Capítulo 8: O Sacrifício do Criador
A poeira mal havia assentado do último tremor quando uma nova onda de agonia atingiu Hina. Ela se curvou no sofá, a respiração presa na garganta, o rosto contorcido pela dor que parecia vir das próprias fundações de sua existência. O apartamento tremeu novamente, com mais violência, o som de vidro se quebrando vindo da cozinha.
Hina se levantou, cambaleante, apoiando-se na parede. Seus olhos, cheios de dor e uma determinação feroz, encontraram os de Lucas.
— Eu preciso voltar — disse ela, a voz tensa, mas firme. — Senão, os dois mundos serão destruídos. Mas eu não sinto a ligação, Lucas. O caminho está fechado para mim. Você precisa abri-lo. Você tem que quebrar a barreira de novo.
— Mas Hina, usar esse poder de novo... e se isso piorar as coisas? — argumentou Lucas, o desespero evidente em sua voz. A ideia de ser o agente da partida dela era uma tortura.
— Piorar? — Ela riu, um som seco e sem humor. — Mais do que já está? Rápido, Lucas! Não temos muito tempo. Eu não sei se eu, ou estes mundos, podemos suportar a próxima onda.
A urgência na voz dela, a verdade terrível em seus olhos, quebrou a resistência de Lucas. Ele assentiu, o coração pesado como chumbo. Relutante, voltou para a cadeira em frente ao computador, o lugar que era ao mesmo tempo seu refúgio e sua prisão. Suas mãos tremeram sobre o teclado enquanto ele mergulhava na história, buscando a única pessoa que poderia ajudar.
Ele digitou, as palavras aparecendo na tela como uma invocação.
Lucas: Olá, Hana.
Na ficção, Hana ergueu os olhos de um livro, a expressão surpresa.
Lucas: Não tenho tempo para explicar, mas precisamos da sua ajuda. Nossos mundos estão entrando em colapso.
Hana franziu a testa, confusa.
Lucas: Você tem ciência de mim? Se lembra de algo?
Hana fechou o livro lentamente. Seu olhar, antes confuso, agora era frio, calculista. Um olhar que Lucas conhecia muito bem.
Hana: Sim, autor. Eu me lembro de tudo. Muito bem... — Uma pausa carregada de veneno. — Lembro também de quando você me reduziu a uma garota fraca e assustada por mero capricho.
A acusação o atingiu como um soco. Ele merecia aquilo.
Lucas: Me perdoe, Hana. Eu era arrogante e prepotente. Mas eu mudei. A Hina está aqui... ela me ajudou a mudar.
Hana: Ha! — A risada dela foi curta e amarga. — Eu sabia que ela tinha algo a ver com essa bagunça! O que você quer de mim, senhor Autor?
Lucas: Preciso que você quebre a barreira novamente para que ela possa voltar. Vocês têm uma ligação, e eu tenho certeza de que você também possui o mesmo poder de comandar a narrativa.
Hana: Não sei se posso fazer isso. — Ela se recostou, cruzando os braços, um sorriso de escárnio em seus lábios. — E nem se quero que ela volte, querido autor!
Nesse instante, a próxima onda chegou. Um grito agudo e sincronizado ecoou através das dimensões. No apartamento de Lucas, Hina caiu no chão. Na ficção, Hana também desabou, o rosto contorcido em uma agonia idêntica.
Sakura, que estava na sala com Hana, correu para socorrê-la. — Hana! O que foi?!
Mas um terremoto violento sacudiu o mundo ficcional. O teto sobre Sakura rangeu e começou a desabar, pedaços de gesso chovendo sobre ela. Sakura gritou, caindo em meio ao tremor.
Hana, do chão, viu a cena. O pavor tomou conta dela, sobrepujando sua própria dor e seu ressentimento. — SAKURA!
O instinto, a conexão, o amor pela amiga. Foi tudo o que importou. Hana ergueu a cabeça, os olhos brilhando com um poder recém-descoberto. E ela assumiu a narrativa.
"O teto sobre Sakura retorna ao seu lugar, sua estrutura sólida e intacta. Sua amiga agora está fora de perigo, sem um arranhão sequer."
Ela percebeu. O poder estava ali. Ela podia sentir agora, a conexão, a quarta parede como um véu de energia que ela podia tocar. Do outro lado, ela via a cena: um Lucas passivo e uma Hina impotente, ambos olhando para ela, esperando. A súplica nos olhos deles.
Hana se levantou, a dor recuando diante de sua nova determinação. Com uma elegância que era sua e ao mesmo tempo um eco de sua original, ela ergueu o braço, estendendo a mão em direção à quarta parede. Um estrondo, como o de um trovão, ecoou, e uma fenda de luz ofuscante se abriu no ar.
— Era isso que vocês queriam? — perguntou ela, a voz calma, mas carregada de um poder inegável.
— Sim, Hana. Muito obrigado — disse Lucas, a voz embargada de gratidão e tristeza.
Hina, no mundo real, olhou para a fenda, o portal para sua salvação e sua prisão. Depois, olhou para Lucas. As lágrimas que ela segurava finalmente vieram. Ele a abraçou com força, um abraço que tentava conter uma vida inteira de sentimentos naquela semana.
— Eu te amo — sussurrou ele contra os cabelos dela.
— Eu também te amo, meu autor — respondeu ela, a voz quebrada.
Um último beijo, salgado pelas lágrimas, uma promessa silenciosa que ambos sabiam que não poderia ser cumprida. Hina se afastou, o rosto uma máscara de dor e resolução. Ela caminhou em direção à fenda, sem olhar para trás. Ao atravessar o limiar, a rachadura na realidade implodiu em um clarão ofuscante, e um silêncio absoluto tomou conta do lugar.
Ela se foi.
Alguns meses depois...
Lucas olhava para a tela do computador. O apartamento estava silencioso. Ele havia ficado arrasado nos primeiros dias, um fantasma em sua própria casa. Mas no dia seguinte à partida dela, impulsionado por uma necessidade de honrar o sacrifício dela, ele começou a escrever. Escreveu do zero, dia e noite, e entregou, dentro do prazo, a melhor história que já havia feito. A história que ele mesmo vivenciou, sobre um amor impossível entre as dimensões.
Agora, o sucesso daquele livro era apenas um ruído de fundo. Ele abriu um novo arquivo, um documento em branco que ele nomeou: "O Grande Epílogo".
Ele digitou as primeiras palavras, um diálogo que só ele e ela entenderiam.
Olá, Hina...