Capítulo 5: Realidade Violenta
As horas passaram em um borrão de ansiedade para Lucas e de calma calculista para Hina. Vestido com sua melhor camisa e um jeans escuro, Lucas se olhava no espelho pela décima vez, ajeitando a gola. Hina surgiu atrás dele, recostada no batente da porta, os braços cruzados.
Ela o examinou de cima a baixo, um sorriso de aprovação nos lábios. — Uau. Você limpa bem, escritor. Vai arrasar hoje à noite.
Lucas se virou, ajeitando as mangas com um nervosismo que tentava disfarçar. — É só um jantar, Hina. Ela é só uma amiga. Você está imaginando coisas.
Hina revirou os olhos, aproximando-se dele. Seu tom brincalhão desapareceu, substituído por uma sinceridade cortante. — Lucas, vou ser sincera com você, porque alguém precisa ser. Aquela garota é completamente apaixonada por você. Tudo nela grita isso: o jeito que ela te olha, a forma como ela cuida de você, a dor nos olhos dela quando eu disse que era sua namorada. Só você não enxerga. — Ela colocou a mão no ombro dele. — Agora vai. E não me decepcione.
Ele suspirou, derrotado pela lógica dela. Antes de sair, ele parou na porta, uma preocupação genuína em seu olhar. — Hina... por favor, fique em casa, ok? É perigoso alguém tão... atraente como você sair sozinha à noite. A cidade na vida real é muito mais violenta do que nas histórias que eu escrevo.
Hina deu uma risadinha, tocada pela preocupação, mas sem demonstrar. — Não se preocupe comigo, escritor. Eu sei me cuidar. Vou ficar bem comportada. Prometo.
O encontro com Sara foi... surpreendente. Ao buscá-la, Lucas a encontrou diferente do habitual. Sem os óculos, com uma maquiagem leve que realçava seus olhos e um vestido azul que a deixava linda. O jantar fluiu como nos sonhos de Sara, a conversa fácil, as risadas genuínas. Lucas se viu relaxando, realmente se divertindo, mas a coragem para se declarar, para atravessar a ponte da amizade, ainda era um abismo que Sara não conseguiu cruzar.
Lucas voltou para casa pensativo. A noite com Sara tinha sido... boa. Fácil. Confortável. Mas algo em sua mente estava inquieto. Ao abrir a porta, um silêncio pesado o recebeu.
— Hina? — chamou, mas não houve resposta.
Um calafrio de temor percorreu sua espinha. Ela havia ignorado seu pedido. Correu para o computador, que ainda estava aberto. O histórico de pesquisa estava ali, claro como o dia: "melhores baladas da cidade", "clubes noturnos", "lugares para se divertir à noite". Um nome em particular, um clube conhecido por ser um tanto... intenso, estava destacado. Ele sentiu o pânico subir.
Enquanto isso, na balada pulsante, Hina era o centro gravitacional de todos os olhares. Sua beleza magnética era uma força da natureza. Ela ignorava as abordagens, os olhares, com a mesma facilidade de sempre. Três homens, mais insistentes que os outros, se aproximaram. Ela os dispensou com um olhar frio, virando-se para o bar.
Mas eles não aceitaram a recusa. Antes que pudesse reagir, um deles a agarrou pelo braço. — A gente só quer conversar, gracinha.
— Eu não quero — disse ela, a voz um açoite.
Mas sua confiança não era uma barreira física. Eles a puxaram à força, para fora da multidão, para longe das luzes, em direção a um beco escuro nos fundos do clube. Encurralada contra uma parede de tijolos frios, Hina se viu verdadeiramente acuada. Seu olhar ameaçador, que sempre funcionara em seu mundo, aqui era inútil. Ela estava vulnerável, e o medo, um sentimento que ela odiava e raramente sentia, começou a se infiltrar.
— LARGUEM ELA!
A voz ofegante de Lucas cortou o ar tenso. Ele apareceu na entrada do beco, o peito subindo e descendo, claramente tendo corrido até ali.
Um dos homens riu. — Olha só o que temos aqui. O namoradinho. Cai fora, cara, se não quiser levar uma surra.
Ignorando a ameaça, Lucas contornou o grupo, tentando desesperadamente chegar até Hina. Um dos homens tentou agarrá-lo, mas ele se esquivou. Vendo a determinação cega e aterrorizada no rosto de Lucas, Hina sentiu um pânico diferente. Ele ia se machucar. Gravemente. Por ela.
Foi então que ela se lembrou. O poder narrativo. A habilidade de reescrever a própria história, um artifício que ela sempre considerou a pior das trapaças, uma admissão de derrota. Ela não sabia se funcionaria aqui, no mundo real. Mas a situação era desesperadora.
Ela fechou os olhos, concentrando-se com toda a sua força. Mesmo com os lábios fechados, sua voz, a voz da narradora, preencheu o ambiente, ressoando não apenas nos ouvidos, mas na própria estrutura daquele beco sujo.
"Aqueles homens violentos e idiotas ficam paralisados diante do poder de uma verdadeira Deusa. Hina, então, com sua elegância e num piscar de olhos, ela e seu autor desaparecem do beco escuro, reaparecendo em segurança na sala de Lucas."
Aconteceu exatamente como as palavras ecoavam. Os três homens congelaram, seus rostos se contorcendo em choque e terror, e caíram no chão, balbuciando sobre um anjo, uma luz, algo divino que suas mentes não conseguiam processar.
Num instante, o cheiro de lixo do beco foi substituído pelo cheiro familiar do apartamento de Lucas. Eles estavam em pé, no meio da sala. Estavam em segurança.
Mas o preço foi imediato e brutal. Hina levou as mãos à cabeça, um grito agudo de dor escapando de seus lábios. Uma dor lancinante, como se seu cérebro estivesse sendo partido ao meio. Seus joelhos cederam, e ela desabou no chão, inconsciente.
Lucas correu até ela, ajoelhando-se ao seu lado, o pânico tomando conta dele. — Hina? O que aconteceu?! Hina! HINA