
Laura empalideceu instantaneamente ao ouvir que o Rei Demônio visitaria o reino. Sanstone recostou-se na cadeira estofada, os olhos semicerrados e a voz mantendo uma calma que beirava a ameaça.
— Laura, você ficará de fora deste torneio. Sua missão será caçar o verme que está espionando o Alexandre. Neste exato momento, o Comandante está distraindo o impostor, conversando com Marcos enquanto deixa a porta da sala propositalmente encostada.
Compreendendo o peso da tarefa, Laura levantou-se com uma postura rígida e séria.
— Sans, só me prometa uma coisa: você vai sair viva daquele coliseu.
Sanstone abaixou levemente o olhar, sem mover a cabeça ou desfazer a pose imponente atrás da mesa.
— Apenas vá, Laura. Inicie a investigação.
Percebendo a incerteza oculta na frieza da amiga, Laura forçou um sorriso alegre e confiante, surpreendendo a Vice-Comandante.
— Sim! Eu darei o meu melhor, e tenho certeza absoluta de que você vai acabar com eles!
Após a Sargenta sair, um sorriso quase imperceptível surgiu nos lábios de Sanstone, que logo voltou a mergulhar em suas estratégias para a arena.
Enquanto isso, na sala do Comandante, Alexandre e Marcos debatiam os detalhes do embate mortal.
— Preste atenção, Marcos. Estes serão os nossos oponentes amanhã.
Alexandre puxou um pergaminho selado por um cadeado de energia vermelha translúcida. Bastou um toque de seus dedos para que a magia se dissipasse. Ele desenrolou o papel sobre a mesa, murmurando para si mesmo:
— Lilith... até onde vai a extensão do seu poder?
O documento, agora aberto, exibia os rostos dos cinco participantes de cada equipe. Alexandre e Marcos paralisaram, perplexos com o que viam.
— Alê... eu tô lendo isso direito? — perguntou Marcos, uma expressão de medo genuíno tomando conta de seu rosto pela primeira vez.
Alexandre, com as pupilas dilatadas pelo choque, respondeu com a voz trêmula:
— S-sim... mas não faz o menor sentido...
O pergaminho confirmava a presença de Marcos, Alexandre e Sanstone no time. Porém, o que os deixou atônitos foi constatar que o líder da equipe não era Alexandre, mas sim Lilith. E, logo abaixo dela, como o segundo participante, estava Leônidas.
— M-mas isso é loucura! — Alexandre apoiou o queixo na mão, tremendo. — Leônidas está do nosso lado? Por quê? E a Lilith? Ela não deveria se arriscar assim, a posição de liderança é uma sentença de morte!
Percebendo que o amigo estava prestes a entrar em pânico, Marcos desferiu um soco firme no ombro de Alexandre. O impacto causou uma dor aguda que o trouxe de volta à realidade.
— Por que você me bateu?! Está louco? — reclamou o Comandante, massageando o ombro.
— Claro que estou louco, Comandante! Louco de vontade de entrar em ação! — respondeu Marcos, abrindo um sorriso largo.
Entendendo que a atitude bruta era a forma de Marcos ajudá-lo a focar, Alexandre sorriu, agradeceu baixo e assumiu uma postura séria.
— Como assim a posição de liderança é uma sentença de morte, Comandante? — indagou Marcos, curioso.
Alexandre apontou para os nomes no pergaminho.
— Ah, é verdade. Preciso te explicar as regras do torneio, sei que você não leu os manuais.
Marcos fez uma careta triste e cômica, mas assentiu. Alexandre prosseguiu:
— No coliseu, o líder de um time sempre enfrenta o líder do outro. Essa batalha nunca é aleatória; ambos precisam ser os mais poderosos de suas equipes. Além disso, o líder é o único que decide quem será o próximo a lutar, o que deixa o confronto dos capitães para o grande final. Quem já lutou não pode voltar à arena, a menos que ocorra um empate geral. Se isso acontecer, decreta-se uma batalha campal até a morte envolvendo todos os sobreviventes.
Marcos estremeceu, colocando as mãos para trás com sinal de nojo.
— Eca, que brutalidade! Por que uma carnificina dessas? Isso é coisa de gente velha e conservadora.
Alexandre fechou os olhos e ergueu as mãos em sinal de rendição bobo.
— Pois é. Mas o que podemos fazer? Vivemos em uma monarquia absoluta, os ideais conservadores e brutais são a lei. — Ele abriu os olhos, cravando-os no Capitão. — Certo, Marcos, foco na arena. Você, atualmente, é o mais fraco de todos nós. E não falo de força física, mas sim de poder destrutivo e magia.
Marcos estufou o peito, ofendido.
— Queeee?! Como assim?! Eu parei um exército inteiro de Valquírias sozinho enquanto -
— Isso não é suficiente — interrompeu Alexandre, a voz calma, mas firme. — Os inimigos que vamos enfrentar são generais de outros reinos.
Marcos cruzou os braços, assumindo uma expressão grave.
— Generais? Que tipo?
Antes que Alexandre respondesse, a porta se abriu. Sanstone entrou, mas seu olhar estava fixo no corredor, atenta a algo lá fora. Marcos virou o pescoço e, mantendo a pose durona, cumprimentou-a:
— E aí, Sans, como você está? Continua bonita como sempre, hein.
Sanstone olhou rapidamente para Alexandre, que apenas confirmou com um aceno sutil que havia percebido a movimentação no corredor. Sem entender a troca de olhares silenciosa, Marcos se desculpou:
— Ah, é verdade. Desculpa, Alê, não foi minha intenção flertar com a sua garota.
Alexandre suspirou, esfregando as têmporas.
— Tá tudo bem, Marcos. Eu sei que você é um homem comprometido. Além disso, eu e a Sans não temos esse "privilégio" que você e a Laura acham que temos.
Sanstone bateu a porta com força.
— Eu jamais me envolveria com o Alexandre. Acho ele muito frouxo para o meu gosto.
Marcos riu, despreocupado.
— Nossa, Sans, você é realmente uma mulher exigente. Pensei que qualquer mulher, só de ver um homem com uma "boa lança", ficasse caidinha.
Sanstone cruzou os braços, fuzilando Marcos com um olhar de puro desprezo e nojo.
— O que exatamente você quer dizer com isso, Capitão?!
Marcos, ainda relaxado, deu de ombros.
— É que eu tô cansado de ouvir as Valquírias repetindo a mesma ladainha. Pra elas, todo homem precisa ser uma montanha de músculos, e elas só pensam naquilo. É um bando de crianças mimadas dizendo: "Nossa, nós somos demais, esses porcos não nos merecem". Pensam que eu não escuto essas abobrinhas todos os dias? A pior parte é que, mesmo sendo o Capitão das tropas, eu não posso liderar o esquadrão feminino direito. Preciso sempre chamar a Laura para me ajudar com a disciplina.
A raiva de Sanstone se dissipou, dando lugar a um suspiro cansado. Ela descruzou os braços e sentou-se no sofá.
— Esse problema ainda persiste. Não se preocupe, Marcos. Elas serão punidas severamente se continuarem com essa insubordinação. Eu mesma cuidarei-
Alexandre bateu levemente no pergaminho, chamando a atenção de ambos.
— Resolvemos os problemas internos mais tarde. A prioridade agora é sobreviver. Precisamos vencer de qualquer maneira. Aqui está a lista dos inimigos.
Ele apontou para o primeiro rosto no papel.
— Jacó, O Assassino das Profundezas. Ele não é um oponente qualquer; é o braço direito do Rei das Bestas. Usa uma adaga pequena e curvada. Seu estilo de combate é rápido, letal e extremamente sorrateiro.
Sanstone, com as pernas cruzadas, interrompeu:
— Uma pergunta: como conseguimos essas informações privilegiadas sobre um general inimigo tão grande?
Alexandre hesitou, o tom de voz revelando seu nervosismo junto de Marcos.
— O próprio Jacó enviou isso para a Lilith.
Sanstone arregalou os olhos, genuinamente surpresa com a audácia do inimigo. Marcos, por outro lado, abriu um sorriso confiante.
— Nossa, esse cara parece ótimo. Eu quero enfrentar esse tal de Jacó.
Sanstone e Alexandre se entreolharam. A Vice-Comandante foi a primeira a falar.
— Você perdeu o juízo? É burrice! Você cairia na primeira armadilha dele. Se o Jacó é conhecido por ser rápido e furtivo, imagina um brutamontes como você lutando contr-
— É exatamente por isso que eu vou! — cortou Marcos, transbordando otimismo. — Não posso ficar na minha zona de conforto. Dizem que quanto maior o desafio, maior a recompensa, né? Alê, você me permite assumir o confronto contra o Jacó?
Alexandre olhou para Marcos. A habitual ingenuidade do Capitão havia sumido; seus olhos carregavam um peso diferente, uma determinação afiada.
— Tudo bem, Marcos.
Sanstone levantou-se abruptamente.
— Você não pode estar falando sério, Alexandre! Ele será destruí-
— Sans. — Alexandre apontou para o Capitão.
Sanstone observou Marcos novamente. Ela entendeu. Eram os olhos de um guerreiro que já havia aceitado seu destino. Derrotada pela convicção do amigo, ela voltou a sentar-se cruzando suas pernas.
— Está bem. Seu adversário será Jacó. Só não nos decepcione, Capitão.
Marcos bateu continência, desta vez com uma postura militar impecável.
— Sim, Senhora. Não decepcionarei!
Ele virou as costas e saiu correndo da sala, batendo a porta e deixando os dois oficiais a sós.
— Alexandre, você sabe que ele não tem a menor chance — disse Sanstone, preocupada. — Mas que olhos eram aqueles? Ele está disposto a apostar a própria vida naquela luta. Parece que há algo muito mais profundo nisso do que apenas bater em alguém.
— Passado, provavelmente — refletiu Alexandre. — Marcos perdeu o pai na Grande Guerra, assassinado covardemente, e o nome do seu clã foi jogado na lama.
— Ouvi boatos sobre isso. Então ele acredita que Jacó tem as respostas que procura.
Sanstone fechou os olhos e sorriu levemente. Alexandre recostou-se na cadeira.
— Não acho que sejam apenas respostas. Ele quer se provar. Ser nocauteado pela Laura mexeu com o orgulho dele.
— Convenhamos. Marcos não tem afinidade arcana. A Laura tem magia, o que a coloca em imensa vantagem. E essa é a minha pedra no sapato também. Falando nisso - Alexandre diz em dúvida - como você contorna a magia com tanta facilidade, Sans?
Sanstone respirou fundo, escolhendo as palavras.
— Digamos que eu possuo afinidade mágica, mas nunca a refinei como os magos clássicos. Em vez de lançar feitiços, eu uso a mana para aprimorar minha "armadura".
— O que quer dizer com isso?
— Talvez a Laura não tenha te ensinado essa parte, mas é possível transferir sua energia arcana para um objeto físico. Quando você se concentra no seu eu interior, consegue controlar o fluxo de mana. Pense nela como a saliva na sua boca. Quando você quer, você foca e produz mais saliva, correto?
— Sim, de fato, consigo fazer isso.
— Então, imagine que a mana é essa saliva, só que fluindo pelo seu corpo inteiro. Você a produz e a direciona para um ponto específico. Claro, não vá cuspir no inimigo durante a luta.
Alexandre riu, aliviando a tensão.
— Prometo que não farei isso.
Voltando ao tom sério, Sanstone perguntou:
— Entendendo esse conceito, fica mais fácil. A Laura te disse qual é a capacidade da sua reserva de mana?
Alexandre coçou a nuca, desviando o olhar com um sorriso.
— Então... ela disse que é "medíocre".
Sanstone levou a mão ao rosto, incrédula.
— Está me dizendo que sua mana é tão baixa que você não consegue lançar um feitiço básico sem causar danos vitais a si mesmo?
— Basicamente, sim. Minha reserva só permite que eu use o feitiço "Aparar" três vezes antes de precisar descansar completamente.
— Espere, "Aparar"? Você escolheu aprender um feitiço de bloqueio de precisão? Sabe qual é a margem de erro ridícula para acertar o tempo disso?
— Sei. Exatamente por isso o escolhi.
— Alexandre, você deveria ter aprendido algo para maximizar seu poder de fogo! Você não ouviu o que o meu pai disse sobre a sua falta de força?
— Ouvi cada palavra. Mas o meu estilo de combate não é focado em força bruta. Se eu tentasse virar um canhão de vidro, perderia a minha principal vantagem, não acha? Devemos fortalecer o que já fazemos de melhor.
Sanstone olhou para ele, levemente surpresa. Qual é a principal vantagem dele, afinal? O raciocínio? A imprevisibilidade?
Alexandre estalou os dedos na frente do rosto dela, tirando-a de seus devaneios.
— Terra chamando Sans. Foco. Qual dos oponentes você vai querer enfrentar?
Ela piscou, desorientada por um segundo.
— S-sim, claro. Quais sobraram? Prossiga.
Notando o nervosismo incomum da parceira, ele apontou para os dois últimos rostos no pergaminho.
— Temos O Ceifador e a Muralha.
Sanstone cravou o dedo sobre o ícone de A Muralha.
— Quero este. De que reino ele é?
— Não tenho certeza. Ele simplesmente foi cadastrado magicamente na lista. Os rumores dizem que ele é um homem honrado, que salvou muitas crianças de morrerem na guerra.
A Vice-Comandante estreitou os olhos, desconfiada.
— Salvou crianças? Quem atestou isso?
— Digamos que a informação consta nos relatórios da Guarda Real.
Sanstone cruzou os braços, a expressão endurecendo.
— Está me dizendo que ele pertence à Guarda Real do Imperador?
— Não. Ele foi da Guarda Real dos três reinos.
Ela ficou pasma. Servir a um líder era lealdade; servir a todos era outra coisa.
— Então quer dizer que ele é...
— Um mercenário, Sans. Ele trabalhou para as três coroas e agora se inscreveu neste torneio, provavelmente em busca de um verdadeiro desafio. O cargo em jogo não significa nada para ele. Mas o que mais me incomoda é que nenhum desses dois teve as habilidades reveladas.
Alexandre deslizou o dedo para o último rosto: O Ceifador. O olhar de Sanstone acompanhou o gesto, a preocupação evidente.
— Este será o meu oponente — sentenciou o Comandante. — Não sei quase nada sobre ele, apenas que pertence ao Reino dos Demônios e é, muito provavelmente, o campeão pessoal do Rei Salocin. E que é famoso por nunca ter piedade de suas vítimas.
Ele fechou o pergaminho. Subitamente, Sanstone segurou o pulso de Alexandre. Ela notou que a mão dele tremia de leve.
— Você está com medo, não está?
— Sim. Mas é normal. Esta é uma batalha na qual eu não queria entrar. Estarei enfrentando um general de elite do submundo.
— Alexandre...
Ela o puxou para um abraço inesperado. O contato não foi forte ou bruto, mas carrega uma serenidade rara.
— Por favor... me prometa que vai voltar.
Ele retribuiu o abraço, fixando os olhos na fresta da porta com uma confiança letal.
— Sim. Eu vou voltar, pode ter certeza.
No corredor, a figura que espionava pela porta entreaberta fugiu rapidamente, percebendo que o Comandante sabia de sua presença desde o início. Após o abraço reconfortante, os dois se afastaram.
— Sans, por favor, treine comigo. Preciso de um adversário à altura.
Sanstone ergueu uma sobrancelha e um sorriso de canto despontou em seus lábios.
— Um desafio, Comandante? Está bem. Mas se vamos fazer isso, que seja em um lugar apropriado.
Sob a luz da lua, eles deixaram o quartel e caminharam pelas ruas silenciosas da capital até os imensos portões do coliseu.
— A noite está incrível, Sans.
— É linda, de fato.
— Falando nisso, para onde exatamente você está me levando?
Ela parou diante da grade pesada da arena.
— Claro que eu te traria para cá. Assim podemos acertar as contas de verdade.
Alexandre soltou uma risada cômica.
— Nossa, você é uma péssima perdedora. Guardou rancor desde o nosso exame de admissão?
Ela agarrou a base da grade de ferro pesada.
— Digamos que só um pouquinho.
Com um único impulso, Sanstone ergueu as barras que pesavam toneladas, abrindo caminho para o interior. Alexandre engoliu em seco, rindo de nervoso.
— Haha... você é bem forte, Sans.
Eles entraram na mesma sala de preparação usada meses atrás, agora mergulhada em uma escuridão quase total. Algumas armas já estavam dispostas nas prateleiras.
— Nossa, você preparou tudo, hein? Nunca imaginei que esta-
Sanstone ergueu a mão, fazendo um sinal tático de silêncio. Alexandre entendeu o recado na hora: era tudo uma farsa para quem quer que estivesse ouvindo. Ele continuou no personagem, ajeitando a voz.
— Esse lugar me traz tantas lembranças, Sans. Para você também?
— Digo o mesmo. O que acha de escolher sua arma favorita?
Ela virou o rosto para o arsenal. Nenhuma das peças era uma espada curta. Havia apenas escudos gigantes, martelos pesados e bestas. Percebendo a armadilha do treinamento, Alexandre pegou um arco e uma besta.
— Você sabe que eu não sou muito bom na linha de frente, né, Sans?
— Pois é.
Sem aviso, Sanstone empunhou seu escudo e disparou em uma investida demolidora. Alexandre desviou por um triz. Ao cair no chão, ele rolou rapidamente para a arena aberta, com a Vice-Comandante em seu encalço.
— Você não vai escapar!
Ela investiu novamente. Alexandre canalizou sua parca mana e ativou o feitiço de Aparar no momento do impacto. Mas o cálculo falhou por milésimos. A força do escudo o arremessou pelos ares, fazendo-o estatelar-se no centro da arena de terra.
Sanstone parou, assumindo a base de combate.
— Levante-se. Essa escudada não foi com força total. O que você tentou fazer?
Ainda caído, fingindo dor, os olhos de Alexandre captaram um movimento nas arquibancadas escuras. Um réptil os observava em silêncio. Percebendo que o humano fingia, o monstro saltou para a arena, aproximando-se com passos pesados.
Sanstone, que estava de costas, sentiu a presença.
— Sabia que encarar os outros no escuro é rude?
O crocodilo abriu um sorriso cheio de dentes afiados, mas sua voz soou polida e refinada.
— Não se preocupe, Vice-Comandante. Estou aqui apenas para apreciar uma bela dança entre os melhores. O que mais eu faria com as informações do estilo de luta de vocês?
Alexandre levantou-se, limpando a poeira, e listou:
— Alternativa A: contaria para seus colegas. B: Usaria a seu favor em uma luta. C: descobriria todos os nossos pontos fracos.
A fera caminhou em círculos lentos ao redor deles, mantendo uma distância milimetricamente calculada.
— Meus colegas? Quem garante que eu compartilharia tamanho privilégio com eles? Cada luta é única. Estou prestes a enfrentar guerreiros de verdade, e pontos fracos são ilusões criadas pelas próprias pessoas. Lembre-se, humano: para tudo existe uma solução.
O crocodilo parou diante de Sanstone.
— Ouvi histórias fascinantes sobre a senhorita. Espero que amanhã possamos dançar na arena.
Num gesto antiquado e cavalheiro, ele tomou a mão de Sanstone e depositou um beijo nas costas de sua luva. Alexandre franziu o cenho, o sangue fervendo de irritação. A guerreira puxou a mão devagar, o rosto impassível.
— Agradeço o elogio, mas sabia que não se apresentar a uma dama é uma grave falta de etiqueta?
A fera ajoelhou-se, curvando a cabeça respeitosamente para ambos. A polidez do monstro era desconcertante.
— Mil perdões. Chamo-me Jacó, O Assassino das Profundezas. É um imenso prazer conhecê-los.
Sanstone abaixou o escudo ligeiramente.
— Sanstone. Ainda não possuo títulos grandiosos como os do meu pai.
Alexandre estendeu a mão.
— Alexandre. Também sem título.
Jacó apertou a mão do Comandante. Subitamente, os olhos reptilianos se arregalaram.
— Fascinante, Senhor Alexandre.
A sobrancelha dos dois oficiais subiu em uníssono.
— Como assim "fascinante"? Nunca apertou uma mão humana? — perguntou Alexandre, na defensiva.
Jacó soltou uma risada rascante e cômica.
— Oh, não, não. Já apertei muitas mãos, incluindo as da pequena Lilith. Acho-a uma garota adorável. — O sorriso desapareceu, dando lugar a uma seriedade nostálgica. — É que você tem as mãos do seu pai.
O choque paralisou Alexandre. Jacó continuou, alheio à tempestade que acabara de causar:
— Tive o imenso privilégio de cruzar o caminho dele. Ele dançava muito bem-
Os punhos de Alexandre se fecharam com tanta força que as juntas estalaram. Sanstone, notando o descontrole iminente do parceiro, interveio rapidamente, usando sua frieza como escudo.
— Ei. O passado deve permanecer no passado. Ele foi um herói de guerra. Exijo que pare de falar em nome dos mortos do nosso reino.
Jacó olhou por cima do ombro, fazendo uma mesura apologética.
— Oh, compreendo. Peço perdão se toquei em uma ferida aberta. Bem, vou me retirar, pois sinto que minha presença pacífica está causando um certo… caos emocional.
Sanstone cerrou os olhos, deixando apenas uma fresta vermelha visível.
— Agradeço a compreensão. Tenha uma boa noite.
— Desejo o mesmo à General Sanstone e ao General Alexandre.
Ao passar ao lado de Sanstone para ir embora, Jacó inclinou-se e sussurrou de forma quase inaudível:
— Eu tomaria muito cuidado com ele se fosse você.
Ela rangeu os dentes, mas não moveu um músculo até que a sombra do assassino desaparecesse nas saídas do coliseu.
Alexandre continuava travado. Um cenário terrível se desenrolava em sua mente: Meu pai morreu lutando contra as bestas. Disseram que ele caiu em combate. Jacó era apenas um soldado na época. Ele o assassinou... e foi promovido a General por causa disso! Foi assim que ele conseguiu o cargo.
O peso do ódio o sufocava, até que sentiu braços gentis o envolverem. Uma voz doce ecoou em sua mente:
"Pronto, pronto, meu menino. Tudo ficará bem."
Ele piscou, voltando à realidade.
— Mãe...
Sanstone estava na sua frente, a mão repousando no braço dele.
— Você está bem? Parece que vai desabar e chorar a qualquer segundo.
Alexandre soltou uma risadinha cômica, limpando a garganta.
— Haha, muito engraçado. Mas... acho que acabei de ter uma visão bem nítida da minha mãe.
Ela ergueu a sobrancelha, surpresa.
— Uma visão? Como assim? Apenas magos de altíssimo nível conseguem projetar o espírito...
Ele olhou para a própria mão e a fechou devagar.
— Pareceu muito real, Sans. Eu senti o toque dela.
Sanstone suspirou, pegando o escudo e batendo com a lateral dele no chão para chamar a atenção.
— Alexandre, ficar remoendo fantasmas não vai te manter vivo amanhã. Em guarda!
O Comandante sorriu, a chama da determinação acendendo novamente. Ele ergueu a besta descarregada.
— Você nunca foi do tipo gentil. Eu gosto disso.
Eles começaram a circular pelo centro da arena, os olhos travados um no outro.
— Eu apenas digo o que precisa ser dito. E você só pode estar de brincadeira achando que vai me derrotar segurando um pedaço de madeira.
Ele empunhou a arma como se fosse um bastão, o olhar confiante.
— E sem flechas, ainda por cima.
— Não me subestime! — gritou ela, disparando como um touro.
Quando a borda do escudo estava prestes a esmagá-lo, Alexandre deslizou para a lateral. Sanstone, prevendo o movimento, cravou o pé na terra e mudou a trajetória no meio da investida, impulsionando-se exatamente para onde ele havia esquivado.
— Bela tentativa!
Sem tempo para correr, ele ergueu a armação da besta para se defender. O impacto estilhaçou a madeira, lançando Alexandre para trás, mas o bloqueio salvou suas costelas.
— Não tire os olhos de mim!
Aproveitando o recuo, Sanstone arremessou o escudo como um disco direto no peito dele. Alexandre simplesmente se abaixou, sentindo o vento cortando o ar acima de sua cabeça.
— Poxa, Sans. Agora nós dois estamos desarmados — ironizou ele.
Ela estalou os nós dos dedos, um sorriso predatório no rosto.
— Concordo. Agora eu considero essa luta justa.
Ela avançou com os punhos nus. Alexandre observou a aproximação e abriu levemente a base das pernas, segurando discretamente a corda que restou da besta destruída.
Sanstone desferiu o primeiro cruzado, tentando antecipar a esquiva, mas golpeou o vazio. Ele rodopiou, desviando de uma sequência frenética de socos com uma agilidade irritante.
— Vamos, revide! Estou preparada!
— Paciência é uma virtude.
A dança continuou até que, no meio de um salto agressivo de Sanstone, Alexandre mergulhou para o chão. Com um movimento rápido, ele esticou a corda da besta na altura dos calcanhares dela e puxou.
O puxão quebrou o equilíbrio da guerreira no ar. Alexandre rolou para fora do caminho. Quando Sanstone caiu de costas levantando poeira, encontrou o rosto de Alexandre a centímetros do seu, olhando profundamente em seus olhos.
— Você precisa tomar mais cuidado — sussurrou ele.
O calor subiu pelo pescoço de Sanstone, colorindo suas bochechas. Ela virou o rosto, tentando disfarçar a vergonha.
— V-Você precisa parar com essas brincadeiras e lutar a sério. Amanhã não teremos truques.
Alexandre levantou-se e ofereceu a mão para ajudá-la.
— Falando desse jeito, parece até que você não confia nas minhas táticas.
Ela segurou a mão dele, puxando-se para cima.
— Você sabe que não é isso. Mas o excesso de confiança é o caminho mais rápido para o túmulo.
O caminho de volta ao quartel foi silencioso.
— Relaxa, Sans. Eu não estou confiante à toa. Acho que eu só precisava de uma boa distração para desanuviar a mente. No fundo, a sua ideia era essa o tempo todo, não era?
Ela continuou caminhando ao lado dele, a expressão severa de sempre. Despediram-se nos corredores e seguiram para seus aposentos.
Deitada em sua cama dura e de pijama, Sanstone encarava o teto.
Só espero que ele não morra amanhã. Sinto que, mais do que o torneio, ele está lutando contra os próprios demônios.
No quarto ao lado, Alexandre apertava o lençol.
Jacó... eu vou arrancar as respostas de você. Eu prometo que vou sobreviver para descobrir a verdade, pai.
A manhã do torneio nasceu cinzenta. Lilith aguardava o trio de oficiais nos portões do QG.
— Estão prontos para o espetáculo?
Alexandre, Sanstone e Marcos responderam em uníssono, a determinação vibrando em suas vozes:
— Sim!
A garota de cabelos azuis cobriu a boca, rindo com doçura.
— Nossa, que cena comovente. Parecem até heróis de contos de fadas indo salvar o mundo. Enfim, eu também detesto perder, mas da minha parte, já sabemos que a vitória está garantida.
O caminho até a arena foi marcado pela grandiosidade do evento. As arquibancadas do colossal anfiteatro estavam divididas. No setor central, o exército humano se aglomerava em tensão. Nas extremidades direitas, milhares de bestas rugiam e uivavam — lobos humanoides, felinos gigantes e primatas de armadura. No extremo oposto, o silêncio fúnebre do exército demoníaco imperava, composto por esqueletos com armaduras enferrujadas, demônios de pele vermelha e espectros flutuantes.
Acima de todos, erguia-se a arquibancada VIP, com três tronos imponentes destinados aos líderes mundiais.
O trono humano estava vazio. No trono das bestas, Leonardo, o colossal rei leão, bufava de impaciência. No terceiro assento, uma figura envolta em uma manta negra e capuz esfarrapado mantinha-se imóvel; a ausência de carne em seu rosto de caveira emanava uma aura de pavor puro: Salocin, o Lorde Demônio.
Leonardo cruzou os enormes braços e rosnou para Lilith, que flutuava graciosamente em direção ao setor VIP.
— O que significa isso? Onde está o covarde do seu Rei? É um insulto inaceitável ele não comparecer a um evento dessa magnitude!
Lilith pousou suavemente no trono reservado ao seu pai e cruzou as pernas.
— A verdade, Rei Leonardo, é que meu pai está lidando com assuntos imensamente mais complexos no momento. Portanto, eu sou a autoridade máxima deste reino hoje. Acredito que ficará bastante satisfeito com o entretenimento e a recompensa que este torneio trará.
Leonardo revirou os olhos com escárnio, voltando sua atenção para a arena.
— Não tenho tempo para a sua arrogância infantil. Você sempre foi uma criatura irritante.
Lilith trincou os dentes, mas o insulto foi esquecido quando uma nova presença esmagadora fez a multidão inteira prender a respiração. Até mesmo o impassível Rei Demônio inclinou a caveira levemente para observar o recém-chegado.
— Oh. Ele chegou.
O som das botas de ferro ecoava como trovões. Leônidas Stone caminhava em direção à área de preparação, sua postura exalando a confiança de uma lenda viva. Ao passar pela equipe de Alexandre, o gigante nem sequer os olhou.
O corpo de Sanstone começou a tremer incontrolavelmente, os punhos cerrados até as luvas rangerem. Alexandre deu um passo, posicionando-se firme entre ela e a visão do pai, bloqueando-o.
— Fica calma. Eu estou aqui — sussurrou ele, a voz transmitindo uma âncora de segurança.
A respiração de Sanstone desacelerou, os tremores cessando.
— N-Não foi nada. Eu só estava pensando no combate.
Alexandre inclinou-se, sussurrando perto do ouvido dela:
— Espero que você esteja focada na nossa vitória, Sans.
Ela manteve os olhos fixos nas costas largas de Leônidas que se afastava.
— Na verdade, Alexandre... pela primeira vez na minha vida, estou torcendo com todas as minhas forças para que o inimigo vença o Leônidas na arena. Mas nós dois sabemos que a derrota dele é impossível.