Capítulo 4: Xadrez Corporativo
A manhã seguinte chegou com a promessa silenciosa de um confronto. Hina parou diante do espelho, não para admirar sua beleza, mas para escolher sua armadura. A escolha recaiu sobre um vestido preto de tecido encorpado, com um corte impecável que ia até os joelhos. Não era um vestido que gritava por atenção; era um que a comandava em um sussurro autoritário. Comportado, sim, mas justo o suficiente para que cada curva de seu corpo fosse uma declaração de poder silenciosa. O mínimo de joias, o cabelo solto em ondas calculadamente perfeitas. Ela não estava se vestindo para seduzir; estava se vestindo para intimidar.
O carro preto com o logo discreto da Knight Enterprises chegou pontualmente. Ao entrar no imponente arranha-céu, Hina sentiu a mudança na atmosfera. O lobby era um santuário de aço escovado, vidro e silêncio produtivo. O som de seus saltos no mármore polido era o único som que quebrava a reverência do lugar, e cada clique parecia atrair olhares. Homens de terno paravam no meio da conversa, secretárias erguiam a cabeça de suas telas. Hina ignorou a todos, a expressão neutra, como uma rainha atravessando seu tabuleiro. Ela já estava acostumada a ser o centro das atenções.
Amanda, a secretária de Julian, a recebeu com um sorriso profissional. — Senhorita Takahashi, o Sr. Knight a está esperando.
A porta do escritório de Julian se abriu para uma vista panorâmica da cidade, um cenário que gritava poder. E lá estava ele, de pé, não atrás da mesa, mas perto da janela, virando-se para encará-la no momento em que ela entrou.
— Senhorita Takahashi, obrigado por vir — disse ele, a voz calma e formal, como se fossem dois estranhos.
— Sr. Knight — respondeu Hina, retribuindo a formalidade com um leve aceno de cabeça. — A proposta era... intrigante.
Eles se sentaram, um de cada lado de uma imponente mesa de mogno. O jogo começou.
— Seu currículo é impressionante — começou Julian, embora não houvesse currículo algum sobre a mesa. — Innovatech Solutions é uma empresa notável. Por que saiu?
Hina recostou-se na cadeira, um sorriso sutil brincando em seus lábios. Ele estava testando-a, vendo se ela manteria a história do "tédio".
— Digamos que eu estava em busca de um desafio que me mantivesse... engajada — respondeu ela, a palavra "engajada" carregada de subentendidos. — A previsibilidade pode ser mortal para a inovação.
— Concordo plenamente — disse Julian, os olhos fixos nos dela. — É exatamente por isso que a chamei. A Knight Enterprises é um transatlântico, senhorita Takahashi. Poderoso, estável, mas lento para mudar de curso. Preciso de alguém que não tenha medo de balançar o barco. Uma mente não convencional.
Hina inclinou a cabeça, virando o jogo. A entrevistada se tornou a entrevistadora.
— E o que o faz pensar que a sua empresa está pronta para uma mente "não convencional"? — ela perguntou, o tom genuinamente curioso. — Corporações deste tamanho costumam temer o que não podem controlar. Qual é a maior vulnerabilidade da Knight Enterprises no momento, Sr. Knight?
Julian foi pego de surpresa pela audácia da pergunta. Um homem menor teria ficado na defensiva. Ele, no entanto, sorriu. Um sorriso lento e genuíno de admiração.
— A complacência — respondeu ele, sem hesitar. — Nossa maior vulnerabilidade é acreditar que nosso tamanho nos torna imunes à disrupção. E é por isso que estou criando este cargo. "Consultora Estratégica Especial". Você não responderia a nenhum diretor. Responderia diretamente a mim. Teria acesso irrestrito e a autoridade para questionar qualquer departamento. Seu único objetivo seria identificar nossas fraquezas e propor as soluções mais... criativas.
A oferta pairou no ar, mais sedutora do que qualquer salário. Era acesso. Era poder. Era a chance de estar no centro nevrálgico de um império.
— E o que te garante que eu não usaria esse acesso para meu próprio benefício? — Hina o provocou, testando seus limites.
O sorriso de Julian se alargou. — Eu estou contando com isso. O que beneficia você, neste caso, beneficiará a empresa. E, francamente, senhorita Takahashi, eu gosto de correr riscos calculados.
Ele se inclinou para a frente, juntando as mãos sobre a mesa. — A proposta inclui um salário de seis dígitos, bônus substancial e total autonomia. Mas sei que não é isso que a interessa. O que estou oferecendo é um desafio. A chance de provar que é tão inteligente e implacável quanto acredita ser.
Hina o encarou por um longo momento, o silêncio se esticando. Ela não estava ponderando a oferta. Estava saboreando o momento. Ele a entendia. Ele não a via como uma funcionária, mas como uma igual, uma peça poderosa do outro lado do tabuleiro.
Finalmente, ela estendeu a mão sobre a mesa.
— Quando eu começo?
Julian apertou a mão dela. O aperto foi firme, elétrico. Não foi um aperto de mão entre empregador e empregada. Foi o acordo silencioso entre dois jogadores antes da primeira jogada.
— Amanhã — respondeu ele, o brilho nos olhos confirmando que ele sentia o mesmo.
Ao sair do escritório, deixando para trás o cheiro de poder e a promessa de caos, Hina sentiu uma onda de adrenalina que não sentia há anos. O tédio havia sido oficialmente banido de sua vida. O verdadeiro jogo estava prestes a começar.