Capítulo 3: Prazos e Protetores
O aroma doce do bolo ainda pairava no ar quando a porta se fechou, deixando Hina sozinha com seus pensamentos. A imagem daquela garota, Sara, com seus olhos de Sakura e sua dor silenciosa, era perturbadora. Lucas saiu do chuveiro minutos depois, uma toalha enrolada na cintura, os cabelos pingando no chão. Ele parou ao ver Hina na cozinha, segurando a sacola que Sara havia deixado.
— Quem era na porta? — perguntou ele, a voz relaxada pelo banho.
Hina se virou, colocando o bolo sobre a bancada. Seu olhar era afiado, analítico. — Uma amiga sua, aparentemente. Ela não quis entrar. Mas a questão mais interessante, Lucas, não é quem ela era. — Hina se aproximou, sua presença preenchendo o espaço. — É por que ela é uma cópia exata da Sakura.
Lucas piscou, confuso. — Cópia da Sakura? Do que você está falando? Ah... você quer dizer a Sara. Elas não são tão parecidas assim.
— Não? — Hina riu, um som baixo e incrédulo. — Cabelos curtos, óculos, a mesma timidez desajeitada, abraçando algo contra o peito como se fosse um escudo para o mundo. Até o jeito de gaguejar quando está nervosa. Você é um escritor, Lucas. Não me diga que não vê os ecos de sua própria criação na sua vida real.
Ele coçou a nuca, desconfortável com a análise. — Sara é uma amiga de infância, só isso. Ela sempre aparece por aqui, me traz coisas. É o jeito dela.
Hina inclinou a cabeça, os olhos fixos nos dele. — "Amiga de infância". Entendi. E o que você sente por essa "amiga"?
Lucas deu de ombros, tentando parecer casual, mas o leve rubor em seu rosto o traía. — Gosto muito dela, claro. A Sara é incrível. Mas... é só amizade. Ela nunca demonstrou nenhum outro tipo de interesse.
Hina o analisou por um longo segundo, e um sorriso de puro divertimento se formou em seus lábios. Inacreditável, pensou. Ele é tão cego quanto o Kaito. A passividade, a incapacidade de ver o que estava bem na sua frente. Era como assistir a uma reprise.
Ela decidiu se divertir um pouco. Deu um passo à frente, diminuindo a distância entre eles. O ar ficou subitamente mais denso. Sua voz se tornou um sussurro rouco, carregado de uma sensualidade que fez Lucas prender a respiração.
— Nenhum interesse? — ela murmurou, deslizando um dedo lentamente pelo braço dele, subindo em direção ao ombro. — Como uma mulher não teria interesse em um homem tão... bonito? Tão talentoso? — Ela ergueu o rosto, os lábios perigosamente próximos dos dele. — Se eu fosse ela, eu não conseguiria me segurar.
O efeito foi imediato. Lucas tropeçou para trás, o rosto em chamas, quase colidindo com a parede. — Hina!
Ela explodiu em uma gargalhada genuína, quebrando a tensão. — Desculpe, desculpe! — disse, levantando as mãos em rendição, a diversão dançando em seus olhos. — Força do hábito. Você fica adorável quando está sem graça.
Nesse exato momento, a campainha tocou de novo, um som estridente que fez Lucas pular.
— Mas que diabos! — reclamou ele, a voz exasperada. — Parece que hoje é o dia internacional de visitar o Lucas!
Ele marchou até a porta e a abriu com um movimento brusco. Do outro lado estava um homem de meia-idade, vestindo um blazer amassado e com uma expressão impaciente.
— Finalmente! — disse o homem, entrando sem ser convidado. — Por que você não atende suas ligações, Lucas? Nem responde os e-mails?
— Ricardo? O que você está fazendo aqui? — gaguejou Lucas, surpreso. — Meu... meu celular está descarregado. Estive passando por uma fase conturbada.
— Conturbada? — Ricardo, seu editor, bufou. — Todos os escritores têm fases conturbadas, Lucas. Isso não paga as contas. Você tem alguma história pronta? Qualquer coisa? Você estourou todos os prazos, o contrato é claro sobre as multas...
Da cozinha, Hina ouvia a conversa. A voz do editor, pressionando, ameaçando. Um sentimento que ela não esperava começou a borbulhar dentro dela: uma raiva fria e protetora. Ninguém. Absolutamente ninguém falava assim com o seu Autor.
Ela surgiu na sala, a postura relaxada, mas com um brilho perigoso nos olhos. — Com licença. Acho que ouvi mal. Você está ameaçando o Lucas?
Ricardo se virou, surpreso pela presença daquela mulher estonteante. — E quem é você? A nova inspiração? Escuta, moça, isso é entre mim e meu escritor.
Hina sorriu, um sorriso que não alcançou os olhos. — Lucas é um grande escritor. Um gênio. E gênios precisam de tempo. Ele vai levar o tempo que precisar para criar a próxima obra-prima dele.
Ela começou a andar em direção a Ricardo, cada passo lento e deliberado. O editor, sentindo uma ameaça instintiva, começou a recuar.
— Escuta aqui, eu só vim avisar sobre o prazo... — disse ele, a voz perdendo a firmeza.
Hina continuou avançando, sem parar, forçando-o a dar passos para trás até suas costas baterem na parede. Ela se inclinou, o rosto a centímetros do dele, a voz um silvo gelado.
— E eu estou te avisando. Ninguém. Pressiona. Ninguém ameaça. O meu Autor. Estamos entendidos?
Ricardo, pálido e suando frio, encurralado por aquela mulher furiosa, apenas conseguiu assentir freneticamente. — E-entendido! C-claro! E-ele pode ter... mais uma semana! Uma semana é o máximo que posso conseguir!
Hina o encarou por mais um segundo, depois se afastou, a fúria se dissipando tão rápido quanto surgiu. — Uma semana. — Ela sorriu, agora calma. — É o suficiente.
Numa virada de 180 graus, sua personalidade mudou completamente. Ela se virou para Lucas, o rosto iluminado por um sorriso brincalhão e encorajador. Abraçou-o pelo pescoço, ignorando completamente o editor que se esgueirava para a porta.
— Viu, querido? Está tudo resolvido! — disse ela, a voz cheia de entusiasmo. — Agora você tem uma semana para entregar a melhor história que já foi feita! E eu vou estar aqui para te ajudar. Vai ser incrível!
Lucas, ainda atordoado pela montanha-russa de emoções, apenas olhou para ela, completamente perplexo e talvez, pela primeira vez, um pouco admirado pela força caótica que havia invadido sua vida.