Capítulo 3: Coincidências Curiosas
O clique da porta do apartamento fechando-se atrás de Hina foi um suspiro metálico que cortou o silêncio da madrugada. A música eletrônica e as conversas animadas do clube ainda ecoavam em seus ouvidos, um contraste vibrante com a quietude que agora a envolvia. Com um gemido de alívio quase audível, ela se livrou dos sapatos de salto alto, sentindo os pés latejarem em gratidão. Arrastou-se até o quarto, a seda do vestido preto roçando em sua pele, e se jogou na cama sem cerimônia, o tecido espalhando-se como uma mancha escura sobre o edredom claro.
Seus dedos traçaram distraidamente o contorno dos lábios enquanto ela encarava o teto, a mente repassando cada detalhe da conversa com Julian. Não era a primeira vez que um homem resistia ao seu charme inicial, longe disso. Mas havia algo diferente nele. Uma calma irritante, uma inteligência perspicaz que não se deixava abalar por provocações óbvias. A forma como ele a olhava, com aqueles olhos azul-acinzentados, parecia penetrar suas defesas, como se ele estivesse tentando decifrá-la da mesma maneira que ela tentava decifrá-lo. Ele não se deixara levar facilmente, mas a centelha de curiosidade em seu olhar era inegável.
“Julian Knight.” O nome ecoava em sua mente, com a mesma firmeza do aperto de mão dele. A maneira como ele disse que a conversa não havia terminado… era uma promessa ou um desafio sutil? Hina sorriu para o teto. Provavelmente ambos.
Ela se sentou na cama, o vestido amarrotando sob ela, e encarou seu reflexo no espelho da penteadeira. A femme fatale confiante, a mestre da sedução, ainda estava lá, o sorriso felino e os olhos brilhantes. Mas por baixo daquela fachada impecável, uma faísca de genuína, quase infantil, curiosidade havia sido acesa. Julian Knight não era apenas mais um rosto na multidão, mais uma conquista fácil para adicionar à sua lista. Ele era… um enigma. E Hina, apesar de toda a sua experiência, sentia uma estranha e incomum vontade de mergulhar de cabeça no mistério que ele representava. Isso seria divertido.
Na manhã seguinte, no escritório de Julian Knight, uma sala espaçosa e elegantemente decorada no topo de um dos arranha-céus mais imponentes da cidade. Ele estava imerso em relatórios financeiros, a testa levemente franzida em concentração, quando seu telefone pessoal tocou. Era Charles.
— Julian, bom dia. Acabei de te enviar por e-mail o dossiê completo que pediu.
Julian minimizou as planilhas, abrindo o arquivo recém-chegado. Uma série de fotos de Hina, capturadas na noite anterior, preencheu a tela, seguidas por um relatório conciso.
— Rápido como sempre, Charles — disse Julian, os olhos percorrendo os dados. — Então, o que temos?
— A moça se chama Hina Takahashi. Vinte e cinco anos, solteira. O último registro de emprego dela foi na Innovatech Solutions, como Head de Inovação e Crescimento. Cargo de peso, aliás. Ela era a mente por trás da expansão deles no mercado asiático. Mas se desligou de lá há uns três anos.
Julian parou a leitura, uma sobrancelha arqueada em interesse.
— Innovatech… interessante. Uma empresa sólida. E se desligou por quê? Um cargo desses não se abandona sem um bom motivo. Problema de performance? Conflitos internos?
Do outro lado da linha, Charles fez uma pausa, como se consultasse suas anotações.
— Pelo que consta nos registros internos que consegui acesso – e não foi fácil, eles têm uma segurança de dados respeitável –, a justificativa oficial no pedido de demissão dela foi bem… sucinta. Apenas uma palavra.
Julian inclinou-se para a frente, a curiosidade aguçada.
— E qual foi?
— Anotaram como motivo de desligamento voluntário: "Tédio".
Um sorriso lento e genuinamente surpreso se espalhou pelo rosto de Julian Knight. Ele reclinou-se em sua cadeira de couro, olhando para o teto por um instante, pensativo, quase divertido.
— Tédio… — murmurou ele, a voz baixa, quase para si mesmo. — Essa palavra de novo.
— Desculpe, Julian, não consegui ouvir.
Julian retomou a compostura rapidamente, o sorriso se transformando em uma expressão mais neutra, embora um brilho de interesse ainda permanecesse em seus olhos.
— Não é nada, Charles. Apenas uma… coincidência curiosa. Excelente trabalho, como sempre. Me mande a conta. Te devo uma.
— Disponha, Julian. Qualquer coisa, é só chamar.
Após desligar, Julian voltou sua atenção para o dossiê na tela. Hina Takahashi. Vinte e cinco anos. Ex-Gerente de Marketing da Innovatech, saiu por "tédio". Uma mulher que falava em curar o tédio alheio e que, aparentemente, não tolerava o próprio.
Ele tamborilou os dedos na mesa, um plano começando a se formar em sua mente. Isso estava ficando cada vez mais interessante. Talvez Hina Takahashi fosse exatamente o tipo de… desafio que ele não sabia que estava procurando.
Julian fecha o dossiê de Hina Takahashi na tela do computador. Um sorriso lento cruza seu rosto. Ele aperta o intercomunicador.
— Amanda, venha à minha sala, por favor.
Sua secretária entra, eficiente e discreta.
— Senhor Knight?
— Crie uma nova vaga. "Consultora Estratégica Especial". Reporte direto a mim. — ele diz, sem tirar os olhos da foto de Hina. — Quero que encontre uma pessoa para mim. Hina Takahashi. Aqui estão os dados. Ligue para ela. Diga que a vaga é dela se ela me impressionar na entrevista. Amanhã, às dez da manhã.
— E se ela recusar, senhor?
Julian sorri. — Ela não vai. Ah, e mande um carro da empresa buscá-la.
Na tarde desse mesmo dia, Hina está jogada no sofá, rolando o feed de uma rede social em seu celular com uma expressão de tédio profundo. O aparelho toca, um número desconhecido. Ela atende com uma voz arrastada.
— Alô?
— Boa tarde, falo com a senhorita Hina Takahashi?
— Depende do que você quer vender — responde Hina, prestes a desligar.
— Meu nome é Amanda, sou a secretária executiva do Sr. Julian Knight, da Knight Enterprises. O Sr. Knight gostaria de convidá-la para uma entrevista amanhã.
Hina revira os olhos. — Não, obrigada. Não estou interessada em entrevistas de emprego chatas.
Há uma breve pausa.
— Senhorita, eu entendo. Mas a entrevista seria diretamente com o Sr. Knight. Trata-se de um cargo de suma importância e confiança.
Hina fica pensativa. O tédio em seu rosto é substituído por uma fagulha de interesse. Um sorriso malicioso começa a se formar em seus lábios.
— Hmm. Certo — diz ela, a voz agora casual, disfarçando a súbita curiosidade. — Amanhã, então.
— Perfeito. Um carro estará em seu endereço para buscá-la às nove e trinta. Tenha um bom dia, senhorita Takahashi.
A ligação termina. Hina encara o celular, o sorriso se alargando.
— Vai até mandar um carro me buscar, é? — ela murmura para o apartamento vazio. — O jogo acaba de ficar muito, muito mais interessante.