Capítulo 2: Ecos e Desconhecidos
A palavra "namorada" ainda pairava no ar da sala, carregada com o peso da farsa perfeitamente executada por Hina. Lara, completamente conquistada, puxou Hina para o sofá, enquanto Lucas permanecia perto da porta, o rosto alternando entre pânico e resignação.
— Hina, que nome lindo! — disse Lara, os olhos brilhando de curiosidade. — Mas me conta, como vocês dois se conheceram? O Lucas é tão fechado, nunca imaginei que ele estivesse namorando alguém tão... uau!
Hina riu, um som melodioso que parecia preencher a sala. Ela lançou um olhar divertido para Lucas antes de responder. — Ah, foi o destino, eu acho. Nossos mundos simplesmente colidiram de uma forma inesperada. — A resposta era vaga, misteriosa e, por isso mesmo, perfeita.
— E de onde você é? Percebi um sotaque diferente, mas não consigo identificar — continuou Lara, genuinamente interessada.
Foi nesse momento que Hina percebeu o problema prático de sua aparição súbita. As roupas. Ela vestia o mesmo conjunto de couro e seda do dia anterior. Era hora de improvisar.
— É uma longa história — disse Hina, com um suspiro teatral. — Eu estava viajando, e digamos que a companhia aérea e minha mala decidiram seguir caminhos separados. Perdi tudo. O Lucas tem sido um verdadeiro cavalheiro, me acolhendo enquanto tento resolver essa bagunça.
A expressão de Lara mudou de curiosidade para pura empatia. — Nossa, Hina, que terrível! Perder as malas é um pesadelo! Você não tem nada para vestir?
Hina deu de ombros com uma elegância despreocupada. — Apenas a roupa do corpo. Mas não se preocupe, eu dou um jeito.
— De jeito nenhum! — Lara se levantou, a determinação tomando conta de seu rosto. Ela se virou para o irmão, as mãos na cintura. — Lucas! Isso é um absurdo! Não podemos deixar sua namorada assim. Vamos agora mesmo ao shopping comprar algumas roupas novas para ela. E nem pense em dizer não!
Lucas, que até então observava a cena como um espectador paralisado, abriu a boca para protestar, mas o olhar de sua irmã o calou. Ele apenas suspirou, derrotado. — Tá bom, Lara. Vamos ao shopping.
O shopping era um templo moderno de consumo, com suas luzes brilhantes e o murmúrio constante de pessoas. Mas, no momento em que Hina entrou, foi como se um holofote invisível a seguisse. Homens e mulheres se viravam para olhá-la, alguns com admiração descarada, outros com sussurros e olhares de soslaio.
— É incrível — comentou Lara, rindo baixo ao lado de Lucas. — Andar com a Hina é como caminhar com uma celebridade. Ela nem precisa fazer esforço.
Hina, alheia ou talvez apenas acostumada com a atenção, provava as roupas com uma confiança natural. Enquanto ela estava dentro de um dos provadores, Lara aproveitou a oportunidade para uma conversa particular com o irmão.
— Ei, Lucas... — começou ela, o tom mais sério. — Falando em outras coisas... você tem falado com a Sara?
Lucas franziu a testa, confuso. — A Sara? Acho que não, desde semana passada. Por quê? Aconteceu alguma coisa com ela?
Lara suspirou, a frustração evidente em seu rosto. Como ele podia ser tão denso? — Não, não aconteceu nada. É só que... ela gosta tanto de você, Lucas. De verdade. Achei que talvez você...
— Gosta de mim? — Ele a interrompeu, genuinamente surpreso. — Claro que gosta, somos amigos há anos.
Lara balançou a cabeça, desistindo. Era inútil. — Deixa pra lá, Lucas. Esquece.
Ao voltarem para o apartamento, carregados de sacolas, Lara se despediu com um abraço caloroso em Hina e um olhar de "juízo, hein?" para o irmão. Assim que a porta se fechou, Lucas soltou o ar, passando as mãos pelo cabelo.
— Vou tomar um banho. Estou exausto — anunciou, já se dirigindo para o corredor.
Hina assentiu, começando a levar as sacolas para o quarto. A sensação de ter roupas novas, de ter um espaço, mesmo que temporário, era estranhamente satisfatória. Estava desdobrando um vestido de seda vermelho quando a campainha tocou novamente.
Franzindo a testa, ela foi atender. Quem poderia ser? Lara esqueceu algo?
Ao abrir a porta, Hina sentiu um calafrio percorrer sua espinha, uma sensação de déjà vu tão intensa que a deixou momentaneamente sem fôlego. Parada na porta estava uma jovem de cabelos castanhos curtos, óculos de armação fina e uma aura de timidez delicada. Ela abraçava um livro contra o peito como se fosse um escudo.
Não era apenas uma semelhança; era um eco. Um eco de Sakura.
A jovem, ao ver Hina, ficou igualmente aflita. Seus olhos se arregalaram, e ela deu um passo instintivo para trás. — O-oi... d-desculpa incomodar... o L-Lucas está? — gaguejou, a voz quase um sussurro.
Hina recuperou a compostura, seus instintos assumindo o controle. Ela se recostou no batente da porta, a personificação da confiança. — Sim, ele está. Mas está no chuveiro agora. — Fez uma pausa deliberada, o olhar firme. — Eu sou a namorada dele.
O impacto daquelas palavras atingiu a jovem como uma onda física. A cor sumiu de seu rosto, os olhos se encheram de um choque doloroso. Ela tentou se acalmar, desviando o olhar para o chão, os nós dos dedos brancos de tanto apertar o livro.
— Ah... — Foi tudo o que conseguiu dizer. Então, como se lembrasse de sua missão, estendeu uma pequena sacola que Hina só então notou. Um aroma delicioso de bolo recém-assado escapava dela. — E-eu só... só vim trazer isso pra ele. Não quero incomodar.
Hina pegou a sacola, o toque das mãos delas sendo breve, mas elétrico. No mesmo instante, a garota se virou, começando a andar a passos rápidos, uma fuga mal disfarçada. Lágrimas silenciosas começavam a escorrer por seu rosto.
— Espera! — chamou Hina. — Eu não sei o seu nome...
Mas a jovem não parou. Apenas apressou o passo, virando na esquina e sumindo de vista, deixando Hina parada na porta, segurando uma sacola com um bolo que não era para ela e a imagem perturbadora de um fantasma de seu passado na mente.