil.
Mesmo assim, havia dias em que a lembrança de Máximo pesava. Quando sua força falhava no meio de uma moldagem, quando seus braços não aguentavam mais que poucas marteladas, ela se afastava da bigorna e encarava o chão, lutando contra lágrimas de frustração.
Joayne sempre aparecia nesses momentos. Silenciosa, paciente. Pegava o martelo do chão e devolvia com delicadeza.
— Você não é fraca. Só está usando o tipo errado de força.
Clarice bufava, mas, no fundo, sabia que ela tinha razão.
Começou a adaptar sua técnica: menos impacto, mais precisão. Estudava o ponto de equilíbrio de cada lâmina, o tempo exato de resfriamento, a flexão do aço. Quando finalmente entregou sua primeira espada perfeitamente balanceada a Dren, e ele a segurou com um simples “boa lâmina”, Clarice quase chorou de novo.
Mas dessa vez... foi de alívio. Ela celebrava com as amigas, compartilhando a vitória como um marco pessoal.
Joayne transformara a mansão inteira em um sistema de engrenagens ocultas.
Durante os primeiros meses, andava pelos corredores com passos leves, olhos atentos, ouvidos abertos. Cada ponto cego, cada entrada lateral, cada padrão de ronda dos guardas — tudo era registrado mentalmente, depois em pequenos mapas escondidos entre seus pertences.
Ela não falava muito. Mas quando falava, todos ouviam.
— Se alguém quiser invadir esta mansão, saberemos com antecedência. E saberemos por onde eles vêm — disse certa vez, estendendo um desenho que detalhava a entrada secreta escondida sob a adega.
Mas sua maior luta era íntima.
Joayne sabia pensar como engenheira, agir como estrategista. Mas seu corpo agora era ágil, delicado, feito para dançar mais do que lutar. Cada tentativa de empunhar uma faca parecia um lembrete de que ela não era mais Jasper — ao menos não por completo.
— É como tentar dirigir uma carruagem com rédeas novas — confessou uma noite, observando as estrelas pela janela.
Sayuri, sentada ao lado, respondeu com doçura:
— Então construa suas próprias rédeas. Você sempre foi boa em consertar o que parecia quebrado.
E foi o que ela fez.
Joayne adaptou seus arcos, criou alvos móveis, ajustou flechas de treino ao seu novo alcance. Quando, semanas depois, acertou três alvos a cinquenta passos com olhos semicerrados, soube que o corpo que habitava não era mais um obstáculo — era uma nova arma. Ela treinava diariamente, incorporando meditação para afiar a mente.
E assim, entre livros, martelos e flechas, as três continuavam a crescer. Suas identidades se fundiam à paisagem. Os vilarejos ao redor aprendiam seus nomes. E dentro da mansão de Greanleaf, onde antes só havia controle e silêncio, agora ecoavam vozes que moldavam o futuro.
A fortaleza não era mais feita apenas de pedra. Era feita de gente. De vínculo. De pertencimento.
Um Ano Depois: Laços que se Formam
O tempo passou como as estações — silencioso, inevitável, mas cheio de pequenas revoluções.
Um ano depois, a mansão de Greanleaf — o que um dia fora a mansão do Duque Garazel — agora respirava como um lar. Cada corredor havia sido lavado com o esforço de novas memórias, e cada parede parecia guardar risos e discussões sussurradas, em vez de promessas vazias e ordens afiadas.
As três — Sayuri, Clarice e Joayne — já não se viam como forasteiras. Não por completo. Ainda havia ecos de outro mundo nas noites mais longas, e sonhos estranhos com máquinas e vozes metálicas, mas o presente agora pesava mais do que o passado. Elas participavam de festas locais, ajudavam em colheitas e até ensinavam crianças básicas de defesa.
Lorde Rayos não era um homem fácil. Nunca havia sido.
Mas o tempo também o mudara — ou talvez tivesse revelado um lado que nem ele conhecia. Seu novo gibão de couro, ornamentado com detalhes dourados, ainda escondia malha de proteção nos ombros, e sua espada permanecia sempre ao alcance.
— Me sinto inquieto sem ela — disse certa vez, quando Clarice perguntou por que ele ainda carregava a lâmina dentro da própria casa.
Não era só teimosia. Era princípio.
Rayos passara a observar as três com um tipo de respeito silencioso. Vigiava, sim. Avaliava, sempre. Mas agora havia um brilho diferente em seus olhos cinzentos — algo entre admiração e um senso de responsabilidade difícil de nomear.
Numa noite de inverno, enquanto a lareira do salão principal estalava em brasas e o cheiro de chá e lenha aquecia o ar, ele finalmente disse em voz alta o que vinha guardando há meses.
— Vocês não são servas. Não são hóspedes. São... algo mais.
Sayuri, sentada próxima à lareira com um tomo sobre geopolítica de Garden no colo, ergueu os olhos.
— Algo mais... como o quê, exatamente?
Rayos não respondeu de imediato. Observou as chamas por um momento, como se buscasse as palavras dentro do fogo.
— Não sei. Mas sei que Greanleaf precisa de vocês. E eu... confio em vocês.
Clarice, recostada em uma cadeira com os pés sobre um banco, arqueou uma sobrancelha.
— Confia, é? Então por que sempre parece que tá esperando a gente fazer besteira?
Rayos riu — e o som foi tão raro quanto surpreendente. Um som seco, como pedra se partindo ao meio, mas ainda assim... honesto.
— Porque sei que vocês são perigosas. Não por malícia. Mas por serem diferentes. E o diferente sempre muda tudo.
Joayne, sentada em silêncio com uma caneca de chá, encarou Rayos com olhos afiados.
— Então nos deixe mudar o que precisa ser mudado.
E assim foi.
Rayos começou a incluir as três em decisões administrativas. Sayuri passou a revisar registros de impostos e sugerir métodos de organização inspirados em sistemas de gestão. Clarice ajudava ferreiros, carpinteiros e mestres de obra com soluções práticas para reforçar defesas, pontes e ferramentas. Joayne, por sua vez, redesenhou rotas de patrulha e fortaleceu as defesas da mansão com base em lógica e eficiência — coisas que os soldados locais demoraram a aceitar, mas acabaram por admirar.
Não foram só Rayos e os soldados que mudaram.
Os servos da mansão, antes esmagados sob o medo de Garazel, encontravam aos poucos seu próprio fôlego. E no centro disso, estavam as três forasteiras de rostos jovens e passados incompreensíveis.
Lira, a guarda veterana de rosto bronzeado e cicatrizes discretas, tornara-se uma espécie de sombra de Sayuri. A acompanhava em patrulhas esporádicas, partilhava histórias de escaramuças na fronteira com Bluerose e dava conselhos em voz baixa nos momentos certos.
— Sabe o que faz uma boa comandante? — perguntou certa vez, enquanto observavam o treinamento de jovens recrutas.
— Tática? — respondeu Sayuri.
Lira negou com a cabeça.
— Ouve quem não pode gritar. E protege até quem não gosta dela.
Sayuri nunca esqueceu essas palavras, aplicando-as em interações diárias.
Torren, o cozinheiro, era um velho ranzinza com mãos de poeta e senso de humor afiado. E por algum milagre do destino, adotara Clarice como aprendiz informal. Ela, com seu temperamento explosivo e ideias inusitadas sobre fornos e ligas metálicas, causava caos na cozinha — mas também inspirava melhorias que ele fingia odiar.
— Se você ferrar com o pão de cevada de novo, Clarice, eu te coloco pra amassar massa com os pés — resmungava, mesmo enquanto usava suas sugestões.
Gavren, o guarda mais jovem, acompanhava Joayne com olhos que tentavam parecer profissionais — mas falhavam miseravelmente. Ele claramente nutria uma admiração silenciosa por ela, embora Joayne o mantivesse a uma distância segura com sua calma impenetrável e respostas cortantes.
— Você me trata como uma ameaça — comentou ele uma vez, após uma troca de turnos.
Joayne olhou por cima do ombro.
— Não. Eu trato você como uma variável instável. Ameaças são mais previsíveis.
Ele corou até as orelhas.
Numa noite de primavera, após mais um dia de trabalho, a cozinha virou improvisadamente uma taverna.
Servos, soldados e as três garotas se reuniram em torno de mesas simples, com canecas de cerveja artesanal, pão quente e carne defumada. A atmosfera era leve, quase despreocupada — um raro momento onde risos não vinham com o peso de máscaras.
Lira ergueu sua caneca.
— Às garotas que apareceram do nada... e fizeram esse lugar respirar de novo.
— “Do nada” — murmurou Joayne, meio rindo. — Acho que é o melhor resumo que já ouvi sobre nós.
As três brindaram. Sayuri sorria. Clarice resmungava que o pão estava seco. Joayne observava tudo como se gravasse aquela cena na memória para nunca esquecer. Histórias foram compartilhadas, laços fortalecidos.
Pela primeira vez, sentiram que perteneciam.
Não porque o mundo as aceitara. Mas porque tinham conquistado o espaço que ocupavam — um gesto, uma decisão, uma martelada por vez.
Silêncio nas Sombras
Na entrada da cozinha, oculto na penumbra de um corredor lateral, Rayos observava sem ser visto.
Não que estivesse espionando — isso não era do seu feitio. Apenas passava em direção aos alojamentos quando os sons da comemoração o fizeram parar. E ali ficou, imóvel, ouvindo as vozes e risadas que se entrelaçavam como uma música que ele não sabia que precisava escutar.
Viu Sayuri sorrir com os olhos, Clarice provocando Torren enquanto limpava a boca com o dorso da mão, e Joayne — sempre composta — permitindo-se relaxar por um instante.
E algo dentro dele se aqueceu, como uma brasa antiga que ainda sabia como arder.
Não disse nada. Não fez nenhum gesto. Apenas se virou e seguiu em silêncio pelos corredores de pedra, o som dos passos abafado por pensamentos.
Mas, pela primeira vez em muito tempo, caminhava com um leve sorriso no rosto.
Um que ninguém veria.
E que ninguém precisava ver.
Dois Anos Depois: Um Novo Equilíbrio
Duas primaveras se passaram desde a noite em que foram resgatadas do bosque — frágeis, perdidas e irreconhecíveis até para si mesmas.
Agora, o Solar de Greanleaf — o que um dia fora a mansão do Duque Garazel — era seu lar. Um espaço onde seus nomes tinham peso, suas vozes tinham lugar e suas decisões moldavam o cotidiano.
O jardim que antes pulsava com rosas encantadas demais para serem belas agora florescia com espécies reais, vivas e cuidadas. O solo antes pisado por intrigas agora colhia alimento, ervas e flores medicinais. Até o ar parecia ter mudado, mais fresco e cheio de possibilidades.
Sayuri, Clarice e Joayne haviam deixado de ser apenas sobreviventes.
Eram parte de algo maior, contribuindo para o ducado como conselheiras informais.
Nos fundos da propriedade, um antigo celeiro fora transformado em um dojo improvisado. Paredes de madeira remendada, estacas de treinamento, armas de madeira e arcos feitos à mão. Nada nobre, nada refinado — mas real. Útil. Vivo.
Lá, após as tarefas diárias, as três treinavam em silêncio, suavam juntas, corrigiam os erros umas das outras. Não para recuperar o que perderam — mas para reconstruir com o que tinham.
Clarice, agora com músculos mais definidos e postura mais equilibrada, alternava entre martelo e espada curta. Aprendera a usar sua nova agilidade como arma, a substituir brutalidade por precisão.
Joayne, de arco novo feito sob medida e adagas duplas escondidas sob o vestido de treino, era uma sombra letal. Seus tiros nunca erravam. Seus passos não faziam som.
Sayuri, de cabelos carmesim amarrados firmemente em um rabo de cavalo, havia se tornado fluida como uma dança marcial. Sua espada longa de treino cortava o ar com elegância e eficácia, como uma extensão do próprio pensamento tático.
Rayos às vezes observava em silêncio, à distância.
E, vez ou outra, entrava no círculo com espada em punho.
— Vocês estão melhores. Mas não esqueçam: este mundo sempre testa quem acredita ter encontrado equilíbrio. Lutem para manter os pés firmes... mas os olhos atentos.
Durante os dias, o ritmo da mansão era constante, mas nunca monótono.
Sayuri passava horas na biblioteca, agora revitalizada e com novos volumes enviados por estudiosos de Redrose e Bluerose. Tratados de política, livros antigos sobre magia, mapas arcanos. Havia um em especial que ela relia com fascínio: Crônicas de Garden e suas Origens.
A mitologia do continente a encantava — os deuses Rhea e Morpheus, a guerra primordial, as armas da alma, os fundadores das cinco nações. Era como se parte daquele poder ainda pulsasse embaixo da terra. Ela não dizia em voz alta, mas sentia que aquilo tinha relação com a forma como haviam sido trazidas ali. Ela discutia teorias com Joayne, especulando sobre portais dimensionais.
Clarice aprimorava sua técnica na forja. Já criava pequenas armas, ferramentas de precisão, sistemas de alavanca e rudimentares aquecedores para o inverno. Conversava com os artesãos locais como iguais, mesmo que ainda se irritasse com a lentidão deles.
— Isso não é só aço. É equilíbrio. Temperatura. Paciência — dizia ela, martelando uma peça que parecia tão delicada quanto ela própria.
Joayne continuava seu mapeamento da mansão, agora estendido à vila vizinha. Mantinha uma cópia de cada plano em pergaminho escondido embaixo do colchão, com pontos de fuga, rotas de emergência e notas sobre possíveis aliados.
— Não é paranoia — dizia. — É cautela sistematizada.
Às vezes, ainda sonhavam com o mundo que deixaram. Com o céu de concreto, os barulhos artificiais, a lógica previsível da tecnologia. Mas os sonhos vinham com menos frequência. E doíam menos.
— Sabe — comentou Clarice uma noite, enquanto limpavam as espadas de treino sob a luz suave da lareira. — Já não sonho tanto com casa.
— Eu também — disse Sayuri. — No começo, pensava nisso toda noite. Agora... às vezes passo dias sem lembrar do nosso mundo.
Joayne ficou em silêncio por um momento. Depois, ajeitou a corda de seu arco.
— Vocês acham que isso é bom ou ruim?
Sayuri pensou antes de responder.
— Acho que é... natural. Somos adaptáveis. Sempre fomos.
— Mas não podemos esquecer quem éramos — retrucou Clarice. — Ou vamos acabar nos perdendo de verdade.
— Então encontramos um equilíbrio — concluiu Joayne, com um meio sorriso. — Honramos o passado. Vivemos o presente.
E, naquele instante, elas sabiam: estavam prontas para o que viesse.
Certa manhã de primavera, enquanto o aroma de pão fresco invadia os corredores, Rayos entrou na sala de jantar com um pergaminho selado.
Ele parecia mais sério que o normal — o que, vindo dele, era sinal de algo grande.
— A Academia Real enviou uma solicitação — disse, colocando o pergaminho sobre a mesa. — Querem candidatos para o próximo ciclo de formação.
— Academia Real? — perguntou Sayuri, já com os olhos brilhando de interesse.
Rayos assentiu.
— É onde se formam os futuros líderes militares e diplomáticos de Redrose. Lá também se ensinam os fundamentos das artes mágicas.
Clarice cruzou os braços.
— E você vai indicar alguém?
— Vários dos meus soldados estão preparados — disse ele. Fez uma pausa. Os olhos pararam em cada uma delas, como se pesassem algo que não podia ser dito.
— Mas... — disse Joayne, cortando o silêncio.
Rayos desviou o olhar.
— Nada. Apenas... pensando em possibilidades.
Naquela noite, Sayuri ficou acordada, sentada no parapeito da janela.
O céu estrelado parecia mais vasto que nunca. Mas pela primeira vez... ela não sentia que estava fora de lugar ali.
Greanleaf era sua casa agora.
Mas talvez estivesse na hora de dar o próximo passo.
Numa manhã ensolarada de primavera, dois anos depois de sua chegada, Sayuri, Clarice e Joayne voltavam da feira da cidade carregando cestos com ervas, pão fresco e mantimentos. O ar estava perfumado com o aroma das flores silvestres, e o sol filtrava através das folhas verdes das árvores que ladeavam o caminho.
Ao passar pelo pátio de treino da guarnição local, ouviram assovios e risadas vindas do campo de exercícios.
— Ei, as meninas precisam de cavaleiros para carregar as compras? — brincou um soldado ruivo, girando uma lança nos dedos com desenvoltura.
Mais risadas ecoaram pelo pátio. Não havia malícia real na provocação, apenas a arrogância militar típica — homens jovens tentando impressionar uns aos outros.
Sayuri parou e apenas sorriu.
— Na verdade... acho que estamos em vantagem aqui.
— Como assim? — perguntou o soldado, ainda rindo.
Clarice encostou o cesto no chão com um movimento deliberado.
— Se querem ajudar... podem começar com um duelo. Três contra um parece justo, não?
O pátio ficou mais silencioso. Outros soldados começaram a se aproximar, curiosos com o desenvolvimento da situação.
— Espere... o quê? — disse o soldado ruivo, a risada morrendo em seus lábios. — Vocês estão me desafiando...! Menininhas?
Joayne já estava amarrando o cabelo em um coque prático, avaliando as armas de treino disponíveis em busca de um arco.
— Dois toques limpos ou rendição. Só com armas de treino. — Ela inclinou a cabeça. — Está com medo?
O soldado olhou ao redor, percebendo que todos os olhos estavam sobre ele. Sua honra militar estava sendo desafiada publicamente por três criadas. Recusar seria impensável.
— Está bem — disse ele, pegando uma espada de treino de madeira. — Mas não venham chorar quando estiverem comendo poeira.
O círculo se formou rapidamente. Soldados deixaram seus exercícios para assistir ao espetáculo. Alguns apostavam discretamente, a maioria favorecendo o soldado.
— Qual é o nome do corajoso? — perguntou Sayuri, pegando uma espada longa de treino e testando o equilíbrio para uso com uma mão.
— Gareth — respondeu ele, assumindo uma posição de guarda. — E eu vou tentar não machucá-las muito.
Clarice havia encontrado uma espada larga de treino — não tão grande quanto estava acostumada, mas serviria.
— Que gentil — murmurou ela, testando como poderia usar a lâmina larga tanto para atacar quanto para defesa.
O duelo começou com Gareth tentando usar sua vantagem de alcance e força. Ele investiu contra Sayuri com um golpe descendente poderoso, esperando terminar o combate rapidamente.
Sayuri simplesmente não estava mais lá.
Ela havia se esquivado para o lado direito, sua espada longa posicionada para um contra-ataque rápido de uma mão. Antes que Gareth pudesse se recuperar, Clarice avançou com sua espada larga, usando a largura da lâmina para defletir sua tentativa de recuperação enquanto preparava um golpe lateral.
— Primeiro toque! — gritou Joayne, que havia encontrado uma lança de treino para compensar a falta de um arco, acertando uma cutilada limpa nas costelas de Gareth.
Murmúrios de surpresa correram pela multidão.
Gareth se recompôs, agora levando o duelo a sério. Ele tinha treinamento militar adequado e anos de experiência. Mas enfrentava três oponentes que se moviam como uma unidade única, cada uma adaptada ao seu estilo particular.
Sayuri dançava ao redor dele com sua espada longa, usando a agilidade e ataques rápidos de uma mão. Clarice pressionava com sua espada larga, usando a largura da lâmina para controlar o espaço e defender as outras. Joayne aproveitava cada abertura com precisão, usando sua lança improvisada para manter distância.
Em menos de um minuto, Gareth estava no chão, arfando, com uma espada longa, uma lâmina larga e uma ponta de lança apontadas para seu peito.
— Rendição — ofegou ele.
O pátio explodiu em aplausos e gritos de surpresa.
— Só sorte! — gritou outro soldado, um homem moreno e musculoso. — Quero minha chance!
— E eu também! — juntou-se um terceiro.
Em instantes, o duelo havia se transformado em um torneio improvisado. Soldados faziam fila para enfrentar as três misteriosas hóspedes que haviam humilhado um de seus companheiros.
O segundo oponente durou pouco mais que o primeiro. Joayne havia finalmente encontrado um arco de treino decente e o mantinha à distância enquanto Sayuri e Clarice trabalhavam em coordenação perfeita.
O terceiro tentou uma abordagem mais defensiva, mas Clarice simplesmente usou sua espada larga como uma barreira móvel, forçando-o a recuar até que Sayuri pudesse flanquear com sua agilidade superior.
— Minha vez! — declarou um veterano cicatrizado, empunhando uma espada de duas mãos de treino.
Sayuri enfrentou-o sozinha, usando sua espada longa numa dança mortal de esquivas e contra-ataques rápidos. O homem era claramente experiente, mas Sayuri havia passado dois anos aperfeiçoando sua técnica de uma mão. Ela dançou ao redor dele até que, exausto, ele ergueu a mão em rendição.
A comoção havia atraído a atenção de toda a guarnição. Soldados deixaram seus postos para assistir ao espetáculo inédito. Três jovens criadas estavam sistematicamente derrotando os melhores lutadores da unidade.
— O que está acontecendo aqui? — A voz grave cortou através da multidão.
Comandante Aldric, um homem de meia-idade com cicatrizes de batalha e uma reputação temível, abriu caminho entre os soldados. Sua expressão era uma mistura de curiosidade e irritação.
— Comandante! — Gareth se endireitou, ainda dolorido. — Estas... senhoras... nos desafiaram para duelos de treino.
— E? — Aldric olhou para as três, que estavam no centro do círculo, suadas mas ainda firmes. Ele notou os diferentes estilos — a espada longa de Sayuri, a lâmina larga de Clarice, o arco nas mãos de Joayne.
— E estão vencendo — admitiu Gareth relutantemente.
Aldric caminhou lentamente ao redor do círculo, examinando as armas de treino espalhadas e os soldados derrotados. Finalmente, parou diante de Sayuri.
— Você. Qual é seu nome?
— Sayuri, senhor.
— Sayuri... — ele repetiu, testando o nome. — Estilo interessante. Espada longa numa mão só. Não é comum por aqui.
— Adaptação, senhor.
— Óbvio. — Aldric pegou uma espada de treino, testando o peso. — Bem, se vocês estão tão confiantes, que tal enfrentar alguém com experiência real?
O pátio ficou em silêncio. Comandante Aldric era lenda viva — veterano e mestre de múltiplas armas, e instrutor de combate da Academia Real por cinco anos antes de assumir o comando da guarnição.
— Três contra um? — perguntou Clarice, ajustando o grip de sua espada larga.
— Claro — respondeu Aldric com um sorriso frio. — Vocês vão precisar da vantagem.
O combate contra Aldric foi diferente de todos os anteriores. O comandante não subestimou suas oponentes nem tentou terminar rapidamente. Ele as testou metodicamente, forçando-as a mostrar toda sua gama de habilidades.
Sayuri coordenava os ataques, usando sua mobilidade superior para criar aberturas. Clarice aplicava pressão constante, sua espada larga servindo tanto como arma quanto como barreira móvel. Joayne alternava entre o arco para ataques à distância e se aproximava quando necessário.
Por vários minutos, o duelo foi uma dança mortal de aço e estratégia. Aldric defendia com uma eficiência que falava de décadas de experiência, mas as três forçavam-no a trabalhar cada vez mais.
— Impressionante — murmurou ele durante uma pausa, limpando o suor da testa. — Vocês lutam como uma unidade, mas cada uma com um estilo completamente diferente. Quem as treinou?
— Nós nos adaptamos — respondeu Sayuri, recuperando o fôlego.
— Adaptação? — Aldric arqueou uma sobrancelha. — Esses estilos são muito específicos. Alguém com conhecimento real as orientou.
Antes que pudessem responder, um som familiar ecoou pelo pátio — cascos de cavalo se aproximando rapidamente.
Rayos apareceu nos portões montado em seu Destrier negro, com a expressão sombria de alguém que esperava encontrar suas protegidas sob ataque. Mas o que viu foi o oposto: três jovens triunfantes no centro de um círculo de soldados admirados.
— Lorde Rayos! — Aldric abaixou sua espada e se curvou. — Suas... hóspedes... estão proporcionando um espetáculo e tanto.
Rayos desmontou com um movimento fluido, seus olhos varrendo a cena. Soldados derrotados, armas de treino espalhadas, e no centro, três jovens que claramente haviam passado a tarde inteira lutando — cada uma com um estilo completamente distinto.
— O que está acontecendo aqui? — perguntou, sua voz carregada de autoridade.
Os soldados tentaram explicar entre risos e comentários admirados. Rayos ergueu a mão, e o silêncio caiu sobre o pátio como um manto.
— Vocês... — disse ele, dirigindo-se às três, — estão em forma.
— Sim, senhor — respondeu Sayuri, ainda segurando sua espada longa.
— Mas... — Rayos cruzou os braços, e um sorriso quase imperceptível tocou seus lábios. — Estão em forma o bastante para me enfrentar?
O pátio ficou em silêncio. Soldados que haviam passado a tarde sendo derrotados por três jovens criadas agora assistiriam a um duelo entre essas mesmas jovens e um dos espadachins mais respeitados do reino.
Sayuri olhou para as outras duas. Clarice ajustou o grip de sua espada larga. Joayne testou a tensão do arco.
— Com todo o respeito, senhor — disse Clarice, fazendo o pescoço estalar, — vamos ver o que esse título de Lorde faz no campo de batalha.
O combate contra Rayos foi como enfrentar uma tempestade controlada. Ele era uma muralha viva, cada golpe desviado com técnica pura, cada contra-ataque calculado para testar seus limites.
Sayuri tentava usar sua agilidade para encontrar aberturas, mas Rayos parecia prever cada movimento. Joayne buscava ângulos para seus disparos, mas ele sempre estava um passo à frente. Clarice tentava criar espaço com sua espada larga, mas ele absorvia a pressão e respondia com eficiência letal.
— Vocês estão pensando como indivíduos — disse ele durante o combate, deflectindo um ataque triplo com uma única parada. — Lutem como uma unidade!
Era uma lição disfarçada de duelo. Rayos as forçava a se coordenarem melhor, a usarem seus estilos únicos em harmonia, a funcionarem como uma única entidade de três especialistas.
Gradualmente, elas começaram a se sincronizar. Joayne criava pressão à distância, forçando movimento. Sayuri aproveitava as aberturas com sua mobilidade. Clarice controlava o espaço, sua lâmina larga servindo tanto como defesa quanto como canalizar os ataques das outras.
Rayos sorriu — um sorriso de orgulho genuíno.
— Agora vocês estão lutando — disse ele.
O duelo continuou por mais alguns minutos, mas estava claro que Rayos estava controlando o ritmo. Ele poderia ter terminado a qualquer momento, mas estava usando a oportunidade para ensinar.
Finalmente, ele parou seu golpe final a milímetros do pescoço de Sayuri.
— Vocês são como aço — disse ele, baixando a espada. — Raras... refinadas... cada uma forjada para um propósito específico, mas capazes de trabalhar em perfeita harmonia.
Ele se afastou, olhando todos os soldados ao redor. O pátio estava em silêncio, todos esperando suas próximas palavras.
— Eu já sei quem enviar à Academia Real representando este ducado.
O pátio explodiu em comemoração e aplausos.
Naquele momento, enquanto os soldados comemoravam e as parabenizavam, Sayuri, Clarice e Joayne compreenderam algo fundamental: já não eram apenas visitantes perdidas de um mundo distante.
Eram parte do povo do continente de Garden.
Tinham encontrado seu lugar neste mundo estranho, não como refugiadas ou displaced persons, mas como guerreiras, como cidadãs, como pessoas que haviam ganhado o respeito através de suas ações.
— Então — disse Rayos, aproximando-se delas enquanto a multidão gradualmente se dispersava, — acredito que temos preparações a fazer.
— Preparações? — perguntou Joayne, ainda segurando seu arco.
— A Academia Real não é brincadeira — explicou ele. — Vocês terão que enfrentar os melhores jovens talentos de todo o reino. Nobres treinados desde a infância, filhos de grandes casas militares, prodígios de todas as disciplinas. E lá vocês finalmente aprenderão sobre magia — algo que claramente precisam dominar.
— E vocês acham que damos conta? — perguntou Clarice.
Rayos olhou para cada uma delas, então para o pátio onde uma dúzia de soldados experientes ainda se recuperavam da surra que haviam levado.
— Acho que vocês vão surpreender muita gente — respondeu ele. — Mas primeiro, precisamos trabalhar em alguns detalhes. A Academia não é só sobre habilidade de combate. Vocês vão precisar de conhecimento sobre história, política, estratégia, diplomacia... e principalmente, teoria mágica básica.
— Bom — disse Sayuri com um sorriso, — pelo menos a biblioteca vai ser útil.
— Mais útil do que vocês imaginam — concordou Rayos. — Porque a partir de agora, vocês não são mais apenas criadas sob minha proteção. São candidatas à Academia Real. E isso muda tudo.
Enquanto caminhavam de volta ao solar, carregando seus cestos esquecidos, as três refletiram sobre a jornada que haviam percorrido. De executivos modernos perdidos em um mundo fantástico a guerreiras respeitadas prestes a ingressar na instituição militar mais prestigiosa do reino.
Não era o que haviam planejado quando acordaram naquela manhã dois anos atrás. Mas talvez fosse exatamente o que precisavam.
— Sabe — disse Clarice, ajeitando o cesto no braço, — acho que vou sentir falta da vida simples.
— Vida simples? — riu Joayne. — Você acabou de usar uma espada como escudo e arma ao mesmo tempo para derrotar meio exército numa tarde.
— Exato — sorriu Clarice. — Simples.
E pela primeira vez desde que haviam chegado ao continente de Garden, todas as três riram com alegria genuína — não com o desespero histérico daqueles primeiros dias, mas com a satisfação de quem finalmente encontrou seu lugar no mundo.
Mais tarde, Lorde Rayos as chamou para seu escritório para uma conversa reservada sobre a Academia.
— Sabem... Eu já fui para a Academia no passado — começou ele, servindo vinho para si mesmo. — E fui muito mais velho que vocês. Fui indicado por um dos grandes nobres do reino... e mesmo assim quase fui esmagado pela pressão política que havia lá.
Sayuri o encarou com curiosidade.
— O que exatamente é essa Academia?
Rayos apoiou-se sobre a mesa.
— Mais do que um centro de treinamento militar e mágico, é onde se formam os nobres de alto escalão não só de Redrose, mas também de Bluerose. Vocês ainda podem encontrar por lá jovens de Marguerite, Thulipe e até Lyria. Não é apenas um campo de treino físico... é um campo de batalha político. Fortalece alianças entre futuros herdeiros... ou destrói outras. E mandar vocês apenas como indicadas... colocaria uma pressão imensa sobre seus ombros.
Ele então lançou sobre a mesa três rolos de pergaminho selados.
— Por isso preparei isto.
Sayuri se adiantou e abriu um dos documentos, franzindo o cenho.
— Isso... São registros de família?
— São certidões de nascimento — respondeu Rayos com calma. — Que fazem de vocês minhas filhas legítimas.
Clarice arregalou os olhos.
— Isso é adoção?
— Seria pior se fosse. Legalmente, não são apenas adotadas. São minhas filhas legítimas, de sangue — explicou Rayos, e deu de ombros. — Cobrei alguns favores na capital. Documentação oficial, sem margem para dúvidas.
Joayne cruzou os braços, séria.
— Pra você está tudo bem isso?
Rayos soltou um leve sorriso.
— Nada poderia me deixar mais feliz do que ganhar três filhas talentosas... Mesmo que apenas no papel.
As três pediram tempo para pensar. Conversaram longamente naquela noite. Avaliaram os riscos, a conveniência... e a verdade. Rayos havia sido mais que um protetor. Era um pilar, alguém que confiava nelas não como peças, mas como pessoas. Elas discutiram os prós e contras, compartilhando medos e esperanças.
Quando voltaram, as três assinaram os documentos.
Aceitaram o nome Greanleaf.
Porque não havia demérito nisso. Havia orgulho.
E com isso, suas vidas mudaram de vez.
Mais tarde, na sala de estudos, Rayos revelou o que aquilo significava. A Academia formava os líderes do reino. Os melhores ganhavam liberdade e prestígio. Era uma aposta alta. Se falhassem, envergonhariam seu brasão. Mas ele confiava nelas.
O sol mal despontava sobre o Solar de Greanleaf quando Rayos Greanleaf, agora oficialmente pai de Sayuri, Clarice e Joayne de Greanleaf, reuniu-as na sala de estudos. A luz da manhã filtrava-se pelas janelas altas, iluminando as tapeçarias recém-trocadas com o brasão da casa de Greanleaf. Rayos, com sua armadura polida e um rolo de pergaminho selado com cera vermelha, parecia mais sério do que o habitual.
— Vocês já provaram seu valor aqui — disse ele, desenrolando o pergaminho. — Mas a Coroa tem olhos em todos os cantos. Eles querem nomes para a Academia Real de Gardemont. E eu... — Ele fez uma pausa, os olhos cinzentos avaliando as três. — Decidi jogar alto.
Sayuri, sentada com os braços cruzados, inclinou a cabeça.
— Academia Real. A tal escola de elite que você mencionou no pátio, né? Onde treinam os futuros heróis e generais?
— Exatamente — respondeu Rayos, depositando o pergaminho na mesa. — A Academia forja os líderes do reino. Cavaleiros, estrategistas, magos. Os dez melhores formandos recebem o título de excelência, que lhes dá liberdade para escolher seu caminho — sem os quatro anos de serviço obrigatório ao lorde que os indicou. Mas ainda mantêm um vínculo de lealdade.
Clarice, brincando com uma pena solta na mesa, ergueu uma sobrancelha.
— E se formos mal, isso mancha seu brasão novinho, não é?
Rayos deu um meio sorriso, algo raro.
— Exato. Enviar alguém fraco é assinar minha irrelevância. Mas vocês... — Ele fixou os olhos nas três, um brilho de confiança misturado com cautela. — Vocês são minhas cartas mais estranhas. E, talvez, as mais valiosas.
Joayne, que folheava um livro de mapas na biblioteca, fechou-o com um estalo.
— Então é uma aposta. E se perdermos, voltamos pra cá pra sobreviver pelo resto da vida?
— Não vão perder — disse Rayos, com uma firmeza que não admitia réplica. — Vocês já enfrentaram mercenários, nobres corruptos e a si mesmas. A Academia é só o próximo campo de batalha.
Sayuri se levantou, os cabelos carmesim brilhando sob a luz.
— Então tá. Quando partimos?
— Em três dias — respondeu Rayos. — Aproveitem para se preparar. Gardemont é um mundo à parte. E lá... — Ele hesitou, como se pesasse as palavras. — Vocês vão precisar de mais do que espadas e arcos.
As três trocaram olhares. Clarice deu um tapa na mesa, animada.
— Que venha a Academia, então! Mas, Rayos, só uma coisa: eles têm espadas decentes lá, né? Porque essas tranqueiras do Solar são um insulto.
Rayos riu baixo.
— Vocês vão descobrir.
Três dias depois da decisão de Rayos, os portões do Solar de Greanleaf se abriram antes do amanhecer.
A carruagem enviada pela administração da Academia era sólida, construída com madeira escura e reforçada com rebites de ferro. Não havia brasões da coroa — afinal, a Coroa não regia Gardemont. A cidade, e tudo nela, orbitava unicamente a Academia Real.
Rayos observava de uma varanda alta. Dizia nada, mas seu olhar era um raro misto de orgulho e preocupação. Sayuri o viu, e por um instante, algo que parecia respeito mútuo passou entre os dois. Depois, o portão se fechou. As três partiram, carregando esperanças e o peso de um novo começo.